Pedro Santos Guerreiro
"Marcelo
ganhou o debate com Ventura porque usou a tática do judo, usou o peso do adversário
contra ele próprio. Marisa preferiu o karaté, assim jogando no campo predileto
de Ventura. Num debate a dois, só um esteve bem: o terceiro, a jornalista.
Porque entre o “você é um vigarista” dela e o “teve azar porque eu vinha
preparado para acabar consigo” dele, sobra um reality show de tristeza e susto.
Ventura adora o
baixo nível e não se coíbe da insídia. Mas insulto nunca é argumento. “Cobarde.
Troca-tintas. Hipócrita. Vigarista. Mentiroso.” Nunca tínhamos ouvido Marisa
Matias assim. Não esteve à altura de si própria, nem do que debater com Ventura
exige: mostrar que as suas convicções são um suflé, que se esvazia quando se
espeta o garfo das ideias e contradições.
(...)
Ventura é o que
é. Olha do alto das sondagens para Marisa Matias, não se indigna se o chamam de
vigarista ou racista, diz que dá sovas ao BE no Parlamento, que não é o Rato
Mickey (já tínhamos percebido…), diz “você hoje está com azar”, “a mim não me
apanha”, “não minta”, etc. e tal. Mas Ventura esteve bem quando atacou Marisa por
esta recusar dar-lhe posse se for Presidente e ele governo. “Se um dia Chega e
PSD forem os únicos em condições de formarem governo, o que faz Marisa se for
Presidente?” (...)
O único momento
verdadeiramente constrangedor para Ventura foi quando Clara de Sousa lhe
perguntou onde está hoje o Ventura que em 2015, aquando da morte da criança
síria Aylan Kurdi numa praia turca, defendeu políticas para refugiados. Depois
do constrangimento inicial, acelerou a fundo contra os refugiados dos iPhones.
E aí Marisa Matias voltou a estar bem, contra a utilização de minorias e de
desvalidos como bodes expiatórios para criar divisões. Foi aí, quase no final,
que lhe saiu a melhor frase: “Nem ele [Ventura] se leva a sério, vou levá-lo eu
a sério?”.
Lembra-se quando
havia tareia no recreio do liceu e miudagem acorria para ver a pancadaria? Foi
do que me lembrei hoje. Por isso é triste. Por isso é assustador."

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