quinta-feira, 21 de julho de 2022

Portugal “não aceita” proposta de Bruxelas para reduzir 15% do consumo de gás

 


ENERGIA

Portugal “não aceita” proposta de Bruxelas para reduzir 15% do consumo de gás

 

É uma proposta “desproporcional” e “insustentável” e Portugal irá opor-se, diz o secretário de Estado do Ambiente e da Energia.

 

Ana Brito

21 de Julho de 2022, 6:08

https://www.publico.pt/2022/07/21/economia/noticia/portugal-nao-aceita-proposta-bruxelas-reduzir-15-consumo-gas-2014442

 

“Estamos a usar o gás por absoluta necessidade”, para a indústria e produção de electricidade, diz João Galamba

 

O plano europeu de redução de consumo de gás natural, que a Comissão Europeia apresentou esta quarta-feira, foi recebido com um rotundo “não” de Portugal. O secretário de Estado do Ambiente e da Energia, João Galamba, afirmou ao PÚBLICO que o Governo “não aceita” a proposta de Bruxelas, que ignora que Portugal não tem interligações com o resto da Europa e que o consumo de gás dirige-se essencialmente à indústria e à produção de electricidade.

 

“Estamos a usar o gás por absoluta necessidade”, sublinhou o governante, dizendo que “Portugal irá opor-se” à aprovação de uma medida “insustentável” e “desproporcional”, que precisa do voto favorável de uma maioria qualificada no Conselho Europeu.

 

Portugal alinha com Espanha, que também manifestou a sua oposição às intenções de Bruxelas: “Não podemos assumir um sacrifício desproporcionado sobre o qual nem nos pediram opinião prévia”, afirmou a ministra da Transição Energética, Teresa Ribera, citada esta quarta-feira pelo El País.

 

Perante um cenário cada vez mais provável de corte total do abastecimento russo, e a eventualidade de Estados como a Alemanha virem a precisar de auxílio de outros países, a Comissão Europeia vai propor ao Conselho da União Europeia que, entre 1 de Agosto e até 31 de Março do próximo ano, os Estados-membros reduzam em 15% os seus consumos de gás natural (face à média histórica nesse período, considerando os anos de 2017 a 2021), de forma a aumentar o nível de armazenamento europeu e a criar uma almofada de segurança para situações de emergência.

 

“Toda a lógica do racionamento solidário pressupõe sistemas interligados e parece que a Comissão Europeia se esqueceu dessa realidade”, frisou o secretário de Estado, considerando caricato que “um país que foi prejudicado anos e anos por não ter interligações”, e que “teve de comprar sempre o gás mais caro”, seja agora “chamado a um mecanismo de solidariedade que pressupõe interligações”.

 

Ao contrário de outros países do centro da Europa que estão fortemente interligados, “a redução do consumo em Portugal não disponibiliza imediatamente gás a outros” porque não há gasodutos que o transportem até essas zonas. E tratando-se de gás natural liquefeito, que vem por navio metaneiro, a medida também não é aplicável, defende o governante, porque “eles não funcionam às fracções”.

 

“Mesmo que se falasse em reduzir 5, 10 ou 15% do volume de cargas anuais, como os navios estão calendarizados, isso obrigava-nos a desviar um navio inteiro”, deixando um grande fosso no abastecimento desse mês, explicou.

 

O facto de Portugal e Espanha não terem suficiente capacidade de interligação energética com o resto da Europa já permitiu que a Península Ibérica fosse reconhecida por Bruxelas como uma ilha energética, viabilizando uma medida excepcional para reduzir os preços da electricidade a nível ibérico.

 

Mas, com o plano que será discutido no Conselho de Energia da União Europeia da próxima terça-feira, a Comissão pretende que todos os países, inclusive Portugal e Espanha, atinjam uma mesma medida de poupança voluntária (que poderá passar a obrigatória em caso de declaração de estado de alerta).

 

Embora a proposta de regulamento preveja que alguns países, seja pela sua “situação geográfica” ou pela “reduzida interconexão” com outros Estados-membros, possam pedir uma derrogação parcial (ou seja, uma redução) desta meta de 15%, João Galamba sublinha que essa derrogação ou redução não tem utilidade porque “a ideia da Comissão Europeia é completamente desadequada para países que não estão interligados” e que “não tem em conta a nossa realidade concreta no momento actual”.

 

“A Comissão esqueceu-se”, aponta Galamba, que Portugal “aumentou brutalmente o consumo de gás por causa da seca”. Nos primeiros cinco meses de 2022, a quantidade de gás consumida aumentou 67% face a 2021. Assumindo que essa seria a evolução para o conjunto do ano, “estamos a falar em mais 1,5 bcm [mil milhões de metros cúbicos] só para a produção de electricidade por causa da seca”, diz o governante.

 

Para cumprir a redução voluntária dos 15%, o país teria de “anular esses 1,5 bcm mais 15% da média histórica, o que pelas minhas contas implicaria na realidade reduzir o consumo de gás em 45%, o que é completamente insustentável”, sustenta o secretário de Estado da Energia e Ambiente.

 

Galamba sublinha ainda que, “ao contrário dos franceses, holandeses ou alemães”, os portugueses não têm um mecanismo muito fácil para reduzir consumos “que é baixar o termóstato”, até porque o consumo doméstico representa menos de 10% do total.

 

“Na indústria ou na produção eléctrica, ou há gás ou não há gás” e reduzir, para Portugal, significa que as empresas têm de cortar a produção ou que o país põe em causa o abastecimento eléctrico. Com São José Almeida

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