quarta-feira, 20 de julho de 2022

Mais um oligarca russo já é português e outros dois esperam por passaporte

 


 INVESTIGAÇÃO

Mais um oligarca russo já é português e outros dois esperam por passaporte

 


Abramovich foi apenas um dos oligarcas russos que procuraram e obtiveram a nacionalidade portuguesa ao abrigo da lei dos sefarditas. Andrei Rappoprt também já viaja com passaporte nacional, enquanto Lev Leviev e God Nisanov aguardam pela decisão do Ministério da Justiça.

 

Paulo Curado

20 de Julho de 2022, 6:30

https://www.publico.pt/2022/07/20/sociedade/noticia/oligarca-russo-ja-portugues-dois-esperam-passaporte-2014282

 

Descrito recentemente como “um dos homens mais ricos da Europa” e “colaborador próximo de várias autoridades russas” pelo secretário de Estado norte-americano Antony Blinken, o oligarca russo e ex-vice-presidente do Congresso Mundial Judaico (CMJ), God Nisanov, aguarda pela naturalização portuguesa. O mesmo sucede com Lev Leviev, apelidado de “Rei dos Diamantes”, próximo de Vladimir Putin e sócio da empresária angolana Isabel dos Santos. Com passaporte nacional já viaja Andrei Rappoport, outro oligarca também com ligações a Moscovo, segundo o PÚBLICO apurou. Todos foram certificados como judeus sefarditas pela Comunidade Israelita do Porto (CIP).

 

Nascido na antiga república soviética do Azerbaijão, a 24 de Abril de 1972, God Nisanov, considerado um dos maiores promotores imobiliários da Rússia, integrou a última lista de sanções dos Estados Unidos, decretadas no início de Junho contra aliados do regime russo liderado por Putin, na sequência da invasão da Ucrânia. Pouco depois de ser conhecida a decisão da Administração norte-americana, o CMJ anunciou o afastamento de Nisanov.

 

“O CMJ reitera e reafirma que ninguém que esteja incluído em qualquer lista de indivíduos sancionados pelos Estados Unidos, Reino Unido ou União Europeia em relação ao conflito na Ucrânia pode ocupar qualquer cargo ou desempenhar qualquer papel na organização”, justificou em comunicado o organismo. Nisanov foi homenageado pela Federação das Comunidades Judaicas da Rússia em 2015 em reconhecimento pelas suas actividades de caridade.

 

Em Julho de 2014, escassos meses após a anexação da Crimeia pela Rússia, Nisanov foi homenageado no Kremlin – sede do poder russo – por Vladimir Putin com a “Ordem da Amizade”, pelos seus projectos de desenvolvimento económico. Segundo dados actuais da revista americana de economia Forbes, a sua fortuna está avaliada em 4,3 mil milhões de euros, possuindo um património imobiliário de 1,3 milhões de metros quadrados apenas em Moscovo, em conjunto com o seu sócio Zarakh Iliev.

 

Foi a 26 de Junho de 2020 que God Nisanov requereu a naturalização portuguesa junto da Conservatória dos Registos Centrais (CRC), tutelada pelo Ministério da Justiça (MJ). Para tal apresentou uma certidão emitida pela CIP a comprovar as suas origens sefarditas, referentes aos judeus que receberam ordem de expulsão de Portugal no final do século XIV e a quem foi concedido o direito de nacionalidade.

 

O “Rei dos Diamantes”

A 6 de Novembro do mesmo ano, deu entrada na CRC o processo de naturalização de Lev Leviev. Nascido na antiga república soviética do Uzbequistão em 1956, imigrou para Israel aos 14 anos. Actualmente reparte residência entre Moscovo e a ilha de Chipre (onde obteve também a nacionalidade), tendo sido esta última a que foi apresentada às autoridades portuguesas.

 

 

Leviev ficou conhecido por ter acabado com o monopólio do grupo De Beers no mercado mundial dos diamantes na década de 1980. Estabeleceu lucrativos acordos com os governos de Angola e da Rússia, ambos países com vastas reservas de diamantes não minerados.

 

Na antiga colónia portuguesa, tornou-se sócio de Isabel dos Santos, filha do recentemente falecido ex-Presidente José Eduardo dos Santos, através da empresa de comercialização de diamantes Ascorp. Leviev acabou por tornar-se o maior lapidador de diamantes do mundo, o que lhe valeu o epíteto de “Rei dos Diamantes”.

 

Investiu também com sucesso nos sectores do imobiliário e da construção civil, com negócios espalhados pelo mundo, desde Nova Iorque ao Médio Oriente. Filantropo judeu, tal como Nisanov ou o antigo dono do Chelsea, Roman Abramovich, Leviev tornou-se amigo íntimo de Putin.

 

O português Rappoport

Um dos novos multimilionários portugueses é agora Andrei Rappoport, com uma fortuna avaliada em 1,2 mil milhões de euros pela Forbes. Nascido na ex-república soviética da Ucrânia, em 1963, antes de ascender à categoria dos “extremamente ricos” foi funcionário de outros dois oligarcas russos: Mikhail Khodorkovsky – o antigo proprietário da gigante petrolífera russa Yukos, que caiu em desgraça junto de Putin, acabando por ser preso e condenado a uma pena de dez anos por corrupção, fraude e evasão fiscal – e Mikhail Fridman​ – que abandonou recentemente a administração do fundo de investimento que controla o Grupo Dia, uma cadeia de supermercados com presença em Portugal, na sequência das sanções que lhe foram impostas pela União Europeia.

 

Formado em Economia pela Universidade de Donetsk, na Ucrânia, Rappoport mudou-se para a Rússia onde presidiu ao Alfa-Bank, o maior dos bancos privados russos (fundado em 1990 por Fridman), entre 1992 e 1996. Transferiu-se depois para a Yukos e, no início dos anos 2000 passou a supervisionar as empresas estatais de energia da Rússia, tornando-se presidente da administração da gigante Federal Grid Company (FGC).

 

Em 2006, passou a controlar a Energostroyinvest-Holding, que era na altura a maior construtora de redes eléctricas e centrais termoeléctricas da Rússia e tinha importantes contratos com a FGC. Rappoport acabou por vender esta empresa por 216 milhões de euros, identificando o comprador como o multimilionário russo Alexander Abramov, sócio de Roman Abramovich.

 

Apenas quatro anos depois, a Energostroy seria avaliada em perto de dois mil milhões de euros, num negócio muito pouco claro e investigado pelos consórcios de investigação Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), pela Investigative Reporting Project Italy e pela organização não-governamental Global Witness.

 

Andrei Rappoport tornou-se cidadão português, por naturalização, a 30 de Dezembro de 2019, por despacho da anterior secretária de Estado da Justiça, Anabela Pedroso. Quase ano e meio depois, seria a vez de Abramovich receber a nacionalidade portuguesa pela mesma via.

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