A Lisboa gráfica de António está cheia de trotinetas,
turistas e muita festa
Podia ser qualquer outra capital, mas é Lisboa. António
Jorge Gonçalves registou a cidade no seu traço cheio de humor e ei-la agora, em
todo o seu esplendor, no diário gráfico ‘Welcome to Paradise’.
Raquel Dias da
Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silvas exta-feira 21 abril 2023
São instantâneos
de Lisboa. Com mais ou menos detalhe, todos a preto e branco, retratam a
paisagem urbana da cidade, das longas filas do eléctrico 28 aos ajuntamentos à
beira-Tejo. “Lá vai Lisboa, a doida, de selfie apontada e sorriso em esgar”,
descreve a Orfeu Negro, que edita o novo diário gráfico de António Jorge
Gonçalves, Welcome to Paradise. O lançamento está marcado para 27 de Abril, às
18.30, na Livraria Travessa.
“A minha prática
de desenho é diária. E, a partir de certa altura, começou a aparecer nos meus
cadernos esta população flutuante de Lisboa, que são os turistas, porque na
realidade já fazem parte, estão sempre cá. Mesmo que não sejam exactamente as
mesmas pessoas, há uma ocupação da cidade que é sempre turística”, diz-nos o
ilustrador, performer visual, cartoonista e professor na Faculdade de
Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
Se formos à rua
agora, agora neste exacto momento, já somos capazes de ver ao vivo várias das
cenas impressas em Welcome to Paradise, ainda que tenham sido desenhadas há um
ou cinco anos, entre 2019 e 2022. “Vivendo eu no centro histórico, tinha e
tenho-os sempre [aos turistas] à minha porta”, revela o autor, antes de
confessar que havia, claro, “uma curiosidade acerca do que é que estas pessoas
fazem na cidade, quem são elas, como é que se comportam, para onde vão”.
Com ironia e
olhar de antropólogo, António Jorge Gonçalves surpreende-nos com a nova – que
já vai para antiga – configuração da capital. A seguir a um arranque bem
humorado (14 páginas de fila até ao eléctrico 28), uma dupla mostra-nos um
enquadramento curioso: em baixo, um amontoado de casas e as suas janelas; em
cima, um cruzeiro imponente e as suas janelas. Nós e os outros, na mesma
cidade. E, de repente, a lente faz zoom in e somos transportados para a Rua
Augusta, o arco lá ao fundo, uma imensidão de corpos até lá chegarmos.
A expectativa
confirma-se no virar das páginas. As corridas de trotineta, os passeios de
bicicleta, as esplanadas cheias, as máquinas fotográficas em riste, as selfies
e as visitas aos locais mais emblemáticos – e, por isso, mais turísticos –,
desde a estátua de Fernando Pessoa, n’A Brasileira, até ao elevador de Santa
Justa, na Rua do Ouro, ao Terreiro do Paço, com vista para a Ponte 25 de Abril
a partir do Cais das Colunas, e ao túmulo de Luís de Camões, no Mosteiro dos
Jerónimos.
Das filas às festas
“A bicha do 28 é
um sightseeing habitual. A questão é ‘quão grande é hoje ou a esta hora?’ e, no
Martim Moniz, que foi onde fiz este desenho, é sempre um assunto. No outro dia,
acho que num sábado, passei lá a meio do dia e a fila era quase o dobro, vinha
por aí fora já a caminho da Rua da Madalena. Desenhar às vezes, para mim, é de
facto isso, mapear, guardar para memória futura”, conta António, que começou a
fazer estas observações com mais intensidade no ano de 2019. “Agora, já voltou
em força. Mas nessa altura estava assim no máximo. A Baixa já estava a rebentar
pelas costuras, e foi realmente nesse Verão e no princípio do Outono, antes do
Covid, que estes desenhos foram feitos.”
A edição de
Welcome to Paradise chegou a estar planeada para a Primavera de 2020, mas foi
precisamente nesse ano que a cidade ficou, inesperadamente, vazia. “Eu arrumei
o livro, tendo a noção que, de repente, tinha deixado de ter contexto – só se a
gente fosse olhar com nostalgia. Mas a verdade é que o ano passado, quando o
turismo começou a voltar, eu – entre fins de Maio, talvez já em Junho – voltei
outra vez à rua, porque havia um clima muito furioso e hedonista, em particular
com as festas de Lisboa, em Alfama também. Aliás, incluí uns quantos desenhos
[dos arraiais] do Santo António.”
Grinaldas que
imaginamos coloridas, grelhas apetrechadas, sardinhas e barris de cerveja por
todo o lado, tasquinhas e dançarinos de ocasião. Lisboa não se faz só de filas
e ruas cheias, faz-se também de festas – de comes e bebes com fartura, corpos
alegres e beijos roubados. “Tinham acabado as limitações de viagem, de lotação
e de máscaras, e a cidade estava em fogo”, recorda, destacando a forma como as
capitais são, no fundo, “sítios de mudança e de ocupação”. “É uma coisa de que
às vezes nos esquecemos, mas é, para mim, uma consciência muito nítida. As
grandes cidades são espaços de grande volatilidade, de circulação, de
permanência.”
Aqui, em Paris ou
noutro lado qualquer, a dinâmica é mais ou menos a mesma. “Talvez sejamos um
bocadinho previsíveis”, sugere. “Houve uma altura em que se queria fazer uma
distinção entre viajantes e turistas, uma espécie de hierarquização social. A
verdade é que a gente chega a algum sítio que não conhece e é turista, porque
levamos uma rotina que não tem nada a ver com a rotina das pessoas que habitam
permanentemente aquele espaço. E depois, quando estamos na sua cidade, já
ficamos todos eriçados, que não podemos ir àquele restaurante porque está cheio
de turistas. Há uma certa snobeira que, para mim, também é muito absurda.”
Para António
Jorge Gonçalves, Welcome to Paradise não é político nem uma crítica directa à
forma como o turismo transforma a paisagem da cidade. “Os desenhos são uma
observação, são a minha maneira de ver e são, ao mesmo tempo, uma reflexão, e o
que eu acho que é curioso – nos desenhos em geral, como linguagem – é que estão
abertos a interpretações. Já tive, por exemplo, pessoas iradas a dizer ‘sim,
isto é o retrato de Lisboa, acabou-se a poética’, e outras pessoas que acharam
divertido”, conta, por entre risos. “Por isso, este é o momento de cada pessoa
poder ver aquilo que quer. O que eu vi é aquilo que está nos desenhos, mas este
assunto tem muitos outros pontos de vista para lá da gentrificação. Tem
momentos angustiantes, sim, mas também nos faz perceber que Lisboa está cheia
de pessoas que só querem ser felizes.”
Welcome to
Paradise, de António Jorge Gonçalves. Orfeu Negro. 144 pp. 17€

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