domingo, 3 de dezembro de 2017

Como Sócrates usou a máquina do Estado e se fez embaixador do Grupo Lena



Grupo Lena pretendia, ao pagar comissões ao então primeiro-ministro, "abrir portas e novos mercados tendo como prioridade Angola, Venezuela e Argélia"
O presidente executivo do Grupo Lena confirmou que foram pagas comissões ao ex-primeiro-ministro José Sócrates num depoimento prestado no âmbito da Operação Marquês publicado hoje no Correio da Manhã. O jornal noticia hoje que o presidente executivo do Grupo Lena, Joaquim Paulo da Conceição, disse num depoimento no Departamento Central de Investigação Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) que “havia mesmo subornos para José Sócrates”.
16.09.2016

OPERAÇÃO MARQUÊS
Como Sócrates usou a máquina do Estado e se fez embaixador do Grupo Lena

Após perder as eleições de Junho de 2011 e já como cidadão, o ex-PM recorreu à máquina diplomática para marcar reuniões com governantes estrangeiros, ocultando os seus propósitos, acusa o Ministério Público. Utilizou duas missões como observador internacional para agir e prometeu palavras favoráveis nos seus comentários televisivos se tudo corresse bem. Ainda primeiro-ministro, designou colaboradores para acompanhar as pretensões do grupo de Leiria.

NUNO RIBEIRO 3 de Dezembro de 2017, 6:30

José Sócrates usou o corpo diplomático português e estrangeiro, invocando a qualidade de ex-primeiro-ministro, para estabelecer contactos e marcar reuniões com responsáveis políticos da Venezuela, Argélia e Angola, países onde o Grupo Lena, de Joaquim Barroca, tinha interesses ou queria promover a internacionalização da sua actividade. O Ministério Público diz que esta acção começou com Sócrates no Palácio de São Bento, quando liderava os XVII e XVIII governos constitucionais.

“O arguido José Sócrates Pinto de Sousa aceitou utilizar o seu cargo como primeiro-ministro em benefício do Grupo Lena, a troco do recebimento de vantagens patrimoniais a que bem sabia não ter direito [...], tendo-se socorrido de colaboradores que lhe eram próximos e da sua confiança, a fim de, segundo as suas indicações, prestarem o específico apoio ao Grupo Lena”, afirma a acusação. As investigações realizadas no âmbito da Operação Marquês situam esta incumbência a partir de final de 2006 e levam os magistrados a referir dois nomes — Guilherme Dray, chefe de gabinete, e Vitor Escária, assessor económico —, destacando as suas intervenções em especial junto do Governo da Venezuela, “que o arguido [Sócrates] sabia corresponderem aos interesses económicos do Grupo Lena”.

Defesa de Sócrates nega relações com Grupo Lena: “resumem-se a nada e coisa nenhuma”

O Ministério Público explicita, também, o modus operandi. “O arguido Carlos Santos Silva aceitou passar a intervir como intermediário do arguido José Sócrates, tendo os dois arguidos, ao longo do ano de 2006, procurado encontrar formas de o arguido José Sócrates, directamente através de instruções a membros do governo que dirigia, apoiar os negócios a desenvolver pelo Grupo Lena, de modo a que não fosse revelada a intervenção do arguido José Sócrates e que as contrapartidas financeiras a receber não pudessem ser associadas à sua pessoa”, lê-se no despacho de acusação.

Foi por sugestão do chefe de gabinete Guilherme Dray a Carlos Santos Silva, segundo o Ministério Público, que o Grupo Lena custeou a viagem de ida e volta Paris-Lisboa e a estadia na capital portuguesa, entre 14 e 16 de Setembro de 2008, do então vice-ministro venezuelano para a Planificação e Desenvolvimento do Sistema Nacional de Habitação e Habitat, Hector Torres Casado, que se encontrava de visita à Europa.

Em Lisboa, Hector Torres manteve também encontros com o governo português com o objectivo de que o negócio de construção de 50 mil casas na Venezuela estivesse acordado quando da visita do Presidente Hugo Chávez a Portugal, que se iniciaria dez dias depois, a 26 de Setembro.

Contudo, a acusação precisa que um impasse nestas negociações levou Nicolás Maduro, na altura ministro dos Negócios Estrangeiros, a pedir a intervenção de Sócrates, por ocasião da sua visita a Portugal, em 19 de Março de 2010. Tinham já passado dois anos.

O gabinete do primeiro-ministro, através do assessor económico Vitor Escária, acompanhou a presença do chefe da diplomacia de Caracas, do seu chefe de gabinete Temir Porras e do vice-ministro para a Habitação e Habitat, Ulianov Niño Delgado. No final, foi acordada uma adenda ao contrato que viria a ser assinada durante uma visita de dois dias — 29 e 30 de Maio de 2010 — do primeiro-ministro português à Venezuela, durante a qual foram divulgados 19 acordos entre os dois países, envolvendo 16 empresas e um montante de 1,65 mil milhões de euros.

Segundo o Ministério Público, para concretizar o início do contrato da empreitada, Vitor Escária contactou o chefe de gabinete de Maduro, Temir Porras, mas a situação arrastou-se. José Sócrates terá insistido na questão durante uma breve estadia do Presidente Chávez em Portugal, em 14 de Outubro de 2010, dez dias antes de iniciar a sua última visita ao nosso país. Já durante a visita presidencial, foi assinado o contrato de empreitada do Grupo Lena, no valor de 988 milhões de dólares, numa digressão que ficou também marcada pelos anúncios da compra de 1,5 milhões de computadores Magalhães e da encomenda aos estaleiros de Viana do Castelo de dois navios de transporte de asfalto. A Venezuela era um eldorado para as exportações portuguesas e internacionalização da economia nacional.

De acordo com o despacho de acusação, “em face da definição do montante de antecipação de preço e da garantia que seriam pagos”, correspondente ao contrato de empreitada, “os arguidos Joaquim Barroca e Carlos Santos Silva trataram de concretizar o pagamento de mais uma factura emitida no âmbito da pretensa prestação de serviços da sociedade XLM [do universo empresarial de Santos Silva] à LEC, SA, sucursal da Venezuela da Lena Engenharia Construções, SA, tendo esta pago [a Santos Silva], na data de 29 de Março de 2011, a quantia de 250 mil euros, sem IVA, sabendo que tal montante seria gasto no interesse do arguido José Sócrates”. Nesta data, Sócrates era já um primeiro-ministro demissionário. Seis dias antes, o Plano de Estabilidade e Crescimento 2011-2014, o PEC IV, fora chumbado e o país vivia em crise política.

Noutro ponto da acusação, os magistrados referem que Joaquim Barroca, administrador do Grupo Lena, pagou ao primeiro-ministro Sócrates, através de contas controladas por Carlos Santos Silva, 2,875 milhões de euros, entre Fevereiro e Junho de 2007 e Setembro de 2008, via duas sociedades — Giffard Finance e Pinehill Finance — utilizadas para a circulação do dinheiro. E, entre Novembro de 2009 e Abril de 2014 — período que abrange Sócrates como primeiro-ministro e já ausente do poder —, mais de 2,9 milhões de euros, “a coberto de pretensos contratos de prestação de serviços com a XLM – Sociedade de Estudos e Projectos, Lda., do arguido Carlos Santos Silva”. Somadas estas parcelas, chega-se ao valor de 5,8 milhões de euros.

Segundo o Ministério Público, as contrapartidas a favor de José Sócrates seriam “sempre pagas pelo Grupo Lena para a esfera formal do arguido Carlos Santos Silva”, que sempre “poderia justificar esse recebimento com as relações comerciais que mantinha com o referido grupo”. Ainda assim, precisa a acusação, “o arguido Carlos Santos Silva dispôs-se a fazer confundir com o seu património pessoal os fundos que viesse a receber no âmbito desse acordo com o arguido José Sócrates”. E continua: “Mantendo o conhecimento do valor total que na realidade pertencia ao arguido José Sócrates e dispondo-se a afectar ao mesmo os montantes que este lhe viesse a solicitar.”

Sócrates elogiaria o regime chavista no seu espaço de comentário semanal na RTP1 se uma reunião com o Presidente Nicólas Maduro se realizasse. O objectivo, sustenta o Ministério Público, seria desbloquear atrasos nos pagamentos dos venezuelanos ao Grupo Lena
Percentagem de 1% a 3%
A acusação refere que depois de perder as legislativas de 5 de Junho de 2011, José Sócrates não deixou de acompanhar, já como ex-primeiro-ministro, a presença do Grupo Lena na Venezuela. O bom relacionamento que tinha mantido com o Presidente Hugo Chávez, a cujas cerimónias fúnebres assistiu a 8 de Março de 2013 a título pessoal, prolongou-se ao ser convidado pela Comissão Nacional Eleitoral venezuelana para acompanhar como observador internacional as eleições de 14 de Abril de 2013, das quais resultou a legitimidade sucessória do Presidente Nicolás Maduro.

Em Novembro de 2013, Carlos Santos Silva tentava desbloquear os pagamentos em atraso ao Grupo Lena relativos ao projecto de construção das 50 mil casas e terá pedido o apoio de Sócrates. Aproveitando deslocações à Europa de Temir Porras — o antigo chefe de gabinete de Maduro quando este era MNE veio a ser mais tarde secretário-executivo do Fundo de Desenvolvimento Nacional da Venezuela —, o ex-primeiro-ministro manteve três encontros com este responsável. Em Paris, a 22 de Novembro de 2013, dias depois, em 4 de Dezembro, em Lisboa, e, já em 2014, a 12 de Setembro, em Madrid.

Anteriormente, em 2 de Junho, José Sócrates também tivera em Lisboa um almoço com o vice-presidente da Venezuela e o embaixador daquele país. O Ministério Público refere que para além das dívidas ao Grupo Lena, Sócrates queria abordar assuntos do grupo suíço Octapharma, do qual passou a ser consultor para a América Latina a partir de 29 de Janeiro de 2013.

Mas os pagamentos dos venezuelanos ao Grupo Lena continuavam em falta, apesar dos contactos de Vitor Escária junto de Temir Porras. Escária fora assessor económico de Sócrates em São Bento, e viria a desempenhar o mesmo cargo no actual Governo de António Costa, demitindo-se de funções em Julho passado ao ser constituído arguido no caso das viagens ao Euro 2016 a convite da Galp. Carlos Santos Silva terá sugerido a Porras o pagamento de uma percentagem entre 1% a 3% dos 100 milhões de dólares em dívida “a título de contrato de agência”, mas os atrasos de pagamento prosseguiam.

A acusação assinala que os venezuelanos solicitaram a José Sócrates que gravasse uma declaração “com afirmações pré-definidas” de apoio internacional ao Governo de Caracas. O ex-governante não se mostrou disponível para isso, mas sim para proferir declarações favoráveis ao regime chavista no seu espaço de comentário semanal na RTP1, que a estação pública anunciava como “um olhar único, a análise exclusiva e a opinião de José Sócrates”. Contudo, só o faria se houvesse um sinal positivo para uma reunião, insistentemente pedida, com o Presidente Nicolás Maduro, que não se chegou a realizar. Dos 100 milhões de dólares em falta, foram pagos pouco mais de 33,6 milhões.

Loas a Argel na TV
Em 2013, Carlos Santos Silva e o Grupo Lena tentavam na Argélia um negócio de construção de 20 mil casas pré-fabricadas que abrangia a montagem de unidades produtivas, num projecto em tudo semelhante ao da Venezuela. Em jogo estava ainda, de acordo com o Ministério Público, a construção de hotéis, de uma torre de escritórios e de habitação na cidade de Oran. Então, a empresa portuguesa já estava envolvida na construção de hospitais em Tamanrasset, um povoamento no sul daquele país, e em Blida, a oeste de Argel. A primeira obra está concluída e a segunda, neste Outono de 2017, encontra-se na fase final. Ambas foram adjudicadas pelo Ministério da Defesa. O grupo português tinha também como objectivo participar em outras obras, nomeadamente a construção de hospitais na tutela das autoridades argelinas da Saúde, nas regiões de Argel e Tizi-Ozou, o centro berbere da Argélia.

Em Setembro de 2013, segundo a acusação, aproveitando os contactos mantidos com altos funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros enquanto primeiro-ministro, Sócrates requereu a Francisco Lopes, subdirector-geral dos Assuntos Europeus no Palácio das Necessidades, diligências junto da embaixada da Argélia para ser convidado a visitar aquele país e a encontrar-se com o Presidente Abdelaziz Bouteflika. Francisco Lopes, hoje embaixador de Portugal na ONU, fora seu assessor diplomático em São Bento. Sócrates ocultou-lhe a finalidade desta visita a Argel e mais tarde solicita-lhe ainda a marcação de uma outra reunião com o ministro da Saúde argelino.

A investigação da Operação Marquês considera que José Sócrates pretendia aproveitar a deslocação à Argélia nesse ano de 2013 para promover os interesses comerciais do Grupo Lena e da Octapharma, o grupo suíço de que era consultor. A embaixadora argelina, Fathia Selmane, referiu a Francisco Lopes que o Presidente Bouteflika estava doente, sugerindo uma reunião com o primeiro-ministro Abdfelmalek Sellal, considerado como o futuro sucessor do Presidente. Após o encontro que decorreu a 7 de Outubro, de acordo com o despacho de acusação que cita uma escuta, Sócrates afirmou a Carlos Santos Silva que “correu muito bem em conversa, ele disse que vocês iam ser chamados”.

Como não houve sequência, na oferta de dois exemplares do livro A confiança no mundo – sobre a tortura em democracia, um deles com dedicatória para o Presidente Abdelaziz Boutefflika, Sócrates voltou a abordar a proposta das casas pré-fabricadas do Grupo Lena com a chefe da delegação diplomática da Argélia em Lisboa. O Ministério Público refere que estas diligências do ex-primeiro-ministro de Portugal levaram a um jantar, em 2 de Dezembro de 2013, do ministro argelino da Habitação, Abdelmadjid Tebboune, com Joaquim Barroca, do Grupo Lena, e Carlos Santos Silva. E, mais tarde, em 6 de Fevereiro de 2014, a uma reunião com o ministro Tebboune.

Com a queda do preço do petróleo, Angola começou a ter problemas financeiros, o que colocou dificuldades às empresas portuguesas a operar naquele país. As sociedades do Grupo Lena não eram excepção
Mau grado a sucessão de encontros, não havia desenvolvimentos. Pelo que, na versão da acusação, “aproveitando a circunstância de ter sido convidado para observador internacional da preparação das eleições de 17 de Abril na Argélia”, Sócrates requereu à embaixadora Fathia Selmane uma reunião com o ministro da Habitação, na qual solicitou ao governante que recebesse o Grupo Lena. Em telefonema ao embaixador português em Argel, António Gamito, José Sócrates omitiu estas diligências: informou apenas que fora convidado pela diplomata argelina em Lisboa, em nome do ministro dos Negócios Estrangeiros, para se encontrar com o titular da pasta da Habitação, Abdelmadjid Tebboune. Este ministro argelino recebeu os empresários portugueses em 23 de Abril de 2014.

O Ministério Público destaca que o antigo chefe do Governo de Portugal prometeu proferir publicamente no seu programa de comentário semanal na RTP1 uma declaração de apreço sobre a forma como fora organizado e tinha decorrido o processo eleitoral da Argélia, que acompanhara como observador internacional. Fê-lo com uma semana de atraso em relação ao previsto, devido à transmissão televisiva de um jogo do Benfica.

Em Julho, perante a necessidade do Grupo Lena voltar a ser recebido pelo ministro da Habitação, Abdelmadjid Tebboune, a acusação refere que Carlos Santos Silva solicitou a intervenção de Sócrates junto do embaixador português na Argélia. O diplomata António Gamito, atendendo a que o pedido vinha do ex-chefe do Governo de Portugal que fora convidado como observador internacional às eleições, conseguiu o encontro para 31 de Julho. Em Outubro de 2014, Carlos Santos Silva terá reconhecido a Sócrates que “todos os passos estão a correr bem” no negócio na Argélia.

Atenções ao longo dos anos
Com a queda do preço do petróleo, Angola começou a ter problemas financeiros, o que colocou dificuldades às empresas portuguesas a operar naquele país. As sociedades do Grupo Lena não eram excepção. Segundo o Ministério Público, em Agosto de 2014, Carlos Santos Silva requereu a José Sócrates que conseguisse uma reunião com o vice-presidente angolano, Manuel Vicente, para abordar a questão.

Sócrates falou com Guilherme Dray, que fora seu chefe de gabinete em São Bento e seu adjunto no Ministério do Ambiente. Dray sugeriu-lhe que falasse com Carlos Costa Pina. Este antigo secretário do Estado do Tesouro e das Finanças nos VXII e XVIII governos constitucionais, ambos liderados por José Sócrates, advogado na área de exploração e produção de petróleo, é, desde 2012, membro do conselho de administração e da comissão executiva da Galp. Razão pela qual tinha possibilidade de contacto facilitada com o gabinete de Manuel Vicente, que fora presidente do Conselho de Administração da Sonangol, a petrolífera angolana.

Por mediação de Costa Pina, o ex-primeiro-ministro mantém uma conversa telefónica, em 3 de Setembro, com Manuel Vicente. Ao “vice” angolano, Sócrates manifesta interesse em ser por ele recebido ou que Vicente receba pessoas amigas que, de acordo com a acusação, definiu como a quem “deve ao longo dos anos umas atenções.” O dirigente angolano sugeriu um encontro em Nova Iorque à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, que decorreria daí a uns dias.

José Sócrates indaga junto de Francisco Lopes, subdirector-geral dos Assuntos Europeus, sobre as datas daquela reunião da ONU, e quem era o embaixador português na organização. Ao embaixador Mendonça e Moura, que conhecia dos tempos de chefe da delegação diplomática na União Europeia, em Bruxelas, o ex-chefe de Governo pediu que diligenciasse junto da representação de Angola nas Nações Unidas a marcação de um seu encontro com Manuel Vicente, não revelando ao diplomata o que pretendia tratar com o “número dois” de Luanda.


O encontro de Sócrates, acompanhado por Carlos Santos Silva e Joaquim Barroca, com o vice-presidente angolano teve lugar em 25 de Setembro na Missão de Angola em Nova Iorque. Na versão da acusação, o ex-primeiro-ministro apresentou os seus acompanhantes ao interlocutor angolano. O encontro foi frutífero para o grupo empresarial português, que resolveu as questões pendentes quanto às sociedades por ele participadas em Angola.

sábado, 2 de dezembro de 2017

A Câmara de Lisboa vai gastar mais de um milhão de euros por ano em salários para assessores e secretárias da Assembleia Municipal, até 2021.



Assembleia com dinheiro para todos
A CML aprovou por unanimidade a proposta de Helena Roseta. Todos os grupos parlamentares da Assembleia Municipal de Lisboa têm direito a contratar assessores e secretárias com ordenados muito acima da média. É assim há anos, mas só em Lisboa.
JEM reage ao SOL: "Há deputados que eram assessores de si próprios"
A Câmara de Lisboa  vai gastar mais de um milhão de euros por ano em salários para assessores e secretárias da Assembleia Municipal, até 2021.

POLITICA 2 de dezembro 2017

De acordo com a proposta de apoio técnico aos grupos políticos  com assento na Assembleia Municipal, aprovada na sexta-feira 23 de novembro, por unanimidade, cada assessor a tempo inteiro tem um salário mensal de 3.752,5 euros brutos, acrescidos da taxa de IVA em vigor (23%). A tempo parcial o valor baixa para 1.876,25 euros (sem IVA).

Já uma secretária a tempo inteiro tem uma remuneração de 2.802,5 euros mensais, também acrescidos de IVA. Mas se for a regime parcial é de 1.401, 25 euros mensais, a que se soma IVA.  

Desta forma, um assessor ou até mesmo uma secretária da Assembleia Municipal de Lisboa têm uma remuneração mais alta face ao salário médio de um médico, de um professor do básico e  secundário ou universitário, ao de um diplomata ou ao de um enfermeiro.  Um assessor da Assembleia Municipal chega a ter uma remuneração equivalente à do salário base de um deputado do Parlamento e superior à de um chefe de gabinete de um ministro (ver tabelas).

No total, durante este mandato, por mês é pago 66.419,25 euros em salários para assessores dos deputados municipais, a que se somam 14.573 euros com remunerações mensais para secretárias.

Contas feitas, só em despesas com salários para apoio técnico são gastos todos os meses 80.992,25 euros, acrescidos de IVA. No final do ano, a fatura sobe para 971.907 euros (contabilizando 12 meses) a que soma o IVA.


Fora destas contas estão todos os salários com secretárias e assessores do Presidente da Assembleia Municipal e dos dois secretários. Com estes são gastos mais  20.615 euros mensais, sem IVA. Estas despesas são suportadas pelo orçamento da autarquia que foi apresentado nesta quarta-feira e que irá ser apreciado em reunião de Câmara no dia 14 de dezembro. Para 2018 a autarquia aponta para uma despesa total de 1.099 milhões de euros.

PORTO / BE quer intervenção do Governo em bairro onde 35 famílias serão despejadas para dar lugar a alojamento local


"Este fenómeno do Alojamento Local extravasou completamente aquele que era o seu conceito inicial, de partilha de habitação, vindo da economia de partilha, e passou a ser uma indústria que está a ser promovida pela própria industria hoteleira e entidades imobiliárias que estão a aproveitar esta flexibilidade e facilidade que há no AL para levarem a cabo empreendimentos turísticos, fugindo completamente ao conceito de AL"

OVOODOCORVO



PORTO
BE quer intervenção do Governo em bairro onde 35 famílias serão despejadas para dar lugar a alojamento local
O bairro situado na escarpa dos Guindais, no Porto, foi comprado no mês passado por uma empresa imobiliária que notificou os moradores na última semana. Está a ser criada uma comissão de moradores no sentido de reverter a situação. BE enviou documento ao Ministério do Ambiente para que a questão tome outro rumo.

ANDRÉ VIEIRA 1 de Dezembro de 2017, 20:09

São cerca de 35 famílias, aproximadamente 50 pessoas, do aglomerado residencial composto por 88 casas do Bairro da Tapada que estão em vias de ser despejadas pela empresa de investimento imobiliário Porto Baixa, que no início do mês passado comprou aquela área habitacional das Fontainhas, no Porto, para a converter em alojamento local. Um terreno contíguo terá sido comprado em Junho. Há uma semana, sem que os moradores esperassem, chegou pelo correio o aviso endereçado pela empresa: o terreno foi comprado e o futuro de quem lá vive é incerto.

Os primeiros a sair serão os que têm contratos com prazo. Assim que terminem, à medida que as casas forem ficando livres, disse a empresa na semana passada, transformam-se em alojamento local para turistas. Aos moradores mais antigos foi prometido que nada acontecerá de imediato. 

Nesta sexta-feira de manhã, José Soeiro e Maria Manuel Rola, deputados do Bloco de Esquerda à Assembleia da República, visitaram o bairro da escarpa dos Guindais, na Sé, para dar a conhecer aos moradores um documento que seguiu para o Ministério do Ambiente a 27 de Novembro, cujo conteúdo alerta e questiona o Governo relativamente ao futuro indefinido de quem lá mora.

Na redacção, assinada pelos dois deputados, é levantado um conjunto de questões relativo aos mecanismos e regulamentação previstos pelo governo para o alojamento local. Pergunta-se quais as medidas que serão tomadas para salvaguardar o bairro residencial da Tapada, questiona-se para a urgência da criação de “grupos técnicos locais” para o apoio da população residente em processos de “expulsão especulativa” e reclama-se medidas que evitem “situações de compra massiva de bairros” para alojamento local. Diz José Soeiro querer ver as mesmas questões respondidas pela câmara do Porto.

No bairro com vista desafogada para o rio Douro há quem lá viva há mais de 70 anos. Parte dos moradores, que dizem não ter sido avisados pela senhoria para as negociações que estavam a ser feitas com a empresa, investiram do próprio bolso para obras levadas a cabo nas casas. Uma moradora que, apesar de lá viver desde os três anos de idade, tem novo contrato prestes a terminar por ter mudado para outra casa do mesmo bairro diz ter investido aproximadamente 8 mil euros nos últimos dois anos. Será a sua família uma das primeiras a ter que abandonar o bairro.

Com rendas a rondar os 100 e os 200 euros, temem que ao serem despejados não tenham poder económico para arrendar outra casa. Grande parte dos residentes já está reformada ou aufere rendimentos baixos. Por enquanto, não querem pensar ainda nessa possibilidade, sendo que sair dali é uma hipótese que não põem em cima da mesa.


No sentido de que se reverta a situação está a ser criada uma comissão de moradores. Até que seja criada preferem não veicular nenhuma posição concreta. Só após reunião agendada para as 16h da próxima quarta-feira, no Círculo Católico Operário do Porto, onde será escolhido um porta-voz, será emitida uma posição conjunta.

Nos 377 anos do 1º de Dezembro, uma viagem pela História e pela tenaz identidade de um pequeno país ibérico


377 anos depois da revolta contra o Iberismo e o Projecto de Castela.
Perguntem aos Galegos, Catalães, Bascos e Andaluses o que pensam da nossa Tenacidade…
Portugal Sempre, numa Europa regida sobre o Princípio da Unidade em Diversidade
OVOODOCORVO

Nos 377 anos do 1º de Dezembro, uma viagem pela História e pela tenaz identidade de um pequeno país ibérico
MANUELA GOUCHA SOARES
RUI CARDOSO

Quando Portugal e Espanha aderiram à CEE, dizia-se em Bruxelas, que “Portugal pediu para aderir à Europa, mas os espanhóis pensam que foi a Europa que pediu para aderir à Espanha”. Salvaguardadas as devidas diferenças entre o tamanho e a capacidade negocial dos dois países ibéricos, a blague bruxelense retrata com humor algumas diferenças entre os dois povos, espécie de gémeos falsos que se acicatam entre si.

A estratégia de negociação portuguesa foi marcada por um “acentuar das diferenças entre os objetivos de Portugal e os da Espanha no processo negocial”, diz ao Expresso o embaixador João Rosa Lã, que à época era o funcionário da nossa legação diplomática em Bruxelas responsável pelas relações com a Espanha: “Em meados de 1984, Mário Soares, que esperava que Portugal aderisse antes da Espanha, deu instruções para não aproximar” a nossa argumentação da do grande país vizinho.

TRÁGICOS OU QUIXOTESCOS?
A adesão à CEE mudou para sempre a relação entre portugueses e espanhóis, e quase que acabou com o velho ditado “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento”. Com o alargamento do número de [países] parentes, de 1986 para cá, os falsos gémeos deixam de funcionar no espaço ibérico para dialogarem num “quadro multilateral, em que [até] passam a ter uma relação diferente em termos de política de defesa”, diz Rosa Lã.

Para Miguel Real, “a Europa matou o iberismo; não faz sentido defender uma região na Europa” que mais não é do que um espaço/região maior: “Não deixamos de ser europeus por termos uma identidade histórica como povo ibérico, ou uma outra que passa pela afirmação contra a Espanha”.

Basta lembrar que o poeta e ensaísta “Miguel de Unamuno falava no tragidismo português, no Portugal país suicida, referindo que quando colocados perante a mesma situação dos espanhóis, os portugueses entristecem melancolicamente e têm uma expressão trágica, enquanto o espanhol transforma a tragédia na ironia quixotesca”, lembra o filósofo e escritor Miguel Real.

O PARTO DA IDENTIDADE
Tudo começou em 1128 quando os partidários do príncipe Afonso e de sua mãe D. Teresa se enfrentaram em São Mamede, ainda que ambos protagonizassem projetos de rutura com o reino de Leão. A diferença é que, como nos ensina José Mattoso, Afonso previa a expansão à custa do mouro, com base na nobreza minhota e nas gentes da fronteira, mais aptas para esta guerra do que a nobreza galega, que daí em diante se veria privada de possibilidade de expansão para sul, e condenada a prazo a ser absorvida por Leão e Castela.

Durante a crise de 1383/85 D. João de Castela esteve a milímetros do trono português, fosse pela via jurídica (casamento com D. Beatriz, filha de D. Fernando), fosse pela via militar. Mas, como lembra o historiador e docente da Faculdade de Letras de Lisboa, Pedro Gomes Barbosa, “este cenário resultara do envolvimento de D. Fernando nas disputas dinásticas castelhanas em três guerras, todas perdidas e com consequências cada vez piores”.

Apesar da vitória de Aljubarrota (14 de agosto de 1385), “houve guerra com Castela até 1411, ainda que nos últimos anos fosse mais paz podre que conflito”, lembra Barbosa.

Com D. João I, surge a aliança com os ingleses e uma nova dinastia, que viria a ter um fim trágico; e, em 1580, surge também um novo rei espanhol com legitimidade e força militar para disputar a sucessão de D. Sebastião, dando assim início à chamada monarquia-dual, mais conhecida por domínio filipino .

DIVÓRCIO IBÉRICO
No dia 1 de Dezembro de 1640, “Portugal deixou de ter uma identidade ibérica, ao contrário do que aconteceu nos reinados de D. João II, D. Manuel, D. João III” e posteriormente no período da monarquia-dual, diz Miguel Real, referindo-se “à espécie de importação dos costumes da corte: escritores como Camões, Gil Vicente ou Sá de Miranda escreviam em castelhano e português, e existiam hábitos que eram como que mimetizados da corte” de Castela. Com a Restauração, “Portugal liberta-se do domínio de Madrid, e o modelo comportamental da corte passa a ter como referências Paris e a corte de Versailles. Este novo modelo prolonga-se até ao século XVIII; a construção do Palácio de Queluz, uma pequena Versailles é apenas um exemplo da mimetização de costumes”.

Certo é que após a separação das duas coroas ibéricas em 1640, não voltou a haver momentos de perda iminente da independência a não ser durante as Invasões Francesas, nas quais as tropas espanholas foram aliadas de Napoleão, chegando a ajudar Junot a ocupar Portugal entre 1807 e 1808.

QUEM MANDA MAIS?
Durante o século XIX, liberais e absolutistas atravessarão várias vezes a fronteira para ajudar os seus correligionários mas as coisas ficaram-se sempre por aí em termos militares. O iberismo surge com a monarquia constitucional; Oliveira Martins e Teófilo Braga advogam este projeto. Anos depois, na I República, o reino espanhol ajudará, mas não muito, as guerrilhas monárquicas de Paiva Couceiro.

Na segunda metade do século XIX, após a revolução de 1868 que expulsou de Espanha a rainha Isabel II e sua família, e perante a ameaça da proclamação da república, a coroa de Espanha foi oferecida a D. Luis, rei de Portugal, que a recusa; os espanhóis tentam encontrar uma nova solução política em Portugal, oferecendo a coroa ao viúvo da rainha D. Maria II — que entretanto casara em segundas núpcias com a condessa de Edla. Este não recusa de imediato, e põe duas condições para aceitar: que as duas coroas nunca pudessem reunir-se numa só cabeça (evitando assim a repetição do cenário da monarquia-dual), e que a sua segunda mulher fosse rainha. Como lembra a historiadora Margarida de Magalhães Ramalho (autora do livro “900 Anos a Irritar os Espanhóis”), uma passagem do diário de Thomaz Mello Breyner (médico e amigo de D. Carlos), sugere que dificuldades no reconhecimento da condessa como rainha terão pesado na recusa de D. Fernando. Por trás do convite estava uma ideia de união ibérica que o próprio rejeitava.

Em março de 1939 quando os franquistas entraram vitoriosos em Madrid; parte da Falange pediu a Franco que invadisse Portugal. Seria um exercício de cinismo, porque ao longo da guerra civil o salazarismo foi retaguarda logística do franquismo. Mas se nos lembrarmos de que o trabalho feito por Franco para ascender ao generalato tinha o sugestivo título “Como invadir e ocupar Portugal em 72 horas”, talvez se perceba a pressa com que Salazar despachou o embaixador Theotónio Pereira para Madrid e a contenção com que falou na Assembleia Nacional sobre a vitória franquista: “Ganhámos, eis tudo…”

Começada a II Guerra Mundial, Portugal foi neutro mas a 11 de novembro de 1940 Espanha aderia ao Pacto de Aço com Alemanha e Itália. Franco negoceia com Hitler um ataque a Gibraltar (Operação Felix) e prepara um ataque preventivo, para evitar um desembarque inglês em Lisboa. Em 2009 o historiador espanhol Manuel Ros Agudo desenterrou dos arquivos o Plano de Campanha nº 1 (34) que o previa. Os voluntários da Divisão Azul mandados por Franco para a frente russa ao lado dos nazis em 1941 saíram de Madrid a cantar: “Só esperamos a ordem/ que nos dê o nosso general/ para apagar a fronteira/ entre Espanha e Portugal…”


Livres de Franco e de Salazar os dois países seguiram finalmente os caminhos. “Se os espanhóis conhecessem de facto a História de Portugal, seriam eles a comemorar o 1º de Dezembro por se terem visto livres de nós”, diz Pedro Gomes Barbosa.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Ideal monárquico está a seduzir simpatizantes do Bloco e do PCP


Ideal monárquico está a seduzir simpatizantes do Bloco e do PCP
(...) "Questiona-se como pode ter a certeza da origem dos novos simpatizantes virem da esquerda? "Sabe-se de onde vêm porque na ficha de inscrição existe um espaço para dizer a que organizações pertencem. Posso dizer que é muito diferente de há uns anos, quando havia apenas uma ou duas inscrições. Nos últimos tempos é mais tão notório e surpreendente porque têm uma natureza republicana que nos surpreendeu." Acrescenta: "Estou muito contente, porque são pessoas que não nos costumavam apoiar!"
O responsável da Juventude Monárquica refere que as reuniões monárquicas que atraem os simpatizantes de esquerda não se preocupam apenas em debater os ideais monárquicos: "Não somos uma juventude partidária, fazemos parte da Causa Real e quem frequenta estas Academias são jovens em que o denominador comum é apoiar D. Duarte."
Poder-se-ia achar que é só ao nível de jovens de esquerda, mas o presidente da Causa Real, António de Sousa-Cardoso, esclarece: "Temos cada vez mais simpatizantes e um enorme aumento de curiosidade sobre o movimento devido à perda de referências e de identidades das populações." Quando se lhe pergunta quantos são os filiados, aponta "cerca de dez mil associados" e faz questão de deixar claro que "temos pessoas de todos os partidos representados na Assembleia da República", militantes que assinaram a "petição para acolhimento de D. Duarte no protocolo de Estado".

Vamos à questão da esquerda nas fileiras monárquicas. Existem personalidades do PS? "Existem vários simpatizantes sim." E do PCP? "Sim, temos registo de que existem do PCP." E do Bloco de Esquerda? "Sim, mesmo sendo mais recente como partido."
Para justificar a atração de comunistas dá dois exemplos: "No PCP, são os próprios dirigentes que insistem mais nas visitas de D. Duarte e D. Isabel às suas autarquias." Recorda também que o facto de Juan Carlos ter autorizado o regresso do Partido Comunista Espanhol deverá ter alguma importância no caso destes simpatizantes, pelo menos dos que "leem bem a história e percebem o mudar dos tempos".
https://www.dn.pt/…/ideal-monarquico-esta-a-seduzir-simpati…

Ideal monárquico está a seduzir simpatizantes do Bloco e do PCP
O pretendente ao trono D. Duarte e o filho, D. Afonso  |  ORLANDO ALMEIDA/GLOBALIMAGENS

01 DE DEZEMBRO DE 2017
01:36
João Céu e Silva

O feriado de hoje traz uma novidade: há muitos militantes de esquerda dos principais partidos a frequentar as academias de formação monárquica e deputados que defendem a família real no protocolo de Estado

O atual Presidente da República foi nomeado administrador [vitalício] da Fundação da Casa de Bragança; Rui Moreira, entregou o cartão para ser autarca do Porto, tal como Miguel Albuquerque, presidente do governo regional da Madeira; Paulo Portas suspendeu a militância monárquica para ir para o governo; há socialistas partidários do referendo à monarquia no Parlamento; os comunistas convidam frequentemente D. Duarte para visitar as autarquias e há militantes do Bloco de Esquerda a frequentar os encontros da Juventude Monárquica...

O que se passa com os ideais republicanos e o que ganham os defensores da monarquia com a descrença dos portugueses num sistema político democrático em que os escândalos surgem em catadupa no Portugal que hoje volta a comemorar pela segunda vez o feriado da Restauração da Independência depois de o PSD e o CDS o terem abolido na anterior legislatura, um país em que D. Duarte quer ser entronizado como chefe de Estado e propõe substituir-se aos presidentes da República na qualidade de rei.

Quando se pergunta a Dom Duarte se a alteração da chefia de Estado não é ir longe de mais, responde assim: "O que não compreendo é que não se autorize numa democracia acabar com o sistema democrático." Deveria esta questão fazer parte de uma próxima revisão constitucional? D. Duarte acha que sim: "Não é honesto não fazer a pergunta aos portugueses, até porque a República foi proclamada por golpe militar e nunca foi referendada."

Se é óbvio que D. Duarte desejaria que a monarquia que representa e lidera voltasse a ter um papel tutelar na organização política portuguesa, o mesmo não se esperaria dos republicanos, principalmente de militantes dos partidos mais à esquerda. Não existindo números oficiais sobre os que olham com tolerância um regresso a uma governação monárquica ao nível mais alto, D. Duarte acena com um argumento: "Há uma sondagem feita por altura do centenário da República que ficou na gaveta porque não interessava revelar as suas conclusões: 40% disseram que não são republicanos. Se com a atual situação, 40 % já perceberam que o sistema republicano de chefia de Estado não é boa para Portugal, estou convencido que se houvesse informação sobre o sistema monárquico essa percentagem iria aumentar com certeza. Basta ver os bons exemplos de países europeus."

D. Duarte vai mais longe ao considerar que o comportamento do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa "é semelhante ao que seria o de um rei" e que por via desta atuação política fica mais fácil aos portugueses comparar os dois regimes. Por isso alerta: "Não se sabe quem se seguirá depois dele. Pode não ter este perfil, como alguns dos seus antecessores, que desagradaram a grande parte da população e preocuparam-se mais em favorecer o partido de onde vinham." Para que não fiquem dúvidas sobre a comparação entre rei e Presidente, recorda: "Quem mais claramente tentou agir como um rei enquanto Presidente foi o general Eanes."

Projeto político falhado

Não é preciso investigar muito para confirmar que os ideais monárquicos sempre seduziram bastante os que em Portugal votam CDS, ligeiramente menos os do PSD e um pouco os do PS, mas o que surpreende é que atualmente militantes de esquerda se interessem pelos ideais monárquicos: do PCP e do Bloco de Esquerda, por exemplo. Uma realidade política que pode parecer inacreditável quase cento e dez anos após a implantação da República e apesar de todo o esforço com que os republicanos baniram os representantes da dinastia de Bragança e confiscaram os seus bens, mas que nos últimos tempos se deleitam com as reportagens do casamento de Dom Duarte com Isabel de Herédia, ou ainda, no fim de semana passado, com o relato do baile de debutantes em Paris que apresentou a filha Maria Francisca à sociedade, na companhia dos irmãos Afonso e Dinis.

Ao fim de quatro décadas de democracia, pode dizer-se que a tentativa dos representantes e simpatizantes da monarquia em obterem um papel político através das eleições falhou. Essa solução surgiu com a formação de uma estrutura partidária, o Partido Popular Monárquico (PPM), que teve em Gonçalo Ribeiro Telles um dos principais impulsionadores, mas as divergências com D. Duarte levaram a um quase desligamento do partido e à pouca representação eleitoral.

A deputada do PPM na Assembleia Municipal de Lisboa, Aline Gallasch-Hall de Beuvink, uma das duas deputadas que foram eleitas em coligação com o CDS, insiste nas virtualidades da chefia real do Estado enquanto defende o partido que representa: "O pouco peso político do PPM não é problema. Temos 43 anos de história e preconizámos várias ideias que só 20 anos depois foram tomadas. Se acham que a monarquia é retrógrada é porque não percebem que é algo presente no quotidiano de vários países da Europa. Sempre dos mais avançados e com melhor nível de vida."


O aumento dos simpatizantes monárquicos, contudo, não aparece do nada. Há mais de uma década criaram-se as Reais Associações em todos os distritos portugueses e, com a organização madura, surgiu a Causa Real. Um movimento em torno de D. Duarte, que o inspirou também, onde se reúnem os ativistas monárquicos, mas também os simpatizantes que existem espalhados pelo país e que votam - com exceção das eleições presenciais em que a maioria se recusa a escolher um presidente - nos partidos que mais os atraem.

Sedução à esquerda

O que surpreende é que o modelo de governação em vigor em Portugal já seja preterido por milhares de portugueses que veem numa chefia de Estado protagonizada por D. Duarte a melhor solução. Uma surpresa que cresce quando se podem contabilizar algumas dezenas de militantes de esquerda, vindos do Partido Comunista Português e do Bloco de Esquerda, sempre presentes nas sessões em que se reúnem monárquicos mais tradicionais.

Uma das estruturas monárquicas que tem recebido mais apoios esquerdistas é a Juventude Monárquica. O presidente da organização, Gonçalo Martins Silva, confirma que pelo menos duas dezenas de esquerdistas vão regularmente aos encontros da organização na região de Santarém: "Há muita gente nova e cada vez mais pessoas aparecem regularmente, independentemente dos quadrantes políticos habituais." Especifica: "Além do CDS e do PSD, temos tido bastantes inscrições de jovens que vêm da Juventude Socialista, uma dezena do PCP e, surpreendentemente, do Bloco de Esquerda também. Estes são a grande novidade."

 Questiona-se como pode ter a certeza da origem dos novos simpatizantes virem da esquerda? "Sabe-se de onde vêm porque na ficha de inscrição existe um espaço para dizer a que organizações pertencem. Posso dizer que é muito diferente de há uns anos, quando havia apenas uma ou duas inscrições. Nos últimos tempos é mais tão notório e surpreendente porque têm uma natureza republicana que nos surpreendeu." Acrescenta: "Estou muito contente, porque são pessoas que não nos costumavam apoiar!"

O responsável da Juventude Monárquica refere que as reuniões monárquicas que atraem os simpatizantes de esquerda não se preocupam apenas em debater os ideais monárquicos: "Não somos uma juventude partidária, fazemos parte da Causa Real e quem frequenta estas Academias são jovens em que o denominador comum é apoiar D. Duarte."

Poder-se-ia achar que é só ao nível de jovens de esquerda, mas o presidente da Causa Real, António de Sousa-Cardoso, esclarece: "Temos cada vez mais simpatizantes e um enorme aumento de curiosidade sobre o movimento devido à perda de referências e de identidades das populações." Quando se lhe pergunta quantos são os filiados, aponta "cerca de dez mil associados" e faz questão de deixar claro que "temos pessoas de todos os partidos representados na Assembleia da República", militantes que assinaram a "petição para acolhimento de D. Duarte no protocolo de Estado".


Vamos à questão da esquerda nas fileiras monárquicas. Existem personalidades do PS? "Existem vários simpatizantes sim." E do PCP? "Sim, temos registo de que existem do PCP." E do Bloco de Esquerda? "Sim, mesmo sendo mais recente como partido."

Para justificar a atração de comunistas dá dois exemplos: "No PCP, são os próprios dirigentes que insistem mais nas visitas de D. Duarte e D. Isabel às suas autarquias." Recorda também que o facto de Juan Carlos ter autorizado o regresso do Partido Comunista Espanhol deverá ter alguma importância no caso destes simpatizantes, pelo menos dos que "leem bem a história e percebem o mudar dos tempos".

Ter um rei antes de morrer

O presidente da Real Associação de Lisboa, João Távora, faz questão de destacar a transversalidade partidária dos novos simpatizantes, mesmo que avise que "a questão monárquica não é partidária e que a legitimidade da monarquia é histórica". No entanto, confirma: "Vou a um congresso do CDS ou do PSD e não faltam monárquicos. É certo que têm empregos com ligação ao regime porque estão integrados no sistema. Aliás, no CDS são uma grande maioria."


Quais as razões desta adesão aos ideais monárquicos? João Távora aponta: "Gostam da nossa bandeira e há uma grande simpatia por D. Duarte e D. Isabel por considerarem que o topo da pirâmide governativa deve estar fora e isenta da luta política e dos jogos de interesse para se chegar à chefia do Estado, bem como dos recursos económicos que os partidos precisam para a sua atividade".

Para Gonçalo Martins Silva, a sedução dos mais jovens vem do facto de "os países mais democráticos da Europa serem monarquias. Isso chama a atenção dos jovens que participam nas academias de formação monárquica e demonstra que a República tudo tem feito para induzir o pensamento único próprio da democracia. Essa fixação impede muitos portugueses de compreenderem a monarquia e querem que se confunda com o absolutismo. O que não é a verdade".


Apesar desta onda monárquica que começa a invadir a esquerda, nenhum dos entrevistados espera ver D. Duarte como rei durante a sua vida. Nem o próprio, diga-se.


D. Duarte Pio: "Há muitos aspectos em que o PCP e o BE têm razão"

D. Duarte Pio: "Há muitos aspectos em que o PCP e o BE têm razão"
12:14 por Cátia Andrea Costa

Duque de Bragança considera que a monarquia belga seria o melhor exemplo para introduzir em Portugal.
D. Duarte Pio não tem dívidas em considerar que a monarquia belga seria o melhor exemplo para introduzir em Portugal, recordando que "muitos países da UE são monarquias e até dos mais europeístas". Elogia as preocupações do PCP e do BE e garante gostaria de falar com o primeiro-ministro, António Costa, sobre o caminho que o Governo está a levar.
"O modelo excelente tem sido o da Bélgica. Em crises governamentais, o rei nomeia governos e tem funcionado bem", disse numa entrevista ao Diário de Notícias, onde frisou que a realização de um referendo para a restauração da monarquia "depende do espírito democrático dos deputados". "Há os que consideram que não se deve fazer essa pergunta ao povo porque a resposta pode sair errada e não a irão aceitar", reforçou, acrescentando: "A Constituição proíbe sair da forma republicana de Governo, mesmo que o professor Jorge Miranda não concorde com isso".
D. Duarte pensa também que a realização de um referendo não teria porque incomodar a União Europeia, dando como exemplos países como a Bélgica e o Luxemburgo. "Os meus primos da Bélgica do Luxemburgo não têm reticências à União - mesmo que eu tenha. Sentem mesmo que o país perca parte da sua independência política como mantém a sua monarquia não perderão a identidade. Acho que a União não deve exagerar na centralização, pois pode criar reacções negativas por parte das populações", defendeu.
Na mesma entrevista, D. Duarte considerou que a maioria parlamentar que apoia do Governo de Costa, a chamada "geringonça", tem "aspectos muito positivos, como o de conseguir que partidos que nem sempre se deram bem sejam capazes de viabilizar um Governo. O que é perigosos é não aproveitarem a situação para diminuir a dívida, por exemplo". O duque de Bragança garantiu que gostava de falar com Costa sobre estas situações, mas que nuncca o fez. E deixou um reparo aos partidos políticos: "Há muitos aspectos em que o PCP e o Bloco de Esquerda têm razão. Mais nas preocupações do que nas soluções que propõem, embora o PCP tenha mostrado muito boas soluções no que tem proposto. Só que há um espírito clubista que não permite aos grandes partidos aproveitar boas propostas."
D. Duarte explicou ainda que não teria porque não aceitar a "geringonça", visto que "os reis europeus nunca tomam uma posição pública que possa contrariar a dos políticos, só o fazem em particular para encontrar bons compromissos". "Nem tenho memória de um rei derrubar um governo, como aconteceu em Portugal, ainda por cima maioritário", rematou.


 D. Duarte: "Para muitos espanhóis não faz sentido a independência de Portugal"
 01 DE DEZEMBRO DE 2017
João Céu e Silva

D. Duarte desconfia do país vizinho e o filho, D. Afonso, na sua primeira entrevista, defende um referendo sobre o regime

Antes de dar início à entrevista, D. Duarte critica a atuação recorrente dos partidos: "Qualquer dona de casa sabe que se gastar o que não tem acaba mal e vemos que os constantes primeiros-ministros não percebem ou não querem entender isso. É uma síndrome republicana resolver os problemas até às próximas eleições e que a população esteja contente." Ao seu lado está o sucessor, o infante D. Afonso, que fez as primeiras declarações públicas nesse estatuto neste encontro (no final).

Entrevista a D. Duarte

Para muitos espanhóis não faz sentido a independência de Portugal

Estão a aumentar os simpatizantes dos valores monárquicos?

Esse é um número difícil de avaliar, mas os valores dizem que há 30% de pessoas que acham que um rei era melhor que um Presidente e 70% considera que o Estado português deve reconhecer a família real e dar-lhe um lugar oficial. Ou seja, são simpatizantes mesmo que não sejam monárquicos. Por outro lado, diria que não há assim tantos republicanos convictos e muitos dos que existem são por razões que não têm base política mas afetiva ou familiar. Outro número a ter em conta é que os inscritos nas reais associações tem aumentado.

Há quem defenda núcleos monárquicos nos partidos. Concorda?

Sim, lembro-me até que nos anos 1980 havia um núcleo monárquico no PS. É óbvio que há mais tendência para os monárquicos escolherem partidos conservadores do que os de esquerda, embora o grupo de Gonçalo Ribeiro Teles fosse considerado de esquerda.

O Partido Popular Monárquico foi um erro?

Não posso dizer que seja um erro, pois às pessoas que são monárquicas assiste o direito a terem um partido, mas benéfico não é porque muita gente identifica o movimento monárquico com o PPM e não se percebe da exata alternativa monárquica à republicana.

Os simpatizantes da monarquia votam no PPM?

A maior parte vota noutros partidos.

Que modelo de monarquia atual seria melhor para Portugal na sua opinião?

O modelo excelente tem sido o da Bélgica. Em crises governamentais o rei nomeia governos e tem funcionado bem.

A questão do referendo para a restauração da monarquia é uma luta dos monárquicos. Há condições?

Depende do espírito democrático dos deputados. Há os que consideram que não se deve fazer essa pergunta ao povo porque a resposta pode sair errada e não a irão aceitar. No entanto, já houve uma maioria de deputados favoráveis há uns anos que não conseguiram os dois terços necessários. A Constituição proíbe sair da forma republicana de governo, mesmo que o professor Jorge Miranda não concorde com isso.

O que diria a União Europeia se houvesse referendo sobre a monarquia?

Muitos países da UE são monarquias e até dos mais europeístas. Porquê? Os meus primos da Bélgica e do Luxemburgo não têm reticências à União - mesmo que eu tenha . Sentem que mesmo que o país perca parte da sua independência política como mantêm a sua monarquia não perderão identidade. Acho que a União não deve exagerar na centralização, pois pode criar reações negativas por parte das populações.

Por isso foi contra o euro?

Defendi que a entrada no euro foi má para a economia portuguesa. Sair? Não se deve dramatizar excessivamente, antes analisar as alternativas.

Quando se o ouve a dizer isso parece sintonizado com o Bloco de Esquerda!

Há muitos aspetos em que o PCP e o Bloco de Esquerda têm razão. Mais nas preocupações do que nas soluções que propõem, embora o PCP tenha mostrado muito boas soluções no que tem proposto. Só que há um espírito clubista que não permite aos grandes partidos aproveitar as boas propostas.

Se fosse rei aceitaria uma geringonça?

Os reis europeus nunca tomam uma posição pública que possa contrariar a dos políticos, só o fazem em particular para encontrar bons compromissos. Nem tenho memória de um rei derrubar um governo, como aconteceu em Portugal, ainda por cima maioritário.

Quanto à geringonça...

Tem aspetos muito positivos, como o de conseguir que partidos que nem sempre se deram bem sejam capazes de viabilizar um governo. O que é perigoso é não aproveitarem a situação para diminuir a dívida, por exemplo.

Já o disse ao primeiro-ministro?

Não, só nos temos encontrado em ocasiões públicas. Mas gostava de falar com ele sobre o assunto.

Os monárquicos estão em vários partidos. A que se deve essa integração?

Porque existem deputados socialistas que são monárquicos. No PCP, nunca ouvi nenhum abertamente monárquico mas há muitos simpatizantes. Basta ver como nos recebem bem.

Acompanha a crise na Catalunha?

Nós, portugueses, podemos fazer muito pouco. No entanto, devíamos preparar-nos para as várias possibilidades deste processo no futuro, mesmo que para os portugueses seja indiferente.

Quase todos os seus antecessores tiveram de se defender de Castela. Qual é a sua posição sobre a nossa integridade?

Prefiro não falar nisso para não ofender todos os meus amigos espanhóis, a começar pelos meus primos. Diria que Juan Carlos e Felipe têm conseguido manter a estabilidade e unidade.

Franco, no entanto, fez uma tese sobre a invasão de Portugal em 24 horas...

Saiu um artigo numa revista em França que relata esse projeto de invasão de Portugal e porque não foi para a frente. Salazar demonstrou a Franco que os EUA iriam entrar na II Guerra Mundial e o seu potencial levaria à derrota da Alemanha. Portanto, Espanha não deveria ficar do lado dos derrotados. Essa é uma razão, há outra: os espanhóis não sabiam qual a reação dos portugueses e como lhes tinham corrido mal as anexações de territórios em Marrocos... Para muitos espanhóis não faz sentido a independência de Portugal, mesmo que sejam muito amigos do nosso país e ótimas pessoas. Recordaria que um político português perguntou a Juan Carlos se não achava que era hora de pensar a União Ibérica e a resposta foi que estava mais preocupado com a união espanhola.

Está em perigo neste momento?

Sim, mas se tivesse havido consulta popular, o resultado seria maioritariamente a favor da união com a Espanha.

Juan Carlos faria o mesmo discurso que o rei Felipe sobre a questão catalã?

Provavelmente teria evitado tomar uma posição pública.

Como viu a passagem de testemunho?

Para o príncipe Felipe teria sido preferível ter tido mais um tempo de liberdade antes de assumir responsabilidades, mas o estado de saúde de Juan Carlos levaram Felipe a assumir o cargo.

Ficou chocado com a destruição do Pinhal de Leiria?

Foi uma dor de alma deixar arder uma floresta que tem 800 anos só porque não tem sido bem cuidada.

Dá atenção ao ambiente. Como viu Trump rasgar o Acordo de Paris?

Estou convencido que a sua base de apoio é muito empresarial e não gostam da política ambiental de Obama - melhor que a atual. É um problema tipicamente republicano, o de satisfazer quem apoiou a sua candidatura.

Foi visto em programas de TV mais leves ...

... Foi divertido. A maior parte dos monárquicos que consultei não queriam que fosse - estavam preocupados -, mas a minha experiência é de que me dou bem nos programas. Estou à vontade e os entrevistadores são amáveis.

Não acatou as opiniões mas também foi sempre rebelde, até fez uma greve de fome no Colégio Militar.

Foi uma iniciativa conjunta devido a uma injustiça feita a um aluno. Uma experiência interessante, porque ser adolescente é o máximo da aventura.

Já teve dessas "experiências interessantes" de rebeldia com os seus filhos?

Muitas vezes estão em desacordo comigo mas conversamos e chegamos a uma conclusão. Claro que é mais fácil com homens do que raparigas, elas são por norma mais emocionais. Mas as mulheres políticas são muito melhores que os homens, pois quase sempre têm uma visão menos setorial da realidade e são menos agressivas.

Algum dos seus filhos renega o ideal monárquico?

Não, os meus filhos são inteligentes.

Entrevista a D. Afonso

Os portugueses devem ter direito a escolher o regime
É partidário da realização do referendo para a restauração da monarquia?

Claro que sou, Portugal é uma democracia. O que não se percebe é ser uma democracia limitada como a nossa, quer na Constituição, nos direitos e na imposição das suas leis. Numa democracia não se deve ter medo da mudança e da opinião dos cidadãos. Os portugueses devem ter o direito de escolher o regime, quer seja monárquico ou republicano.

Da sua convivência com outros jovens, que futuro teria um regime monárquico em Portugal?

Conheço e tenho muitos amigos da minha idade, tanto monárquicos, como republicanos ou "neutrais". Não costumamos falar muito sobre o tema de monarquia vs. república, mas tenho reparado cada vez mais que a minha geração e futuras gerações criticam e se queixam da forma de liderar o país, afirmando que existem formas melhores para Portugal e que é necessário possuir valores mais sólidos. Muitos me perguntam, uns em tom de brincadeira, outros não: "Quando é que sobes ao poder para resolver isto tudo?", "Quando é que se impõe uma monarquia?", ao que respondo: "Quando for altura e o povo português achar correto."

Sente-se respeitado enquanto representante da instituição real ou essa sua qualidade não é tida em conta?

Não é algo com que me costume importar. Sempre fui bem recebido, tanto com os meus pais e família. É normal virem ter comigo e perguntarem-me coisas sobre mim ou sobre a família. Sinto que existe esse respeito, mesmo que por vezes ache em excesso. Um respeito mútuo é saudável e o meu papel influencia um pouco, mas isso não me sobe à cabeça.

Como está a preparar-se para suceder ao seu pai?

Atualmente pratico uma sólida formação académica, mas também adquiro alguma experiência e valores através dos meus pais. Acompanho a família em várias cerimónias em Portugal e no estrangeiro. Tenho consciência de que essas experiências servem para melhor me preparar para desenvolver o papel que me espera desde muito cedo.

Frequenta um curso de Ciência Política. É o mais ajustado?

Acho que sim. Acho que o curso me pode fornecer forte preparação para uma vida futura, tanto política como numa cultura geral muito abrangente

Tem votado nas eleições?

Acho que um rei não se deve meter na política e, atualmente, participo e voto sempre que posso. Faço uma exceção nas presidenciais, é mais coerente.


O excêntrico monumento dos polícias no qual Lisboa gastará quase 100 mil euros


“Tralha” ou PostModernice ‘à la Vasconcelos’ para banalizar ou confirmar este ciclo efémero de pseudo-desenvolvimento e de regressão humana e social, garantida pela Globalização Galopante e a dependência total de factores externos, na Economia.
OVOODOCORVO
“A dimensão real do futuro monumento poderá vir a ser ajustada, mas os valores indicativos apontam para que cada uma das letras tenha uma altura de 2,3 metros, assentando esta incomum obra sobre uma plataforma com 16 metros de extensão. Tudo para que se possa ler “Lisboa” de uma forma nunca antes vista. O “L” será feito de cortiça, enquanto o “I” terá a forma de uma garrafa de vinho. Já a letra “S” revestir-se-á a azulejo, uma das referências nacionais. A letra que se lhe segue, o “B”, será a mais peculiar e formar-se-á a partir de dois objectos: um marco do correio, ao que se lhe junta uma pasta dentífrica Couto.”

 O excêntrico monumento dos polícias no qual Lisboa gastará quase 100 mil euros
POR O CORVO • 1 DEZEMBRO, 2017 •

A ideia começou como uma brincadeira, mas alguns poderão vir a não achar-lhe muita piada. O projecto de construção de uma peça de arte pública, denominado “Portugal em Lisboa”, “em que cada letra simbolize uma dimensão cultural” da cidade e do país e “poderá representar um produto, objecto, região, serviço ou indústria tipicamente nacional”, foi o segundo mais votado da edição deste ano do Orçamento Participativo (OP) de Lisboa, cujos resultados foram anunciados nesta segunda-feira (27 de novembro). O seus 4115 votos permitiram-lhe ser um dos distinguidos na categoria de “projectos estruturantes”, a principal das duas existentes no OP – a outra é a dos “projectos locais” – e que se destina a ideias que podem chegar aos 500 mil euros. A execução da proposta 127, da autoria de um conjunto de polícias da esquadra do Rato da PSP, está avaliada em 93 mil euros.

 Montante que, tal como o dos restantes projectos vencedores, sairá do bolo de 2,5 milhões de euros que em cada ano sai dos cofres do município para sustentar o OP. “Não fomos nós a fazer o orçamento, nem fazemos ideia de como é que eles chegaram a esse valor. Mas a nossa preocupação foi sempre a de ter valores plausíveis, até pedimos alguns orçamentos, quando estávamos na fase de estudo desta proposta”, explica a O Corvo o agente Paulo Silvestre, porta-voz do colectivo de polícias responsáveis pela ideia ganhadora.

 O “eles” a que se refere é a equipa da autarquia responsável pelo acompanhamento do OP, a mesma que, numa fase inicial, de apresentação de propostas, lhes terá comunicado “que isto não era elegível porque não chegava aos 50 mil euros”. Esse é o valor mínimo de custo previsível de cada proposta para que possa vir a ser considerada.

 Tais elucubrações estavam, de facto, muito longe do pensamento do grupo de agentes policiais que, em janeiro passado, começaram a pensar em avançar com a ideia “Isto surgiu um pouco como uma brincadeira. Um dos nossos colegas foi a Amesterdão, onde existe lá um monumento com umas letras em grande formato que dizem ‘I Am Amsterdam’ e pensámos que podia ser engraçado fazer algo do género com Lisboa”, diz Paulo Silvestre.

 O certo é que a proposta não só acabou por ser aceite para ir a votação, com uma dotação orçamental de 93 mil euros, como foi incluída na mais importante das categorias, a dos projectos considerados estruturantes ou transversais – algo que os autores da proposta também não sabem explicar, mas que poderá ter que ver com o facto de a sua concretização poder vir a acontecer em qualquer parte da capital. Isto embora o documento de apresentação aponte para o Cais do Sodré e o topo do Parque Eduardo VII como locais preferenciais, por serem zonas nobres, com uma maior visibilidade.

 A dimensão real do futuro monumento poderá vir a ser ajustada, mas os valores indicativos apontam para que cada uma das letras tenha uma altura de 2,3 metros, assentando esta incomum obra sobre uma plataforma com 16 metros de extensão. Tudo para que se possa ler “Lisboa” de uma forma nunca antes vista. O “L” será feito de cortiça, enquanto o “I” terá a forma de uma garrafa de vinho. Já a letra “S” revestir-se-á a azulejo, uma das referências nacionais. A letra que se lhe segue, o “B”, será a mais peculiar e formar-se-á a partir de dois objectos: um marco do correio, ao que se lhe junta uma pasta dentífrica Couto.

 “A indústria do futebol é uma característica que faz parte da nossa essência”, lê-se na justificação para que o “O” seja uma bola de futebol. Por fim, a letra “A” estilizada como um sapato de salto alto “Expressa tudo aquilo em que somos realmente bons, não só na indústria do calçado, como nas energias renováveis, tecnológica, mobiliário, cerâmica, têxteis”. Esta última letra será, aliás, a maior, com três metros de comprimento.

 Paulo Silvestre diz a O Corvo que a intenção inicial do grupo de agentes da esquadra do Rato, muitos dos quais fazem policiamento de proximidade, sempre foi a de fazer “um hino ao nosso país”. Aliás, e para que não restem dúvidas, o documento de explicação da proposta postula: “Temos orgulho em ser portugueses”. “Trata-se de uma ideia um bocadinho excêntrica”, admite Paulo, reconhecendo que a tão expressiva votação foi uma surpresa. “Mesmo os nossos comandantes ficaram surpreendidos. Mas nós fizemos uma grande campanha de mobilização, que incluiu visitas a todas as esquadras da 1ª Divisão, à Divisão de Trânsito e ao Comando Metropolitano”, explica.

 Questionado por O Corvo sobre a pertinência deste gasto de dinheiros públicos, sabendo-se que a cidade tem carências em várias sectores, o elemento das forças da autoridade admite que esta não será a maior das prioridades para Lisboa, mas tem uma expectativa. “Olhamos para esta iniciativa como um investimento, como algo que se constituirá como publicidade para a cidade, que atrairá visitantes. Temos a expectativa que, com isso, o dinheiro investido será recuperado muito rapidamente”, comenta.


 Texto: Samuel Alemão