OPINIÃO
A grande ilusão
Zelensky considera-se um novo faraó da opinião pública
internacional, um messias do Ocidente que não admite críticas ou hesitações no
apoio incondicional à sua estratégia de guerra até à derrota e humilhação da
Rússia, como numa superprodução de Hollywood.
Paula Teixeira da
Cruz
20 de Julho de
2022, 1:28
https://www.publico.pt/2022/07/20/opiniao/opiniao/ilusao-2014231
A fatal decisão
de Putin de invadir a Ucrânia, com a invocação de argumentos absurdos, que
denotavam à saciedade uma psicose imperial, e a brutalidade com que a guerra
foi deste o primeiro momento conduzida em território ucraniano, levaram a
opinião pública ocidental a alinhar largamente pelo apoio à Ucrânia como
potência agredida e particularmente ao seu presidente, um ex-ator com aparência
jovial, que nos seus discursos quotidianos conseguia simultaneamente
vitimizar-se e apresentar vitórias significativas sobre o invasor.
A generosidade do
apoio à Ucrânia fez com que ninguém na Europa se atrevesse sequer a fazer as
contas aos prejuízos e privações que as suas populações iriam viver por virtude
do tipo e do modo das sanções aplicadas à Rússia. Só que na altura se não tinham
vislumbrado as inquietantes semelhanças entre as personalidades narcísicas dos
dois líderes antagonistas, Putin e Zelensky.
É certo que a
Ucrânia, um país enorme, apresentava um triste track record de corrupção, de
ajustes de contas entre políticos e de proibição discricionária de partidos e
opiniões políticas divergentes. A invasão russa, pela sua intrínseca
brutalidade e pela ameaça que representava, justificava, todavia, o perdão
desses “pecadilhos”.
Na batalha da
propaganda todas as armas foram disponibilizadas a Zelensky, mesmo que à custa,
em certos países, do pluralismo na informação e do saudável confronto de pontos
de vista, pilares da vida democrática.
As portas da
Europa foram-lhe escancaradas, apesar das reticências de muitos dirigentes políticos,
preocupados com a possibilidade de uma entrada precipitada da Ucrânia que
pudesse desestabilizar a União Europeia. Foi-lhe concedido apoio militar
incondicional e praticamente ilimitado, a par do necessário apoio económico,
político e moral.
Mas o que
lamentavelmente se tem observado, para além de uma propaganda sem precedentes
desde a Segunda Guerra Mundial, têm sido novas proibições de partidos
políticos, a total supressão da liberdade de opinião e de expressão da opinião,
a suspeição generalizada, a sucessão de purgas de pessoas tidas como fiéis
servidoras do país, desde a procuradora geral, Iryna Venediktova, que
investigava crimes de guerra cometidos pelos russos (incluindo as atrocidades
de Boutcha) até ao chefe dos serviços de segurança, desde dirigentes locais até
embaixadores em países estrangeiros (como aconteceu à embaixadora da Ucrânia em
Portugal), desencadeando uma caça às bruxas com a obsessiva suspeição de
colaboracionismo com as forças pró-russas.
Agora Zelensky
ameaça mais 650 responsáveis ucranianos, afirmando que “um tão grande número de
crimes contra as fundações da segurança nacional e os laços estabelecidos entre
responsáveis ucranianos encarregados da aplicação das leis e os serviços
especiais russos colocam questões muito sérias aos dirigentes em causa”.
Este tipo de
ameaças pode significar que, a partir de agora, a martirizada Ucrânia estará
sujeita a um duplo terror, o terror das atrocidades das tropas russas e o
terror da repressão interna e das perseguições a todo aquele que for objeto da
mais leve desconfiança por parte do presidente da Ucrânia.
Zelensky
considera-se um novo faraó da opinião pública internacional, um superlíder, um
messias do Ocidente que não admite críticas ou mesmo hesitações por parte de
outros países europeus no apoio incondicional à sua estratégia de guerra até à
derrota e humilhação da Rússia, que ele encara como uma espécie de final feliz
de uma superprodução de Hollywood. Zelensky é alguém que não se coíbe de
avaliar o suposto maior ou menor entusiasmo deste ou daquele dirigente europeu
no apoio que reivindica por parte destes e, do alto da sua vaidade, critica-os
sem qualquer rebuço, como aconteceu já a Scholz e a Macron.
Todavia, a sua
capacidade de “persuasão” sobre a opinião pública ocidental, muitas vezes com
recurso à mentira, tal como Putin, tenderá a declinar à medida que a guerra se
desenvolver e certos factos sobre a conduta do regime ucraniano venham a ser
conhecidos e divulgados. A primária reação inicial de apoio emotivo irá dando
lugar à reflexão e ao amadurecimento das ideias.
É tempo de pensar
se este é o líder heróico que incarna os princípios e valores democráticos ou
se, como o seu alter ego Putin, é apenas um perverso narcísico que constitui um
obstáculo à cessação das hostilidades e a um acordo político razoável e sustentável.
A autora é
colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

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