A trágica agonia do PSD
MAFALDA ANJOS
DIRETORA
OPINIÃO EDITORIAL
01.06.2021 às
18h00
Maquiavel dizia
que um líder político (o seu Príncipe) devia encontrar o equilíbrio entre a
força do leão e a astúcia e a perspicácia da raposa. Rui Rio está algures entre
a tontaria da barata e a marcha a ré do caranguejo
Há três partes
numa tragédia clássica. O Prólogo, onde arranca a trama, os Episódios, onde se
desfia a páthos ou o sofrimento intenso do protagonista, e por fim o Êxodo,
onde se dá o clímax e a cathársis.
Se a história do
PSD desde a saída de Passos Coelho fosse uma tragédia à portuguesa, estaríamos
na fase do crescendo da agonia. O páthos de Rui Rio é uma sucessão de tormentos
e autoafligimentos, capaz de despertar a comiseração dos espectadores. Um fio
condutor de erros, falhas estratégicas e inabilidades que se adensam cada vez
mais e que rumam a um destino fatal.
Ponto prévio:
muitos se congratulam ou pensarão que não é nada consigo, só porque são de
outras cores políticas. Enganam-se. A tragédia laranja importa a todos os
democratas. A saúde e a estabilidade do sistema político nacional exigem uma
alternância sólida, respeitadora dos princípios fundamentais da democracia, e
por isso o País precisa de um PSD coeso, consistente e capaz. Tudo isto é hoje,
infelizmente, uma miragem.
O protagonista
desta tragédia é Rui Rio, o comandante de um barco numa travessia atlântica sem
leme nem bússola. Sabe para onde quer ir – para o governo – mas não tem, neste
momento, a mais pequena ideia de qual deve ser o caminho para lá chegar.
Cometeu todos os erros que um líder não deve cometer: com honrosas exceções,
rodeou-se de fracos e indigentes; foi errático nas escolhas de percurso, tanto
apontando para um bloco central como alinhando em coligações negativas;
enleou-se sobre si próprio e sobre os dogmas de que se convenceu; escolheu os
amigos e os inimigos errados; descaracterizou e desvirtuou os princípios e os
valores do partido. Há um número cada vez maior de clássicos eleitores do PSD,
que votaram em Cavaco, Durão Barroso e Passos Coelho, que se sentem legitimamente
órfãos e partiram para outras paragens: os moderados foram para o centro
humanista do Partido Socialista, os aventureiros para o liberalismo da
Iniciativa Liberal, os fascistas, os extremistas e os crédulos desesperados
para os territórios radicais do Chega.
A presença de Rui
Rio na conferência do MEL na semana passada só veio mostrar o que já era
límpido como a água: na tentativa desastrada de ocupar o centro e recusando-se
a ser o partido de centro-direita que sempre foi, o PSD vive uma profunda crise
de identidade – não sabe quem é nem tão-pouco quem quer ser.
O que mais aflige
neste páthos é o deserto de ideias em que o PSD (e a direita tradicional) se
transformou. Além dos conceitos gerais de macroeconomia para totós e das ideias
de reforma da Justiça que dizem zero ao cidadão médio, Rui Rio não consegue
falar aos portugueses porque não tem nada para lhes dizer. Anda a reboque da
agenda dos outros, sem avançar com propostas mobilizadoras que façam a
diferença na vida das pessoas. A sua capacidade galvanizadora é mais ou menos a
de um camião sem travões: quem no seu perfeito juízo quer seguir com ele?
Maquiavel dizia
que um líder político (o seu Príncipe) devia encontrar o equilíbrio entre a
força do leão e a astúcia e a perspicácia da raposa. Rui Rio está algures entre
a tontaria da barata e a marcha a ré do caranguejo.
Com o PSD em
agonia e o CDS a esvair-se para a concorrência, a única direita que tem ideias
neste momento é a “nova” direita do Chega e da IL: a primeira traz ideias
indignas e antidemocráticas, a segunda ideias individualistas dificilmente
praticáveis e com poucas preocupações sociais. Muitos moderados humanistas ao
centro sentem-se “condenados” ao Partido Socialista, mesmo não se revendo nas
companhias, ou seja, nas ideias do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista.
Depois de ter
andado a abrir caminho e a dar protagonismo ao Chega, a permitir-lhe sobressair
ao mesmo tempo que lhe pedia o impossível (que se moderasse), veio agora,
depois de ser torpedeado por André Ventura, dizer “há limites de decência e bom
senso”. É um facto, mais vale tarde do que nunca percebê-lo, mas também há
limites para a falta de noção estratégica.
Temos à porta as
eleições autárquicas e depois o PSD terá a sua dolorosa cathársis. Enquanto
isso, o Chega cresce, felizmente mais na cabeça do seu líder – que grita como
um miúdo mal-educado a dizer que o parque infantil é todo dele quando só está
sentado num baloiço. Nos últimos 25 anos, a direita governou sete e a esquerda
18 anos. A continuar assim, como esteve escancarado nesta convenção das
direitas desconchavadas, a esquerda vai ter muitos anos pela frente de
governação sem alternância. E isso é péssimo para todos.


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