sábado, 13 de maio de 2023

Oligarcas próximos do poder russo aguardam nacionalidade portuguesa / Oligarchs close to Russian power await Portuguese nationality

 



INVESTIGAÇÃO PÚBLICO

Oligarcas próximos do poder russo aguardam nacionalidade portuguesa

 

Alexander Smuzikov e Alexander Kaplan são sócios e o último é alvo de sanções internacionais. Foram certificados como judeus sefarditas pela Comunidade Israelita do Porto.

 

Paulo Curado

13 de Maio de 2023, 6:35

https://www.publico.pt/2023/05/13/sociedade/noticia/oligarcas-proximos-russo-aguardam-nacionalidade-portuguesa-2049478

 

Comunidade Israelita do Porto certificou oligarcas

 

Alexander Smuzikov é um oligarca russo e filantropo de 51 anos. Um dos maiores coleccionadores de arte vanguardista russa, tem uma fortuna que em 2016 estava avaliada em mais de 600 milhões de dólares, evita os holofotes, não dá entrevistas e vive rodeado de seguranças. Smuzikov tem um sócio de longa data, Alexander Kaplan, e ambos foram certificados pela Comunidade Israelita do Porto (CIP) como descendentes de judeus sefarditas, estando a aguardar desde 2020 a sua naturalização como portugueses, segundo o PÚBLICO apurou. Os dois fizeram fortuna com o petróleo e são apontados como próximos do círculo do poder de Vladimir Putin.

 

Nascido a 23 de Novembro de 1971 na cidade russa de Ekaterinburgo, na região oriental dos montes Urais, Alexander Smuzikov iniciou-se no mundo dos negócios nos anos 1990, no comércio de produtos petrolíferos. De acordo com uma rara biografia deste multimilionário – que só excepcionalmente aparece em público e nunca deu qualquer entrevista –, publicada em Julho de 2012 pela edição russa da revista norte-americana Forbes, Smuzikov deve o seu sucesso financeiro a um grande negócio em 2008.

 

Nesse ano, vendeu uma cadeia de 112 estações de serviço em Moscovo, 36 na Ucrânia e cinco tanques de armazenamento de petróleo à TNK-BP. Esta grande companhia petrolífera russa foi uma das dez maiores empresas petrolíferas privadas do mundo, tendo sido adquirida em 2013 pela Rosneft, controlada pelo Estado, por 891 milhões de dólares (813 milhões de euros ao câmbio actual).

 

Antes da operação multimilionária, ainda nos anos de 1990, Smuzikov esteve envolvido na refinação de petróleo, juntamente com um sócio, Alexander Krasnolobov, que morreria subitamente em 1998. Através da empresa El-Nafta, comprava petróleo, processando-o em refinarias russas, ucranianas e bielorrussas para posteriormente vender os produtos petrolíferos ao Ocidente.

 

Arte vanguardista

Com uma fortuna avaliada em 600 milhões de dólares (547 milhões de euros), em 2016 (desconhecendo-se o valor actual), o empresário é também um dos maiores coleccionadores mundiais de arte vanguardista russa, baseada, entre outras, em obras de Kazimir Malevich, Lazar (El) Lissitzky e Natalia Goncharova. É desde 2005 co-fundador da Fundação Marat Guelman para a Promoção da Arte Contemporânea.

 

Segundo a Forbes russa, quando foi questionado sobre o que iria fazer com a fortuna que ganhou em 2008, respondeu por escrito e foi parco nas palavras: “O dinheiro gosta de silêncio. Não tenciono fazer nenhum negócio público.” Parte desta soma terá sido investida no sector imobiliário e outra na sua colecção de arte.

 

Para além da paixão pela arte contemporânea, Smuzikov é também um grande caçador, considerado pelo Safari Club International como um dos maiores caçadores de veados-sika, também conhecidos como “veado do Japão”.

 

Ainda de acordo com a biografia da Forbes, antes de se iniciar no ramo petrolífero, Smuzikov esteve preso, após ter sido condenado a três anos de prisão, em 1989, por roubo e posse de armas.

 

Amigos e sócios

Foi em 1997 que Smuzikov conheceu Alexander Losifovich Kaplan, que seria mais tarde vice-presidente para a refinação e o comércio da TNK-BP. Nascido a 22 de Fevereiro de 1969, em Moscovo, Kaplan teve a sua carreira também ligada aos produtos petrolíferos. Deu um forte impulso ao sucesso empresarial de Smuzikov, nomeadamente na sugestão e preparação do negócio com a TNK-BP em 2008, que seria mais tarde questionado no meio de um conflito entre os accionistas britânicos e russos da empresa.

 

Em declarações à revista Forbes em 2012, Kaplan descreveu o amigo e futuro sócio: “Smuzikov é uma pessoa muito articulada, profissional e decente, que nos seus valores fundamentais coincide completamente comigo.”

 

De acordo com dados da Agência de Informações de Petróleo e Gás, Kaplan formou-se no Instituto de Petroquímica e Indústria de Gás de Moscovo, tendo sido director-geral da Gazpromneft-Noyabrskneftegaz, uma subsidiária do gigante russo do petróleo Gazprom, a maior empresa energética russa, controlada pelo Estado.

 

Sancionado pela Ucrânia

Alexander Kaplan integra a lista de empresários russos sancionados pelo Governo de Kiev, na sequência da invasão russa da Ucrânia, em Fevereiro de 2022. É acusado de apoiar “materialmente” o Governo de Vladimir Putin, como um dos principais accionistas do Stavropol Promstroybank.

 

Segundo a investigação do PÚBLICO, Alexander Smuzikov e Alexander Kaplan aguardam pela naturalização portuguesa ao abrigo da lei dos sefarditas, que concede a nacionalidade aos descendentes das antigas comunidades judaicas que receberam ordem de expulsão da península Ibérica no final do século XV. Foram ambos certificados pela Comunidade Israelita do Porto, a quem o Estado delegou esta competência (a par da Comunidade Israelita de Lisboa), em Julho de 2020, e já receberam o parecer positivo da Polícia Judiciária (PJ).

 

As relações de proximidade dos dois empresários com o Governo russo têm-se feito sentir nos Balcãs.

 

“Pegada russa”

Em 2016, Smuzikov e Kaplan tentaram comprar a Makpetrol, o principal distribuidor de petróleo e produtos petrolíferos da Macedónia do Norte, através da empresa Balkan Petroleum Holding Limited (BPHL), que tinha os dois russos como principais investidores.

 

Constituída a 28 de Maio de 2016, dias antes da manifestação do interesse na aquisição da empresa macedónia, a BPHL – uma sociedade britânico-cipriota, que teve origem nas ilhas Virgens Britânicas e que foi registada no Reino Unido, com um capital social de apenas mil euros – ofereceu 47 milhões de euros, que representava 150% do valor de mercado da Makpetrol, que tinha acumulado uma dívida de mais de 30 milhões de euros.

 

“Decidimos investir na Makpetrol no final de 2015, quando o Governo da Macedónia fez uma apresentação para investidores em Israel”, justificou Kaplan – que também tem nacionalidade israelita – à agência Reuters, em Novembro de 2016.

 

Explicações dadas após a decisão da Comissão de Valores Mobiliários da Macedónia (CVMM) de suspender temporariamente o procedimento de aprovação da oferta pública de aquisição da Marpetrol, em Julho de 2017. Esta decisão passaria a ser definitiva em Janeiro de 2018, com a rejeição da oferta da BPHL, por falta de transparência.

 

“A comissão [CVMM] conclui que os requisitos legais para a oferta pública de aquisição não foram cumpridos, uma vez que o prospecto e a oferta pública de aquisição não foram elaborados nos termos da lei”, referiu este organismo em comunicado.

 

Na mesma altura, o Centro para o Estudo da Democracia – instituto europeu de políticas públicas dedicado aos valores da democracia e da economia de mercado – publicou um relatório intitulado “Avaliação da presença económica da Rússia na Macedónia”, onde aborda a tentativa de compra da Makpetrol pela BPHL.

 

“Se uma empresa russa assumisse o controlo da Makpetrol, a Rússia passaria a ter o monopólio virtual do mercado de petróleo e gás do país [Macedónia do Norte], o que multiplicaria a expansão da pegada económica russa [nos Balcãs]”, relata o documento.

 

Fracassado o negócio, a BPHL seria dissolvida a 31 de Julho de 2018. Nos documentos relativos a esta empresa, que o PÚBLICO consultou, Smuzikov declarou como país de residência habitual a Suíça, onde tem vários interesses económicos, em particular no cantão de St. Gallen. No total, o oligarca russo é detentor de sete empresas ligadas ao ramo imobiliário, a última das quais constituída em Julho de 2019.

 

O multimilionário está ainda referenciado nos chamados Pandora Papers – documentos (11,9 milhões) revelados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação que expuseram a riqueza oculta de numerosas figuras que fazem negócios através de paraísos fiscais e empresas offshore. Smuzikov surge como beneficiário final da sociedade Donegall Worldwide Corp, sediada nas ilhas Virgens Britânicas.

 

Na Rússia, Smuzikov e Alexander Kaplan são ainda sócios e fundadores da empresa Sanora-Rus, constituída em Abril de 2015, com sede em Moscovo e que tem como actividade registada a “prestação de serviços no campo da contabilidade”.

 

Estes dois oligarcas russos são os mais recentes encontrados pela investigação do PÚBLICO, que revelou em Dezembro de 2021 a naturalização de Roman Abramovich, antigo dono do Chelsea, num processo-relâmpago.

 

Português também já é o oligarca Andrei Rappoport, enquanto os multimilionários Lev Leviev (denominado como “o rei dos diamantes”), God Nisanov e Gavril Yushvaev (com ligações ao crime organizado) aguardam decisão, tal como Smuzikov e Kaplan. Todos foram certificados pela CIP.


PÚBLICO RESEARCH

Oligarchs close to Russian power await Portuguese nationality

 

Alexander Smuzikov and Alexander Kaplan are partners and the latter is the target of international sanctions. They were certified as Sephardic Jews by the Jewish Community of Porto.

 

Paulo Curado

13 May 2023, 06:35

https://www.publico.pt/2023/05/13/sociedade/noticia/oligarcas-proximos-russo-aguardam-nacionalidade-portuguesa-2049478

 

Israelite Community of Porto certified oligarchs

 

Alexander Smuzikov is a 51-year-old Russian oligarch and philanthropist. One of the largest collectors of Russian avant-garde art, he has a fortune that in 2016 was valued at more than 600 million dollars, avoids the spotlight, does not give interviews and lives surrounded by security guards. Smuzikov has a long-time partner, Alexander Kaplan, and both have been certified by the Jewish Community of Porto (CIP) as descendants of Sephardic Jews, and have been awaiting naturalization as Portuguese since 2020, according to PÚBLICO. The two have made a fortune in oil and are touted as close to Vladimir Putin's circle of power.

 

Born on November 23, 1971 in the Russian city of Yekaterinburg, in the eastern region of the Ural Mountains, Alexander Smuzikov got his start in the business world in the 1990s, in the trade of petroleum products. According to a rare biography of this billionaire – who only exceptionally appears in public and has never given any interviews – published in July 2012 by the Russian edition of the American magazine Forbes, Smuzikov owes his financial success to a big deal in 2008.

 

That year, it sold a chain of 112 service stations in Moscow, 36 in Ukraine and five oil storage tanks to TNK-BP. This large Russian oil company was one of the ten largest private oil companies in the world, having been acquired in 2013 by the state-controlled Rosneft for 891 million dollars (813 million euros at the current exchange rate).

 

Before the multimillion-dollar operation, still in the 1990s, Smuzikov was involved in oil refining, along with a partner, Alexander Krasnolobov, who would die suddenly in 1998. Through the El-Nafta company, it bought oil, processing it in Russian, Ukrainian and Belarusian refineries to later sell the petroleum products to the West.

 

Avant-garde art

With a fortune valued at 600 million dollars (547 million euros) in 2016 (the current value unknown), the businessman is also one of the world's largest collectors of Russian avant-garde art, based, among others, on works by Kazimir Malevich, Lazar (El) Lissitzky and Natalia Goncharova. Since 2005 he has been co-founder of the Marat Guelman Foundation for the Promotion of Contemporary Art.

 

According to Russian Forbes, when asked what he would do with the fortune he earned in 2008, he replied in writing and was sparse in words: "Money likes silence. I don't intend to do any public business." Part of this sum will have been invested in the real estate sector and another in its art collection.

 

In addition to his passion for contemporary art, Smuzikov is also a great hunter, considered by the Safari Club International as one of the greatest hunters of sika-deer, also known as "deer of Japan".

 

Also according to the Forbes biography, before starting in the oil business, Smuzikov was in prison, after being sentenced to three years in prison in 1989 for robbery and possession of weapons.

 

Friends and partners

It was in 1997 that Smuzikov met Alexander Losifovich Kaplan, who would later be vice president for refining and trade at TNK-BP. Born on February 22, 1969, in Moscow, Kaplan had his career also linked to petroleum products. It gave a strong boost to Smuzikov's business success, notably in the suggestion and preparation of the deal with TNK-BP in 2008, which would later be questioned in the midst of a conflict between the company's British and Russian shareholders.

 

Speaking to Forbes magazine in 2012, Kaplan described his friend and future partner: "Smuzikov is a very articulate, professional and decent person, who in his core values completely coincides with me."

 

According to data from the Oil and Gas Information Agency, Kaplan graduated from Moscow's Institute of Petrochemicals and Gas Industry and was managing director of Gazpromneft-Noyabrskneftegaz, a subsidiary of Russian oil giant Gazprom, Russia's largest state-controlled energy company.

 

Sanctioned by Ukraine

Alexander Kaplan is on the list of Russian businessmen sanctioned by the Kiev government following the Russian invasion of Ukraine in February 2022. He is accused of "materially" supporting the government of Vladimir Putin, as one of the main shareholders of Stavropol Promstroybank.

 

According to PÚBLICO's investigation, Alexander Smuzikov and Alexander Kaplan are waiting for Portuguese naturalization under the Sephardic law, which grants nationality to the descendants of the ancient Jewish communities that were ordered to be expelled from the Iberian peninsula at the end of the fifteenth century.  in July 2020, and have already received the positive opinion of the Judiciary Police (PJ).

 

The close relations of the two businessmen with the Russian Government have been felt in the Balkans.

 

"Russian footprint"

In 2016, Smuzikov and Kaplan tried to buy Makpetrol, North Macedonia's main distributor of petroleum and petroleum products, through the company Balkan Petroleum Holding Limited (BPHL), which had the two Russians as main investors.

 

Incorporated on 28 May 2016, days before the expression of interest in the acquisition of the Macedonian company, BPHL – a British-Cypriot company, which originated in the British Virgin Islands and was registered in the United Kingdom, with a share capital of only one thousand euros – offered 47 million euros, which represented 150% of Makpetrol's market value,  which had accumulated a debt of more than 30 million euros.

 

"We decided to invest in Makpetrol at the end of 2015, when the Macedonian government made a presentation to investors in Israel," Kaplan, who also has Israeli nationality, told Reuters in November 2016.

 

Explanations given after the decision of the Macedonian Securities and Exchange Commission (CVMM) to temporarily suspend the approval procedure of the takeover bid of Marpetrol in July 2017. This decision would become final in January 2018, with the rejection of BPHL's offer, due to lack of transparency.

 

"The commission [CVMM] concludes that the legal requirements for the takeover bid were not met, since the prospectus and the takeover bid were not prepared in accordance with the law," the agency said in a statement.

 

At the same time, the Centre for the Study of Democracy – a European public policy institute dedicated to the values of democracy and the market economy – published a report entitled "Assessment of Russia's economic presence in Macedonia", which addresses the attempted purchase of Makpetrol by BPHL.

 

"If a Russian company were to take control of Makpetrol, Russia would have a virtual monopoly on the country's [North Macedonia's] oil and gas market, which would multiply the expansion of Russia's economic footprint [in the Balkans]," the document reports.

 

If the deal failed, BPHL would be dissolved on July 31, 2018. In the documents relating to this company, which PÚBLICO consulted, Smuzikov declared Switzerland as his country of habitual residence, where he has several economic interests, in particular in the canton of St. Gallen. In total, the Russian oligarch owns seven real estate companies, the last of which was incorporated in July 2019.

 

The billionaire is also referenced in the so-called Pandora Papers – documents (11.9 million) revealed by the International Consortium of Investigative Journalists that exposed the hidden wealth of numerous figures doing business through tax havens and offshore companies. Smuzikov emerges as the ultimate beneficiary of the British Virgin Islands-based company Donegall Worldwide Corp.

 

In Russia, Smuzikov and Alexander Kaplan are also partners and founders of the company Sanora-Rus, established in April 2015, based in Moscow and whose registered activity is the "provision of services in the field of accounting".

 

These two Russian oligarchs are the latest found by the PÚBLICO investigation, which revealed in December 2021 the naturalisation of Roman Abramovich, former Chelsea owner, in a lightning process.

 

Portuguese is also already oligarch Andrei Rappoport, while billionaires Lev Leviev (referred to as "the king of diamonds"), God Nisanov and Gavril Yushvaev (with links to organized crime) are awaiting a decision, as are Smuzikov and Kaplan. All were certified by the CIP.


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