quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Novo Museu dos Coches já recebeu quatro viaturas e as peças das reservas. Foi você que pediu uma garagem para coches antigos?


Novo Museu dos Coches já recebeu quatro viaturas e as peças das reservas
O museu, que está pronto desde 2012 mas só abrirá no próximo ano, já tem as oficinas de manutenção e conservação a funcionar
3 jan 2014/ Público

As peças das reservas e quatro viaturas da exposição permanente do Museu Nacional dos Coches, em Lisboa, já foram transferidas para as instalações do novo museu, que só deverá abrir em 2015.
Silvana Bessone, directora do Museu dos Coches, localizado na Praça Afonso de Albuquerque, em Belém, confirmou à agência Lusa que no final do ano passado foram transferidas para o novo museu, situado a cerca de 200 metros, todas as peças que se encontravam nas reservas da instituição.
“O novo museu recebeu estas peças das reservas e também quatro viaturas antigas que se encontravam na exposição permanente. Vão receber ali tratamento de conservação”, revelou a directora do museu. Silvana Bessone disse que o novo museu já tem as oficinas de manutenção e conservação a funcionar.
As reservas do museu, explicou, incluem fardamentos, selas e arreios e encontram-se agora numa área do novo edifício “com mais espaço e em muito boas condições”. As viaturas transferidas, adiantou, são três berlindas do século XVIII e uma carruagem do século XIX, que deverão ser alvo de tratamento nas oficinas e futuramente expostas, quando o museu abrir.
Questionada sobre outras alterações introduzidas na colecção permanente do actual Museu dos Coches — que celebra 110 anos em 2015 — Silvana Bessone afirmou que, “com excepção das viaturas” transferidas, a colecção irá manter-se.
“Oficialmente está prevista a abertura do novo museu em 2015. Até lá, ainda terão de ser lançados os concursos públicos para o projecto museográfico, sinalética, conteúdos multimédia e passagem pedonal”, recordou.
A directora sublinhou que a construção da passagem pedonal sobre a via férrea “será fundamental para o acesso ao museu pelos visitantes” que chegam pela linha ferroviária situada entre a Avenida da Índia e a Avenida de Brasília.
Da mesma forma, a passagem será usada para ligar a zona de estacionamento situada do lado de lá da via férrea, junto à Avenida de Brasília, onde deverão estacionar os autocarros de transporte de turistas.
O novo Museu Nacional dos Coches é composto por dois edifícios, um expositivo e outro anexo, com quatro pisos, com a recepção, as bilheteiras, a loja, o restaurante/ bar, a cafetaria, duas salas de exposição permanente, a sala de exposições temporárias, o auditório, o serviço educativo, os gabinetes da direcção, os serviços administrativos, o laboratório, as oficinas e as zonas técnicas. Ocupando 15.177 metros quadrados nos terrenos das antigas Oficinas Gerais do Exército, o projecto foi concebido em consórcio pelos ateliers MMBB Arquitetos (Brasil), Bak Gordon Arquitectos e Nuno Sampaio Arquitectos (Portugal), com o arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha.
Criado por iniciativa da rainha D. Amélia, mulher do rei D. Carlos I, em 1905, o museu, actualmente instalado no antigo Picadeiro Real do Palácio de Belém, reúne uma colecção única no mundo de viaturas de gala e de passeio do século XVII ao século XIX, na sua maioria provenientes dos bens da coroa ou propriedade particular da Casa Real portuguesa.
Em Outubro do ano passado, no Parlamento, o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, disse aos deputados que, mesmo fechado, o novo museu iria custar ao Estado entre 200 mil e 300 mil euros em 2013. Disse ainda que, depois de aberto, os custos anuais iriam subir para três milhões de euros e que o actual museu custa um milhão, gerando receitas de 500.000 euros.
Adjudicado durante o Governo de José Sócrates e finalizado em 2012, o projecto de construção do novo Museu dos Coches destinouse à execução das contrapartidas do Casino Lisboa, envolvendo um investimento total de 35 milhões de euros.





Foi você que pediu uma garagem para coches antigos?
A Opinião de António Sérgio Rosa de Carvalho.27/08/2011 in Público.


Belém, espaço simbólico da lusitanidade, é caracterizado de forma única pela luminosidade do Tejo-Oceano, pelo tom pastel do seu edificado vernáculo e erudito e pelo simbolismo da sua vegetação arquetipamente mediterrânica.
Este espaço de identidade foi criado por várias gerações, num processo acumulativo, baseado num consenso de leitura, apreciação e reconhecimento da sua importância. Na Praça Afonso de Albuquerque, a elegância apropriada do estilo "Seize" do Picadeiro Real e a erudição neoclássica dos seus interiores constituem o contexto perfeito para a apreciação da internacionalmente reconhecida colecção de coches.
O êxito do museu ilustra um produto cultural consolidado, com desafios de conservação, mas perfeito no seu conjunto.
Num processo apressado, sem concurso público, decidido por um ministro pouco económico (mais do que três dezenas de milhões) determinado a deixar marca de regime através da afirmação pelo contraste e ruptura, este projecto deixa-nos preocupados.
Acima de tudo porque é um símbolo de um despesismo inconsciente e irresponsável, destruidor de um equilíbrio perfeito já existente e criador de novas despesas num futuro muito incerto de penúria e crise no universo do património cultural e museus.
Além disso, ao o compararmos na mesma zona com o Centro Cultural de Belém, concluimos que o projecto do mesmo revelava preocupações de contextualização arquitectónica com a envolvente, esta já determinada na Exposição do Mundo Português em 1940. Volumetrias sintonizadas com a massa dos Jerónimos, jardins suspensos para usufruto tanto do horizonte natural como simbólico, contextualização cuidada dos materiais, linguagem arquitectónica intemporal, monumentalidade apropriada à gravitas e "tectónica" da zona. Além disso, apresentava um programa de funções e de apropriação do espaço de usufruto quotidiano muito claro na sua relação com a arquitectura.
Ora o novo Museu dos Coches, apesar das suas promessas de valorização urbana e pretendidas garantias de vivência turística (elevação do solo); apesar da sua pretensão de monumentalidade minimalista, capaz de valorizar através da imensidão abstracta e branca a exposição de objectos de "ourivesaria" movíveis (coches), deixa-nos muito apreensivos. Porque, apesar de todos os argumentos, é um projecto formalista, dirigido fundamentalmente à forma e estilo do objecto arquitectónico, ao qual a função tem que se adaptar, afirmando-se este objecto pela ruptura, tanto em forma como em materiais.
Enfim, receita apropriada e aliciante para políticos que desejam deixar marca dinástica de regime, mas altamente preocupante quando falamos do Genius Loci de Belém e das suas características cuidadosamente consolidadas.
O projecto lembra-nos um modelo de garagem com rampas, saído de uma miniatura do nosso quarto de brincadeiras, ou um espaço caricatural de um filme de Jacques Tati.
A imensidão branca e clínica dos seus espaços interiores (salas ou hangares [?] com 130 metros por 20 e oito de altura) vai obrigar ao restauro exaustivo de todos os objectos, expostos agora a um escrutínio detalhado e implacável. Os seus espaços ("praça" e rampas) exteriores correm o risco de confirmarem a sua vocação de "garagem", ou no place vazio, inóspito e sujeito às correntes de ar - enquanto a elegância perfeita e erudita do picadeiro fica condenada à subavaliação e subutilização.
Um projecto desnecessário, como até António Costa reconheceu publicamente. No entanto, a Associação de Arquitectos, tal como no Largo do Rato, veio apoiar publicamente com 200 assinaturas este projecto, apesar de ausência de qualquer concurso.
Continua a ser a associação, tal como os seus estatutos o afirmam, uma instituição de utilidade pública, ou transformou-se descaradamente num clube de interesses corporativos?


Historiador de Arquitectura

O fecho absurdo da Loja do Cidadão dos Restauradores.


O fecho absurdo da Loja do Cidadão dos Restauradores
Além de ser uma falsa economia, a prometida alternativa evaporou-se
Por Eduardo Oliveira Silva
publicado em 3 Jan 2014 – in (jornal) i online

Desde ontem que a população da Grande Lisboa deixou de contar com a Loja do Cidadão dos Restauradores, que foi fechada por alegadamente custar muito dinheiro em rendas, 600 ou 700 mil euros ao ano consoante as fontes.

A medida estava prevista há muito, mas estava também prometida a abertura de um equipamento de substituição com a mesma finalidade na Estação Fluvial de Lisboa, o que não aconteceu nem acontecerá.

A verdade é que o governo decidiu pura e simplesmente fechar a primeira das lojas do cidadão (a funcionar desde 2001), e a mais central, onde diariamente eram atendidas cerca de 3 mil pessoas no centro da capital, para onde confluem transportes públicos, ruas e avenidas de Lisboa. Além disso ficava perto da Margem Sul, onde residem centenas de milhares de cidadãos.

Quem quiser recorrer a uma loja do cidadão em Lisboa terá agora de se deslocar a Marvila ou às Laranjeiras, o que, convenhamos, é completamente diferente em termos de acessos. Já em 2003, no tempo do governo Barroso, se tinha verificado uma ofensiva para fechar a emblemática loja dos Restauradores, mais ou menos com os mesmos argumentos falaciosos.

Falaciosos porque na realidade o que se passa é que na actual maioria (a mesma de então) houve sempre quem convivesse mal, muito mal até, com o facto de a importação deste modelo de serviços de proximidade concentrados ter sido da responsabilidade do Partido Socialista, o que perturbou um determinado grupo da actual maioria governamental, embora o próprio PS tenha agora deixado passar a medida sem reparos de maior.

Mas para além deste aspecto revanchista, que existe de facto, pode analisar-se a questão do ângulo económico. Em primeiro lugar, para procurar perceber por que razão o governo não renegociou o arrendamento ou pura e simplesmente não se fez o que estava previsto, ou seja, arranjar o tal local alternativo sensivelmente na mesma zona ou num eixo central, onde não faltam equipamentos do próprio Estado desafectados, como antigos tribunais, isto para não ir mais longe.

Mais ainda, a ideia de que o país poupa dinheiro está por demonstrar. É certo que se corta a renda, mas quanto custa a mais a cada cidadão a mudança do sítio? Quanto custam as horas de espera ou de trabalho perdido à produtividade do país? Em quanto agrava a eficácia a eventualidade de as pessoas terem de se deslocar a vários sítios para tratar de vários assuntos que ali podiam despachar no mesmo local?


No meio das explicações atabalhoadas dadas no último dia de funcionamento da loja dos Restauradores, o secretário de Estado da Modernização Administrativa (parece uma ironia ostentar este título) não foi minimamente capaz nem de justificar a medida, nem de assumir compromissos concretos quanto à manutenção do serviço aos cidadãos. Lamentável!

A UE e a escalada contra os imigrantes. ( No seguimento do Reino Unido ) Conservadores da Baviera querem restringir acesso dos novos imigrantes à Segurança Social.



A UE e a escalada contra os imigrantes
Editorial/Público

O pretexto imediato são os abusos. Mas o que está em curso na Europa, com passos mais decididos no Reino Unido e agora na Alemanha, é uma campanha contra a imigração. No momento em que caíam, a 1 de Janeiro de 2014, as barreiras que impediam o acesso de trabalhadores romenos e búlgaros ao mercado comunitário, ameaçam erguer-se barreiras de outra ordem: combate cerrado aos ilegais e restrição do acesso a benefícios sociais nos países de acolhimento. David Cameron e a União Social-Cristã da Baviera (CSU) coincidem no sentido destas restrições, agitando o fantasma de uma nova vaga migratória de leste. É preciso combater os abusos, argumenta a CSU. Muitos lhe darão razão, até porque existem abusos naquilo a que chamam “turismo de subsídios”. Mas essa intenção mascara uma escalada antiimigrantes que contraria não só o espírito, mas também as necessidades da União Europeia. Uma escalada perigosa.

Conservadores da Baviera querem restringir acesso dos novos imigrantes à Segurança Social
Proposta feita na véspera do fim das barreiras que impediam o acesso de romenos e búlgaros ao mercado comunitário
3 jan 2014 / Rita Siza / Público

A tensão entre os sociais-democratas e os democratas-cristãos que há menos de um mês assinaram um acordo para a formação de um novo Governo de coligação na Alemanha começou a manifestar-se após a apresentação de uma proposta no sentido de restringir o acesso aos pagamentos da Segurança Social germânica por parte de cidadãos de outros países comunitários que acabem de se estabelecer no país.
A proposta, avançada pela União Social-Cristã (CSU), o partido conservador da Baviera aliado da chanceler Angela Merkel, surgiu na véspera do fim da moratória que ainda impedia a livre circulação dos naturais da Roménia e Bulgária, dois países que acederam à União Europeia em 2007 mas cujos trabalhadores continuavam impedidos de integrar plenamente o mercado comunitário. No dia 1 de Janeiro, as barreiras que dificultavam o movimento destes trabalhadores foram definitivamente levantadas, provocando uma reacção em várias capitais europeias. Os conservadores alemães têm estado a falar de uma nova vaga migratória dos países de Leste – a proposta, explicaram, tem como objectivo dissuadir os “imigrantes pobres” de procurar a Alemanha, e travar o “turismo de subsídios” e as fraudes na obtenção de prestações sociais.
Em comunicado, a CSU defende que os cidadãos comunitários tenham o acesso à Segurança Social vedado por um período de três meses após a instalação no país, bem como a deportação e proibição de entrada de todos os imigrantes que tenham contas a ajustar com o sistema social alemão. “A Europa não nos pode obstruir nem limitar as nossas possibilidades de aprovar regulamentos nacionais para lidar com a imigração que é motivada pela pobreza”, dizia o documento.
“O CSU não entende os factos concretos sobre esta questão, e pior, não entende o que é a Europa e evidentemente não quer entender”, criticou Michael Roth, o representante especial para os assuntos europeus do ministro dos Negócios Estrangeiros, que é membro do Partido Social Democrata (SPD), de centroesquerda. Questionado pelo jornal Süddeutsche Zeitung, de Munique, o ministro Frank-Walter Steinmeier classificou a livre circulação entre os diferentes países comunitários como “um aspecto fundamental da integração europeia”, e lembrou que a Alemanha tem sido um dos países que mais beneficiaram dessa política. “Estar a pô-la em dúvida prejudica a Alemanha e prejudica a União Europeia”, lamentou.
Apesar das críticas, o líder da CSU e chefe do governo da Baviera, Horst Seehofer, manteve-se firme na defesa da sua proposta. “Temos de estabelecer as medidas necessárias para proteger o nosso sistema de segurança social. A aceitação da liberdade de movimento europeia é posta em causa pela imigração que abusa do sistema, não pelas justificadas medidas contra os abusos”, disse, em resposta aos sociais-democratas.
Aliás, Seehorf estranhou a reacção dos homens do SPD, e lembrou que no programa de Governo aceite pelos três partidos que asseguram o executivo constava um compromisso para “promover medidas que limitem os incentivos às pessoas que procuram aproveitar-se indevidamente do sistema de segurança social”.

A liberdade de movimentos dos trabalhadores romenos e búlgaros também está a gerar controvérsia no Reino Unido, com o Governo de Londres a enviar para o Parlamento um projecto de revisão da lei de imigração que contempla restrições semelhantes ao acesso a benefícios sociais por parte de imigrantes, e prevê medidas duras contra os indocumentados ou imigrantes ilegais.

Ana Benavente recusa LIVRE: "Não se cria um partido em torno de uma pessoa"

Ana Benavente recusa LIVRE: "Não se cria um partido em torno de uma pessoa"
Ex-dirigente do PS diz que não se pode criar um partido só com "duas horas de debate"
Por Luís Claro
publicado em 3 Jan 2014 in (jornal) i online

A ex-dirigente socialista Ana Benavente ainda admitiu aderir ao LIVRE, o novo partido de esquerda que deverá nascer em breve, mas desistiu da ideia. "Não vou aderir. Não se pode criar um partido só com base em duas horas de debate e em torno de uma pessoa", diz ao i ex-secretária de Estado da Educação.

Ana Benavente esteve presente no São Luíz, em Lisboa, onde foi lançado, em Novembro, o partido de Rui Tavares. Nessa altura, a ex-deputada disse ao i que estava a ponderar "aderir ao LIVRE se a continuação do debate e do muito que está em aberto corresponder a uma articulação séria entre partidos de esquerdas e movimentos sociais com base numa proposta clara para os cidadãos".

Mas a evolução do partido desagradou a Benavente, que acha que o LIVRE está a "constituir-se de um modo bastante fechado". "Acreditava que havia um movimento alargado. Não é o que está a acontecer".

O LIVRE vai realizar o seu primeiro congresso no Porto no dia 31 de Janeiro. Oficialmente o partido ainda não existe, mas estão praticamente reunidas as 7.500 assinaturas que são necessárias para criar uma nova força política. Rui Tavares já disse que o "o lugar" do novo partido é "no meio da esquerda". O eurodeputado garante que vai procurar "a realização de convergências abertas, claras e transparentes, para criar uma maioria progressista".  

A surpresa é que não houve surpresas.Saída à irlandesa, à grega ou à portuguesa?

A surpresa é que não houve surpresas
O Presidente não pediu a fiscalização do Orçamento. Uma opção que acarreta algum risco
Editorial / Público

Há precisamente um ano, Cavaco Silva surpreendeu ao anunciar na sua mensagem de Ano Novo que iria requerer a fiscalização sucessiva do Orçamento do Estado para 2013. O momento escolhido abriu um precedente e, como tal, era grande a expectativa sobre se o Presidente da República iria repetir a dose e enviar o Orçamento para 2014 para ser fiscalizado pelo Tribunal Constitucional. Nem uma palavra no discurso de ontem. A surpresa na mensagem do Presidente este ano é que não houve nenhuma surpresa.
O Presidente não é taxativo em relação à decisão de não enviar o documento para o Constitucional. Mas nas entrelinhas do discurso pode ler-se que há um valor que para Cavaco nesta altura parece ser maior do que todos os outros: estabilidade para não assustar os mercados. E para esta estabilidade o Orçamento é, segundo Cavaco, “um instrumento da maior relevância” no contexto de “acesso aos mercados de financiamento externo a taxas de juro razoáveis”.
Em termos práticos, o facto de Cavaco não ter solicitado uma fiscalização sucessiva é irrelevante. Por uma porta, ou por outra, o documento vai parar aos juízes do Palácio Ratton. Isto porque os partidos da oposição já disseram que iriam activar a fiscalização do documento. Já em termos políticos, a decisão não é neutra. Cavaco sabe que está a correr riscos de estar a promulgar um Orçamento que pode conter normas inconstitucionais. Foi o que aconteceu com o primeiro Orçamento do Governo de Passos Coelho que, apesar da promulgação e do silêncio de Cavaco, veio provar-se mais tarde estar contaminado com pelo menos uma norma inconstitucional (o corte dos subsídios na função pública).
A repetição desta situação poderia deixar o Presidente numa situação melindrosa e fragilizado politicamente. Exactamente aquilo que o país não precisa para 2014, já que no ano que agora começa o papel de árbitro desempenhado por Belém poderá ser fundamental. E é o próprio que, repetidas vezes, apelou à necessidade de compromissos políticos. E para esses compromissos é preciso um Presidente que não seja visto como estando a secundar ou a não fiscalizar convenientemente as opções do Governo.
No discurso, Cavaco tentou ser salomónico nos recados a enviar aos partidos. Veio dizer, de uma forma clara, que “um programa cautelar é uma realidade diferente” de um segundo resgate. Que é como quem pede aos socialistas para baixarem a fasquia e não considerarem a bitola irlandesa (uma “saída limpa”) como a única alternativa possível para Portugal sair do actual resgate com sucesso. E para os partidos da maioria pediu um “compromisso político de médio prazo em torno de grandes objectivos nacionais”, que é como quem pede ao PSD e ao CDS para que envolvam o PS nas negociações para um eventual programa cautelar. Mesmo que a isso não sejam obrigados pelo credores.

Saída à irlandesa, à grega ou à portuguesa?
SOFIA RODRIGUES 02/01/2014 – in Público

No ano que marca o fim do programa de assistência financeira, Portugal ficará a saber se terá um programa cautelar, se adopta um segundo resgate ou se sai sem qualquer protecção. Só em Janeiro a questão começa a ser discutida. Mas a solução de um programa cautelar coloca Portugal menos exposto a eventuais movimentos especulativos dos mercados.
Três cenários estão em cima da mesa para o fim do resgate: Sair sem programa, com um segundo programa ou com um programa cautelar. O mesmo é dizer uma saída, à irlandesa, à grega ou à portuguesa. Mais uma vez parece pesar a percepção dos mercados sobre a capacidade de Portugal se financiar e de fazer reformas.

A saída do actual programa começa a ser discutida formalmente a partir do final deste mês em Bruxelas. Mas nestes primeiros dias os olhos estarão atentos aos mercados, depois do chumbo do Tribunal Constitucional ao corte nas pensões ter sido conhecido poucos dias antes da semana do Natal. É a percepção dos mercados sobre a capacidade de financiamento de Portugal que apontará, em grande medida, a solução para sair de um programa de resgate de três anos. E essa percepção também tem em conta a capacidade de Portugal reduzir a despesa estrutural do Estado, ponto que o Tribunal Constitucional tem colocado em dúvida.

Seguir a mesma opção da Irlanda — que terminou em Dezembro passado o programa de assistência financeira sem qualquer outra intervenção externa — é uma hipótese que o Governo mantém em cima da mesa, mas com muitas cautelas. Na maioria, há quem veja como um sonho, mas com tantos riscos que se pode transformar num pesadelo. O perigo é Portugal não conseguir financiar-se nos mercados com juros aceitáveis e ter de voltar a pedir dinheiro emprestado às instituições internacionais. É um cenário de que ninguém quer ouvir falar. O caso irlandês pode ser o único até agora mas é o exemplo que o PS defende como aquele que o Governo português tem de conseguir. Caso contrário, se a saída do resgate for feita com um programa cautelar, os socialistas vão considerar que o Governo fracassou.

Mas, a cinco meses do fim da assistência financeira, a solução de adoptar um segundo programa é um cenário que ainda não desapareceu embora seja colocado como extremo. Foi o que aconteceu à Grécia que viu agravadas as condições para obter financiamento da troika. As medidas passaram a ter de estar concretizadas para Atenas receber o cheque da respectiva tranche. É uma solução que o discurso do Governo tem afastado quando insiste que Portugal está a poucos meses de terminar o programa e de recuperar parte da sua soberania. Ter um segundo resgate implica que o actual programa nem sequer acaba e as condições impostas são agravadas. Mas ninguém quer descartar esta hipótese até porque o Orçamento do Estado para 2014 será sujeito ao crivo do Tribunal Constitucional. A decisão — se vier a resultar de um pedido de fiscalização sucessivo — deverá acontecer na Primavera, numa data que rondará o fim do programa, marcado para 17 de Maio.

O distanciamento que o Executivo português quer marcar da Grécia ficou conhecido na frase “antes celta que grego”, do vice-primeiro-ministro Paulo Portas. Foi aliás um ministro do CDS, Pires de Lima, que tutela a Economia, que colocou o programa cautelar na agenda mediática, em Outubro, quando a Irlanda ainda discutia como sairia do seu programa de resgate.

O programa cautelar será uma linha de crédito, que poderá ser mais ou menos exigente. Mas terá sempre de ter condicionalismos. Na versão mais leve, pode estabelecer, por exemplo, um compromisso sobre meta de défice, embora sem uma imposição de medidas a adoptar. O Governo fica livre de escolher a forma de atingir o objectivo.


A solução de um programa cautelar foi dada quase como certa no mês passado pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que acabou por vir corrigir a declaração, dizendo que a decisão cabe ao Governo. Com um programa cautelar Portugal fica menos exposto a movimentos especulativos dos mercados. Este é um dos factores que pesará na decisão do Governo. Passos Coelho garante que ainda não há negociações com Bruxelas, mas fixou em 12 meses a duração de um eventual programa e dispensou o apoio do PS.

Um problema de lixo. Greves à portuguesa.


Um problema de lixo
Por Luís Rosa
publicado em 2 Jan 2014 in (jornal) i online
A CGTP é uma espécie de Velho do Restelo que quer destruir qualquer melhoria do funcionamento do Estado
A greve dos trabalhadores da limpeza urbana da Câmara de Lisboa voltou  a revelar o imobilismo dos sindicatos da Função Pública. A CGTP é cada vez mais uma espécie de Velho do Restelo concentrado em destruir qualquer hipótese de melhoria do funcionamento do Estado. Faz parte do problema e não da solução para um Portugal melhor. Pasmemo-nos, em primeiro lugar, com a informação que o i publica na página 48 da edição de hoje: afinal a recolha de lixo doméstico não vai passar para as juntas de freguesia. "Mas não foi por isso que o Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa (STML) fez greve?", perguntará o leitor. Aparentemente sim. Mas apenas a limpeza da ruas e dos passeios vai ser descentralizada. Nunca esteve prevista a transferência da recolha do lixo. A greve foi um logro, portanto.

Mas afinal o que levou o STML, afecto à CGTP, a  convocar greves de 23 de Dezembro a 5 de Janeiro? É simples: a luta contra a reorganização administrativa de Lisboa, que reduziu as freguesias de 53 para as 24 actuais e que prevê igualmente a transferência de competências da autarquia para as freguesias na gestão de equipamentos sociais e desportivos, pavimentos pedonais, mercados e feiras, entre outras. O STML considera que a reforma vai "esvaziar" e visa "o total desmantelamento" da Câmara de Lisboa, imagine-se.

Mas aqui vemos o lado antidemocrático da CGTP - que faz parte do seu ADN, como a nefasta luta pela unicidade sindical atestou. A reorganização administrativa foi amplamente debatida pela câmara no mandato 2009/2013, tendo sido aprovada pelas coligações lideradas pelo PS e pelo PSD - que representavam 82,7% dos eleitores. A reforma foi ainda aprovada na Assembleia da República por PSD, CDS e PS, que, juntos, recolheram a preferência de 78,41% dos votantes nas legislativas de 2011. Foi finalmente escrutinada pelos eleitores lisboetas nas autárquicas de Outubro último, tendo António Costa e Fernando Seara, os candidatos que apoiavam a mudança, obtido 73,28% dos votos, e o autor da reforma (Costa) 50,91%. Tudo baixas taxas de votação, como vemos.

A CGTP não tem legitimidade para pôr em causa uma reforma tão amplamente debatida e aprovada com maiorias esmagadoras. Ter medo de perder o vínculo da Câmara de Lisboa, e passar a ter contrato com uma junta de freguesia, não é motivo para uma greve que pôs em risco a saúde pública. Muito menos quando a limpeza urbana não é propriamente uma referência em termos de qualidade de serviço, como um breve passeio por Lisboa pode atestar.

Este imobilismo radical, de inviabilizar qualquer mudança, é uma marca da CGTP, mas o mesmo tenta responder apenas a interesses corporativos. O bem comum da comunidade tem de valer mais do que esses interesses. Uma reforma que pretende aproximar os serviços públicos dos cidadãos e melhorar a sua eficácia tem de sobrepor-se a uma luta egoísta de um sindicato.

Ter a razão do seu lado não apaga o facto de António Costa não ter revelado mais cedo aos lisboetas este problema - que dura desde Maio. Costa tem de provar rapidamente que consegue vencer a CGTP - a transferência de parte dos 68 milhões de euros acordados com as freguesias inicia-se a 15 de Janeiro. Se não conseguir resolver o problema do lixo em Lisboa, não poderá aspirar a São Bento ou a Belém.


OPINIÃO
Greves à portuguesa
JOÃO MIGUEL TAVARES 02/01/2014 – in Público
Estas greves à portuguesa são pura encenação. Muito democráticas mas absolutamente inúteis.
Pelas minhas contas, neste final de ano estiveram em greve: os trabalhadores da Carris, os trabalhadores dos Transportes Sul do Tejo, os trabalhadores da CP, os trabalhadores da Groundforce, os pilotos da easyJet, os trabalhadores da recolha do lixo de Lisboa, os trabalhadores do sector da hotelaria na Madeira, os trabalhadores dos CTT e, hoje de manhã, os trabalhadores do Metro.

É possível que me esteja a faltar alguma coisa. E é também possível que a expressão “greve”, na maior parte destes casos, seja francamente exagerada – até porque dá mau nome a um direito fundamental dos trabalhadores, que ao longo da história foi conquistado à custa de muito sangue, suor e lágrimas.

“Greve” é aquilo que Lech Walesa promoveu nos estaleiros de Gdansk na Polónia de 1980. “Greve” é aquilo que os trabalhadores dos caminhos-de-ferro fomentaram na América de finais do século XIX. “Greve” é aquilo que os mineiros britânicos organizaram na Inglaterra de Margaret Thatcher – correu-lhes mal, mas foi uma greve. Meses de luta, braços de ferro desesperados, um verdadeiro combate por direitos e privilégios, em que qualquer pessoa sabia o que estava em causa e por que raio aquela gente estava a lutar. Já nestas greves à portuguesa, em que os grevistas miraculosamente se unem para aproveitar pontes, épocas festivas ou fins-de-semana prolongados, utilizando os mais estapafúrdios argumentos, talvez seja preferível chamar-lhes “dias de férias não-remunerados”.

E antes que algum leitor mais afoito me comece a acusar de querer acabar com o direito à greve, deixem-me assegurar que eu quero o exacto oposto disso. Quero que as greves tenham significado, quero que as greves sejam valorizadas, e quero compreender, já agora, porque é que elas ocorrem. Há dias ouvi, com dificuldades em acreditar, um sindicalista dos CTT justificar a greve com estas palavras: “agora, com a privatização, nós não sabemos o que vai acontecer”. Ele não sabia se ia ser bom ou se ia ser mau. Mas, pelo sim, pelo não, fazia greve na mesma. Outro sindicalista, de um sector dos transportes, justificava a greve com a entrada em vigor do Orçamento de Estado. Não era nada que o seu patrão lhe tivesse feito ou lhe estivesse a dever. Era uma greve, tipo, contra a fiscalização sucessiva.

Isto tem um nome: banalização da greve. E não traz vantagens a ninguém. Deixem-me citar o início de uma notícia do PÚBLICO de há mês e meio: “Mais de metade do mandato do actual Governo foi passado com greves nos transportes. Desde que o executivo tomou posse, em Junho de 2011, os sindicatos convocaram quase 500 dias de protestos, na maioria parciais ou incidindo apenas sobre o trabalho extraordinário.” Primeira pergunta: os trabalhadores ganharam alguma coisa com isto? Segunda pergunta: o Estado, que é o patrão desses trabalhadores, perdeu alguma coisa com isso? A triste resposta a estas duas perguntas é: não. Os trabalhadores não ganharam nada e os empregadores, que são deficitários de qualquer forma, até pouparam uns trocos em ordenados.


E assim sendo, que greves são estas, afinal? São para levar a sério? Não. São greves de brincadeirinha, em que quem se lixa é o mexilhão – ou seja, o utente. Se alguma das partes estivesse realmente convicta do que está a fazer, se uns sentissem que ganhavam alguma coisa e outros que poderiam perder alguma coisa, nada se passaria assim. Estas greves à portuguesa são pura encenação. Muito democráticas, certamente. Mas absolutamente inúteis.

O Futuro da Europa .

OPINIÃO
Cheira a Pólvora na Europa
PAULO NETO 02/01/2014 – in Público

No plano político, factos recentes agudizaram a tensão na Europa.
No final de 1938, poucos meses antes do início da II Guerra Mundial, Peter Drucker publicou The End of Economic Man, um livro onde antecipou a tragédia que, de forma vertiginosa, se aproximava da Europa e que, no seu entender, era resultado de “uma perda de fé política, de uma alienação política por parte das massas europeias, e de uma total ausência de liderança na Europa, apesar do palco político estar repleto de personagens a trabalharem freneticamente”.

Em The End of Economic Man, os capítulos “Desespero das Massas” e o “Regresso dos Demónios” foram especialmente premonitórios. E os demónios de que Peter Drucker falava eram o desemprego, a crise, o nacionalismo e a guerra.

Setenta e seis anos depois, multiplicam-se os apelos sobre a necessidade da União Europeia (UE) tomar medidas que reavivem os valores e os desígnios da União. O Relatório de 2013 do Eurobarómetro do Parlamento Europeu, publicado em Setembro, expõe uma realidade europeia muito preocupante: i) Apenas 43% dos inquiridos afirma ter algum interesse pelas questões europeias; ii) O interesse dos cidadãos relativamente aos assuntos europeus diminuiu em 25 dos Estados-membros (nomeadamente em França, um dos países fundadores da União); iii) Cerca de 31% dos europeus inquiridos dizem não conhecer nada sobre qualquer das Instituições da União (61% no Reino Unido e 51% na França); iv) Apenas 33% dos europeus consideram como prioritária a coordenação europeia das políticas económicas e orçamentais; v) Somente 51% dos cidadãos europeus valorizam a importância das políticas de luta contra a pobreza e a exclusão social; vi) 74% reconhecem a necessidade das políticas europeias de promoção do emprego; vii) Apenas 54% dos inquiridos reconhecem a protecção dos direitos humanos como um valor fundamental para a UE e viii) Só 33% consideram como muito importante a solidariedade entre os Estados-membros.

No plano político, factos recentes agudizaram a tensão na Europa. Desde logo, a forma como a UE lidou com a crise da dívida soberana de vários Estados-membros e que reacordou alguns dos demónios de Drucker. A tensão social, de que a “Revolta dos Forconi”, de Dezembro de 2013, é apenas mais um exemplo, alastrou por vários Estados-membros e, em muitos deles, o discurso nacionalista ganhou relevância em várias eleições nacionais e regionais. Aumentou também na UE a tensão norte-sul e oeste-este, e no discurso do Estado da União, de Setembro de 2013, no Parlamento Europeu, o Presidente da Comissão Europeia (CE) recordou mesmo o exemplo de 1914 e a forma como a “Europa caminhava sonâmbula para a catástrofe da guerra”.

Outros factos foram igualmente importantes para esta crescente tensão europeia. Por exemplo: i) O modo como a CE abriu a investigação sobre o excedente externo da Alemanha; ii) A reinvindicação britânica de submeter a referendo o futuro das suas relações com a UE; iii) As restrições à livre circulação de trabalhadores búlgaros e romenos, por parte de vários Estados-membros, intensificaram, nesses países, muitas das críticas à UE; iv) Os crescentes confrontos na Turquia, um país até há pouco tempo considerado um exemplo nessa zona do mundo; v) A falta de consenso na União quanto ao futuro do Kosovo; vi) A tensão crescente, entre a UE e a Rússia, decorrente das revoltas pró-UE e pró-Rússia na Ucrânia, em finais de 2013. A Rússia, segundo a Euronews, terá inclusivamente deslocado alguns dos seus mísseis para mais perto das fronteiras da UE. A discussão sobre o futuro da Ucrânia está a aumentar também entre os países da União e o sonho de levar a UE do Atlântico até junto da Rússia parece adiado; vii) A violência da resposta de deputados britânicos, no final do ano, a um comentário do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados sobre a futura lei de imigração do Reino Unido e viii) A distância existente entre os europeus e as Instituições da União, bem como aos temas aí em discussão, como é o caso da União Bancária.

Muitos dos políticos de que Drucker falava, como Neville Chamberlain ou Édouard Daladier, eram, certamente, tal como acontece hoje, homens bem intencionados. Mas não conseguiram, a tempo, evitar o destino que a Europa tomava.

Num artigo publicado no PÚBLICO em 27.12.2013, Viviane Reding e Olli Rehn, dois Vice-Presidentes da CE, defendem que “se soubermos manter as dinâmicas das reformas, as perspectivas de uma intensificação da retoma económica da Europa em 2014 e nos anos seguintes serão uma realidade”. Façamos votos de que assim seja.

Professor Auxiliar com Agregação, Universidade de Évora, Departamento de Economia

OPINIÃO
Em busca da Europa perdida
JOÃO CARAÇA 02/01/2014 – in Público

Como se devia ter feito há 80 anos, é preciso hoje mergulhar nos problemas, chamar as coisas pelos seus nomes, identificar o adversário real, transformar a crise em conflito.
Há precisamente oitenta anos, no terrível período que se seguiu à primeira Grande Guerra, à crise de 1929 e à Grande Depressão, quando a Europa parecia de novo "um arquipélago de antagonismos e conflitos", escreveu Bento de Jesus Caraça um lúcido artigo nas páginas do semanário Globo, intitulado “Crepúsculo da Europa”. Nele afirmava: “A Europa não tem de que queixar-se: tal é o resultado lógico e natural da sua obra…Dela saíram as sementes do que vai pelo mundo: foi dela que partiram os descobridores e os colonizadores, os pregadores e os traficantes. A Europa criou o cristianismo e o capitalismo, a mecânica e as ideologias, as armas aperfeiçoadas e o princípio das nacionalidades… Se hoje o controle do mundo lhe escapa, não tem senão que resignar-se – como os velhos cansados se resignam a passar os símbolos da autoridade aos mais novos.”

Era por demais evidente que o caminho que se estava a seguir então era errado. E que a busca de um “espírito europeu” – ou de uma “identidade europeia” como diríamos hoje – não era mais do que uma quimera, tão fútil como o de definir uma identidade “asiática” ou “americana”, ou “africana”… um exercício vácuo, um projeto ilusório para enganar os incautos. O que era preciso era mergulhar nos problemas, sem preconceitos, para se poder agir.

Como sabemos, não foi este o rumo escolhido. A Europa foi atraída para uma segunda Grande Guerra, da qual saiu derrotada, devastada, dividida entre uma aliança com os Estados Unidos a ocidente e um pacto com a União Soviética a leste. A obsessão americana com a segurança bem como o terror de que os soviéticos chegassem às margens do Atlântico induziu as nações europeias aliadas, em reconstrução sob a alçada do Plano Marshall, a reagruparem-se em comunidade económica. A propaganda americana contra a ameaça do comunismo centrava-se sobre o conceito de mundo livre, defensor da democracia, em luta pelos direitos humanos. A palavra “capitalismo” desapareceu do domínio público e da política. E a esquerda social-democrata viu realizado o seu sonho de conquistar o poder. A grande promessa – transformar o mundo – que carregava no seu ventre desde o século XIX iria finalmente ser cumprida. De facto, a esquerda criou o Estado-providência nas suas várias declinações nacionais, mas foi basicamente surpreendida e dizimada pelas “crises do petróleo” e pela globalização financeira e económica que se lhes seguiram. Na realidade, a esquerda não transformara o mundo. Esquecera-se de que existia o capitalismo e de que o sistema-mundo capitalista em evolução não tolerava pretensões de hegemonia militarmente desestruturadas.

A construção europeia entrou num impasse que apenas as novas adesões escondiam. Mas o golpe fatal na ilusão de uma europa soberana resultou da implosão do bloco soviético. A partir daí, a política dos europeístas consistiu essencialmente em “atirar para a frente”, uma versão cosmopolita de “todos ao molhe e fé em Deus”, na vã esperança de que os problemas que surgissem teriam o condão de reforçar a coesão das nações europeias e robustecer a União. A Europa e a esquerda tinham-se esquecido de que o capitalismo continuava a existir e a evoluir. Veio a crise de 2007 e 2008, que ainda não nos largou, e viu-se o descalabro em que caímos. A democracia representativa entrou no vórtice da crise. Esta é uma das primeiras perceções que avultam de um projeto de investigação e reflexão sobre a crise europeia iniciado recentemente pela Universidade de Cambridge e pela Fundação Maison des Sciences de l’Homme, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

A crise da Europa é também o resultado de uma leitura errada da história. Em primeiro lugar, acreditou-se que «é possível gerir a transição» como se as nações fossem soberanas no sentido em que se aplicava a palavra “soberania” no século XIX! A “governança” não foi introduzida no vocabulário político por ingenuidade… Em segundo lugar, admitiu-se piamente que «as economias convergem no decorrer do tempo» ignorando que o capitalismo tem sempre, pelo contrário, um efeito de “polarização”, provocando divergências na evolução das economias do sistema-mundo e jogando com elas com o objetivo de acumular cada vez mais capital.

Não havia assim qualquer hipótese de o voluntarismo e os instrumentos da esquerda (os Estados-providência principalmente) resistirem ao confronto com a política de direita e a sua retórica de liberalização, desregulação e privatização. Talvez porque o campo da direita se tenha tornado internacional, seguindo os ditames do capitalismo informacional de hoje, ao passo que a esquerda se foi fragmentando e acantonando, tentando defender o que resta da soberania (os territórios) das nações, ou mesmo atirando-se para a frente se a oportunidade parece espreitar. Mas é claro que assim também não irá longe.

Como se devia ter feito há 80 anos, é preciso hoje inescapavelmente mergulhar nos problemas, chamar as coisas pelos seus nomes, identificar o adversário real, transformar a crise em conflito, procurar as alianças onde existem as solidariedades que vão cimentar o mundo novo. Não onde os interesses do mundo-espetáculo nos pretendem acorrentar.

Professor universitário, Físico


O ano em que a troika deixa Portugal
Por Luís Claro e Rita Tavares
publicado em 2 Jan 2014 in (jornal) i online

Os portugueses deverão ir para férias já sem a troika no país. Mas a austeridade fica por cá
2014 será um ano “cheio de desafios”, mas com “algumas incertezas e obstáculos”. Foi desta forma que o primeiro--ministro, Pedro Passos Coelho, classificou o ano que agora começa. E de facto existem ainda muitas dúvidas sobre o que nos pode trazer 2014. Se é certo que está previsto para meados deste ano o fim do programa da troika, não é menos verdade que poucos fazem ideia do que vai acontecer a seguir. Com o fantasma do segundo resgate afastado, Portugal tem duas hipóteses: comprometer-se com um programa cautelar, que ainda não se sabe que implicações teria para o país, ou sair como a Irlanda, que dispensou mais “ajuda” europeia.
Até lá, o Tribunal Constitucional vai ser chamado a pronunciar-se de novo sobre o Orçamento do Estado para o próximo ano. Mesmo com a forte probabilidade de o Presidente não enviar este ano o documento para o Constitucional, o PS, o PCP e o BE vão fazê-lo. Em causa estão os cortes aos funcionários públicos e às pensões de sobrevivência.
O ano ficará ainda marcado pelas comemorações do 25 de Abril. Faz 40 anos que nasceu a democracia e com ela fazem também 40 anos o PSD, que foi fundado a 6 de Maio, e o CDS, que nasceu no dia 19 de Julho. Os dois partidos, coligados no governo, vão ter congressos já no início de 2014. Um dos temas mais quentes será concorrem aliados ou separados nas próximas legislativas, depois de Passos e Portas terem assinado um acordo para se apresentarem em conjunto às europeias.

JANEIRO
congresso CDS
O congresso do CDS, que se realiza em Oliveira do Bairro, no distrito de Aveiro, nos dias 11 e 12 deste mês, deveria ter acontecido na Póvoa de Varzim no Verão de 2013, mas foi adiado devido à crise política, provocada pela demissão de Paulo Portas, na sequência da substituição de Vítor Gaspar por Maria Luís Albuquerque. Seis meses que fazem toda a diferença, perante a mudança de estratégia do CDS dentro do governo. O próximo congresso dos centristas deve ser, por isso,  pacífico e sobretudo virado para assegurar a estabilidade dentro da coligação. O CDS vai aprovar uma aliança com o PSD nas europeias e deixa em aberto se nas legislativas os dois partidos concorrem sozinhos ou em coligação.

FEVEREIRO
congresso do PSD
Apesar das críticas internas ao rumo seguido por Pedro Passos Coelho, o mais certo é o líder do PSD voltar a não ter adversário no congresso que se realiza no Coliseu dos Recreios nos dias 22 e 23 de Fevereiro. As eleições directas realizam-se no último fim-de-semana deste mês e dia 17 termina o prazo para a apresentação de candidaturas. Rui Rio é cada vez mais falado para se candidatar à liderança do partido, mas dificilmente avançará antes das próximas eleições legislativas e nem sequer deve marcar presença no congresso do partido. Passos Coelho já garantiu que não tenciona pôr “o lugar à disposição a curto prazo”. “Tenciono, antes pelo contrário, apresentar a minha recandidatura à liderança do PSD dentro de muito pouco tempo”, disse há um mês.

MARÇO
Execução orçamental
Um mês que ganhou especial relevo nos anos de assistência financeira. É nesta altura do ano que encerra a execução orçamental do primeiro trimestre (normalmente conhecida no final de Abril), o primeiro dado de relevo sobre a eficácia orçamental das medidas aplicadas. Normalmente é este o momento que dita acertos de estratégia e este ano, com o país a meses de concluir o programa de ajustamento, pode ser mais decisivo ainda. Uma boa execução, nesta fase, pode dar ao país margem negocial para o pós-troika. O défice para este ano é de 4%, mas o governo chegou a pedir uma folga para 4,5%. A troika não cedeu.

ABRIL
O Constitucional e os 40 anos da revolução
Em 2013 foi o mês escolhido pelo Tribunal Constitucional para se pronunciar acerca das normas do Orçamento do Estado sobre as quais foi pedida a fiscalização sucessiva. Um pedido de intervenção do Constitucional está garantido, com o PS, o PCP e o BE a avisarem que tomarão a iniciativa. É provável que a resposta chegue por esta altura do ano. Será a terceira vez que um Orçamento de Passos chegará às mãos dos juízes do Constitucional. Os dois últimos contaram com chumbos que obrigaram a medidas de compensação para fintar um deslize orçamental. Será também o mês em que se marcam os 40 anos do 25 de Abril, com a reflexão sobre a democracia a percorrer todo o ano, em particular o mês em que se celebra a Revolução.

MAIO
Eleições europeias
As eleições europeias estão marcadas para o dia 25. Ainda nenhum partido apresentou oficialmente o seu candidato, mas já se sabe que o PSD e o CDS vão apresentar-se em listas conjuntas. O mais provável é a lista voltar a ser liderada por Paulo Rangel. Entre os socialistas, Francisco Assis é o nome mais falado para encabeçar a lista. À esquerda do PS, os partidos discutem uma eventual aliança, embora o PCP esteja de fora. Se não houver coligação, Rui Tavares deverá avançar sozinho com o seu novo partido, o Livre. Outra hipótese forte é Marinho Pinto entrar nesta corrida com a camisola do Movimento Partido da Terra. Estas eleições serão também fundamentais para testar a popularidade do governo e dos socialistas.

JUNHO
O fim da troika
É a expectativa reinante no executivo. Junho será o primeiro mês desde Maio de 2011 com o país livre dos constrangimentos do programa de ajustamento. Mas a história tem tudo para não acabar aqui. A saída portuguesa da condição em que se encontra pode não ser para uma liberdade plena, mas uma espécie de liberdade condicional. Uma saída apoiada é provável, mas nunca experimentada, já que a Irlanda saiu do resgate sem recurso a qualquer programa cautelar. A negociação vai determinar o estado político do governo e da oposição nesta fase. O PS pode nem ser tido e achado no processo, pelo que poderá gozar de especial liberdade de acção, cortando de vez com o governo.

JULHO
O poder do CR7
A 13 de Julho, no Brasil, joga-se a final do Campeonato do Mundo de futebol. A relação com o rol de acontecimentos políticos do ano está longe de ser directa, mas nem por isso é de relevância nula. Uma boa campanha da selecção nacional na competição não é matéria a ignorar por governantes, já que pode ter um efeito galvanizador no país e até anestesiar, ainda que por instantes, o já duradouro sentimento de crise. Um capital que quem estiver no poder valorizará, assim o permita Cristiano Ronaldo (CR7) e companhia.

AGOSTO
Meu tranquilo mês de Agosto
Nos últimos anos, a natural acalmia dos meses de Verão, com os políticos a banhos, não tem sido a regra. Basta olhar para o reboliço político em Julho do ano passado, com as saídas do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e a demissão “irrevogável” de Paulo Portas, que acabaria por ficar como vice-primeiro-ministro. Ainda assim, Agosto acaba por ser o mês menos intenso, com o parlamento de férias e Passos e Cavaco pelo Algarve. Será o último politicamente tranquilo; o que se segue, em 2015, já terá carga eleitoral, com as legislativas logo a seguir à rentrée.

SETEMBRO
E depois de Barroso?
A reorganização europeia, depois das eleições de Maio, marcará a agenda política em Portugal. Em Outubro regressará Durão Barroso, depois de terminar o seu mandato à frente da Comissão Europeia. E nem se trata de passar à discussão das possibilidades do seu futuro político no plano nacional, mas sim de quem lhe vai suceder no cargo em Bruxelas (será a primeira grande tarefa do Parlamento Europeu depois das eleições) e qual o português que será indicado como comissário. A questão já tem levantado algumas questões em Portugal, com o PS a reclamar o direito de escolher o próximo representante português no governo europeu, mesmo estando o PSD no governo nesta altura.

OUTUBRO
O último Orçamento
Em Outubro chega o último Orçamento do Estado deste executivo e a expectativa, depois de terminado o programa de ajustamento financeiro e a um ano de legislativas, é que a carga (sobretudo fiscal) possa ser aligeirada. Seria o primeiro Orçamento de Passos Coelho sem a marca da austeridade, é o primeiro sem o selo da troika, a fazer fé nas garantias do governo de que o país sairá da assistência sem precisar de um segundo resgate. Na apresentação do Orçamento para este ano, a ministra das Finanças disse esperar “que no Orçamento de 2015 seja possível ter um pouco mais de folga para reduzir a carga fiscal que afecta os trabalhadores”. Mas o primeiro--ministro terminou o ano a dizer-se sem condições para assumir essa promessa.

NOVEMBRO
Esquerda
Faz dois anos que João Semedo e Catarina Martins foram eleitos para a liderança do Bloco de Esquerda num modelo pouco habitual entre os partidos portugueses. No final do ano, os bloquistas vão voltar a reunir-se, já com o resultado eleitoral das eleições europeias em cima da mesa, depois da derrota nas autárquicas. Em causa na próxima convenção dos bloquistas não poderá deixar de estar até que ponto o partido está disponível para alianças à esquerda e para ser poder e uma análise da liderança bicéfala.

DEZEMBRO
Presidenciais

Com as eleições presidenciais marcadas para o início de 2016, os candidatos vão começar a abrir o jogo no final deste ano. Cavaco Silva já cumpriu dois mandatos e não pode recandidatar-se, o que abre a porta a que tanto à direita como à esquerda se apresentem nomes fortes. Do lado do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso e Rui Rio são os três nomes mais falados. O comentador é, porém, o que nesta altura aparece com mais hipóteses de vencer. Entre os socialistas, António Costa e António Guterres são os mais prováveis, mas à esquerda do PS podem também surgir nomes fortes, como o do ex-líder da CGTP Carvalho da Silva.