sexta-feira, 10 de agosto de 2018


In 2017 the International Civil Aviation Organization (ICAO) documented a record-breaking 4.1 billion people waiting in line to check-in, go through security, shuffle on board a plane and take to the skies. This compares to just a few million passengers in the 1950s.
We are flying more frequently than ever before and taking more long-haul trips. With cargo flights also added into the mix, it is easy to see why there is growing concern about the aviation industry’s increasing impact on the environment.


(…) “A study on the environmental impact of the tourism industry collected data from 160 countries to estimate the sector’s true carbon footprint. The findings indicate that our habit of jetting off on holiday may be doing more harm to the planet than previously estimated.
Between 2009 and 2013 the industry’s carbon footprint jumped from 3.9 to 4.5 gigatonnes of equivalent carbon dioxide each year. This figure represents about 8% of total global greenhouse gas emissions and is four times greater than previous estimates of 2-3%. The study takes into account the direct impact of holiday flights, ground transfers and hotels, but goes further to include emissions from other factors related to tourism such as shopping, eating out and getting around.
Researchers concluded that global demand for tourism is outgrowing the industry’s efforts to go green, meaning that unless we drastically change our habits, emissions from flying look set to keep increasing in the future.”

The Day after ... O dia a seguir à extinção de Monchique ... o maior incêndio do ano na Europa.



Estudo com investigadora portuguesa evidencia a importância das florestas no combate às alterações climáticas – mais do que outras alternativas para capturar carbono da atmosfera. O ideal é gerir e preservar as florestas, o que é crucial para evitar incêndios.
“A melhor opção é mesmo proteger as florestas, que “acumulam mais carbono no longo prazo” e exigem menos transformações do solo.”
“É ter uma floresta gerida de forma a recolher os resíduos para queimar nas tais centrais e produzir energia”, explica a investigadora. O que seria uma fonte de benefícios: “A gestão das florestas para produção de bioenergia, por exemplo, compensaria a emissão de combustíveis fósseis e, além disso, preveniria a ocorrência de incêndios desta magnitude como acontece em Portugal, já que são recolhidos os resíduos florestais.”
“Pegada de carbono gigantesca”
“As florestas são o maior reservatório de carbono activo que temos”, mas quando ardem tornam-se parte do inimigo: “Quando há incêndios, esse reservatório é emitido directamente para a atmosfera”, explica a investigadora. “Quando deixamos que estes incêndios aconteçam, estamos a ter uma pegada de carbono gigantesca a nível nacional. É a biodiversidade, é a vida das pessoas, mas é também o impacto que temos no ciclo de carbono e a contribuição para as alterações climáticas.”
Ana Bastos

PRÉ-PUBLICAÇÃO
Os arquitectos da eucaliptização de Portugal
João Camargo, investigador em alterações climáticas, e Paulo Pimenta de Castro, engenheiro silvicutor e presidente da Acréscimo - Associação de Promoção ao Investimento Florestal, traçam as ligações entre política, indústria das celuloses e academia. O livro Portugal em Chamas - Como Resgatar as Florestas será lançado no dia 13 de Junho, na Feira do Livro de Lisboa, e no dia 16, em Pedrógão Grande.

JOÃO CAMARGO e PAULO PIMENTA DE CASTRO 10 de Junho de 2018, 8:59

Embora seja amplo o número de representantes das celuloses em cargos de governação, há figuras com destaque como Álvaro Barreto, Jorge Godinho ou Luís Todo Bom. Mas poucos têm papéis tão evidentes e claros na definição da arquitectura das políticas públicas florestais em momentos-chave como João Manuel Soares.

Se hoje é na imprensa que João Manuel Soares cumpre a sua missão, durante a maior parte das últimas três décadas esteve entre o governo e o grupo Navigator (Portucel-Soporcel), organizando de um lado a disponibilização do território nacional para a eucaliptização e, do outro, executando essa eucaliptização.

Até ao fim dos anos 80, Soares esteve na Administração Pública, passando pela chefia da Divisão de Estudos Económicos do Instituto dos Produtos Florestais até chegar à sua direcção e presidência, em 1985 e 1988. No exercício destas últimas funções terá tido um papel importante no Programa de Acção Florestal. Enquanto desempenhava cargos no Estado, participou no Comité da Madeira da Comissão Económica para a Europa, na Comissão Europeia para as Florestas, das Nações Unidas, no Comité Consultivo do Sector das Madeiras da Comissão das Comunidades Europeias. O Instituto dos Produtos Florestais, entidade de regulação económica, seria extinto em 1989, ocupando nessa altura João Manuel Soares o lugar cimeiro na Direcção-Geral das Florestas. Foi chamado para a chefia da Direcção-Geral pelo então ministro da Agricultura, Álvaro Barreto, designado por Soares como o “meu último patrão público e o meu «primeiro patrão privado». Em 1988 elaborou o “Pacote Florestal”, com a primeira legislação para a plantação de espécies de crescimento rápido, isto é, eucaliptos. No período de entrada de Portugal para a CEE, estava no sítio certo. Em 1990 entra para a Portucel. Álvaro Barreto sairia também do governo nessa altura, directamente para a Presidência do Conselho de Administração da empresa de celulose.

No sector florestal, Soares actuou tanto nas áreas técnicas como políticas. Entre 1997 e 1998 participou na elaboração do Livro Verde da Cooperação Ensino Superior/Empresa. A nível internacional, foi vice-presidente e depois presidente do Comité Florestal da Confederação Europeia da Indústria Papeleira, entrando por essa via no Comité Consultivo da Floresta e da Cortiça da Direcção-Geral de Agricultura da Comissão Europeia. Mais tarde seria um dos fundadores do BCSD Portugal — Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável.

Após os incêndios florestais de 2003 (os maiores de sempre, até 2017), foi chamado por Armando Sevinate Pinto, ministro da Agricultura, para ocupar o cargo de secretário de Estado das Florestas no XV Governo Constitucional, tendo exercido funções entre Outubro de 2003 e Julho de 2004, saindo com a demissão do primeiro-ministro Durão Barroso. Durante o seu mandato, e como urgência, foi feita nova “reforma florestal”, criado um novo quadro para o Sistema Nacional de Prevenção e Protecção da Floresta contra Incêndios, o Fundo Florestal Permanente e a Agência para a Prevenção de Incêndios Florestais. Soares tentou ainda fundir o Instituto de Conservação da Natureza com a Direcção-Geral dos Recursos Florestais para retirar competências à primeira entidade no licenciamento de plantações florestais. Esta proposta só viria a passar em 2011, sob a ministra Assunção Cristas.

Acabado o mandato, saiu do Estado para a Portucel-Soporcel, enquanto o seu “último patrão público”, Álvaro Barreto, saiu da presidência da Portucel-Soporcel para ser ministro da Agricultura de Santana Lopes. João Manuel Soares voltou para as celuloses, tendo exercido, ao longo de mais de 20 anos, funções de direcção e administração em várias empresas: Emporsil, Soporcel, Raiz, Portucel e Portucel-Soporcel. Entre 2009 e 2014 foi cooptado para ser Presidente do Conselho de Escola do Instituto Superior de Agronomia. O tom agressivo com que tem opinado nos tempos mais recentes parece ser sinal de decrescente capacidade de influência nos corredores do Poder.

No entanto, num processo de ascensão para a posição de arquitecto está Tiago Martins Oliveira, actualmente no exercício de um cargo equiparado ao de secretário de Estado. Doutorado em Engenharia Florestal, este quadro da The Navigator Company preside à recém-criada Estrutura de Missão para a instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais. Não é a primeira vez que este quadro das celuloses participa em governos. Pela mão de João Manuel Soares, Tiago Oliveira ingressou no governo de Durão Barroso como adjunto do secretário de Estado das Florestas. Já em 2005 entrou como assessor no gabinete de Jaime Silva, ministro da Agricultura de José Sócrates. Na altura, foi um dos técnicos que elaboraram o Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios. Veio das celuloses, regressou às celuloses. Doze anos depois é novamente chamado ao exercício de funções públicas, por António Costa, primeiro-ministro. No discurso de Tiago Oliveira não há responsabilização de espécies nos incêndios em floresta. A responsabilidade deixa-a à gestão, ou à falta dela. É um discurso recorrente e incompleto, alimentando uma narrativa que vem de ainda antes de João Manuel Soares. Nunca se debruça sobre os condicionalismos à gestão, ao rendimento que a possa suportar. Claro, isso seria pôr em xeque a sua origem (e eventual futuro) profissional. Não é, pois, de estranhar a sua análise tecnicista, mas incompleta, na abordagem da problemática dos incêndios e, sobretudo, das florestas e do meio rural. Apesar disso, é sempre difícil negar a natureza do eucalipto, como o próprio Tiago Oliveira faz: “Trata-se de uma espécie florestal que reage bem ao fogo. Aquilo é uma árvore. Não pode ser considerada a culpada. Está a reagir ecologicamente àquilo que ela sabe fazer: está a regenerar, a sair das cinzas e a entrar no verde.” Há claras linhas vermelhas na sua intervenção em funções públicas, designadamente as que possam pôr em causa interesses da indústria da celulose. A abordagem da questão florestal através dos incêndios é um exercício perdedor, como tentar melhorar os resultados de uma equipa de futebol focando-se só no guarda-redes ou tentar controlar uma infecção apenas com antipiréticos. Pode controlar surtos febris, mas não controla a infecção. Dificilmente Tiago Oliveira terá sucesso na abordagem ao problema sem se imiscuir nas suas causas. Mas as causas estão para lá da linha vermelha da sua intervenção em funções públicas.

Em comum, para além do exercício de funções no mesmo grupo empresarial ligado à produção de celulose, João Manuel Soares e Tiago Martins Oliveira protagonizaram-se também enquanto subscritores, em 2011, de um manifesto pela floresta contra a crise. Nesse manifesto, subscrito entre outras personalidades pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio, era apontado o valor “simplificado” da perda de mais de mil milhões de euros por ano devido aos incêndios florestais em Portugal. Os “arquitectos” colocam-se sempre nos locais estratégicos para estancar que as questões possam ser levadas até às últimas consequências: será que ao volume anual bruto do negócio das celuloses em Portugal não haveria que descontar este encargo social, para a determinação do seu valor líquido para a Sociedade?

O “cimento”

O modelo é conhecido. Para desenvolver as vendas da indústria farmacêutica, houve/há que influenciar o ensino e a investigação nas Faculdades de Medicina. Para cimentar a sua influência mediática e política, foi imprescindível às celuloses intervir directamente na academia, o que foi naturalmente facilitado pelo desinvestimento crescente no Ensino Superior e na Investigação. Não é por isso de estranhar a existência de uma sala “Portucel-Soporcel” no Instituto Superior de Agronomia ou de um “Laboratório Celtejo” na Universidade da Beira Interior. O nível de articulação entre uma parte da academia portuguesa e a indústria das celuloses é relevante, como podemos reparar no Instituto Raiz, de Investigação da Floresta e Papel, iniciativa financiada pela The Navigator Company, que tem como parceiros a Universidade de Coimbra, a Universidade de Aveiro ou o Instituto Superior de Agronomia, ou no desenvolvimento de programas de ensino e formação conjuntos de universidades e empresas como o Programa Doutoral em Biorrefinarias da Universidade de Aveiro, Universidade de Coimbra, The Navigator Company e CELBI.

A ideia de que a empregabilidade e a inovação só podem ser conseguidas através da estrita ligação entre as universidades e a indústria alimenta a desuniversalização das universidades e a perda, em muitos casos, de sentido crítico. A entrega do sentido da investigação e do estudo à orientação de um determinado sector industrial reduz o conhecimento à técnica a aplicar em determinados processos, amputando alternativas, privando alunos e investigadores de amplitude e de múltiplas perspectivas. Infelizmente esta privatização encapotada do ensino superior público é muitas vezes levantada como bandeira pelos governos e celebrada. Assim tem sido com as celuloses.

Devem ainda chamar-nos particular atenção os “laboratórios colaborativos”, a nova maneira de o Estado patrocinar a ciência. Como exemplo acabado da porta aberta para entrega da Ciência à técnica, o Laboratório Colaborativo para a Gestão Integrada da Floresta e do Fogo “ForestWise”, que receberá financiamento público para estudar as dinâmicas da floresta e dos incêndios. Os parceiros deste laboratório de investigação? O INESC-TEC, o Instituto Superior de Agronomia, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, as Universidades de Évora, Coimbra e Aveiro, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, a EDP, a REN, a Sonae Arauco, a Corticeira Amorim, a Europac, a Altri Florestal e a The Navigator Company. O lançamento do laboratório teve total pompa e circunstância, com a presença de Tiago Oliveira Martins, presidente da Estrutura de Missão para o Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, de Capoulas Santos, ministro da Agricultura e até do primeiro-ministro, António Costa.

No entanto, nenhuma porta fica por explorar. A Liga para a Protecção da Natureza, mais antiga organização ambientalista de Portugal, que teve entre as principais campanhas da sua história a oposição à eucaliptização do país, recebeu recentemente o patrocínio da The Navigator Company num Jantar de Gala e tem prevista uma parceria com a empresa de celulose a nível da Educação Ambiental, “no âmbito da promoção da floresta sustentável”. A inclusão de um dos principais arquitectos da eucaliptização de Portugal, João Manuel Soares, numa das listas para a direcção da organização parece, no entanto, ter sido a gota de água, tendo surgido, pela primeira vez na sua história, duas listas de oposição.

Participando em todas as fases de concepção da “obra”, as celuloses conseguiram levantar o frágil edifício do engano, fazendo curto-circuitar os processos de escrutínio democrático, político, científico, mediático e social à sua actividade. Como se viu depois dos incêndios de 2017.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

"O asteróide somos nós"



"O asteróide somos nós"

O filósofo Frédéric Neyrat tem desenvolvido um pensamento político e filosófico à altura dos desafios colocados pelos desastres ecológicos com que estamos confrontados e os fantasmas de extinção a que deram origem, num tempo em que os governos promovem a paranóia securitária e da imunidade absoluta contra as catástrofes.

ANTÓNIO GUERREIRO  8 de Agosto de 2018, 10:12

Frédéric Neyrat é um filósofo francês que ensina no Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Wisconsin-Madison. Encontramos, com frequência, artigos seus publicados em duas das mais importantes revistas editadas em França, Multitudes e Lignes, ambas com um forte pendor de intervenção política e uma vocação teórica e filosófica de análise crítica do presente.

Na produção já extensa e plural de Neyrat, devemos destacar dois livros que são aqueles que serviram de ponto de partida para esta entrevista: Biopolitique des catastrophes (2008) e La part inconstructible de la Terre. Critique du géo-constructivisme (2016). Mas, em complemento, e porque se situam numa linha de continuidade, devemos também mencionar Homo labyrinthus. Humanisme, antihumanisme, posthumanisme (2015) e Échapper à l’horreur (2017). O discurso teórico e filosófico sobre as questões ecológicas com que estamos hoje confrontados encontra na obra de Neyrat uma elaboração sofisticada e capaz de pensar muito para além dos lugares-comuns e dos conceitos e ideias desvitalizados e impotentes em que o discurso ecológico se encontra muitas vezes enredado.

Convidado recentemente a dar uma conferência no âmbito do Festival de Teatro de Almada, falou na Casa da Cerca do fantasma da extinção que assombra hoje o homem. Uma ecologia política à altura dos desafios extremos com que o homem está hoje confrontado ressalta, de maneira poderosa, desses dois livros referidos acima e de alguns ensaios publicados.

Biopolítique des catastrophes desenvolvia uma análise da política imunitária que foi posta em prática numa escala alargada para gerir os riscos e as consequências das catástrofes. Uma biopolítica das catástrofes, tentando criar sistemas imunológicos, tornou-se uma forma de governação e determina a totalidade da política. Torna-se assim uma política catastrófica, que Neyrat define e analisa no seu livro.

La part inconstructible de la Terre, fazendo a crítica daquilo a que Neyrat chama “geoconstrutivismo”, é também uma peça importante no debate em curso sobre a noção de Antropoceno, que começou por ser proposto como conceito científico, mas acabou por ganhar também dimensão política. No pensamento de Neyrat, nada do que diz respeito à ecologia é exterior à política e, por isso, toda a ecologia é uma ecologia política. A necessidade, aliás, de uma nova ecologia política encontra uma resposta na terceira parte deste livro. E é por aí que começa a entrevista.

Num dos seus últimos livros, La part inconstructible de la Terre (2016), propõe uma nova ecologia política a que dá o nome de “ecologia da separação”. O que é que essa expressão designa?
É uma fórmula que parece paradoxal, à primeira vista, porque a ecologia implica um sentido de relação, a ideia de que os humanos, os animais e as plantas estão numa relação com o ambiente. E o ambiente é qualquer coisa que à nossa volta, no exterior de nós, nos constitui e nos funda interiormente. É importante dizermos que estamos interconectados com tudo o que faz parte do mundo dos seres vivos, porque desde a época moderna, desde Descartes, desde o século XVII, o pensamento dominante e a maneira dominante de construir o mundo foram fundados na ideia de que os humanos não tinham nada que ver com o não humano, na ideia de que havia, por um lado, os humanos, com a sua razão, a sua cultura, o seu saber, a sua política, e, por outro lado, em oposição, tudo o que é não humano.

Querer proteger-se, querer imunizar-se pelo nacionalismo e pelo regresso das fronteiras, pela tentativa de recriar uma identidade estrita contra os perigos ambientais, não fará senão reforçar o desastre ecológico
Frédéric Neyrat

Esse era o pressuposto de um pensamento humanista...
Sim, de um certo tipo de humanismo que insistia em primeiro lugar e acima de tudo na gramática, no uso da língua, e que punha do outro lado as ciências, o saber que se ocupava do domínio do não humano, o que não é da ordem do pensamento e da razão, mas da ordem do corpo, da matéria, do que os humanos vão poder dominar e explorar para fazer um mundo à sua imagem e para seu uso. Foi contra isto que se fundou a ecologia: o seu objectivo consiste em pôr em causa a separação absoluta entre as humanidades e as ciências, entre o humano e o não humano. E isso foi um movimento extremamente positivo. Foi necessário fundar uma comunidade eco-esférica na qual se integravam os humanos e os não-humanos na mesma habitação do mundo.

No entanto, as coisas foram demasiado longe. Na verdade, pôs-se em causa a grande divisão entre nós e tudo o resto. Isso foi formidável e continua a ser necessário, mas conduziu a uma indiferenciação e indistinção que impede de compreender o que aconteceu com a modernidade. E o que aconteceu não é simplesmente que de um lado se pôs os humanos e do outro os não-humanos. Foi mais do que isso: de um lado pôs-se o que existia e que tinha valor (isto é, os humanos) e do outro o que não tinha valor, isto é, o corpo, os afectos, o não humano, a Terra, a natureza. Aquilo a que chamamos “a grande divisão”, entre os humanos e o não humano, foi uma denegação, uma grande recusa, uma grande rejeição. E hoje é necessário compreender não simplesmente como abolir a distinção entre os humanos e o não humano, mas como abolir o pensamento que conduziu a uma subestimação radical do que não é humano. E isto é outra coisa que não é apenas pôr em causa essa grande clivagem. Aquilo de que nos temos de separar é do pensamento dominante que conduziu à danificação do mundo.

Portanto, não basta pôr em causa essa clivagem consagrada no pensamento clássico...
É bom que se ponha em causa o suposto abismo entre o humano e o não humano, na medida em que tudo está interconectado. Mas o problema é que à força de repetir que estamos interconectados, que tudo está ligado, chegámos à ideia de que não há um exterior, de que estamos mergulhados numa rede da qual não podemos sair. O que digo, pelo contrário, é que a ecologia pode ser uma ecologia política, ou até uma ecologia revolucionária, isto é, capaz de recusar o pensamento dominante e propor outro, na condição de se propor como um exterior em relação ao que existe, separando-se do mundo dominante. É certo que devemos afirmar a interconexão da totalidade do ser vivo, mas é preciso ao mesmo tempo afirmar a nossa capacidade de nos livrarmos do que não queremos. O perigo de uma extrema ecologização do pensamento é de nos tornarmos incapazes de recusar o mundo tal como ele é. Ecologia da separação significa, então: interconexão do ser vivo, sim, mas acrescentando-lhe um poder de separação política.

O que significa “separação política”?
Significa uma capacidade de identificar o que não queremos, de identificar os adversários e também os inimigos, aqueles com quem não há nenhuma discussão possível.

Esse livro que mencionei é uma crítica daquilo a que chama o “geoconstrutivismo”. É um conceito com  grande poder analítico...
Geoconstrutivismo é um dos avatares da modernidade, do pensamento moderno, que defino como  aquele pensamento que se fundou na ideia de que o ser humano tinha a capacidade de poder não apenas dominar e possuir a natureza, como dizia Descartes (um dos filósofos fundadores desta modernidade que a ecologia teve de combater), mas vai ainda mais longe: dominar e possuir a natureza são as etapas que conduzem à capacidade de a refazer, de a reconstruir. Aquilo a que chamo “geoconstrutivismo” é a ideia segundo a qual os seres humanos têm a capacidade e mesmo o dever de reconstruir inteiramente o universo no qual habitam, isto é, a Terra. Geoconstrutivismo é reconstruir a Terra, mas a Terra já existe e já existia antes de nós. O sonho, o fantasma, do ser humano é o de que tem a capacidade e até a missão de refazer essa Terra.

O conceito de Antropoceno refere-se às consequências dessa ideia geoconstrutivista?
O Antropoceno é essa nova época que teria começado a partir do momento em que o ser humano se teria tornado uma força geológica, uma força geomorfológica, uma força capaz de impulsionar os movimento fundamentais a partir dos quais se desenha o rosto da Terra. Antropoceno significa, literalmente, a idade do homem, a idade em que o homem se torna a força maior, uma força ainda mais poderosa do que a força natural. Pense-se nas alterações climáticas: são hoje muito mais o efeito da actividade do homem do que o efeito de simples leis imanentes da atmosfera. O que o conceito de Antropoceno não toma em consideração é a cena inconsciente que o habita, isto é, fazer a Terra baseia-se no sonho de a dominar inteiramente. E como se pode provar que se consegue dominar qualquer coisa inteiramente? Refazendo essa coisa. Se podemos refazer, é porque somos como um demiurgo. O Antropoceno é um conceito interessante que põe o acento sobre as forças monumentais oferecidas pela tecnologia aos seres humanos, mas é preciso acrescentar o sonho que o habita, o sonho do geoconstrutivismo, um sonho de reformação da Terra, de tudo o que a compõe, humano e não humano.

Quando começou essa nova era geológica a que se deu o nome de Antropoceno?
A condição de possibilidade dessa capacidade que a humanidade tem de refazer a Terra é a revolução industrial. Trata-se do nascimento do capitalismo na sua forma industrial, no século XIX, o que faz com que certos pensadores, hoje, prefiram antes falar de Capitaloceno. E têm razão, na medida em que a condição de possibilidade do Antropoceno é a força de ataque capitalista, essa aliança particular entre a economia e a tecnologia. Ao mesmo tempo, não deve passar sob silêncio o facto de nessa ideia de reformatar a Terra haver outras potências e sonhos em acção — por exemplo, o sonho falocêntrico, a ideia do poder do macho que pode colocar-se na Terra como se ela fosse uma mãe ou uma mulher. E há também a ideia do poder colonialista. O colonialismo foi um dos sonhos de dominação total da alteridade. Todos esses poderes estão em acção no Antropoceno: capitalismo, falocentrismo, colonialismo.

Há uma divisão entre quem politiza a noção de Antropoceno e quem evita essa politização...
É muito importante politizar o conceito de Antropoceno. Uma forma de politização é a que se verifica quando se defende que esse conceito deve ser substituído por Capitaloceno. Politizar quer dizer ser capaz de apreender tudo o que o Antropoceno recobre, significa utilizar o conceito de Antropoceno como instrumento óptico, como instrumento de identificação da política que está em jogo na reformação do mundo, um instrumento que permite ver os conflitos políticos em jogo — por exemplo, entre o Grande Norte e o Grande Sul. Digo “Grande Norte” para não dizer “Ocidente”, para dizer que as potências dominantes não recobrem inteiramente o conceito de Ocidente, na sua oposição ao Oriente. Quando não se identifica a política em jogo, tornamo-nos um joguete da política. Dou um exemplo: o químico do clima, Paul Crutzen, co-autor do conceito de Antropoceno, aparentemente não quer politizar o seu conceito, quer defini-lo cientificamente e quer igualmente tratar os problemas da alteração climática de um ponto de vista puramente científico e tecnológico. Se ler os seus textos, verificará que ele diz que o que é preciso hoje é optimizar o clima; se há um desregramento climático, o que é preciso é dominá-lo e optimizá-lo, como pensaria Descartes. O problema é que se fica entregue aos cientistas e aos engenheiros a tarefa de nos salvar, isso implica um certo tipo de política: uma política feita pela ciência. A questão que coloco é esta: queremos que os engenheiros desenhem o mundo de amanhã?

Isso corresponderia a uma biopolítica total.
Exactamente. E o que é evidente aí é que a política que colocou no seu centro a gestão e o melhoramento do ser vivo — portanto, a biopolítica — é impensável sem uma tecnopolítica. Não há biopolítica sem técnica. E se queremos compreender a nossa época, aquela em que há uma preocupação com o homem enquanto ser vivo e a sua protecção, damo-nos conta de que o século XVII é a sua condição de possibilidade. Mais uma vez, é a revolução científica, Descartes, Francis Bacon, Galileu.

Falando de biopolítica: um dos seus livros chama-se Biopolique des catastrophes e a conferência em Almada era sobre o fantasma que nos assombra, o fantasma da extinção...
Falar de biopolítica é ter em conta a ideia de que os governos têm por função ocupar-se do homem enquanto ser vivo, o que inclui questões como a da natalidade, das “raças” (com aspas ou sem aspas), da sexualidade. Com o Antropoceno, com os desastres da ecologia, a biopolítica não consiste apenas em ocupar-se de tratar e melhorar o homem enquanto ser vivo, deve ocupar-se também de evitar a sua destruição. Ela torna-se aquilo a que chamo “biopolítica das catástrofes”, isto é, uma biopolítica que deve novamente ocupar-se da morte. Uma biopolítica das catástrofes é uma política que deve começar a tomar em consideração a possibilidade de a vida das sociedades humanas ser interrompida.

Como é que a humanidade pode chegar à extinção? É preciso compreender que estamos em pleno processo da sexta extinção, uma extinção de massa que se desenrola num período de tempo extremamente reduzido. Houve extinções maiores das espécies vivas antes da nossa. A última foi a que teve lugar há 65 milhões de anos e que conduziu ao desaparecimento dos dinossauros. Uma extinção causada pelo impacto de um asteróide que veio de fora e chocou contra a Terra. Hoje estamos numa situação diferente, o asteróide somos nós próprios, enquanto força antropocénica, enquanto força de construção e destruição do mundo. Destruindo o planeta, alterando o clima, tornando o solo infértil, produzindo a diminuição da biodiversidade, somos a causa da destruição do ser vivo.

A sexta extinção traduz-se portanto pela aceleração da extinção das espécies e, mais fundamentalmente, por um despovoamento generalizado, uma diminuição extremamente significativa da percentagem de população animal, por exemplo, os mamíferos que sofreram uma diminuição de 30% nos últimos anos. A sexta extinção não atingirá apenas os não humanos, não terá apenas como vítimas os mamíferos. Traduzir-se-á, no final, por um ataque à espécie humana enquanto tal. Estamos num esquema do tipo Mad Max, ou pior, num esquema de extinção da espécie humana. É um sinal de catástrofe extrema.

Hoje toda a gente tem uma forte consciência dos efeitos destrutivos de certas acções do homem e modos de vida. E, no entanto, parece que não conseguimos imaginar a possibilidade de haver alterações radicais. O processo parece irreversível.
Creio que o sinal da catástrofe se tornou evidente para todos. Cada indivíduo, mesmo o mais conservador, mesmo o mais execrável, como é Donald Trump, tem no fundo um conhecimento da irreversibilidade dos processos de ecocídio. No entanto, uma parte de nós próprios não quer acreditar e pensa: “Sei bem que há uma fatalidade em curso que conduz à nossa possível extinção, mas, apesar de tudo, espero que alguma coisa nos salve, um deus, a tecnologia, os engenheiros, os especialistas do clima vão-nos salvar.” Continuamos a acreditar que há a possibilidade de escaparmos. Enquanto continuarmos a acreditar nessa possibilidade, enquanto continuarmos a acreditar que alguém nos vai salvar, estamos a persistir na melhor maneira de tornar irreversíveis os processos de ecocídio em curso. É preciso começar por nos separarmos de toda a esperança, não porque ache que as pessoas se deviam suicidar ou que devíamos baixar os braços, mas porque é quando nos confrontamos com o extremo, com o pior dos cenários, que podemos avaliar a sua medida.

A sua análise da biopolítica das catástrofes incide sobre o desejo de imunidade absoluta, sobre uma proliferação paranóica das precauções securitárias...
Vejamos um caso contemporâneo, para esclarecer esse fantasma de imunidade absoluta: o nacionalismo. Como sabemos, há hoje um retorno do nacionalismo em numerosos países. Esse nacionalismo poderia aparecer como uma forma de defesa, como uma protecção imunitária. Contra quê? Por exemplo, contra o neoliberalismo, contra a maneira como os mercados saquearam os Estados e como certas decisões tomadas por multinacionais conduziram à rejeição de certos territórios europeus. Estranhamente, essa tentativa de imunização, de protecção política, só pode conduzir ao agravamento do fenómeno que se queria combater. Porque o nacionalismo, sabemos desde a experiência nazi, ou desde o que se passou no Chile de Pinochet, não é qualquer coisa que se opõe ao neoliberalismo e ao capitalismo. Além disso, o nacionalismo não consegue responder às questões da ecologia que são questões planetárias. O nacionalismo é estruturalmente incapaz de responder às alterações climáticas. Não haverá nenhuma resposta senão ao nível de uma política global. Querer proteger-se, querer imunizar-se pelo nacionalismo e pelo regresso das fronteiras, pela tentativa de recriar uma identidade estrita contra os perigos ambientais, não fará senão reforçar o desastre ecológico. O fantasma, o sonho de que nos podemos proteger contra um mundo globalizado através da defesa nacional é um sonho perigoso, que conduz ao pior.

Essa contradição habita também no coração dos discursos dos movimentos ecologistas, muitas vezes discursos um pouco ingénuos, que parecem não perceber a escala planetária e ter em conta a totalidade.
Esse é um assunto complicado. Em França houve um movimento ecologista europeu, planetário, capaz de superar os nacionalismos, em consonância com uma dimensão planetária, pós-nacional, das questões ecológicas. O problema é que esse movimento baixou os braços, caiu nos velhos reflexos clássicos, estatais. Caiu na velha política. Para percebermos essa história, teríamos de fazer uma comparação dos partidos ecologistas europeus. Direi que a ecologia política teria podido ser o lugar no qual a dimensão planetária teria encontrado uma forma de realização política. Um internacionalismo da ecologia existiu localmente em França e na Alemanha, mas não conseguiu derrubar o velho mundo, os reflexos nacionalistas, não conseguiu encontrar a maneira de realizar a revolução de que era portador. O que teria sido necessário era uma ecologia internacionalista. Para criar um movimento internacionalista, sabemo-lo desde a Comuna, é preciso dois movimentos ao mesmo tempo. É preciso, por um lado, encontrar maneiras de inscrever a prática da política aquém do nível do Estado-nação. Isso existe. Em França, há movimentos importantes de luta contra certos projectos tecno-industriais. Mas o que falta hoje é a capacidade de poder articular essas acções locais num plano supranacional. Actualmente, não há nenhum imaginário internacionalista, nem sequer nos movimentos ligados à ecologia política. Uma das razões para isso é que hoje as lutas políticas são mais pela preservação do ser vivo do que contra a exploração da força de trabalho. Os novos campos de luta da política ainda não conseguiram converter-se a um objectivo internacionalista, porque temos de responder a urgências imediatas. Quando se está nessa urgência e nesse estado de necessidade vital (por exemplo, evitar que uma pipeline venha destruir um território vital), a capacidade de poder pensar algo da ordem do internacional, capaz de se desterritorializar, é muito difícil.

E os partidos tradicionais, como é que integraram o pensamento ecologista e os perigos de extinção?
Integraram-no de um ponto de vista biopolítico, entendendo os elementos da ecologia como elementos a gerir. Integraram a questão das catástrofes não como elemento que deveria obrigar-nos a modificar radicalmente a nossa maneira de viver, mas transformaram a possibilidade da catástrofe em risco calculável, em risco a integrar na política (por exemplo, se há uma canícula, todos os avisos e conselhos que são dados às populações). Traduzir a catástrofe na linguagem do risco e da prevenção: eis a maneira como os partidos, os Estados, todas as instâncias institucionais clássicas, tentaram conjurar aquilo que teria sido a necessidade de uma modificação radical da nossa relação com a política e com o mundo em que vivemos.


terça-feira, 7 de agosto de 2018

“O governo sabe que este é o momento do tudo ou nada. Monchique não só é grande fogo do ano como é o primeiro grande fogo depois dos incêndios de 2017” OVOODOCORVO





Domino-effect of climate events could move Earth into a ‘hothouse’ state / Corremos o risco de “parar todas as fábricas” e a Terra “continuar a aquecer”



Domino-effect of climate events could move Earth into a ‘hothouse’ state
Leading scientists warn that passing such a point would make efforts to reduce emissions increasingly futile
50 years ago, this would be dismissed as alarmist, but now scientists have become really worried.”


Jonathan Watts
Tue 7 Aug 2018 07.21 BST First published on Mon 6 Aug 2018 20.00 BST

Polar bears on sea ice: the loss of the Greenland ice sheet could disrupt the Gulf Stream, which would in turn raise sea levels and accelerate Antarctic ice loss. Photograph: Paul Goldstein/Cover Images
A domino-like cascade of melting ice, warming seas, shifting currents and dying forests could tilt the Earth into a “hothouse” state beyond which human efforts to reduce emissions will be increasingly futile, a group of leading climate scientists has warned.

This grim prospect is sketched out in a journal paper that considers the combined consequences of 10 climate change processes, including the release of methane trapped in Siberian permafrost and the impact of melting ice in Greenland on the Antarctic.


The authors of the essay, published in Proceedings of the National Academy of Sciences, stress their analysis is not conclusive, but warn the Paris commitment to keep warming at 2C above pre-industrial levels may not be enough to “park” the planet’s climate at a stable temperature.

They warn that the hothouse trajectory “would almost certainly flood deltaic environments, increase the risk of damage from coastal storms, and eliminate coral reefs (and all of the benefits that they provide for societies) by the end of this century or earlier.”

 Fifty years ago, this would be dismissed as alarmist, but now scientists have become really worried
Johan Rockström, executive ​director, Stockholm Resilience Centre

“I do hope we are wrong, but as scientists we have a responsibility to explore whether this is real,” said Johan Rockström, executive director of the Stockholm Resilience Centre. “We need to know now. It’s so urgent. This is one of the most existential questions in science.”

Rockström and his co-authors are among the world’s leading authorities on positive feedback loops, by which warming temperatures release new sources of greenhouse gases or destroy the Earth’s ability to absorb carbon or reflect heat.

Their new paper asks whether the planet’s temperature can stabilise at 2C or whether it will gravitate towards a more extreme state. The authors attempt to assess whether warming can be halted or whether it will tip towards a “hothouse” world that is 4C warmer than pre-industrial times and far less supportive of human life.

Katherine Richardson from the University of Copenhagen, one of the authors, said the paper showed that climate action was not just a case of turning the knob on emissions, but of understanding how various factors interact at a global level.

“We note that the Earth has never in its history had a quasi-stable state that is around 2C warmer than the preindustrial and suggest that there is substantial risk that the system, itself, will ‘want’ to continue warming because of all of these other processes – even if we stop emissions,” she said. “This implies not only reducing emissions but much more.”

New feedback loops are still being discovered. A separate paper published in PNAS reveals that increased rainfall – a symptom of climate change in some regions - is making it harder for forest soils to trap greenhouse gases such as methane.

Previous studies have shown that weakening carbon sinks will add 0.25C, forest dieback will add 0.11C, permafrost thaw will add 0.9C and increased bacterial respiration will add 0.02C. The authors of the new paper also look at the loss of methane hydrates from the ocean floor and the reduction of snow and ice cover at the poles.

Rockström says there are huge gaps in data and knowledge about how one process might amplify another. Contrary to the Gaia theory, which suggests the Earth has a self-righting tendency, he says the feedbacks could push the planet to a more extreme state.

As an example, the authors say the loss of Greenland ice could disrupt the Gulf Stream ocean current, which would raise sea levels and accumulate heat in the Southern Ocean, which would in turn accelerate ice loss from the east Antarctic. Concerns about this possibility were heightened earlier this year by reports that the Gulf Stream was at its weakest level in 1,600 years.

Currently, global average temperatures are just over 1C above pre-industrial levels and rising at 0.17C per decade. The Paris climate agreement set actions to keep warming limited to 1.5C-2C by the end of the century, but the authors warn more drastic action may be necessary.

“The heatwave we now have in Europe is not something that was expected with just 1C of warming,” Rockström said. “Several positive feedback loops are already in operation, but they are still weak. We need studies to show when they might cause a runaway effect.

Another climate scientist – who was not involved in the paper – emphasised the document aimed to raise questions rather than prove a theory. “It’s rather selective, but not outlandish,” said Prof Martin Siegert, co-director of the Grantham Institute. “Threshold and tipping points have been discussed previously, but to state that 2C is a threshold we can’t pull back from is new, I think. I’m not sure what ‘evidence’ there is for this – or indeed whether there can be until we experience it.”

Rockström said the question needed asking. “We could end up delivering the Paris agreement and keep to 2C of warming, but then face an ugly surprise if the system starts to slip away,” he said. “We don’t say this will definitely happen. We just list all the disruptive events and come up with plausible occurrences … 50 years ago, this would be dismissed as alarmist, but now scientists have become really worried.”

“In the context of the summer of 2018, this is definitely not a case of crying wolf, raising a false alarm: the wolves are now in sight,” said Dr Phil Williamson, a climate researcher at the University of East Anglia. “The authors argue that we need to be much more proactive in that regard, not just ending greenhouse gas emissions as rapidly as possible, but also building resilience in the context of complex Earth system processes that we might not fully understand until it is too late.”

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Corremos o risco de “parar todas as fábricas” e a Terra “continuar a aquecer”

Ainda vamos a tempo de travar o aquecimento global? Ou teremos de nos adaptar a um planeta cada vez mais quente? Um estudo mostra por que estamos muito perto de ultrapassar um ponto de não retorno.

 Nicolau Ferreira
NICOLAU FERREIRA 7 de Agosto de 2018, 7:00

Desde 1980, a temperatura média da Terra subiu cerca de um grau Celsius por causa do aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, lançado na queima de combustíveis fósseis. O Acordo de Paris de 2015 foi a mais recente tentativa de travar esta escalada. Os países que ratificarem o acordo comprometem-se a reduzir as emissões de CO2 a partir de 2020 para que o aquecimento global não atinja os dois graus e, preferencialmente, se mantenha abaixo dos 1,5 graus.

A esperança é que assim se impeça os piores cenários, em que a temperatura média suba cinco ou seis graus e a Terra se torne uma verdadeira estufa, com desertos e savanas em vez de florestas, fenómenos meteorológicos extremos, e um nível médio do nível do mar que faria desaparecer muitas regiões costeiras, incluindo a zona ribeirinha de Lisboa. Mas há um risco de que os dois graus já não cheguem para evitar esse cenário catastrófico, revela um estudo publicado esta segunda-feira na revista científica PNAS.

Esse risco está ligado à complexidade de vários sistemas terrestres que se influenciam entre si e têm impacto nas alterações climáticas como as calotas polares, as correntes oceânicas, o solo gelado das regiões boreais (permafrost), as florestas e a respiração das bactérias. Para já, estes sistemas ajudam a travar o aquecimento global, mas o aumento da temperatura da Terra acabará por inverter essa função.

“O nosso artigo é a primeira tentativa de resumir o risco dos sistemas da Terra ultrapassarem um ponto de não retorno”, explica ao PÚBLICO Johan Rockström, director-executivo do Centro de Resiliência de Estocolmo e um dos vários autores do artigo, que é assinado também por Will Steffen, que pertence ao mesmo centro e à Universidade Nacional Australiana e Katherine Richardson, do Centro de Ciência Sustentável da Universidade de Copenhaga. “Ou seja, mostra o risco de perdermos a resiliência da Terra, e de ela passar de um mitigador do aquecimento global, como acontece actualmente, para um agente activo do aquecimento global. Há cada vez mais dados científicos que mostram que se atingirmos um aumento de dois graus da temperatura média da Terra podemos ter atravessado esse ponto de não retorno. Mais cedo do que tínhamos pensado.”

O CO2 tem a capacidade de absorver a energia irradiada da superfície terrestre, que por sua vez recebe o calor do Sol. Quanto mais CO2 existe na atmosfera, mais calor é retido, provocando o efeito de estufa. Há outros gases que também retêm calor, como o metano, mas a quantidade de CO2 que existe e que é emitido para a atmosfera, e o tempo de vida de cada molécula de CO2 no ar, faz deste o mais importante gás neste processo.

Desde a década de 1980, quando a expressão “efeito de estufa” ficou conhecida, que os líderes dos países têm vindo a adiar uma política efectiva para travar a nível mundial as emissões de CO2. O resultado não poderia ter sido outro: entre o final daquela década e 2018, a concentração do CO2 na atmosfera subiu de 350 para mais de 400 partes por milhão (ppm).

Poderia pensar-se que, parando já as emissões de CO2, o aumento da temperatura seria travado. Mas o artigo desconstrói esta ideia explicando que a realidade é mais complexa. O aumento da temperatura tem consequências, uma das mais imediatas é o derretimento do gelo no Pólo Norte. Esse derretimento faz com que haja mais luz a atingir o oceano, aquecendo ainda mais aquela região do globo. Por outro lado, este processo pode fazer desacelerar a corrente oceânica do Atlântico que leva a água aquecida nos trópicos para o Norte. E estima-se que esta desaceleração da corrente tenha impacto até na Antárctica, já que se armazenaria aí mais água quente, o que iria acelerar o derretimento do seu gelo.

Aquele é apenas um exemplo das ligações que os processos têm entre si e do encadeamento dos fenómenos. O problema é que a partir de uma certa temperatura, um dado processo deixa de ser reversível. Hoje, é possível que já não se consiga impedir o desaparecimento do gelo da Gronelândia, que, uma vez derretido, aumentará o nível médio do mar em sete metros de altura.

No artigo, os autores definiram quando um processo deixa de ser reversível de acordo com o aumento de temperatura. Tal como o derretimento da Gronelândia, estima-se que o branqueamento dos corais dos trópicos e o derretimento do gelo da região Oeste da Antárctica sejam irreversíveis se a temperatura aumentar entre um e três graus. Já o desaparecimento da floresta amazónica poderá acontecer quando a temperatura subir entre três e cinco graus. Acima dos cinco graus, os solos gelados do Norte da Europa e da América do Norte vão derreter-se e todo o material biológico conservado vai apodrecer, libertando toneladas de CO2 e metano.

O grande receio é que, mesmo que se consiga travar as emissões nos dois graus, alguns daqueles fenómenos já não sejam reversíveis e façam aumentar a temperatura, desencadeando um efeito dominó. A única forma de tentar impedir isso é “descarbonizar imediatamente o sistema mundial de energia, e alcançarmos um mundo livre de combustíveis fósseis o mais tardar em 2040-2050”, diz-nos Johan Rockström.

Se falharmos, a humanidade será testemunha de um processo de séculos que tornará a Terra numa estufa. “Iríamos com certeza tentar adaptar-nos à viagem da Terra a transformar-se numa estufa, mas seria provavelmente um mundo muito diferente – sem pessoas a viver nos trópicos, com uma concentração de pessoas no Árctico e na Antárctica, com formas completamente diferentes de gerar alimento, com escassez de água e uma normalização dos fenómenos extremos”, resume o cientista.

 “Acho muito difícil conseguirmos limitar [os efeitos do aquecimento global], é preciso uma descarbonização da sociedade que não vejo acontecer nas próximas duas décadas”, diz, por sua vez, o climatologista Ricardo Trigo, investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que não fez parte do artigo, mas que o elogia: “Está muito bem esgalhado, sumariza uma data de informação que já se conhecia mas que não estava arrumada de uma forma tão explícita.”

O cientista português diz estar mais pessimista com a situação da Terra hoje do que no passado e acredita que o calor intenso dos últimos dias é mais um sintoma das alterações climáticas, tal como se comprovou com a onda de calor de Junho de 2017, responsável pelo incêndio de Pedrógão Grande. “Foi a onda de calor mais intensa em Junho no Sul da Europa”, lembra, adiantando que o preocupante é ver que os efeitos das alterações climáticas surgiram muito mais cedo do que se esperava. E resume o teor do artigo da PNAS numa frase: “Podemos parar todas as fábricas e isto continuar a aquecer.”

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Por um Museu dos Descobrimentos



POLÉMICA
Por um Museu dos Descobrimentos
Luís Filipe Thomaz
6/8/2018, 6:241.503

Os Descobrimentos portugueses não inauguraram o Paraíso na Terra, mas deram origem ao mundo moderno tal como o temos, com os defeitos e virtudes inerentes a toda a construção humana.

A intenção de organizar um “Museu das Descobertas” anunciada pelo presidente da Câmara de Lisboa suscitou uma reacção histérica. Se me perguntam se concordo com a ideia, respondo: plenamente. Se me perguntam pelo nome, não. Prefiro “Museu dos Descobrimentos”.

A nossa língua é rica em subtis cambiantes semânticos, pelo que, ao contrário do francês ou do italiano, faz uma diferença entre descoberta e descobrimento. Descoberta usa-se sobretudo para coisas materiais e pode ser meramente fortuita: a descoberta do fogo na Pré-História, a do magnetismo terrestre pelos chineses da época Sung (960-1279), a da radioactividade pelo casal Curie, ou do ouro na Austrália, no século XIX.

O abaixo-assinado contra o projecto do museu que por aí circula enferma de muita ignorância. Em primeiro lugar, da nossa própria língua, em que achamento, descoberta, descobrimento e invenção têm sentidos vizinhos mas não coincidentes.

Ao invés descobrimento denota um processo activo e voluntário de exploração geográfica, como em 1972 mostrou Armando Cortesão no seu artigo “Descobrimento” e Descobrimentos na revista Garcia de Orta. Eu dediquei-lhe um artigo relativamente extenso que enviei para publicação na revista Brotéria, onde, espero, sairá logo que haja paginação disponível. Aqui, não pretendo senão deixar um breve apontamento.

O abaixo-assinado contra o projecto do museu que por aí circula enferma de muita ignorância. Em primeiro lugar, da nossa própria língua, em que achamento, descoberta, descobrimento e invenção têm sentidos vizinhos mas não coincidentes. O que o autarca lisbonense quereria dizer era certamente “Museu dos Descobrimentos”, termo consagrado por largo uso, que é datável de c. 1470, para significar o que até aí era designado por enquerer, saber parte, colher certa enformação, haver manifesta certidão, etc. São tudo expressões que denotam um processo minucioso de colheita de informações, activo e interactivo, que ultrapassa em muito a ideia de achar, encontrar, topar com, que só se aplicaria com inteira justeza a terras desconhecidas e despovoadas.

Argumentam-me que as Américas haviam sido, muitos séculos antes de Colombo, descobertas pelos chamados “índios” que as habitavam. É verdade. Tão verdade que me recorda a elegia que os soldados de Jacques de Chabannes, senhor de La Palisse, morto em combate a 25 de Fevereiro de 1525 na batalha de Pavia, compuseram em sua honra: un quart d’heure avant sa mort, il était encore en vie…

Descobrir é um verbo pessoal, que conota um sujeito pensante, cujo ponto de vista, necessariamente subjectivo, assume. Michel Chandeigne publicou há anos em Paris um livro intitulado L’expédition de Gonneville et la découverte de la Normandie par les Indiens du Brésil: de facto, em 1505, Binot Paulmier, senhor de Gonneville, ao regressar do Brasil onde aterrara por acaso numa viagem cujo destino era a Índia, trouxe para Honfleur o filho de um morubixaba (chefe tribal) chamado Essoméricq, que acabou por adoptar e casar com uma sobrinha sua. Foi assim que ele descobriu a Normandia — que, bem entendido, existia muito antes de ele dela ter tomado conhecimento. É, porém, evidente que não foi Essoméricq, nem nenhum dos índios do Brasil, quem descobriu o caminho marítimo para a Europa, onde chegou graças aos conhecimentos náuticos dos normandos, arrimados por seu turno aos dos pilotos portugueses que haviam contratado a peso de ouro.

É porque descobrir envolve as ideias de “reconhecer, explorar, cartografar” que se pode aplicar a regiões de cuja existência se sabia há muito, mas imperfeitamente. Foi o que se passou, por exemplo, com o Amazonas, percorrido do Peru até a foz em 1541-42 por Francisco de Orellana, e de novo em 1560 por Lope de Aguirre: em 1639 foi, uma vez mais, a mando de Felipe IV, descido pelo jesuíta Cristóbal de Acuña, que inquiriu diligentemente das populações ribeirinhas, seu modo de vida e seus costumes, do que deu pormenorizada conta no seu livro, expressivamente intitulado Nuevo descubrimiento del Gran río de las Amazonas, impresso em Madrid em 1641.

Historicamente mais grave é o erro crasso de afirmar que 60 ou 70 anos antes de Vasco da Gama, no reinado de Yung Lo (1403-25), já o almirante chinês Cheng Ho descobrira, ou estivera prestes a descobrir, o caminho marítimo para a Europa pela via do Cabo: nenhuma das fontes de que dispomos para a história dessas viagens menciona a sua presença a sul de Mogadoxo e Brava, na Somália, a milhares de quilómetros do Cabo da Boa Esperança, sitas no hemisfério norte, onde reinam ainda as monções que a cada seis meses se invertem.

Não é, todavia, crível que alguma vez o tivesse podido alcançar: com efeito utilizava juncos, navios de fundo chato, concebidos para manobrarem nos esteiros, estreitos e canais do Extremo Oriente, mas incapazes de bolinar; e à latitude do Cabo reinam todo o ano os ventos gerais de oeste, que colhem o navio pela proa. Não é por acaso que a maioria dos naufrágios portugueses que a História Trágico-Marítima registra tenham tido lugar na costa do Natal, com naus, que embora providas de quilha arvoravam pano redondo, exceto no mastro da mezena, e mui dificilmente conseguiam bolinar, que os ventos dominantes e as correntes rechaçaram para nordeste, acabando por dar à costa.

Se os portugueses puderam explorar tanto as costas atlânticas como os mares do Oriente até o longínquo Japão, foi porque possuíam técnicas de navegação adequadas, nomeadamente a navegação por latitudes, aplicável em praticamente qualquer ponto do Globo.

Tecnicamente, se alguém estava apetrechado para descobrir o caminho marítimo para a Europa, não eram os chins, mas os árabes do Omão e da Costa Suahíli; mas não o descobriram…

Se os portugueses puderam explorar tanto as costas atlânticas como os mares do Oriente até o longínquo Japão, foi porque possuíam técnicas de navegação adequadas, nomeadamente a navegação por latitudes, aplicável em praticamente qualquer ponto do Globo. Embora o processo de determinar a latitude pela altura meridiana do sol tivesse sido inventado por Hiparco (190-125 A. C.), foi a mando de D. João II que dois técnicos judeus, Mestre José Vizinho e Mestre Rodrigo o simplificaram e adaptaram à náutica. Requeria a utilização de tábuas astronómicas que dessem a declinação do sol para todos os dias do ano, mas os portugueses dispunham das dos Libros del Saber de Astronomia de Afonso X, o Sábio, de Castela, traduzidos de textos árabes que retomavam e aperfeiçoavam as da época helenística.

Nos descobrimentos portugueses convergiu assim o saber acumulado por gregos, árabes, judeus, italianos, normandos e até chineses: a vela latina, que permitia bolinar, fora inventada no Mar Vermelho, varrido todo o ano por ventos do quadrante norte; a técnica de construção de cascos capazes de resistir aos mares mais agitados provinha sobretudo das costas do Mar Norte, frequentemente batido pelos temporais; as propriedades da agulha magnética haviam sido descobertas na China, mas a arte de a fazer girar sobre um eixo articulado dentro de uma bússola vinha de Itália. De Itália e de Maiorca viera a carta-portulano, com suas múltiplas linhas loxodrómicas, rumadas pela agulha magnética, indispensável para a navegação por rumo e estima, de que gradualmente se passou à navegação por diferenças de latitude e, finalmente, por latitudes e longitudes.

É verdade que a longitude (que jamais se pode determinar pelos astros, devido à rotação da Terra) apenas pôde ser medida com exatidão quando c. 1725 John Harrison inventou o cronómetro. Na prática, portanto, fazia-se a estimativa do caminho percorrido, convertendo as léguas em graus de longitude, o que não é fácil: devido à convergência dos meridianos para os polos, o grau de longitude apenas é equivalente ao de latitude sobre o equador; alhures, há que multiplicá-lo pelo cosseno da latitude para obter a sua medida exata. Mesmo assim chegava-se, muitas vezes, a resultados surpreendentemente precisos: no atlas de c. 1537 conservado no Archivio di Statod e Florença e atribuído a Gaspar Viegas, o primeiro a conter uma escala de longitudes, as ilhas de Maluco estão debuxadas a 145° E do Cabo Verde, no Senegal, o que é de uma aproximação espantosa, pois a diferença real de longitude entre os dois pontos é de exactamente 144°; e um relato do naufrágio da nau S. Paulo em Samatra em 1571 afirma que a ilha de Amesterdão, entrevista já por Elcano em 1522 e agora avistada de novo, “jaz norte-sul com o Cabo Comorim”, no que erra por apenas 30′.

É de protótipos portugueses que derivam tanto os planisférios impressos na Europa no século XVI, como os mais antigos que se conhecem na China e no Japão. Devido aos Descobrimentos o Renascimento português apresenta um cunho decididamente experimentalista, em contraste com a tendência arcaizante e livresca da maioria das correntes do humanismo europeu, incapazes de se desmamar dos Antigos.

É importante notar que os Descobrimentos Portugueses não só revelaram paragens mal conhecidas ou desconhecidas, como permitiram uma correta concepção do mundo. Havia quem exagerasse as dimensões do globo, reduzindo a “terra habitada” (o Velho Mundo) a um dos dois ou quatro supercontinentes existentes, demasiado distantes entre si para se poder passar de um a outro. Ligada a essa concepção arcaica e errada aparecia geralmente a noção da inabitabilidade da zona tórrida, entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio, devido ao excessivo calor; como o Homem fora criado no hemisfério norte e não podia passar ao oposto sem atravessar aquela inóspita zona, a zona temperada do sul era “habitável mas desabitada”.

Foram os descobrimentos portugueses que arredaram definitivamente essas concepções erróneas. A habitabilidade das regiões intertropicais começou a tornar-se evidente logo em 1444, quando Nuno Tristão, ultrapassando a faixa saariana, chegou à “Terra dos Negros” (Senegal) em plena zona tórrida.

É de protótipos portugueses que derivam tanto os planisférios impressos na Europa no século XVI, como os mais antigos que se conhecem na China e no Japão. Como muito bem vincou Joaquim Barradas de Carvalho, devido aos Descobrimentos o Renascimento português apresenta um cunho decididamente experimentalista, em contraste com a tendência arcaizante e livresca da maioria das correntes do humanismo europeu, incapazes de se desmamar dos Antigos.

Como todas as grandes transformações históricas, os Descobrimentos — de que os portugueses foram em parte obreiros, em parte meros catalisadores, compendiando o saber dos seus predecessores — acarretaram, é certo, sofrimentos para muita gente, através de efeitos laterais que vão da intensificação da escravatura à difusão da sífilis americana no Velho Mundo, passando pela da varíola no Novo.

Não inauguraram, por isso, o Paraíso na Terra; mas deram origem ao mundo moderno tal como o temos, com os defeitos e virtudes inerentes a toda a construção humana. Qualquer pessoa, porém, o pode repudiar e recorrer por exemplo a coups-de-poing de pedra lascada ou polida em vez de facas, para descascar a fruta…

Historiador

Garagem da Rua da Palma despejada até ao fim de Agosto para avançarem obras da mesquita da Mouraria





Garagem da Rua da Palma despejada até ao fim de Agosto para avançarem obras da mesquita da Mouraria
Samuel Alemão
Texto
6 Agosto, 2018

“Não sei se vou conseguir sair daqui. O prazo que nos estão a dar termina no fim do mês, mas é quase impossível cumpri-lo. Não temos a solução resolvida. Não sei o que vamos fazer da nossa vida”. A voz tranquila de David Carvalho, 53 anos, sentado do outro lado da secretária, no escritório repleto de papelada, não denuncia o grande aperto por que o empresário e a sua família passam por estes dias. O gerente da garagem Almeida Navarro, Lda, firma que ocupa o número 256 da Rua da Palma desde 1917, não sabe ainda como lidar com o que parece a inevitabilidade de uma saída forçada, até 31 de Agosto. Existia uma ordem para abandonar o local até ao fim de Julho, mas foi conseguido o adiamento por um mês.

O prazo imposto pelo senhorio, a Câmara Municipal de Lisboa (CML), para que libertem o velho edifício está relacionado com os planos de demolição do mesmo com o objectivo de levar por diante a construção da polémica obra de construção da Praça da Mouraria e da mesquita que se lhe sobreporá – projecto cujo estudo prévio, da autoria da arquitecta Inês Lobo, foi aprovado por unanimidade em reunião de vereação, a 25 de Janeiro de 2012. Na mesma situação encontram-se, pelos menos, dois comerciantes e a Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD). Outro comerciante e um gabinete de contabilidade terão, entretanto, chegado a acordo com a edilidade para abandonar voluntariamente os espaços que ocupavam.

Desde que o projecto foi tornado público, em 2013, era ainda a presidência da autarquia da capital ocupada por António Costa, têm-se feito ouvir as vozes da contestação à Praça e Mesquita da Mouraria. Primeiro, pelo facto de a construção do futuro templo islâmico da comunidade bangladeshi, orçado em cerca de três milhões de euros – incluindo o valor das expropriações – , vir a ser suportada pelos cofres do município. E, mais tarde, a partir do final de  2015, pela oposição de António Barroso, proprietário de dois imóveis situados na Rua do Benformoso – também eles condenados à demolição, tal como outros dois prédios no mesmo arruamento, um municipal e outro de um particular -, descontente com o valor da indemnização que lhe coube. A CML oferecia 530 mil euros, mas Barroso reclamava cerca de 1,9 milhões.

Apesar da sua frontal recusa em resignar-se aos valores propostos, ambos os prédios de António Barroso foram alvo, a 23 de Maio de 2016, da posse administrativa por parte da Câmara de Lisboa, justificando-se tal acto com o “inquestionável interesse público” do projecto que ali se pretende levar por diante – prerrogativa legal legitimada, um mês e meio depois, a 14 de Julho, pelo Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa, que assim declinou os fundamentos de uma providência cautelar então entreposta pelo empresário.

Passados dois anos, porém, o dono dos imóveis continua a dirimir argumentos com a câmara através de via judicial, com processos de cariz administrativo e cível. E a ocupar os prédios dos quais já foi formalmente expropriado. Isto apesar de, desde então, a câmara ter disponibilizado os 613.700 euros estipulados, por tribunal arbitral, como valor justo de indemnização ao inconformado senhorio.

Já após tomar conhecimento dessa decisão, ainda no verão de 2016, a Câmara de Lisboa ainda chegou a fazer uma proposta de compensação financeira a António Barroso, aproximando-se um pouco mais dos montantes pretendidos pelo proprietário expropriado: oferecia então 953.800 euros, dos quais haveria ainda que deduzir 90.700 euros de indemnizações para os inquilinos. O valor foi, todavia, recusado pelo empresário, por o considerar ainda escasso, face ao investimento por si feito ao longo dos anos e ao valor de mercado dos imóveis, naquele momento.

Uma avaliação solicitada, naquela altura, a uma instituição bancária, garantia o senhorio a O Corvo, havia estimado um imóvel em 170 mil euros e o outro num montante ligeiramente superior a 900 mil euros. As razões para o descontentamento mantinham-se, dessa forma, inalteradas. Por isso, em paralelo à contestação do processo administrativo de declaração da utilidade pública invocada na expropriação, António Barroso apresentou também uma queixa judicial cível visando impugnar a decisão da Câmara de Lisboa. Ambos os processos mantêm o seu curso.

Do outro lado quarteirão que a autarquia quer deitar abaixo, para construir uma praça e a Mesquita da Mouraria, entre os números 248 e 262 da Rua da Palma, prevalece também a indefinição. Apesar de, nesse caso, a Câmara de Lisboa ser a senhoria, também ali há que realizar o processo de expropriação – com a respectiva compensação financeira – dos inquilinos da designada “Parcela Nº1” deste processo urbanístico. E se, em teoria, tal se assemelharia mais fácil de conseguir do que no caso da Rua do Benformoso – onde, além de António Barroso, houve que indemnizar um outro particular -, na realidade, o processo tem-se revelado de difícil prossecução. Até porque alguns dos inquilinos se queixam de uma alegada postura pouco dialogante por parte do município.

A começar pela Garagem Almeida Navarro, Lda, da qual David Carvalho e a família dependem para sobreviver. “Da parte da Câmara de Lisboa, temo-nos deparado com uma atitude de quero, posso e mando e que não parece ter abertura para mudar e perceber a nossa situação. Onde é que, neste momento, com a indemnização que nos querem dar, vou conseguir encontrar uma garagem como esta?”, questiona, apontando para o recinto com cerca de 1200 metros quadrados, repleto de automóveis. São à volta de sete dezenas e ocupam quase toda a superfície, garantindo um lugar de estacionamento a muitos particulares e empresas da zona. “Muita gente aqui à volta não tem alternativa de parqueamento”, assegura David, que assegura nem sequer saber qual o tarifário do parque subterrâneo do Martim do Moniz, situado a poucas dezenas de metros. Mas tem ideia que é bem mais caro.

Uma situação que se deverá agravar, diz, se se concretizar o encerramento deste negócio, do qual a sua família tomou conta em 1992, depois de o progenitor, Armando Carvalho, regressar de terras brasileiras, onde David nasceu. “O meu pai, de 87 anos, está em casa, doente com isto tudo. Ele investiu todo o dinheiro de uma vida de trabalho lá no Brasil e agora acontece uma coisa destas. Uma pessoa fica doente com isto tudo”, desabafa o empresário garagista, sem, contudo, revelar a diferença financeira que impede o acordo com a Câmara de Lisboa. “Neste momento, não é oportuno”, diz. “Durante anos e anos, quem realizou obras de manutenção da garagem, quem aqui investiu, fomos nós. Agora, querem tirar-nos daqui para fora desta forma. A gente precisa desta espaço para trabalhar. Se isto acaba, o que é que vou fazer, com esta idade?”, interroga-se.

Também Rui Xia, empresário luso-chinês do ramo da bijuteria, diz não compreender o que considera ser “uma atitude estranha” neste processo por parte da autarquia da capital. Ocupa desde há cinco anos a loja do número 262 da Rua da Palma e queixa-se que, desde que foi notificado da necessidade de abandonar a fracção, em Janeiro de 2017, “nunca mais a câmara disse nada, não dão uma resposta concreta”. O empresário assegura que o espaço é imprescindível para a sua actividade comercial, pois “nesta zona da cidade já não se encontram lugares como este”, sobrando como alternativa a deslocação para a periferia, o que afectaria de forma substancial o negócio.

“Fizemos obras na loja, várias vezes, e agora até queríamos realizar melhorias que iam deixar o espaço mais bonito, mas não podemos”, lamenta Rui Xia, que diz pagara de renda “mais ou menos 300 euros”. Agora, e apesar de ainda ter a mercadoria dentro da loja, será forçado a encontrar novo local. “Isto é muito complicado”, desabafa. Uma outra comerciante chinesa, ocupante da loja 254A da Rua da Palma, estará a passar por uma situação idêntica, mas escusou-se a prestar declarações a O Corvo.

De igual modo, também os responsáveis pela direcção da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD) declinaram comentar a O Corvo a situação actual do processo de expropriação em curso.

O Corvo questionou a Câmara Municipal de Lisboa, a 31 de Julho, sobre o estado do projecto da praça e da Mesquita da Mouraria, mas não obteve resposta às perguntas enviadas, até ao momento da publicação deste artigo.