EDITORIAL
O maior aliado é o maior pesadelo
António Costa não aceitou a demissão de João Galamba e,
consequentemente, o aliado político de ontem será certamente um pesadelo
recorrente de Costa para os próximos tempos.
David Pontes
3 de Maio de
2023, 23:40
https://www.publico.pt/2023/05/03/opiniao/editorial/maior-aliado-maior-pesadelo-2048360
“É o nosso maior
aliado político, mas pode tornar-se o nosso maior pesadelo.” Quem o escreveu,
referindo-se a Marcelo Rebelo de Sousa, a partir do âmago do Governo, foi Hugo
Mendes, o secretário de Estado que António Costa teria demitido se tivesse
conhecido este email, em quem ele aconselhava a CEO da TAP a alterar uma viagem
para agradar ao Presidente da República.
António Costa não
aceitou a demissão de João Galamba e, consequentemente, o aliado político de
ontem será certamente um pesadelo recorrente de Costa para os próximos tempos.
O primeiro-ministro achou que este era o momento para se separar de alguém que,
vale a pena recordar, o PS deixou ser reeleito sem apresentar um candidato
próprio às presidenciais.
Fê-lo como um
gesto de afirmação da sua autoridade, com uma encenação que não deixa de ser
lamentável, ao permitir que o seu ministro apresentasse uma demissão que não
era para levar a sério, porque logo a seguir não seria aceite. Fê-lo para
contrariar claramente Marcelo, cansado de tanto o ouvir falar de dissolução – o
que objectivamente enfraquece o Governo –, mostrando alguma vontade de ir a
jogo quando, neste mesmo fim-de-semana, deu notícia ao Expresso, através de
fontes próximas, de que, se houvesse eleições antecipadas, o candidato do PS
seria ele.
É pouco provável
que Marcelo Rebelo de Sousa lhe faça a vontade. Os riscos são imensos. Desde
logo, porque ele falou tanto de dissolução que seria sempre não só o autor
material, como o autor moral dessa decisão. Para quem anda a pregar a
necessidade de estabilidade, especialmente durante este ano, seria muito
complicado explicar, mesmo com tanta trapalhada governamental, porque derrubava
uma maioria absoluta eleita há pouco mais de um ano.
Mas mais trágico,
na perspectiva presidencial, é a hipótese real de que do sufrágio saísse ou um
PS vencedor (não restaria muito mais ao Presidente do que demitir-se de
seguida), ou um PSD a precisar muito do apoio de um partido como o Chega, um
ponto baixo na história do regime a que certamente um democrata como Marcelo
não gostaria de ficar associado.
O Presidente tem
tido, na maior parte dos momentos, uma atitude responsável e de necessária
vigilância do Governo, quando a oposição, tão débil, não representa essa
garantia de equilíbrio do sistema. É nessa linha que se espera que ele
continue, mesmo que isso possa ser confundido com o célebre adágio de que a
vingança se serve fria.


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