quarta-feira, 20 de julho de 2022

A grande ilusão

 


OPINIÃO

A grande ilusão

 

Zelensky considera-se um novo faraó da opinião pública internacional, um messias do Ocidente que não admite críticas ou hesitações no apoio incondicional à sua estratégia de guerra até à derrota e humilhação da Rússia, como numa superprodução de Hollywood.

 

Paula Teixeira da Cruz

20 de Julho de 2022, 1:28

https://www.publico.pt/2022/07/20/opiniao/opiniao/ilusao-2014231

 

A fatal decisão de Putin de invadir a Ucrânia, com a invocação de argumentos absurdos, que denotavam à saciedade uma psicose imperial, e a brutalidade com que a guerra foi deste o primeiro momento conduzida em território ucraniano, levaram a opinião pública ocidental a alinhar largamente pelo apoio à Ucrânia como potência agredida e particularmente ao seu presidente, um ex-ator com aparência jovial, que nos seus discursos quotidianos conseguia simultaneamente vitimizar-se e apresentar vitórias significativas sobre o invasor.

 

A generosidade do apoio à Ucrânia fez com que ninguém na Europa se atrevesse sequer a fazer as contas aos prejuízos e privações que as suas populações iriam viver por virtude do tipo e do modo das sanções aplicadas à Rússia. Só que na altura se não tinham vislumbrado as inquietantes semelhanças entre as personalidades narcísicas dos dois líderes antagonistas, Putin e Zelensky.

 

É certo que a Ucrânia, um país enorme, apresentava um triste track record de corrupção, de ajustes de contas entre políticos e de proibição discricionária de partidos e opiniões políticas divergentes. A invasão russa, pela sua intrínseca brutalidade e pela ameaça que representava, justificava, todavia, o perdão desses “pecadilhos”.

 

 

Na batalha da propaganda todas as armas foram disponibilizadas a Zelensky, mesmo que à custa, em certos países, do pluralismo na informação e do saudável confronto de pontos de vista, pilares da vida democrática.

 

As portas da Europa foram-lhe escancaradas, apesar das reticências de muitos dirigentes políticos, preocupados com a possibilidade de uma entrada precipitada da Ucrânia que pudesse desestabilizar a União Europeia. Foi-lhe concedido apoio militar incondicional e praticamente ilimitado, a par do necessário apoio económico, político e moral.

 

 

Mas o que lamentavelmente se tem observado, para além de uma propaganda sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, têm sido novas proibições de partidos políticos, a total supressão da liberdade de opinião e de expressão da opinião, a suspeição generalizada, a sucessão de purgas de pessoas tidas como fiéis servidoras do país, desde a procuradora geral, Iryna Venediktova, que investigava crimes de guerra cometidos pelos russos (incluindo as atrocidades de Boutcha) até ao chefe dos serviços de segurança, desde dirigentes locais até embaixadores em países estrangeiros (como aconteceu à embaixadora da Ucrânia em Portugal), desencadeando uma caça às bruxas com a obsessiva suspeição de colaboracionismo com as forças pró-russas.

 

Agora Zelensky ameaça mais 650 responsáveis ucranianos, afirmando que “um tão grande número de crimes contra as fundações da segurança nacional e os laços estabelecidos entre responsáveis ucranianos encarregados da aplicação das leis e os serviços especiais russos colocam questões muito sérias aos dirigentes em causa”.

 

Este tipo de ameaças pode significar que, a partir de agora, a martirizada Ucrânia estará sujeita a um duplo terror, o terror das atrocidades das tropas russas e o terror da repressão interna e das perseguições a todo aquele que for objeto da mais leve desconfiança por parte do presidente da Ucrânia.

 

Zelensky considera-se um novo faraó da opinião pública internacional, um superlíder, um messias do Ocidente que não admite críticas ou mesmo hesitações por parte de outros países europeus no apoio incondicional à sua estratégia de guerra até à derrota e humilhação da Rússia, que ele encara como uma espécie de final feliz de uma superprodução de Hollywood. Zelensky é alguém que não se coíbe de avaliar o suposto maior ou menor entusiasmo deste ou daquele dirigente europeu no apoio que reivindica por parte destes e, do alto da sua vaidade, critica-os sem qualquer rebuço, como aconteceu já a Scholz e a Macron.

 

Todavia, a sua capacidade de “persuasão” sobre a opinião pública ocidental, muitas vezes com recurso à mentira, tal como Putin, tenderá a declinar à medida que a guerra se desenvolver e certos factos sobre a conduta do regime ucraniano venham a ser conhecidos e divulgados. A primária reação inicial de apoio emotivo irá dando lugar à reflexão e ao amadurecimento das ideias.

 

É tempo de pensar se este é o líder heróico que incarna os princípios e valores democráticos ou se, como o seu alter ego Putin, é apenas um perverso narcísico que constitui um obstáculo à cessação das hostilidades e a um acordo político razoável e sustentável.

 

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

 

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