quinta-feira, 4 de maio de 2023

O regresso do equilíbrio com a lição do professor

 


EDITORIAL

O regresso do equilíbrio com a lição do professor

 

Há mais tensão entre Belém e São Bento, certo, e há quem veja nisso uma má notícia. É possível vê-la noutra perspectiva: o país da paz e amor entre Marcelo e Costa tornou-se mole de mais

 

Manuel Carvalho

4 de Maio de 2023, 21:45

https://www.publico.pt/2023/05/04/politica/editorial/regresso-equilibrio-licao-professor-2048509

 

Se havia alguém na política a precisar de lições de ética republicana ou falho de noções básicas da responsabilidade numa democracia liberal, teve-as com alta nota esta quinta-feira, na alocução do Presidente da República. Marcelo pegou nos manuais e recuperou as sebentas porque estava acossado com a prova de força de António Costa ao recusar a demissão do ministro João Galamba, hostilizando abertamente a recomendação do Presidente. Precisava de reequilibrar a relação. Conseguiu, desancando o fundamento da decisão de Costa e prometendo usar ainda mais a palavra que lhe tem servido de arma política.

 

Marcelo começou com a recusa do ruído das zangas banais para insistir na ética da responsabilidade das democracias maduras. Ao fazê-lo, transformou a protecção de Costa ao seu ministro num expediente político despido de razão. Sob a égide dos princípios e da coragem, o primeiro-ministro deitou ao lixo valores essenciais como o da credibilidade, da confiabilidade ou da responsabilidade.

 

O que Marcelo disse é fácil de entender: como podemos ter no Governo um ministro que confiou assuntos sensíveis a um adjunto que agora acusa de roubar, de agredir ou de tentar manipular factos? Como acreditar na competência de um ministro que, para salvar a pele, mete outros ministros ao barulho? Marcelo não precisou de falar do envolvimento do SIS, nem da omissão ou mentira sobre as reuniões com a CEO da TAP. Não precisava.

 

A lição de Marcelo que acaba por transformar António Costa num protector da irresponsabilidade ou da falta de credibilidade é o ponto de partida para Marcelo tentar recuperar o sentido de Estado. Ele, o guarda moral do regime, deplora que um ministro despedaçado por episódios “rocambolescos”, “inaceitáveis” ou “deploráveis” (Marcelo recuperou toda a adjectivação de Costa) permaneça no lugar, mas nem isso o colocará na barricada da instabilidade.

 

É neste ponto que Marcelo equilibra a relação de forças com António Costa. Quem acreditou que o Presidente perdeu a iniciativa, que ficou diminuído ou “sequestrado”, subestimou o animal político que é Marcelo. Havendo “divergências de fundo” entre Belém e São Bento, o equilíbrio não acabou: terá uma natureza diferente. O Presidente promete “estar atento” para evitar que a confiança dos cidadãos no regime se perca. Costa responderá à altura. Ambos estão mais fracos, mas ambos sabem que precisam um do outro.

 

Há mais tensão, certo, e há quem veja nisso uma má notícia. É possível vê-la noutra perspectiva: o país da paz e amor entre Marcelo e Costa tornou-se mole de mais, já era factor de anomia e conformismo. Um pouco de pressão do poder moderador sobre o poder executivo, e vice-versa, não vai fazer mal ao país.

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