POLÍTICA
MONETÁRIA
Entre recessão e inflação, BCE avalia subida de juros
maior do que a prevista
Banco central liderado por Christine Lagarde vai, na
quinta-feira, realizar a sua primeira subida de taxas de juro desde 2011. A
dúvida está em saber se será de 0,25 pontos percentuais, como planeado em
Junho, ou de 0,5 pontos, para atacar de forma mais forte a inflação.
Sérgio Aníbal
19 de Julho de
2022, 19:04
Foi há pouco mais
de um mês, no final da reunião de Junho do conselho de governadores do Banco
Central Europeu, que Christine Lagarde, quebrando a regra de não
comprometimento prévio relativamente às decisões que irá tomar, anunciou aquilo
que iria fazer na reunião seguinte, agendada para esta quinta-feira, 21 de
Julho: subir as taxas de juro em 0,25 pontos percentuais. A dois dias do dia da
reunião, contudo, a dúvida está instalada e aumentam os sinais de que o BCE
pode, em vez da subida anunciada, ir um pouco mais longe na sua luta contra a
inflação, elevando as taxas de juro na zona euro em 0,5 pontos percentuais.
De acordo com as
notícias publicadas esta terça-feira pela agência Reuters, que cita “duas
fontes com conhecimento directo das discussões” dentro do banco central, os
responsáveis do BCE estão a colocar a hipótese de, para contrariar a inflação,
subirem as taxas de juro de referência acima daquilo que era esperado,
elevando-as em 0,5 pontos percentuais. A agência noticiosa assinala, contudo,
que as discussões em torno da decisão, que irá ser anunciada na quinta-feira,
ainda estavam bastante abertas.
Outros meios de
comunicação social, entre os quais o Financial Times, também avançaram esta
terça-feira com a mesma informação.
A 9 de Junho, o
BCE tinha anunciado que iria dar início ao seu ciclo de subida das taxas de
juro (que ainda se encontram a zero no caso da taxa de juro de refinanciamento
e em terreno negativo no caso da taxa de juro de depósitos), com um aumento de
0,25 pontos percentuais na reunião de Julho, a que se seguiria um novo
agravamento em Setembro, que poderia ser da mesma dimensão ou um pouco maior.
As dúvidas e as
discussões dentro do BCE – entre iniciar o ciclo de subida de taxas de juro com
um movimento mais moderado de 0,25 pontos percentuais ou um movimento mais
brusco de 0,5 pontos – são compreensíveis. Christine Lagarde e os seus pares
enfrentam uma conjuntura económica cheia de riscos e incertezas, sendo difícil
perceber se o maior perigo é o de uma aceleração da inflação ou se, pelo
contrário, a grande ameaça que a economia da zona euro enfrenta é a de uma
recessão profunda. Há mesmo a possibilidade de, avisam diversos economistas, os
dois riscos poderem concretizar-se em simultâneo.
Uma coisa é certa,
contudo: se subir as taxas de juro mais rapidamente, o banco central dá um
passo em frente na tarefa de controlar a inflação, mas ao mesmo tempo torna
mais provável a entrada da economia em recessão. Se optar por subidas de taxas
mais moderadas, não penaliza tanto a economia, mas arrisca-se a perder o
controlo da inflação.
No debate que
está a ocorrer dentro do conselho de governadores do BCE, aqueles que estão
mais preocupados com a inflação têm, desde a reunião realizada em Junho, novos
argumentos para apresentar. No início deste mês, ficou a saber-se que a taxa de
inflação homóloga em Junho subiu de 8,1% para 8,6%. A descida deste indicador
na Alemanha não compensou a subida registada noutras grandes economias da zona
euro como a Espanha e a Itália, tornando-se claro que ainda não se atingiu um
tecto neste indicador.
E, ainda mais
importante, nas últimas semanas acentuou-se de forma marcada a depreciação do
euro face ao dólar, com as duas divisas a chegarem mesmo à paridade, pela
primeira vez desde 2002, algo que, para a zona euro, constitui mais um motivo
para esperar uma subida da inflação, já que os preços dos bens importados
(incluindo os dos produtos energéticos) agravam-se com a queda de valor do
euro.
O problema é que,
do outro lado, entre aqueles que estão mais preocupados com o risco de uma
recessão, também há mais argumentos para apresentar. Acentuaram-se os receios
de que um cenário de escassez dos fornecimentos de gás natural possa criar
constrangimentos muito significativos à evolução das economias do centro e
leste da Europa, as mais dependentes da Rússia nesta matéria.
Com a paragem do
gasoduto Nord Stream 1 por dez dias decidida na semana passada pela Rússia,
alegadamente para resolver problemas técnicos, Moscovo fez com que se instalasse
junto dos seus principais clientes europeus o receio de que esteja a planear
cortar de forma mais definitiva os fornecimentos, numa tentativa de penalizar
as economias europeias.
De facto, sem o
gás russo, economias como a alemã teriam dificuldade em manter o mesmo nível de
utilização de energia, o que, principalmente no Inverno, poderia forçar, por
exemplo, a uma contracção da actividade na indústria. É já visível o aumento da
apreensão dos agentes económicos alemães nos índices de confiança que vão sendo
publicados, algo que pode por si só significar que poderemos vir a assistir a
uma quebra do investimento e do consumo mais forte do que a antecipada.
O BCE não irá,
esta semana, apresentar novas previsões para a economia da zona euro – a
revisão das projecções está agendada apenas para Setembro –, mas isso não
impede que os membros do conselho de governadores não levem em conta na sua
decisão a deterioração das perspectivas de crescimento, com maiores
probabilidade de recessão, que se registou desde a reunião de Junho.
Medo do efeito
Draghi
Para além disso,
também no que diz respeito ao risco de o início do ciclo de subida das taxas do
BCE desencadear uma escalada indesejada das taxas de juro da dívida dos países
periféricos como a Itália, Espanha ou Portugal, os mais recentes
desenvolvimentos trazem novos motivos de preocupação.
Nos últimos dias,
tornou-se claro que se pode vir a assistir a uma queda do governo liderado por
Mario Draghi, um cenário que provavelmente seria motivo para um novo aumento do
nervosismo dos investidores do mercado de dívida pública relativamente à Itália
e a outros países da zona euro classificados como periféricos.
Será esta
quarta-feira que, depois de ter visto a sua demissão ser recusada pelo
presidente da República, o primeiro-ministro italiano se irá apresentar no
Senado e na Câmara dos Deputados para a votação de duas moções de confiança.
Subir as taxas de
juro acima do que estava previsto no dia a seguir a uma eventual demissão de
Draghi pode ser visto como um movimento demasiado arriscado do BCE, capaz de
fazer disparar os diferenciais das taxas de juro da dívida públicas dos países
periféricos face à Alemanha.
No entanto, a
este nível, os responsáveis do banco central acreditam que têm uma forma de
mitigar os efeitos das subidas de taxas. A expectativa é a de que, no final da
reunião desta quinta-feira, precisamente para tentar evitar este tipo de
reacção negativa nos mercados da dívida, seja anunciado o novo instrumento
anti-fragmentação que o BCE em Junho já tinha dito que ia lançar com o
objectivo de evitar a subida excessiva das taxas de juro da dívida de alguns
países.
A agência Reuters
noticia também esta terça-feira que o novo instrumento, através do qual o BCE
pode realizar compras de dívida de países onde as taxas de juro tenham subido a
um nível considerado excessivo, vai ter como condição o cumprimento pelo país
beneficiado das recomendações de política feitas pela Comissão Europeia no
âmbito dos planos de recuperação e resiliência. O cumprimento das regras
orçamentais europeias, assim que elas deixarem de estar suspensas, também será
uma condição para a aplicação do novo instrumento.
Euro recupera
Nos mercados, a
notícia de que a primeira subida de taxas de juro na zona euro dos últimos 11
anos pode vir a ser mais forte do que os 0,25 pontos percentuais até aqui
esperados, teve imediatamente os seus efeitos na evolução do valor do euro.
O principal motivo
para a depreciação do euro face ao dólar das últimas semanas é a diferença
muito significativa que existe entre o ritmo esperado de subida das taxas de
juro nos EUA e na zona euro. A Reserva Federal norte-americana, que já tinha
iniciado o seu ciclo de subidas em Março, elevou a sua principal taxa de juro
de referência em mais 0,75 pontos percentuais em Março, esperando-se que volte
a fazer o mesmo (ou que vá ainda mais longe) na reunião que tem agendada para a
próxima semana.
O ritmo muito
mais lento de subidas de taxa de juro na zona euro (condizente com o ritmo mais
lento de retoma da sua economia) fez com que o euro caísse face ao dólar.
Agora, perante a possibilidade de uma maior agressividade por parte do BCE, o
euro recuperou uma pequena parte do terreno perdido. Depois de ter estado a
valer o mesmo que o dólar na semana passada, esta terça-feira, a moeda única
europeia superou a barreira dos 1,02 dólares.
Uma subida que,
embora ligeira, ajuda o BCE a controlar a inflação e mostra aquilo que o banco
central se arrisca a perder se acabar por seguir aquilo que tinha planeado em
Junho, aumentando as taxas de juro em apenas 0,25 pontos percentuais.
MONETARY POLICY
Amid recession
and inflation, ECB assesses higher-than-expected interest rate hike
Central bank led by Christine Lagarde will on Thursday
hold its first interest rate hike since 2011. The question is whether it will
be 0.25 percentage points, as planned in June, or 0.5 points, to attack
inflation more strongly.
Sergio Hannibal
July 19, 2022,
19:04
It was just over
a month ago, at the end of the June meeting of the Board of Governors of the
European Central Bank, that Christine Lagarde, breaking the rule of no prior
commitment to the decisions she will take, announced what she would do at the
next meeting scheduled for Thursday, July 21: raise interest rates by 0.25
percentage points. Two days before the day of the meeting, however, doubt is
settled and signs are growing that the ECB may, instead of the announced rise,
go a little further in its fight against inflation, raising interest rates in
the euro zone by 0.5 percentage points.
According to news
published on Tuesday by Reuters, which cites "two sources with direct
knowledge of the discussions" within the central bank, ECB officials are
putting the chance that, to counter inflation, reference interest rates will
rise above what was expected, raising them by 0.5 percentage points. The news
agency notes, however, that discussions surrounding the decision, which will be
announced on Thursday, were still fairly open.
Other media
outlets, including the Financial Times, also came forward on Tuesday with the
same information.
On 9 June, the
ECB had announced that it would begin its cycle of raising interest rates
(which are still at zero in the case of the refinancing interest rate and on
negative ground in the case of the deposit interest rate), with an increase of
0.25 percentage points at the July meeting,
which would follow a further aggravation in September, which could be of
the same size or a little larger.
Doubts and
discussions within the ECB – between starting the cycle of interest rate hikes
with a more moderate movement of 0.25 percentage points or a rougher 0.5-point
movement – are understandable. Christine Lagarde and her peers face an economic
environment full of risks and uncertainties, and it is difficult to see whether
the biggest danger is that of accelerating inflation or whether, on the
contrary, the major threat facing the eurozone economy is a deep recession.
There is even the possibility that, several economists warn, the two risks
could be achieved at the same time.
One thing is
certain, however: if interest rates rise more quickly, the central bank takes a
step forward in the task of controlling inflation, but at the same time makes
the economy more likely to enter recession. If you choose to raise more
moderate rates, it does not penalise the economy so much, but risks losing
control of inflation.
In the debate
taking place within the GOVERNING BOARD of governors, those who are most
concerned about inflation have, since the meeting held in June, new arguments
to present. Earlier this month, it was learned that the annual inflation rate
in June rose from 8.1% to 8.6%. The decline in this indicator in Germany has
not compensated for the rise in other major eurozone economies such as Spain
and Italy, making it clear that a ceiling has not yet been reached in this
indicator.
And even more
importantly, in recent weeks the depreciation of the euro against the dollar
has been markedly increased, with both currencies even reaching parity for the
first time since 2002, something that, for the euro area, is yet another reason
to expect inflation to rise, as prices of imported goods (including those of
energy products) worsen as the euro's value falls.
The problem is
that, on the other hand, among those who are more concerned about the risk of a
recession, there are also more arguments to put forward. There have been fears
that a scenario of scarcity of natural gas supplies could create very
significant constraints to the evolution of the economies of central and
eastern Europe, the most dependent on Russia in this area.
With the 10-day
nord stream 1 pipeline halting by Russia, allegedly to solve technical
problems, Moscow has raised fears among its main European customers that it is
planning to cut supplies more definitively in an attempt to penalise European
economies.
In fact, without
Russian gas, economies such as Germany would have difficulty maintaining the
same level of energy use, which, especially in winter, could force, for
example, a contraction of activity in the industry. There is already an
increase in the apprehension of German economic agents in the confidence
indexes that are being published, something that may in itself mean that we may
see a drop in investment and consumption stronger than anticipated.
The ECB will not
this week present new forecasts for the eurozone economy – the review of
projections is only scheduled for September – but that does not prevent members
of the board of governors from taking into account in their decision the
deteriorating growth prospects, which are more likely to recession, which has
occurred since the June meeting.
Fear of draghi
effect
Moreover, also
with regard to the risk that the start of the ECB's rate hike cycle will
trigger an unwanted rise in debt interest rates in peripheral countries such as
Italy, Spain or Portugal, the latest developments raise new concerns.
In recent days,
it has become clear that there could be a fall in the government led by Mario
Draghi, a scenario that would likely be a reason for a further increase in
public debt market investors' nervousness about Italy and other eurozone
countries classified as peripheral.
It will be this
Wednesday that, after having seen his resignation refused by the President of
the Republic, the Italian Prime Minister will appear in the Senate and The
House of Representatives for the vote on two motions of confidence.
Raising interest
rates above what was predicted the day after Draghi's eventual resignation
could be seen as too risky a move by the ECB, capable of triggering the
differentials in the interest rates of the public debt of the peripheral
countries against Germany.
However, at this
level, central bank officials believe they have a way of mitigating the effects
of rate hikes. The expectation is that, at the end of thursday's meeting,
precisely in order to try to avoid this kind of negative reaction in the debt
markets, the new anti-fragmentation instrument that the ECB in June had already
said it was launching with a view to avoiding the excessive rise in interest
rates on some countries' debt will be announced.
Reuters also
reported on Tuesday that the new instrument, through which the ECB can make
debt purchases from countries where interest rates have risen to an excessive
level, will be subject to compliance by the country benefiting from policy
recommendations made by the European Commission under recovery and resilience
plans. Compliance with European budgetary rules once they are no longer
suspended will also be a condition for the implementation of the new
instrument.
Euro recovers
In the markets,
the news that the first rise in interest rates in the euro zone in the last 11
years may be stronger than the 0.25 percentage points expected so far,
immediately had its effect on the evolution of the value of the euro.
The main reason
for the depreciation of the euro against the dollar in recent weeks is the very
significant difference between the expected rate of interest rate hikes in the
US and the euro zone. The U.S. Federal Reserve, which had already begun its
cycle of hikes in March, raised its main benchmark interest rate by another
0.75 percentage points in March, expected to do the same (or go even further)
at the meeting it is scheduled for next week.
The much slower
pace of interest rate hikes in the euro zone (consistent with the slower pace
of recovery in its economy) caused the euro to fall against the dollar. Now, in
the face of the possibility of increased aggression on the part of the ECB, the
euro has recovered a small part of the lost ground. After being worth the same as
the dollar last week, this Tuesday, the European single currency has overcome
the $1.02 barrier.
A rise that,
while slight, helps the ECB control inflation and shows what the central bank
risks losing if it follows what it had planned in June, raising interest rates
by just 0.25 percentage points.


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