quarta-feira, 20 de julho de 2022

Entre recessão e inflação, BCE avalia subida de juros maior do que a prevista / Amid recession and inflation, ECB assesses higher-than-expected interest rate hike

 



POLÍTICA MONETÁRIA

Entre recessão e inflação, BCE avalia subida de juros maior do que a prevista

 

Banco central liderado por Christine Lagarde vai, na quinta-feira, realizar a sua primeira subida de taxas de juro desde 2011. A dúvida está em saber se será de 0,25 pontos percentuais, como planeado em Junho, ou de 0,5 pontos, para atacar de forma mais forte a inflação.

 

Sérgio Aníbal

19 de Julho de 2022, 19:04

https://www.publico.pt/2022/07/19/economia/noticia/recessao-inflacao-bce-avalia-subida-juros-maior-prevista-2014228

 

Foi há pouco mais de um mês, no final da reunião de Junho do conselho de governadores do Banco Central Europeu, que Christine Lagarde, quebrando a regra de não comprometimento prévio relativamente às decisões que irá tomar, anunciou aquilo que iria fazer na reunião seguinte, agendada para esta quinta-feira, 21 de Julho: subir as taxas de juro em 0,25 pontos percentuais. A dois dias do dia da reunião, contudo, a dúvida está instalada e aumentam os sinais de que o BCE pode, em vez da subida anunciada, ir um pouco mais longe na sua luta contra a inflação, elevando as taxas de juro na zona euro em 0,5 pontos percentuais.

 

De acordo com as notícias publicadas esta terça-feira pela agência Reuters, que cita “duas fontes com conhecimento directo das discussões” dentro do banco central, os responsáveis do BCE estão a colocar a hipótese de, para contrariar a inflação, subirem as taxas de juro de referência acima daquilo que era esperado, elevando-as em 0,5 pontos percentuais. A agência noticiosa assinala, contudo, que as discussões em torno da decisão, que irá ser anunciada na quinta-feira, ainda estavam bastante abertas.

 

Outros meios de comunicação social, entre os quais o Financial Times, também avançaram esta terça-feira com a mesma informação.

 

A 9 de Junho, o BCE tinha anunciado que iria dar início ao seu ciclo de subida das taxas de juro (que ainda se encontram a zero no caso da taxa de juro de refinanciamento e em terreno negativo no caso da taxa de juro de depósitos), com um aumento de 0,25 pontos percentuais na reunião de Julho, a que se seguiria um novo agravamento em Setembro, que poderia ser da mesma dimensão ou um pouco maior.

 

As dúvidas e as discussões dentro do BCE – entre iniciar o ciclo de subida de taxas de juro com um movimento mais moderado de 0,25 pontos percentuais ou um movimento mais brusco de 0,5 pontos – são compreensíveis. Christine Lagarde e os seus pares enfrentam uma conjuntura económica cheia de riscos e incertezas, sendo difícil perceber se o maior perigo é o de uma aceleração da inflação ou se, pelo contrário, a grande ameaça que a economia da zona euro enfrenta é a de uma recessão profunda. Há mesmo a possibilidade de, avisam diversos economistas, os dois riscos poderem concretizar-se em simultâneo.

 

Uma coisa é certa, contudo: se subir as taxas de juro mais rapidamente, o banco central dá um passo em frente na tarefa de controlar a inflação, mas ao mesmo tempo torna mais provável a entrada da economia em recessão. Se optar por subidas de taxas mais moderadas, não penaliza tanto a economia, mas arrisca-se a perder o controlo da inflação.

 

No debate que está a ocorrer dentro do conselho de governadores do BCE, aqueles que estão mais preocupados com a inflação têm, desde a reunião realizada em Junho, novos argumentos para apresentar. No início deste mês, ficou a saber-se que a taxa de inflação homóloga em Junho subiu de 8,1% para 8,6%. A descida deste indicador na Alemanha não compensou a subida registada noutras grandes economias da zona euro como a Espanha e a Itália, tornando-se claro que ainda não se atingiu um tecto neste indicador.

 

E, ainda mais importante, nas últimas semanas acentuou-se de forma marcada a depreciação do euro face ao dólar, com as duas divisas a chegarem mesmo à paridade, pela primeira vez desde 2002, algo que, para a zona euro, constitui mais um motivo para esperar uma subida da inflação, já que os preços dos bens importados (incluindo os dos produtos energéticos) agravam-se com a queda de valor do euro.

 

O problema é que, do outro lado, entre aqueles que estão mais preocupados com o risco de uma recessão, também há mais argumentos para apresentar. Acentuaram-se os receios de que um cenário de escassez dos fornecimentos de gás natural possa criar constrangimentos muito significativos à evolução das economias do centro e leste da Europa, as mais dependentes da Rússia nesta matéria.

 

Com a paragem do gasoduto Nord Stream 1 por dez dias decidida na semana passada pela Rússia, alegadamente para resolver problemas técnicos, Moscovo fez com que se instalasse junto dos seus principais clientes europeus o receio de que esteja a planear cortar de forma mais definitiva os fornecimentos, numa tentativa de penalizar as economias europeias.

 

De facto, sem o gás russo, economias como a alemã teriam dificuldade em manter o mesmo nível de utilização de energia, o que, principalmente no Inverno, poderia forçar, por exemplo, a uma contracção da actividade na indústria. É já visível o aumento da apreensão dos agentes económicos alemães nos índices de confiança que vão sendo publicados, algo que pode por si só significar que poderemos vir a assistir a uma quebra do investimento e do consumo mais forte do que a antecipada.

 

O BCE não irá, esta semana, apresentar novas previsões para a economia da zona euro – a revisão das projecções está agendada apenas para Setembro –, mas isso não impede que os membros do conselho de governadores não levem em conta na sua decisão a deterioração das perspectivas de crescimento, com maiores probabilidade de recessão, que se registou desde a reunião de Junho.

 

Medo do efeito Draghi

Para além disso, também no que diz respeito ao risco de o início do ciclo de subida das taxas do BCE desencadear uma escalada indesejada das taxas de juro da dívida dos países periféricos como a Itália, Espanha ou Portugal, os mais recentes desenvolvimentos trazem novos motivos de preocupação.

 

Nos últimos dias, tornou-se claro que se pode vir a assistir a uma queda do governo liderado por Mario Draghi, um cenário que provavelmente seria motivo para um novo aumento do nervosismo dos investidores do mercado de dívida pública relativamente à Itália e a outros países da zona euro classificados como periféricos.

 

Será esta quarta-feira que, depois de ter visto a sua demissão ser recusada pelo presidente da República, o primeiro-ministro italiano se irá apresentar no Senado e na Câmara dos Deputados para a votação de duas moções de confiança.

 

Subir as taxas de juro acima do que estava previsto no dia a seguir a uma eventual demissão de Draghi pode ser visto como um movimento demasiado arriscado do BCE, capaz de fazer disparar os diferenciais das taxas de juro da dívida públicas dos países periféricos face à Alemanha.

 

No entanto, a este nível, os responsáveis do banco central acreditam que têm uma forma de mitigar os efeitos das subidas de taxas. A expectativa é a de que, no final da reunião desta quinta-feira, precisamente para tentar evitar este tipo de reacção negativa nos mercados da dívida, seja anunciado o novo instrumento anti-fragmentação que o BCE em Junho já tinha dito que ia lançar com o objectivo de evitar a subida excessiva das taxas de juro da dívida de alguns países.

 

A agência Reuters noticia também esta terça-feira que o novo instrumento, através do qual o BCE pode realizar compras de dívida de países onde as taxas de juro tenham subido a um nível considerado excessivo, vai ter como condição o cumprimento pelo país beneficiado das recomendações de política feitas pela Comissão Europeia no âmbito dos planos de recuperação e resiliência. O cumprimento das regras orçamentais europeias, assim que elas deixarem de estar suspensas, também será uma condição para a aplicação do novo instrumento.

 

Euro recupera

Nos mercados, a notícia de que a primeira subida de taxas de juro na zona euro dos últimos 11 anos pode vir a ser mais forte do que os 0,25 pontos percentuais até aqui esperados, teve imediatamente os seus efeitos na evolução do valor do euro.

 

O principal motivo para a depreciação do euro face ao dólar das últimas semanas é a diferença muito significativa que existe entre o ritmo esperado de subida das taxas de juro nos EUA e na zona euro. A Reserva Federal norte-americana, que já tinha iniciado o seu ciclo de subidas em Março, elevou a sua principal taxa de juro de referência em mais 0,75 pontos percentuais em Março, esperando-se que volte a fazer o mesmo (ou que vá ainda mais longe) na reunião que tem agendada para a próxima semana.

 

O ritmo muito mais lento de subidas de taxa de juro na zona euro (condizente com o ritmo mais lento de retoma da sua economia) fez com que o euro caísse face ao dólar. Agora, perante a possibilidade de uma maior agressividade por parte do BCE, o euro recuperou uma pequena parte do terreno perdido. Depois de ter estado a valer o mesmo que o dólar na semana passada, esta terça-feira, a moeda única europeia superou a barreira dos 1,02 dólares.

 

Uma subida que, embora ligeira, ajuda o BCE a controlar a inflação e mostra aquilo que o banco central se arrisca a perder se acabar por seguir aquilo que tinha planeado em Junho, aumentando as taxas de juro em apenas 0,25 pontos percentuais.


MONETARY POLICY

Amid recession and inflation, ECB assesses higher-than-expected interest rate hike

 

Central bank led by Christine Lagarde will on Thursday hold its first interest rate hike since 2011. The question is whether it will be 0.25 percentage points, as planned in June, or 0.5 points, to attack inflation more strongly.

 

Sergio Hannibal

July 19, 2022, 19:04

https://www.publico.pt/2022/07/19/economia/noticia/recessao-inflacao-bce-avalia-subida-juros-maior-prevista-2014228

 

It was just over a month ago, at the end of the June meeting of the Board of Governors of the European Central Bank, that Christine Lagarde, breaking the rule of no prior commitment to the decisions she will take, announced what she would do at the next meeting scheduled for Thursday, July 21: raise interest rates by 0.25 percentage points. Two days before the day of the meeting, however, doubt is settled and signs are growing that the ECB may, instead of the announced rise, go a little further in its fight against inflation, raising interest rates in the euro zone by 0.5 percentage points.

 

According to news published on Tuesday by Reuters, which cites "two sources with direct knowledge of the discussions" within the central bank, ECB officials are putting the chance that, to counter inflation, reference interest rates will rise above what was expected, raising them by 0.5 percentage points. The news agency notes, however, that discussions surrounding the decision, which will be announced on Thursday, were still fairly open.

 

Other media outlets, including the Financial Times, also came forward on Tuesday with the same information.

 

On 9 June, the ECB had announced that it would begin its cycle of raising interest rates (which are still at zero in the case of the refinancing interest rate and on negative ground in the case of the deposit interest rate), with an increase of 0.25 percentage points at the July meeting,  which would follow a further aggravation in September, which could be of the same size or a little larger.

 

Doubts and discussions within the ECB – between starting the cycle of interest rate hikes with a more moderate movement of 0.25 percentage points or a rougher 0.5-point movement – are understandable. Christine Lagarde and her peers face an economic environment full of risks and uncertainties, and it is difficult to see whether the biggest danger is that of accelerating inflation or whether, on the contrary, the major threat facing the eurozone economy is a deep recession. There is even the possibility that, several economists warn, the two risks could be achieved at the same time.

 

One thing is certain, however: if interest rates rise more quickly, the central bank takes a step forward in the task of controlling inflation, but at the same time makes the economy more likely to enter recession. If you choose to raise more moderate rates, it does not penalise the economy so much, but risks losing control of inflation.

 

In the debate taking place within the GOVERNING BOARD of governors, those who are most concerned about inflation have, since the meeting held in June, new arguments to present. Earlier this month, it was learned that the annual inflation rate in June rose from 8.1% to 8.6%. The decline in this indicator in Germany has not compensated for the rise in other major eurozone economies such as Spain and Italy, making it clear that a ceiling has not yet been reached in this indicator.

 

And even more importantly, in recent weeks the depreciation of the euro against the dollar has been markedly increased, with both currencies even reaching parity for the first time since 2002, something that, for the euro area, is yet another reason to expect inflation to rise, as prices of imported goods (including those of energy products) worsen as the euro's value falls.

 

The problem is that, on the other hand, among those who are more concerned about the risk of a recession, there are also more arguments to put forward. There have been fears that a scenario of scarcity of natural gas supplies could create very significant constraints to the evolution of the economies of central and eastern Europe, the most dependent on Russia in this area.

 

With the 10-day nord stream 1 pipeline halting by Russia, allegedly to solve technical problems, Moscow has raised fears among its main European customers that it is planning to cut supplies more definitively in an attempt to penalise European economies.

 

In fact, without Russian gas, economies such as Germany would have difficulty maintaining the same level of energy use, which, especially in winter, could force, for example, a contraction of activity in the industry. There is already an increase in the apprehension of German economic agents in the confidence indexes that are being published, something that may in itself mean that we may see a drop in investment and consumption stronger than anticipated.

 

The ECB will not this week present new forecasts for the eurozone economy – the review of projections is only scheduled for September – but that does not prevent members of the board of governors from taking into account in their decision the deteriorating growth prospects, which are more likely to recession, which has occurred since the June meeting.

 

Fear of draghi effect

Moreover, also with regard to the risk that the start of the ECB's rate hike cycle will trigger an unwanted rise in debt interest rates in peripheral countries such as Italy, Spain or Portugal, the latest developments raise new concerns.

 

In recent days, it has become clear that there could be a fall in the government led by Mario Draghi, a scenario that would likely be a reason for a further increase in public debt market investors' nervousness about Italy and other eurozone countries classified as peripheral.

 

It will be this Wednesday that, after having seen his resignation refused by the President of the Republic, the Italian Prime Minister will appear in the Senate and The House of Representatives for the vote on two motions of confidence.

 

Raising interest rates above what was predicted the day after Draghi's eventual resignation could be seen as too risky a move by the ECB, capable of triggering the differentials in the interest rates of the public debt of the peripheral countries against Germany.

 

However, at this level, central bank officials believe they have a way of mitigating the effects of rate hikes. The expectation is that, at the end of thursday's meeting, precisely in order to try to avoid this kind of negative reaction in the debt markets, the new anti-fragmentation instrument that the ECB in June had already said it was launching with a view to avoiding the excessive rise in interest rates on some countries' debt will be announced.

 

Reuters also reported on Tuesday that the new instrument, through which the ECB can make debt purchases from countries where interest rates have risen to an excessive level, will be subject to compliance by the country benefiting from policy recommendations made by the European Commission under recovery and resilience plans. Compliance with European budgetary rules once they are no longer suspended will also be a condition for the implementation of the new instrument.

 

Euro recovers

In the markets, the news that the first rise in interest rates in the euro zone in the last 11 years may be stronger than the 0.25 percentage points expected so far, immediately had its effect on the evolution of the value of the euro.

 

The main reason for the depreciation of the euro against the dollar in recent weeks is the very significant difference between the expected rate of interest rate hikes in the US and the euro zone. The U.S. Federal Reserve, which had already begun its cycle of hikes in March, raised its main benchmark interest rate by another 0.75 percentage points in March, expected to do the same (or go even further) at the meeting it is scheduled for next week.

 

The much slower pace of interest rate hikes in the euro zone (consistent with the slower pace of recovery in its economy) caused the euro to fall against the dollar. Now, in the face of the possibility of increased aggression on the part of the ECB, the euro has recovered a small part of the lost ground. After being worth the same as the dollar last week, this Tuesday, the European single currency has overcome the $1.02 barrier.

 

A rise that, while slight, helps the ECB control inflation and shows what the central bank risks losing if it follows what it had planned in June, raising interest rates by just 0.25 percentage points.


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