OPINIÃO
Prestar contas
A nossa democracia, que faz em breve 50 anos, tem muitos
defeitos e muitas virtudes. Como todas. Mas tem um mal particularmente
chocante: a falta de prestação de contas.
António Barreto
13 de Maio de
2023, 6:39
https://www.publico.pt/2023/05/13/opiniao/opiniao/prestar-contas-2049525
É certamente uma
das mais nobres e interessantes actividades da política: prestar contas! Aos
clientes, aos militantes e aos apoiantes. Aos adversários, aos independentes e
aos neutros. Às instituições, às empresas, aos sindicatos e às associações. Mas
sobretudo aos eleitores.
A prestação de
contas, um dos trunfos, uma das virtudes e uma das armas mais importantes da
democracia, inclui actividades diversas. Por exemplo, comparar o que se fez com
o que se prometeu. O que é anunciado nos programas eleitorais, os balanços e os
relatórios, os programas para novas eleições e sobretudo a liberdade de
expressão revelam o grau de cumprimento. A palavra dada foi cumprida? Será que
se ficou aquém ou foi além? Os imprevistos justificam-se? Há quem proponha
melhor?
Além de outras
formas de prestação de contas, a mais importante, mais certeira e mais concreta
é a que se traduz em custos. A noção de contas revela a sua absoluta adequação.
Quanto custou? Quanto se gastou? Quem pagou? Como compara com o prometido?
Justificam-se os custos a mais ou as despesas imprevistas? O que se gastou é
superior ao que se ganhou? Quem ganhou e quem perdeu?
A nossa
democracia, que faz em breve 50 anos, tem muitos defeitos e muitas virtudes.
Como todas. Mas tem um mal particularmente chocante: a falta de prestação de
contas. Curiosamente, não são só as autoridades que não prestam contas (o que
prometeram e o que gastaram), como são as oposições que raramente se interessam
por isso, provavelmente na esperança ou com o receio de que chegue um dia a sua
vez.
Curiosamente, não são só as autoridades que não prestam
contas (o que prometeram e o que gastaram), como são as oposições que raramente
se interessam por isso, provavelmente na esperança ou com o receio de que
chegue um dia a sua vez
Os orçamentos do
Estado (assim como os orçamentos das instituições, das administrações e dos
serviços) são belos exemplos desta falta de prestação de contas e da respectiva
explicação. Diz-se quanto se vai gastar (é uma necessidade legal e
contabilística), mas não se diz quanto se gastou, quanto se perdeu, quanto se
ganhou. Quando se aprova um orçamento anual, nunca se tem em mãos os resultados
do ano ou dos anos anteriores, o que faz com que o essencial das discussões se
resume aos governos a gabarem-se do que querem gastar e as oposições a dizerem
que é pouco, que não basta e que é preciso gastar mais com todas as rubricas:
saúde, educação, obras, autarquias, estradas, segurança social e tudo o resto.
Por várias
razões, entre as quais figura o desnorte actual do Governo, vivemos tempos em
que a ausência de contas e de prestação se faz especialmente sentir. As perdas
imprevisíveis, como as das crises internacionais, da inflação, dos custos da
energia, da guerra na Ucrânia e da pandemia, têm sido enormes e transformaram
as contas em nebulosas. Mas isso, que os governos entendem ser justificações
para a sua incúria, o seu abuso e o incumprimento de dever, é exactamente o
contrário: tudo deveria ter como efeito uma maior exigência de informação, uma
mais apurada prestação de contas e um reforçado rigor na sua apresentação
pública. Mesmo a louvável e talvez bem conseguida política de “contas certas”
tem que se lhe diga. Na verdade, as “contas certas” são de ordem orçamental,
contabilística e global, não política, não democrática e não pormenorizada. São
contas certas feitas de rubricas incertas.
Quanto se gastou
já com o aeroporto de Lisboa? Em estudos, indemnizações, expropriações,
contratos e preparativos? Quanto custou mudar três ou quatro vezes de ideias e
de opiniões? Quanto custaram os projectos e as avaliações? Quanto está previsto
que venham a custar os novos projectos e as novas avaliações? Quais são as
implicações das mudanças e dos adiamentos? Em novos custos? Em obras na
Portela? Em voos perdidos? Em passageiros, emigrantes e turistas desviados para
outros aeroportos e outros países? Quanto se gastou e perdeu já em
expropriações e indemnizações? Quem pagou umas e outras? Quanto se vai gastar a
mais por causa do adiamento e dos atrasos?
Quanto se perdeu
já com a TAP? Quanto custaram as fantasias da privatização, os pesadelos da
nacionalização e a loucura da reprivatização? Quanto se perdeu com as compras,
vendas e trocas de aviões e outros equipamentos pesados, com as indemnizações,
os adiantamentos e as compensações devidas pelos negócios frustrados, pelas
alterações imprevistas e pelas mudanças intempestivas? Quanto perdeu a TAP?
Quanto a TAP deixou de ganhar? Quanto perdeu o Estado accionista? Com tudo o
que se passou recentemente, que valor a TAP perdeu no mercado e quais as perdas
potenciais que se verificarão, em caso de privatização? O que custou mais à TAP
e aos contribuintes: as greves do pessoal ou a resistência do Governo?
Quanto tem
custado aos cidadãos a desordem nos transportes públicos, sobretudo nos
comboios? Quanto tem custado a falta de manutenção e de investimento nos
caminhos-de-ferro? Quanto já custou o fecho da linha do Douro e os estudos para
a reabrir? Quanto se gastou com o frustrado TGV, cujos estudos iniciais se
fizeram, incluindo primeiros investimentos, obras paradas e interrompidas,
grandes indemnizações pagas a empresas de construção e eventuais expropriações?
Quanto se está a perder com os principais comboios e as principais linhas em
estado deplorável?
Quanto custaram
as privatizações aceleradas, seguidas de desmantelamento, fecho ou
transformação radical das empresas de bens e serviços especialmente valiosas,
como a electricidade, o gás, o petróleo, os cimentos, a celulose, a rede
energética, as telecomunicações e outras?
Quanto se ganhou
e perdeu, quanto se está ainda a perder, quem ganhou e quem perdeu, com a venda
das empresas e das redes energéticas, assim como com a das barragens, cujos
negócios parece terem sido ruinosos para o erário público, sobretudo para os
cidadãos, mas cujos valores aproximados são desconhecidos?
Quanto se tem
perdido, quem tem sido prejudicado, quanto perdem e pagam os cidadãos com as
greves e a desordem nos tribunais, com deslocações inúteis, dias perdidos no
trabalho e no emprego, despesas efectuadas e causas não resolvidas? O que o
Estado tem perdido e o que tem sido pago pelos cidadãos não são já muito
superiores aos custos de um possível acordo salarial com os oficiais de
justiça?
E, finalmente, a
pergunta do bilião de dólares: quanto pagaram até agora os contribuintes pelos
desmandos do BES, do BPN, do Banif e do BPP? Quanto poderia ter sido evitado?
Sem respostas a
estas e outras perguntas similares, Portugal será sempre uma sociedade refém e
uma democracia hipotecada.
O autor é colunista
do PÚBLICO


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