Mais um oligarca russo já é português e outros dois
esperam por passaporte
Abramovich foi apenas um dos oligarcas russos que
procuraram e obtiveram a nacionalidade portuguesa ao abrigo da lei dos
sefarditas. Andrei Rappoprt também já viaja com passaporte nacional, enquanto
Lev Leviev e God Nisanov aguardam pela decisão do Ministério da Justiça.
Paulo Curado
20 de Julho de
2022, 6:30
Descrito
recentemente como “um dos homens mais ricos da Europa” e “colaborador próximo
de várias autoridades russas” pelo secretário de Estado norte-americano Antony
Blinken, o oligarca russo e ex-vice-presidente do Congresso Mundial Judaico
(CMJ), God Nisanov, aguarda pela naturalização portuguesa. O mesmo sucede com
Lev Leviev, apelidado de “Rei dos Diamantes”, próximo de Vladimir Putin e sócio
da empresária angolana Isabel dos Santos. Com passaporte nacional já viaja
Andrei Rappoport, outro oligarca também com ligações a Moscovo, segundo o
PÚBLICO apurou. Todos foram certificados como judeus sefarditas pela Comunidade
Israelita do Porto (CIP).
Nascido na antiga
república soviética do Azerbaijão, a 24 de Abril de 1972, God Nisanov,
considerado um dos maiores promotores imobiliários da Rússia, integrou a última
lista de sanções dos Estados Unidos, decretadas no início de Junho contra
aliados do regime russo liderado por Putin, na sequência da invasão da Ucrânia.
Pouco depois de ser conhecida a decisão da Administração norte-americana, o CMJ
anunciou o afastamento de Nisanov.
“O CMJ reitera e
reafirma que ninguém que esteja incluído em qualquer lista de indivíduos
sancionados pelos Estados Unidos, Reino Unido ou União Europeia em relação ao
conflito na Ucrânia pode ocupar qualquer cargo ou desempenhar qualquer papel na
organização”, justificou em comunicado o organismo. Nisanov foi homenageado
pela Federação das Comunidades Judaicas da Rússia em 2015 em reconhecimento
pelas suas actividades de caridade.
Em Julho de 2014,
escassos meses após a anexação da Crimeia pela Rússia, Nisanov foi homenageado
no Kremlin – sede do poder russo – por Vladimir Putin com a “Ordem da Amizade”,
pelos seus projectos de desenvolvimento económico. Segundo dados actuais da revista
americana de economia Forbes, a sua fortuna está avaliada em 4,3 mil milhões de
euros, possuindo um património imobiliário de 1,3 milhões de metros quadrados
apenas em Moscovo, em conjunto com o seu sócio Zarakh Iliev.
Foi a 26 de Junho
de 2020 que God Nisanov requereu a naturalização portuguesa junto da
Conservatória dos Registos Centrais (CRC), tutelada pelo Ministério da Justiça
(MJ). Para tal apresentou uma certidão emitida pela CIP a comprovar as suas
origens sefarditas, referentes aos judeus que receberam ordem de expulsão de
Portugal no final do século XIV e a quem foi concedido o direito de
nacionalidade.
O “Rei dos
Diamantes”
A 6 de Novembro
do mesmo ano, deu entrada na CRC o processo de naturalização de Lev Leviev.
Nascido na antiga república soviética do Uzbequistão em 1956, imigrou para
Israel aos 14 anos. Actualmente reparte residência entre Moscovo e a ilha de
Chipre (onde obteve também a nacionalidade), tendo sido esta última a que foi
apresentada às autoridades portuguesas.
Leviev ficou
conhecido por ter acabado com o monopólio do grupo De Beers no mercado mundial
dos diamantes na década de 1980. Estabeleceu lucrativos acordos com os governos
de Angola e da Rússia, ambos países com vastas reservas de diamantes não
minerados.
Na antiga colónia
portuguesa, tornou-se sócio de Isabel dos Santos, filha do recentemente
falecido ex-Presidente José Eduardo dos Santos, através da empresa de
comercialização de diamantes Ascorp. Leviev acabou por tornar-se o maior
lapidador de diamantes do mundo, o que lhe valeu o epíteto de “Rei dos
Diamantes”.
Investiu também
com sucesso nos sectores do imobiliário e da construção civil, com negócios
espalhados pelo mundo, desde Nova Iorque ao Médio Oriente. Filantropo judeu,
tal como Nisanov ou o antigo dono do Chelsea, Roman Abramovich, Leviev
tornou-se amigo íntimo de Putin.
O português
Rappoport
Um dos novos
multimilionários portugueses é agora Andrei Rappoport, com uma fortuna avaliada
em 1,2 mil milhões de euros pela Forbes. Nascido na ex-república soviética da
Ucrânia, em 1963, antes de ascender à categoria dos “extremamente ricos” foi
funcionário de outros dois oligarcas russos: Mikhail Khodorkovsky – o antigo
proprietário da gigante petrolífera russa Yukos, que caiu em desgraça junto de
Putin, acabando por ser preso e condenado a uma pena de dez anos por corrupção,
fraude e evasão fiscal – e Mikhail Fridman – que abandonou recentemente a
administração do fundo de investimento que controla o Grupo Dia, uma cadeia de
supermercados com presença em Portugal, na sequência das sanções que lhe foram
impostas pela União Europeia.
Formado em
Economia pela Universidade de Donetsk, na Ucrânia, Rappoport mudou-se para a
Rússia onde presidiu ao Alfa-Bank, o maior dos bancos privados russos (fundado
em 1990 por Fridman), entre 1992 e 1996. Transferiu-se depois para a Yukos e,
no início dos anos 2000 passou a supervisionar as empresas estatais de energia
da Rússia, tornando-se presidente da administração da gigante Federal Grid
Company (FGC).
Em 2006, passou a
controlar a Energostroyinvest-Holding, que era na altura a maior construtora de
redes eléctricas e centrais termoeléctricas da Rússia e tinha importantes
contratos com a FGC. Rappoport acabou por vender esta empresa por 216 milhões
de euros, identificando o comprador como o multimilionário russo Alexander
Abramov, sócio de Roman Abramovich.
Apenas quatro
anos depois, a Energostroy seria avaliada em perto de dois mil milhões de
euros, num negócio muito pouco claro e investigado pelos consórcios de
investigação Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), pela
Investigative Reporting Project Italy e pela organização não-governamental
Global Witness.
Andrei Rappoport
tornou-se cidadão português, por naturalização, a 30 de Dezembro de 2019, por
despacho da anterior secretária de Estado da Justiça, Anabela Pedroso. Quase
ano e meio depois, seria a vez de Abramovich receber a nacionalidade portuguesa
pela mesma via.


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