Editorial
À espera de luz no farol do mundo livre
Sabemos agora com os deprimentes ataques ao Capitólio do
que são capazes de gerar as sementes de ódio e os instintos de dominação e de
poder a qualquer preço cultivados por Donald Trump.
Manuel Carvalho
7 de Janeiro de
2021, 11:45
https://www.publico.pt/2021/01/07/mundo/editorial/espera-luz-farol-mundo-livre-1945367
Joe Biden terá
certamente razão quando afirma que os energúmenos que participaram no ataque
são uma minoria, que não representam o povo dos Estados Unidos. Mas é
exactamente nessa análise da realidade que está o perigo. Não é preciso mais do
que um demagogo insano e irresponsável para que essa minoria extremada se
julgue no direito de pôr os fundamentos da democracia em causa, que reclame
para si pela força o que não consegue sob a égide da lei, ignorando sem
vergonha a legitimidade das eleições, espezinhando a soberania e aviltando as
mais elementares regras de respeito pelas instituições.
Já conhecíamos
esse receituário de intimidação e assalto da extrema-direita dos manuais da
história do século XX ou das narrativas dos golpes gerados em sociedades
iliberais com estados instáveis ou falhados. Ver que isso pode acontecer até
nos Estados Unidos é uma surpresa e um aviso. Basta que uma sociedade avançada
de um país com instituições sólidas eleja um louco para que a ordem
constitucional estabilizada ao longo de décadas fique sob ameaça. Basta que
haja um führer ou um duce a gerir o ódio, o ressentimento e a intolerância para
que o respeito pela vontade da maioria, a legitimidade e a soberania das
instituições fiquem em causa.
Sabemos agora com
os deprimentes ataques ao Capitólio do que são capazes de gerar as sementes de
ódio e os instintos de dominação pela força cultivados por Trump. Trump queria
os seus SS ou os seus camisas-negras e encontrou-os nas margens do racismo, da
exclusão dos subúrbios ou no vazio económico da América da ferrugem.
Acarinhou-os e alimentou-os como uma tropa de protecção. Estimulou-os com a
manipulação e a mentira, com o seu racismo e nacionalismo e deu-lhes um móbil
para o crime com o negacionismo sobre os resultados eleitorais. Só será
derrotado se o partido que o apoia perceber que ele não é um democrata, apenas
um aspirante a ditador sem escrúpulos que os ameaça.
Pode ser esse o
lado bom do assalto. O conservadorismo que não prescinde da lei e da ordem
há-de ter ficado impressionado com a ilegalidade e a desordem da turba de
arruaceiros que o perpetrou. A vitória de Biden e dos candidatos democratas ao
Senado na Geórgia pode ajudar os cultores do Tea Party e do radicalismo a
perceber que os apelos à ilegitimidade ou à sedição não dão votos. Os
“trumpistas” puros e duros terão agora provavelmente mais pudor em elogiar o caudilho
da baderna e da violência. O próprio já percebeu que foi longe de mais.
Isolado, Trump pode acabar o seu devaneio na política da melhor forma: com a
saudade que se concede às nódoas.
Nada está
garantido. Quando o outrora farol do mundo livre e da democracia liberal vive
dilemas com esta crueza, só temos razões para duvidar. Que essa dúvida leve ao
menos os que simpatizam com a extrema-direita em Portugal e na Europa a
perceber o perigo: por detrás de um programa demagógico, iliberal e populista há
sempre uma besta totalitária disposta a tomar de assalto pela intimidação ou
pela força o coração da democracia.

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