EDITORIAL
A decisão britânica entre a realidade e a invenção
Quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros aponta para
uma medida “cuja lógica não se alcança”, não parece considerar a “lógica” das
multidões desregradas que, no Porto, fizeram tábua rasa da situação de
calamidade
Manuel Carvalho
3 de Junho de
2021, 21:30
https://www.publico.pt/2021/06/03/economia/editorial/decisao-britanica-realidade-invencao-1965213
A decisão do
Reino Unido de retirar Portugal da lista “verde” das viagens aéreas não é só um
severo golpe para as ambições do sector turístico: é também uma denúncia da
condescendência e facilitismo com que o país abriu as portas aos britânicos,
principalmente os que se reuniram no Porto para a final da Liga dos Campeões.
Quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros aponta para uma medida “cuja
lógica não se alcança”, não parece considerar a “lógica” das multidões
desregradas que fizeram tábua rasa da situação de calamidade. O Governo deve
saber que as imagens que os portugueses viram dos adeptos ingleses no Porto
também foram vistas lá fora.
Não serão essas
imagens de baderna e irresponsabilidade as principais causas da decisão, certo.
O Reino Unido prepara-se para o desconfinamento geral no dia 21, vive numa situação
de incerteza no controlo da pandemia e não quer correr riscos. Em segundo
lugar, depois de se pôr fora da União Europeia, o país deixou de se sentir com
especiais deveres de solidariedade com os seus Estados-membros. Finalmente,
sendo emissor de turistas e não receptor, o Reino Unido fica com uma tarefa
fácil para restringir a lista “verde” dos destinos para onde os seus nacionais
podem viajar.
Sobra, no
entanto, a questão da “lógica”, o tal cerne da questão que o MNE não consegue
alcançar. Aí há uma mistura de factos com invenções, que tanto podem servir
para justificar a transferência de Portugal da lista verde para a âmbar como
para a tornar hipócrita e delirante. Ninguém sabe onde Londres foi buscar a
variante nepalesa que supostamente grassa em Portugal, e aí entramos no domínio
da hipocrisia. Mas o mesmo não acontece com os outros argumentos: Portugal está
hoje numa situação pior do que há três semanas – como refere o comunicado
britânico, a taxa de positividade de Portugal “quase duplicou desde a última
revisão”. E a imagem de controlo e segurança do país também se degradou por
culpa própria.
É aqui que vale a
pena questionar a declaração do MNE sobre as supostas “regras claras para a
segurança dos que aqui residem ou nos visitam”. Um país que se abre a finais de
futebol e acolhe sem controlar uma horda de adeptos nem exibe “regras claras”
nem inspira confiança. Se o aumento de casos é um preço a pagar para salvar a
economia, a decisão de acolher a final do futebol, enquanto a França ou a Alemanha
impunham quarentenas aos britânicos, não só não ajudou essa estratégia como a
pode comprometer. Essa exibição de negligência e descontrolo há-de ter pesado
na decisão de Londres.


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