domingo, 29 de setembro de 2013

O "Nosso Partido é Lisboa ? ... ou ... "Caminho Aberto" ?


Rui Moreira foi eleito precisamente porque fundamentalmente baseou todo o perfilamento do seu carácter e programa num compromisso pessoal com o Porto e o seu Futuro.
Com o efectivo slogan o "Nosso partido é o Porto" este duradouro e pessoal compromisso com o Porto foi ilustrado e simbolizado.
Costa, que desenvolveu inteligentemente uma campanha de grande sobriedade, reconhecendo de imediato que não tinha adversário, e ignorando o patético e trémulo vazio de Seara, ainda não afirmou até agora um inquestionável, duradouro e definitivo compromisso para com Lisboa.
O "Caminho Aberto" chama e acena, ilustrando a sua Vocação para a "Política".
 Decida Costa, sim ou não, arrumar definitivamente o inseguro Seguro seguindo o apelo de "outra" responsabilidade de liderança, o que eu gostaria  aqui e agora de VER e OUVIR , independentemente das minha críticas do seu percurso em Lisboa  (ou apreciações ... nem tudo é mau ... mas não é o momento agora de desenvolver ambas ) seria  Costa afirmar de forma clara, definitiva e inequivoca : O MEU PARTIDO É LISBOA !!
António Sérgio Rosa de Carvalho

O regresso dos "homens-bons" do Porto.Rui Moreira: "Se os partidos não perceberam o que se passou aqui, não perceberam nada"



O regresso dos "homens-bons" do Porto


O Porto recusou as promessas de amanhãs que cantam de Luís Filipe Menezes, recusou o programa sensato mas sem garra de Manuel Pizarro, recusou as visões ora realistas, ora radicais da CDU e do Bloco e rendeu-se à coligação de "homens-bons" que se reuniu em torno de Rui Moreira. Numa espécie de regresso ao seu passado, o Porto entregou o governo da cidade aos seus notáveis. O que aconteceu ontem na segunda cidade do país é por isso mais do que uma recusa dos partidos; é também a vitória de um certo Porto, um Porto cioso da sua autodeterminação e do seu zelo em ser diferente.
A vitória de Moreira tem de ser vista à luz dessas idiossincrasias, mas para se perceber o que realmente aconteceu há que descer ao detalhe do percurso público do novo presidente e do essencial das suas propostas. Moreira percebeu que o rigor da gestão financeira de Rui Rio era uma fonte de orgulho para os portuenses. Mas percebeu também que há na classe média um desejo de voltar a encarar a cidade como um lugar europeu, aberto e cosmopolita, o que exige a revisão da política cultural dos últimos anos. E, fundamentalmente, foi capaz de formar uma plataforma transversal a todos os partidos porque nos últimos anos foi uma das figuras da cidade que mais lutaram contra a pulsão centralizadora do Estado em assuntos como o aeroporto, o Porto de Leixões ou a reabilitação urbana. Moreira ganhou porque foi quem melhor percebeu o Porto. Uma cidade grande que conserva o espírito bairrista que tanto lhe dá identidade garra e graça como, por vezes, a torna pequena. Uma cidade que ontem quis ser um laboratório político onde se testam alternativas a regimes caducos.


Rui Moreira: "Se os partidos não perceberam o que se passou aqui, não perceberam nada"
Novo presidente promete que não vai defraudar quem votou nele e diz que quem venceu foi o Porto
O independente Rui Moreira é o novo presidente da Câmara do Porto e a sua vitória representa, para os seus apoiantes, "uma boa surpresa pelo que representa em termos de expressão da sociedade civil da cidade".
Faltavam cinco minutos para as 22h00 quando Rui Moreira desceu para fazer o seu discurso de vitória, perante uma sala cheia de apoiantes, que energicamente o saudavam. Antes de discursar, o novo presidente olhou cada uma das pessoas que se encontravam na sala e esperou que cantassem o hino da candidatura e só depois começou a sua intervenção. Surpreendeu tudo e todos ao dedicar as suas primeira palavras ao seu adversário Manuel Pizarro, candidato pelo PS, que momentos antes assumira a derrota, afirmando: "Temos a obrigação democrática de saudar o vencedor - daqui, da sede do PS, eu saúdo o novo presidente da Câmara do Porto, o dr. Rui Moreira. e em especial saúdo um facto que é inequívoco: quem escolhe o presidente da Câmara do Porto é o povo do Porto".
Deixando a garantia de que não vai "desapontar" os portuenses, Rui Moreira disse que "pela primeira vez o partido que venceu na cidade foi o Porto". Interrompido por diversas vezes pelos aplausos, o novo presidente sublinhou que "o Porto mais uma vez na sua história mostra de que é feito, mostra a sua fibra - não se deixa influenciar por mensagens e por promessas irresponsáveis". Luís Filipe Menezes, o candidato derrotado do PSD, era o destinatário.
Num tom sereno, Rui Moreira salientou que a sua candidatura "não é contra os partidos, mas os partidos não têm estado bem, e esta eleição é um claro sinal do Porto de que é possível fazer diferente e que os partidos têm de ser diferentes. Se os partidos não entenderem o que se passou aqui hoje [ontem], então não perceberam nada."
E não esqueceu outros destinatários: "Todos aqueles que desde o início tentaram impedir esta candidatura, procurando condicionar os nossos apoiantes, que, obviamente, não se deixaram afectar. Estou-me a referir desde às mais altas individualidades do Estado até a comentadores da TV com pretensões políticas individuais, a dirigentes e comentadores de jornais que permanentemente tentaram intoxicar a população. Meus senhores e minhas senhoras, esqueceram-se que estão a falar do Porto", declarou.
Aos apoiantes que se atropelavam deixou uma garantia quase solene: "Vamos cumprir. Ganhámos e vamos cumprir o nosso programa e introduzir novos protagonistas na cidade e na vida pública e política. Porque um dos motivos por que votaram em nós foi para rompermos com o actual estado de coisas, em que são sempre os mesmos que permanentemente se instalam nos corredores do poder, gerindo compadrios e desperdiçando recursos públicos de todos nós".
"Eu não vou defraudar, vocês sabem isso". Um estrondoso aplauso caiu sobre a sala.
Na Rua de Santa Catarina, onde o candidato do PSD, Luís Filipe Menezes, tinha montado o quartel-general, a derrota começou a desenhar-se muito cedo. Na sede, quase não havia apoiantes do ex-autarca de Gaia e no Grande Hotel do Porto, onde se concentrava o seu núcleo duro, a maior parte dos rostos estava fechado, ainda antes das primeiras projecções, às 20h, darem a vitória a Rui Moreira.
Menezes, que anunciara previamente que só falaria quando houvesse resultados definitivos, percebeu que não valia a pena esperar e ainda não eram 21h quando assumiu a "derrota pessoal". "A derrota é minha, exclusivamente minha. Não é do meu partido, nem do primeiro-ministro, nem do Governo, nem dos meus apoiantes", frisou.
Depois de 16 anos à frente do município de Gaia, Menezes reconheceu que esta era "a primeira vez" que perdia, algo a que não estava "habituado". O social-democrata não quis dizer que não ficaria como vereador na autarquia, mas deu-o a entender, dizendo que tinha "o direito legítimo" de pensar na sua vida pessoal. Ainda assim, garantiu que iria consultar os dirigentes do PSD e decidir de acordo com o que fosse "melhor para o partido".
Em noite de derrota, Menezes não quis apontar o dedo ao presidente cessante do município, Rui Rio, que afirmou publicamente que não votaria em si, e cuja proximidade a Rui Moreira é conhecida. Ao novo presidente da câmara, o social-democrata desejou "a maior sorte do mundo", deixando um pedido aos portuenses: "O que me trouxe a esta eleição foi o meu forte amor ao Porto, por isso não vejo outro caminho que não seja dar-lhe, nos próximos quatro anos, todo o apoio, para que ele possa protagonizar nos próximos quatro anos muitos dos sonhos que eu tinha para a cidade". Às 21h21, Menezes abandonava a sede, acompanhado pelas poucas palmas de quem ainda estava, àquela hora, na Rua de Santa Catarina.

O "Duas Mãozinhas cheias de Nada" ... afirma ...



Uma Derrota e uma "Vitória" do Populismo...




sábado, 28 de setembro de 2013

O trunfo de Paris é não se ter esvaziado dos seus jovens, das suas crianças



O trunfo de Paris é não se ter esvaziado dos seus jovens, das suas crianças


Anne Hidalgo A candidata socialista à Câmara Municipal de Paris quer manter a cidade como um local agradável para viver como trunfo face às outras grandes capitais. Os desafios são enormes
Nasceu em Espanha, mas tornou-se parisiense. Aliás, faz questão de se confundir quase com Paris, esta mulher elegante de 54 anos que fala baixo mas com firmeza e que tem boas hipóteses de ser a primeira mulher a presidir à Câmara Municipal de Paris. Braço direito do socialista Betrand Delanoë, o actual presidente do município, desde 2001, a discreta Anne Hidalgo, como a descrevem os jornais franceses, lançou a sua candidatura há um ano, e está determinada a não perder nas eleições autárquicas de Março de 2014. Esteve em Lisboa na semana passada, juntamente com uma embaixada de artistas franceses, nas comemorações dos 15 anos do Acordo de Amizade e Cooperação entre Paris e Lisboa e conversou com o PÚBLICO sobre a sua candidatura à presidência de Paris, uma das cidades-mundo do planeta.

É candidata à presidência da Câmara de Paris, um cargo nunca ocupado por uma mulher. Quais são as suas ambições para Paris?
É verdade que nunca houve uma mulher presidente da Câmara de Paris, que é uma das grandes cidades europeias. A minha ambição para Paris prende-se com a ligação que tenho a esta cidade. Poderia ter entrado no Governo de François Hollande, mas preferi continuar ligada à minha cidade, como faço desde 2001 com Bertrand Delanoë [o actual presidente da câmara]. Paris é uma cidade que se transformou muito nestes últimos anos. Conseguiu renovar-se, retomar uma dinâmica criativa, económica. Hoje Paris é verdadeiramente uma cidade-mundo que está em competição com as outras grandes capitais do planeta. Somos uma cidade que atrai criadores e investigadores do mundo inteiro. Quero estimular esse poder de atracção.
Mas também quero que em Paris se viva bem, porque Paris é uma cidade jovem, de 2,3 milhões de habitantes, onde vivem muitas famílias. É uma cidade jovem, onde a média de idades é 38 anos, onde há uma maioria de mulheres (53%), e são muito activas: 87% das mulheres de Paris que têm entre os 20 e 50 anos trabalham. E ao mesmo tempo a natalidade é mais forte em Paris do que no resto de França. Quero que esta dinâmica, ligada às características dos parisienses, marque o meu programa. Creches, escolas de boa qualidade, política municipal para apoio às pessoas idosas, para as mulheres articularem a vida profissional com a vida pessoal, coisas que fazem de uma cidade um espaço onde se viva bem, ao mesmo tempo que se garantem as condições para Paris ser uma cidade-mundo.

E quais são os trunfos de Paris face a outras grandes capitais europeias?
O trunfo de Paris é precisamente não se ter esvaziado dos seus jovens, das suas crianças. Quando vou a Manhattan, não vejo famílias e crianças. Esta é uma particularidade de Paris. Quero valorizar isto e melhorar as condições de vida. Por exemplo, a questão da habitação. Ter casa em Paris continua a ser muito difícil. Com Bertrand Delanoë construímos muitas habitações sociais, mas hoje é necessário ter programas também para a classe média e para os jovens, porque os preços do imobiliário em Paris são extremamente elevados.
Tenho uma outra prioridade que é a da circulação, um problema de todas as grandes cidades. A mobilidade deve ser facilitada, mas em causa não está apenas o automóvel; é preciso continuar a apoiar os transportes públicos. Mas é preciso incitar novas formas de mobilidade que virem as costas à viatura poluente. Por exemplo, o programa de partilha de automóveis, o Autolib, que pusemos em prática depois do de partilha de bicicletas, o Velib. Damos a escolha de alugar uma viatura eléctrica e não-poluente para circular em Paris. A cidade pode ainda incentivar o seu uso autorizando estes carros a circular nas vias prioritárias como as dos transportes públicas e permitir recarregar a bateria gratuitamente nos postos municipais.

Ainda sobre a habitação, o Governo aprovou na semana passada um pacote de medidas para o alojamento de emergência, porque há 141.500 pessoas sem habitação em França. Que impacto pode ter em Paris?
Paris é sobretudo uma cidade de arrendatários. E os alugueres são muito elevados. O Governo decidiu fazer uma lei para enquadrar o arrendamento urbano, impor limites máximos no preço por metro quadrado. Mas para lá desta medida, que considero boa, tenho outras propostas.
Primeiro, que se continuem a construir alojamentos sociais (Paris tem 20% de habitação social). Mas é preciso envolver também o sector privado para elevar a oferta no mercado para a classe média. Quero dar a possibilidade ao sector privado de construir edifícios de escritórios, claro que dentro dos regulamentos municipais, com a contrapartida de construírem habitação a preços acessíveis para a classe média, inferiores ao preço actual de mercado. Isto pressupõe a criação de uma agência imobiliária pública, onde estariam representados bancos e agentes imobiliários. O objectivo seria construir 10 mil novos alojamentos por ano, 60 mil em seis anos.

Há prédios vazios em Paris, porque os proprietários preferem não os alugar mais baratos?
Justamente, há entre 140 mil e 200 mil casas vazias. Pedi a um deputado socialista parisiense que fizesse um estudo sobre as razões que impedem o aluguer destas casas e parece que parte dos proprietários prefere deixar o seu apartamento vazio a alugá-lo por um valor mais baixo, e eventualmente sofrer danos. A agência imobiliária pública que quero criar poderia mobilizar estes apartamentos para o mercado, dando confiança aos proprietários

A sua adversária, Nathalie Kosciusko-Morizet, da UMP (centro-direita), põe o acento muito forte na segurança. É um assunto muito importante para os franceses.
Para já, a questão da segurança é demasiado importante para que seja usada como motivo de gesticulações políticas. Considero que a segurança é um direito. Em Paris, o Governo a que pertenceu Nathalie Kosciusko-Morizet [durante a presidência de Nicolas Sarkozy, de cuja campanha para a reeleição ela foi porta-voz] suprimiu 1500 postos de trabalho na polícia em Paris. Com menos 1500 agentes, evoluiu o número de assaltos, de furtos, de delinquências de rua, sobretudo nos sítios turísticos. Pedi ao ministro do Interior, Manuel Valls, que repusesse estes 1500 polícias; está em curso, mas demora dois anos a formar novos polícias.
Mas há um grande papel da prevenção da delinquência, em que quero continuar a investir. Uma forma é o financiamento dos educadores de rua, que propõem actividades para evitar que os jovens sejam atraídos pela delinquência. A cidade de Paris criou também "correspondentes de noite", agentes sobretudo de mediação que vão aos bairros mais difíceis à noite. Constatámos um fenómeno particular: há organizações dos antigos países de Leste que exploram jovens ciganos, que foram comprados às suas famílias, para serem inseridos numa criminalidade de rua, muito agressiva, mendicidade ou furto nas zonas turísticas de Paris. Temos há alguns anos uma parceria com polícias e serviços de justiça europeus, que leva polícias romenos a actuar ao lado de polícias franceses em Paris. Até agora, conseguimos desmantelar cinco redes que exploravam jovens para mendicidade e roubo, e teremos condenações em breve. É importante dar este sinal mas também recuperar os jovens apanhados por estas redes, estamos a trabalhar para tentar a sua reintegração.

As sondagens, por ora, dão-na à frente, embora Nathalie Kosciusko-Morizet não esteja assim muito atrás...
Estou confortável, mas sei que será uma eleição renhida. Não subestimo o impacto da crise da situação internacional nas eleições parisienses. Foi por isso que lancei a candidatura cedo, há um ano, para reunir os apoios à minha volta de forma ampla. A direita parisiense não consegue fazer isso. O meu objectivo é fazer uma modernização, aplicar a proibição de acumular mandatos...
Sei que a eleição será difícil. O elo de confiança que terei de estabelecer com os parisienses passa pela renovação e pela minha ligação à cidade. Paris, para mim, é em si uma ambição. Não é um trampolim. Os parisienses não são parvos, vêem onde há uma ambição sincera por eles e onde há uma ambição pessoal.

Nunca pensa em alcançar postos políticos para além de Paris?
Não. Há quem me diga: "Tens o direito de ter uma ambição nacional". Claro que tenho direito a ter ambições nacionais, não se podem é confundir. Acho que a ambição de ser presidente da Câmara de Paris é já muito grande, é enorme. Hoje onde os políticos podem fazer política e ao mesmo tempo ser úteis aos seus concidadãos é à escala das cidades-mundo. Não é dar provas de uma ambição menor querer ser presidente da Câmara de Paris.

Segundo resgate poderia chegar aos 50 mil milhões de euros."Na Alemanha as pessoas já não querem ouvir falar de mais resgates"



Segundo o IGCP, Portugal precisa de, logo em 2014, assegurar um financiamento adicional de 8200 milhões 

Segundo resgate poderia chegar aos 50 mil milhões de euros


Em Bruxelas, um eventual novo programa português é visto como mais duro no primeiro ano, antecipando o impacto de eleições em 2015. Os credores preferirão trabalhar com o actual Governo
As necessidades de financiamento que Portugal terá ainda de assegurar entre o início do próximo ano e o final de 2017 ascendem, de acordo com as contas feitas pela Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP), a 53.100 milhões de euros. Este valor pode ser uma referência para se perceber qual a dimensão que um segundo pacote de empréstimos da troika a Portugal poderia vir a ter.
Segundo uma apresentação feita pelo IGCP a investidores durante este mês, Portugal precisa de, logo em 2014, assegurar um financiamento adicional de 8200 milhões. Este valor serve para complementar os 8000 milhões que serão ainda entregues pela troika nas últimas tranches do actual programa e os 4700 milhões de excedentes de tesouraria com que o Tesouro português deverá contar no início do próximo ano.
À partida, num cenário de regresso aos mercados, este financiamento adicional seria garantido através de emissões de títulos de dívida pública, podendo cerca de metade dos 8200 milhões ser assegurada pelo aumento da exposição do fundo de estabilização financeira da Segurança Social à dívida pública.
Mas se Portugal não regressar aos mercados e o segundo resgate for activado, estes 8200 milhões já terão de ser assegurados por novos empréstimos da troika. Em 2015, este valor sobe para 18.600 milhões, sendo de 14.200 milhões em 2016 e 12.100 milhões em 2017. No total, são 53.100 milhões durante os próximos três anos, um prazo provável para um eventual novo programa.
Esta projecção de necessidades de financiamento do IGCP é feita com base numa evolução do défice público em linha com aquilo que é esperado pelo Governo e a troika. Se as metas do défice forem revistas ou se forem encontradas novas necessidades de financiamento, por exemplo, a empresas públicas e ao sector bancário, o valor para um segundo resgate poderia ser diferente.
Além disso, do primeiro pacote, sobram neste momento 6200 milhões reservados para a capitalização do sector bancário e cujo destino a ser dado no fim do programa se desconhece. O montante final de um eventual segundo programa dependerá também das expectativas de acesso parcial aos mercados que possa haver para Portugal nos próximos anos.
O cenário de um segundo resgate a Portugal tem vindo a ganhar força nos últimos meses. Ontem, o PÚBLICO noticiou que a necessidade de um segundo programa para Portugal era, em Bruxelas, vista como "largamente inevitável". O Ministério das Finanças negou "que estejam em curso quaisquer negociações ou referências de qualquer tipo em relação a um segundo programa de resgate a Portugal", e a Comissão Europeia reagiu no mesmo sentido. O ministério liderado por Maria Luís Albuquerque garante que "o Governo está a trabalhar com os representantes da CE, BCE e FMI no âmbito da actual missão em curso para garantir a sua conclusão com sucesso nos próximos dias".

Mais duro
Ao PÚBLICO, várias fontes europeias envolvidas no actual programa de ajuda falam da elevada probabilidade de um novo programa e sublinham que um eventual segundo resgate a Portugal será ainda mais duro do que o actual em termos de exigência de redução das despesas públicas e reformas económicas.
Este endurecimento resulta em grande parte da perspectiva das eleições legislativas de Junho de 2015, que levará as instituições da troika e os governos do euro a concentrar o essencial do "trabalho de casa" no início do programa. As eleições "serão um elemento determinante" na definição de um eventual novo resgate, referiu uma das fontes ouvidas pelo PÚBLICO.
A lógica subjacente a esta opção é que, não sabendo o que acontecerá a seguir a Junho de 2015, os credores quererão garantir o cumprimento das medidas do programa com o actual Governo. Portugal também enfrentará uma alteração drástica do estado de espírito dos governos do euro, que até há pouco demonstravam uma boa vontade inabalável relativamente a um país que era visto, tal como a Irlanda, como cumpridor dos compromissos.
Esta boa imagem ficou abalada com as divisões internas no Governo sobre a execução do programa, a crise política do Verão e a demissão de Vítor Gaspar de ministro das Finanças, que era visto como o garante dos compromissos assumidos. "Se Portugal precisar de mais empréstimos, será uma constatação de fracasso, e isso ninguém vai assumir de ânimo leve", vincou outra fonte europeia ouvida pelo PÚBLICO, prevendo uma deterioração do tom que será usado com Portugal.
O endurecimento da posição da troika já está, aliás, a marcar o acompanhamento do actual programa, e será agravado à medida que crescer a convicção dos credores de que Portugal não conseguirá regressar ao financiamento no mercado a partir de Junho de 2014.

FMI preocupado com dívida
O grande risco que é temido em Bruxelas, mas igualmente em Lisboa, é que o FMI imponha como condição à sua participação no segundo resgate uma reestruturação da dívida portuguesa, como aconteceu na Grécia para a trazer para níveis sustentáveis. O Fundo tem vindo a pressionar nesse sentido, uma postura que poderá ser reforçada com as suas admissões recentes de que a dose de austeridade prevista nos programas de ajuda será excessiva.
Do lado da zona euro, porém, o cenário de uma nova reestruturação de dívida está "totalmente fora de questão", devido aos riscos de contágio aos outros países periféricos. "Toda a gente disse que a Grécia era um caso absolutamente único por boas razões: se houver alguma dúvida sobre isso, nunca mais ninguém voltará a comprar títulos [de dívida] de Portugal, Espanha ou Irlanda", sublinha outra fonte.
Mesmo assim, o FMI estará nestas negociações em posição de força, porque sem a sua participação não poderá haver resgate por imposição de alguns governos do euro. Sabe-se já que a participação do FMI será reduzida de um terço do actual pacote total de 78.000 milhões para um valor a rondar os 10% de um futuro resgate.
O novo programa também não incluirá uma nova extensão dos prazos dos empréstimos europeus que foram prolongados em Abril para uma duração média de 20 anos (contra 30 anos na Grécia), referiu uma das fontes ouvidas pelo PÚBLICO. Nem incluirá, em caso algum, qualquer tipo de perdão dos empréstimos da zona euro, uma possibilidade que chegou a ser referida ao de leve para a Grécia, mas que está, agora, fora de questão.
O segundo resgate poderá em contrapartida incluir algum tipo de utilização dos fundos estruturais para financiar algumas reformas da economia, como está a ser pensado para o terceiro pacote de ajuda à Grécia. O Reino Unido, que não é membro do euro e recusa participar nos empréstimos aos países em dificuldades, tem vindo a resistir a esta eventualidade. Isto porque sendo os fundos estruturais fornecidos pelo orçamento da União Europeia, a sua utilização nos programas de ajuda significaria que todos os países-membros estariam a ajudar Atenas ou Lisboa, o que Londres recusa.

Marcel Fratzscher preside ao DIW, um dos principais think tanks
"Na Alemanha as pessoas já não querem ouvir falar de mais resgates"
Marcel Fratzscher O presidente do DIW diz que os alemães não vêem Portugal como uma segunda Grécia, mas que não se deve esperar mais da Alemanha para combater a crise
Marcel Fratzscher é presidente do DIW, um dos principais think tanks alemães. Está preocupado com a evolução futura da economia alemã e avisa que os países periféricos não devem esperar uma mudança de políticas significativa por parte de Merkel e do seu novo Governo.

Qual será a reacção na Alemanha se tiver que haver um segundo resgate a Portugal?
A população alemã, de uma forma geral, tem neste momento uma fadiga em relação à crise. As pessoas não querem ouvir falar da crise, não querem ouvir falar de mais resgates, de mais dinheiro. E há cada vez mais pessoas a criticar o facto de a Alemanha estar a emprestar tanto dinheiro. Portanto, havendo um novo resgate, vão ser exigidas mais medidas, mais reformas. Ainda assim, temos de distinguir entre os países. A percepção geral na Alemanha em relação a Portugal é muito positiva. Mesmo entre a população.

Não nos vêem como uma segunda Grécia?
Não. A Grécia é vista como um caso muito difícil e as pessoas estão muito pessimistas em relação à possibilidade de todo o dinheiro que foi emprestado ser devolvido. Há uma grande expectativa na Alemanha de que a Grécia vai precisar de uma nova reestruturação da dívida.

E em relação a Portugal?
É mais a de que é um país que está a fazer as coisas bem, que avançou para reformas, que está a reduzir o défice. E por isso, se for necessário um segundo programa em Portugal, eu estou à espera que o Governo alemão, seja ele como for formado, dê o seu acordo.

Acredita que a estratégia da troika pode resultar? Não antevê que, com um desemprego tão alto, a emigração dos mais qualificados e o enorme corte no investimento, se estejam a eliminar as possibilidades de crescimento alto durante muito tempo?
Acho que a troika, no início, cometeu o erro de ser demasiado ambiciosa. Tentou fazer de mais num período de tempo demasiado curto, o que prejudicou de forma muito acentuada o crescimento económico. Alguns desses erros foram corrigidos. Agora a troika estava certa ao dizer: temos de arranjar uma forma de a dívida se tornar sustentável porque os países terão inevitavelmente, a uma determinada altura, de reconquistar o acesso aos mercados. Mas, sem dúvida, neste momento, a questão-chave é como é que se traz o crescimento de volta a países como Portugal e a Grécia. Isso traria emprego e receitas fiscais, o que ajudaria aos objectivos orçamentais.

Como é que se traz esse crescimento de volta?
Na Europa não se discutiu suficientemente uma agenda para o crescimento. É preciso arranjar formas mais ambiciosas de fazer chegar aos países em dificuldades o dinheiro que é preciso para pôr as economias a crescer.

Dinheiro do sector privado ou público?
Os dois. Temos de arranjar incentivos para que mais empresas invistam em países como Portugal, mas também realizar um programa de investimento público a nível europeu. Já é suposto os fundos estruturais dirigirem-se mais para os países em dificuldades, mas tudo isto tem sido demasiado lento e demasiado pequeno para fazer a diferença.

O problema, em Portugal, é convencer alguém a investir quando as perspectivas de procura na economia são tão fracas. Não seria importante flexibilizar mais os défices, reduzir o peso da austeridade?
O problema é saber de onde vem o dinheiro. Portugal não tem acesso aos mercados financeiros e, portanto, isso significaria ter um programa maior do mecanismo de estabilidade e do FMI. E o peso da dívida seria ainda maior. Para o Governo alemão - e também para a sua população - é difícil aceitar que se façam transferências, perdões de dívida. A população alemã não aceitaria isso.

Um perdão de parte da dívida da troika não é um cenário realista para já?
Acho que, para a Grécia, vai ser necessário no final do próximo ano, quando acabar o actual programa. Parece óbvio que a Grécia não vai conseguir aceder aos mercados em 2015 e que a dívida não é sustentável. Portanto, ou se perdoa a dívida ou se reestrutura, através de novos alargamentos de prazos e reduções do juros. Na Alemanha já se começa a discutir isto para a Grécia e pode ser uma oportunidade para Portugal dizer: "Se o fazem para a Grécia, por que não para nós, que até fomos mais bem-sucedidos nas nossas reformas?".

E acha que politicamente é sustentável para os países periféricos?
Eu acredito que há boas hipóteses de Portugal ver algumas bolsas de crescimento no início do próximo ano. Se não acontecer nada de inesperado, vai haver uma melhoria no total da zona euro e isso vai beneficiar também os periféricos. E as pessoas vão poder começar a ver sinais de esperança. O desemprego vai demorar mais a recuperar, com uns seis meses de atraso.

Portugal é um país muito endividado, tanto no sector público como no privado. Vê um país a crescer o suficiente dessa maneira?
Se as reformas estruturais forem bem-sucedidas e houver algum investimento, a competitividade do país aumenta e pode-se crescer através das exportações.

Nesse aspecto, seria bom contar com a ajuda das importações alemãs. Há muitos apelos para que a Alemanha mude a sua política económica, passando a consumir e a investir mais. Isso não teria vantagens também para a própria Alemanha?
A economia está melhor do que o resto da Europa. Recuperou bem da crise de 2009 e teve um grande sucesso em colocar a taxa de desemprego abaixo de 7%. Mas é verdade: no passado, o crescimento foi lento e para o futuro prevejo um crescimento fraco, porque a Alemanha tem um investimento muito baixo. Uma taxa de investimento muito baixa e um nível de poupança muito elevado das famílias são duas características importantes na economia alemã. A taxa de investimento caiu de 17% para 10% agora. É de mais.

E isso é mau só para os seus parceiros ou para a própria Alemanha também?
É mau para a própria Alemanha. Porque isto reflecte uma fragilidade estrutural da economia alemã. É preciso gerar investimento no presente para se poder ter crescimento no futuro e a Alemanha não está a fazer isso.

Essa não é a percepção geral em relação à economia alemã. Habitualmente apenas se fala de sucesso...
E isso preocupa-me muito. Devia haver uma mentalidade de que é preciso fazer mais, mas o ambiente geral é que está tudo muito bem e que não é preciso mudar nada. Na verdade, a economia alemã está bem em comparação com outros países europeus, mas não está bem em termos absolutos. E se estivesse muito melhor também estaria a ajudar a Europa, cresceria mais e importaria mais.

Este sentimento de que tudo está bem explica uma boa parte do recente resultado eleitoral...
Sim, é verdade. A chanceler e o seu partido beneficiaram muito da percepção de que a economia alemã está muito forte, que a crise europeia acalmou. E, por isso, as eleições não foram nada sobre a economia. Foram apenas sobre o tema da redistribuição, se devemos aumentar os impostos sobre os ricos, se é preciso um salário mínimo, se é preciso mais benefícios sociais. A discussão sobre como garantir mais crescimento para a economia e como resolver o problema europeu esteve quase ausente.
Isso significa que das eleições não se deve esperar uma grande mudança de política nessas áreas?
Não espero grandes mudanças, realmente. A grande questão neste momento é quem é que vai ser o partido parceiro da coligação. Isto é complicado porque, a seguir aos dois últimos Governos, os dois partidos que estiveram coligados com Angela Merkel se afundaram.

Por que é que isso aconteceu?
Mostra a capacidade da senhora Merkel em ficar com o crédito dos sucessos do Governo e não assumir a responsabilidade pelo que não correu bem. Em 2009, foi a resposta à crise financeira, e agora foi a acalmia da crise do euro.

A escolha do parceiro de coligação não terá influência nas políticas económicas e para a Europa?
Não espero, independentemente do parceiro, grandes mudanças, nomeadamente na política europeia. Nos últimos anos, tanto o SPD como os Verdes estiveram de acordo com todas as principais decisões a nível europeu.

E a questão da redistribuição, não é uma questão importante para a Alemanha?
Sim. A Alemanha conseguiu trazer a taxa de desemprego de 12% para um valor abaixo de 7% durante a crise financeira. Isso é um grande sucesso, mas foi feito à custa de muito trabalho temporário. Muito do emprego adicional que foi gerado foi em empregos mal pagos, precários, temporários e a tempo parcial. E penso que o pensamento agora vai ser o de, depois da queda do desemprego, tornar estes trabalhos mais seguros, permanentes e bem pagos. A desigualdade do rendimento na Alemanha, apesar de ainda estar abaixo da média da OCDE, tem vindo a subir.

Com a nova coligação, é de esperar mudanças de política a esse nível? No salário mínimo, por exemplo?
Tanto o SPD como os Verdes defendem a introdução de um salário mínimo e isso está certamente na mesa das negociações para a criação de um novo Governo. E a própria Angela Merkel já deu sinais dentro do seu partido de que ia aceitar essa opção. E outras políticas também serão discutidas, como o aumento dos impostos sobre os mais ricos, a redução da carga fiscal sobre a classe média e o incentivo a contratos de trabalho mais permanente. E depois há o tema da energia, com objectivos muito ambiciosos para a utilização de energias alternativas e para a redução dos custos energéticos.

Acha que medidas como a introdução do salário mínimo podem ter um impacto significativo nos níveis de consumo na Alemanha e, portanto, na procura que chega aos países periféricos?
Não terá um grande impacto no consumo. No DIW publicámos um relatório sobre o que é que um salário mínimo significará e concluímos que 17% dos assalariados podem ser afectados pela introdução de um salário mínimo ao nível daquele que é proposto pelo SPD, de 8,5 euros [por hora]. No entanto, muitas dessas pessoas recebem actualmente benefícios que, em parte, deixariam de receber com o aumento salarial. O verdadeiro impacto no rendimento disponível das pessoas seria apenas de um terço do aumento dos salários. Por isso, o impacto na economia será relativamente pequeno e estou preocupado com o que irá acontecer ao emprego. Poderá haver pessoas despedidas.

Portanto, na periferia, não devemos contar com grandes mudanças de velocidade no crescimento na Alemanha para ajudar a procura nas nossas economias?
Eu gostava de ser optimista. Tenho recomendado muito ao Governo e tentado passar a ideia para a opinião pública de que precisamos de uma agenda de investimento na Alemanha. A proposta do DIW tem sido a de mais 3% de investimento - público e privado - por ano. Isso teria um grande impacto. As nossas estimativas apontam para que o crescimento potencial na Alemanha passe de 1% para 1,6%. E isso teria um efeito positivo para o resto da Europa. Não seria gigantesco, não podem esperar tanto, mas contribuiria para que a Alemanha pudesse importar mais e, assim, ajudar as exportações dos outros países.

Rohani recebido em Teerão com vivas mas também com gritos de "morte à América"

O Presidente Rohani esteve cinco dias em Nova Iorque

Rohani recebido em Teerão com vivas mas também com gritos de "morte à América"

Imprensa iraniana saúda conversa telefónica histórica entre os Presidentes do Irão e dos EUA
O Presidente iraniano Hassan Rohani foi recebido neste sábado de manhã no aeroporto de Teerão por centenas de apoiantes mas também por um grupo de adversários que gritaram “morte à América”.
Entre 200 a 300 apoiantes de Rohani reuniram-se no exterior do aeroporto e à passagem da caravana presidencial gritaram: “Obrigado Rohani”.
No mesmo local, cerca de 60 jovens islamistas gritaram “morte à América” e “morte a Israel”. Um dos jovens lançou um sapato contra o veículo do Presidente sem, no entanto, conseguir atingi-lo, testemunhou o repórter da AFP.
Em pé num carro de tecto aberto, Rohani sorriu e acenou, rodeado de seguranças.
O Presidente iraniano regressou a Teerão após cinco dias de visita a Nova Iorque, onde participou na Assembleia geral das Nações Unidas. Foi uma semana intensa de diplomacia destinada a relançar as conversações sobre o programa nuclear iraniano e que terminou com uma conversa telefónica histórica com o Presidente americano, Barack Obama. Desde 1979 que não acontecia um contacto destes ao mais alto nível entre americanos e iranianos.
A imprensa iraniana que foi para as bancas neste sábado saudava, na sua maioria, o telefonema “histórico" entre Rohani e Obama, falando do “fim de um velho tabu de 35 anos”
Mas num texto de opinião publicado no jornal Etema, Ali Bassiri, professor de relações internacionais, avisa contra os “extremistas” que se opõem aos contactos entre os dirigentes dos EUA e do Irão.

“Para além dos extremistas (dentro do país) que são hostis a uma melhoria das relações Irão-EUA, também há opositores na região. Muitos países, em particular o regime sionista [Israel], consideram que os seus interesses estão em perigo com a normalização das relações entre o Irão e os EUA e vão tentar que isso não aconteça”.