quarta-feira, 14 de março de 2018

Linha amarela vai acabar em Telheiras e deixar de ir até ao centro da cidade



Linha amarela vai acabar em Telheiras e deixar de ir até ao centro da cidade

Passageiros da zona norte da cidade terão de trocar de linha no Campo Grande para alcançar o centro de Lisboa — o que PCP, BE e PSD temem que signifique um desinteresse neste meio de transporte.

JOÃO PEDRO PINCHA 13 de Março de 2018, 22:39

A linha amarela do Metro de Lisboa vai mesmo passar a ligar apenas Odivelas a Telheiras. A alteração ocorrerá quando estiver concluída a expansão entre o Rato e o Cais do Sodré, que transformará a actual linha verde numa linha circular (ao incluir o percurso que actualmente integra a linha amarela entre o Campo Grande e o Rato numa rota circular pelo centro da cidade). Assim, milhares de passageiros que hoje apanham o metro no concelho de Odivelas e na parte alta de Lisboa vão ser obrigados a mudar de linha no Campo Grande para chegar a estações como o Rato, o Marquês de Pombal ou o Saldanha, no centro da capital, que transitam para a futura linha verde circular.

Isto corresponde ao que o Metro e o Governo anunciaram no ano passado, mas o presidente da Câmara Municipal de Odivelas disse esta terça-feira no Parlamento que se manifestou contra essa decisão e que o Metro lhe assegurou que havia a hipótese de a linha amarela continuar a funcionar entre Odivelas e o Rato, a par com a futura linha circular. Duas horas depois, o presidente do Metro desfez ilusões: “O que se pretende para a linha amarela é que funcione como uma linha radial, terminando em Telheiras.”

Mais de dez meses depois de anunciada a expansão do metro, a Comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas da Assembleia da República ouviu autarcas, sindicalistas e a administração do Metro.

Lá, Hugo Martins, autarca de Odivelas eleito pelo PS, disse que ficou “bastante apreensivo” com o que foi apresentado em Maio de 2017, sobretudo por causa do previsto “encurtamento da linha” amarela. O presidente referiu que as estações de Sr. Roubado e Odivelas são pequenas para a quantidade de passageiros que têm e transmitiu as suas preocupações ao Metro, que lhe terá respondido que o plano de expansão não tinha necessariamente de implicar mudanças no funcionamento da linha amarela.

Mas Vítor Santos, presidente do conselho de administração do Metro, afirmou mais tarde que essa hipótese nem se coloca, até porque os estudos que a empresa encomendou mostram que a linha circular tem “maior potencial de captação de passageiros” do que qualquer outra possibilidade de expansão da rede. Esta linha é “o primeiro passo para a criação de uma futura rede de transportes que abarque toda a região de Lisboa”, disse o responsável, defendendo que nas periferias se opte, por exemplo, por formas de transporte mais ligeiras. É que, segundo Vítor Santos, o metropolitano é caro e só compensa financeiramente com muitos passageiros e altas frequências de passagem. “Não pode ser uma espécie de Intercidades. A linha circular vai conseguir intervalos de passagem inferiores a quatro minutos.”

À excepção do PS, todos os partidos estão contra esta proposta de expansão, que consideram não responder aos problemas reais de mobilidade na área metropolitana. Também os sindicatos ouvidos e a comissão de trabalhadores manifestam grandes dúvidas face à decisão do executivo.

Heitor Sousa, deputado do Bloco de Esquerda, lamentou que a prioridade não seja a zona ocidental de Lisboa, mas considerou “ainda mais graves” as implicações na linha amarela. “Vai perder a sua unidade. As pessoas vão ser obrigadas a fazer transbordo. É um erro grave, é um convite a que as pessoas não usem o metro”, disse. Semelhantes críticas fizeram Bruno Dias, do PCP, e Carlos Silva, do PSD, que disse mesmo que “este é o projecto mais centralizador que o Governo já apresentou.”

Bernardino Soares, presidente da câmara de Loures (PCP), disse não entender porque é que a linha circular é mais prioritária do que as outras obras previstas no plano de expansão de 2009 no qual o Governo se baseia. Aludindo a uma petição com 31 mil assinaturas, apoiada por todos os partidos na câmara, o autarca disse que o prolongamento do metro até Sacavém, Portela, Loures e Infantado “é uma necessidade imperiosa”, uma vez que “não há rede de transporte pesado no concelho de Loures”. Para o deputado Bruno Dias “não é justo que nove anos depois de anunciada a expansão” para Loures e para outras zonas de Lisboa, esta leve um “veto de gaveta” e que se anunciem mais estudos para depois então tomar decisões definitivas. Mas é isso que está previsto. Questionado, Vítor Santos não indicou qual o próximo projecto de expansão. “Será o poder político a dizer o que se segue”, afirmou.

Plano Diretor Municipal de Lisboa considera alojamento local como uso habitacional



Plano Diretor Municipal de Lisboa considera alojamento local como uso habitacional

06 DE MARÇO DE 2018
Lusa

O Plano Diretor Municipal de Lisboa inclui os estabelecimentos de alojamento local no conceito de uso habitacional dos imóveis, o que tem suscitado dúvidas nesta área, afirmou hoje Fernanda Paula Oliveira, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

"Lisboa assumiu esta dúvida que alojamento local é habitação", acusou a professora de Direito Administrativo, defendendo que "o alojamento local é, claramente, uma atividade económica".

No âmbito de uma audição parlamentar no grupo de trabalho da temática do alojamento local, Fernanda Paula Oliveira disse que o atual regime diz que "o alojamento local se pode instalar em edifícios ou frações que tenham título de utilização", pelo que a lei não exige um título específico, apenas exige que sejam legais.

Neste sentido, o alojamento local "é compatível com qualquer uso", quando devia apenas ser permitido em imóveis com título de utilização para serviços, advogou a jurista.

O Plano Diretor Municipal de Lisboa diz que o "«uso habitacional» compreende as áreas afetas à residência unifamiliar e coletiva, incluindo instalações residenciais especiais (estabelecimentos de alojamento local e residências destinadas a estudantes ou a idosos, que, em função da dimensão da área e dos serviços prestados, manifestem especial compatibilidade com o uso habitacional)".

Em 16 de fevereiro, o vereador do Urbanismo da Câmara de Lisboa disse que existem estabelecimentos designados de alojamento local, com licenças de habitação, mas que são "verdadeiros hotéis", adiantando que tal acontece "até nas barbas da Câmara, na Praça do Município".

"Esta história do alojamento local é perfeitamente perversa tal como ela está, inclusive espaços de alojamento local que são verdadeiros hotéis", afirmou o vereador Manuel Salgado, no âmbito do Seminário sobre Reabilitação Urbana, Habitação e Turismo, organizado pelo Instituto de Ciências Jurídico-Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

De acordo com a professora da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, o alojamento local tem que se instalar em edifícios que estão nos planos municipais, já que "os planos definem os usos e, depois, os edifícios têm utilizações".

"Um edifício que está com autorização de utilização para serviços, a Câmara obriga a mudar para habitação para instalar um alojamento local", criticou Fernanda Paula Oliveira, frisando que "alojamento local não é habitação, é prestação de serviços".

Segundo a jurista, "os municípios podem, sempre puderam regular os usos, definir que usos são incompatíveis em várias áreas".

Sobre a proposta de os condóminos terem que autorizar a instalação de estabelecimentos de alojamento local, a professora de Direito Administrativo disse que "o que estaria em causa na propriedade horizontal não é a autorização do exercício da atividade, é a autorização de utilizar a fração para o fim que está no título constitutivo".

"Não há dúvida que alojamento local é serviços", reforçou.

Relativamente à possível alteração do regime do alojamento local, Fernanda Paula Oliveira considerou que "não se pode de repente alterar uma legislação nacional por causa dos problemas de certos centros" históricos, nomeadamente Lisboa e Porto.

Com semelhante visão, o urbanista Sidónio Pardal, da Universidade Técnica de Lisboa, afirmou que "o que está a acontecer com o alojamento local não é motivo para alarme", pelo que se deve "dar espaço à lei existente" e "deixar que o ajustamento espontâneo funcionasse e só em casos de conflitualidade ou de ruturas locais se poderia tomar algumas medidas localizadas".

"Não estamos em excesso de carga [turística], há uma animação de alguns bairros em Lisboa e Porto, principalmente", apontou Sidónio Pardal, pedindo aos deputados que "não entrem num excesso de regulação", já que "o excesso de regulação é asfixiante".

Neste âmbito, o parlamento tem em cima da mesa cinco projetos de lei do PS, BE, PCP e PAN sobre o alojamento local, defendendo, na generalidade, a obrigatoriedade de uma autorização por parte da assembleia dos condóminos para o exercício da atividade.

Arquitecto criou página no Facebook para denunciar a "catástrofe" que se vive em Lisboa



Arquitecto criou página no Facebook para denunciar a "catástrofe" que se vive em Lisboa

20.09.2017 07:46 por Cátia Andrea Costa

Arquitecto criou página no Facebook para denunciar a "catástrofe" que se vive em Lisboade Facebook Negócios de Sonho foi imaginada quando um colega de trabalho de Ricardo Garcia Pereira começou a procurar casa para comprar. As "situações absurdas" encontradas levaram o arquitecto a avançar com o projecto cujo "objectivo é denunciar, através da ironia e do humor, os preços estratosféricos que se praticam em Lisboa". "A ideia é reduzir a situação ao ridículo", explicou à SÁBADO, revelando que muita gente não acreditava nos valores que ele dizia encontrar -e que vão desde quartos para alugar por 3 mil euros ou T0 de 32m² por 334.800 euros.

Recentemente, Garcia Pereira cruzou-se com uma mãe da Madeira que "procurava desesperadamente" por um quarto para alugar para a filha. A jovem entrara numa universidade em Lisboa, "obudget disponível era de 300 euros e não havia oferta em sítio nenhum". Uma situação que não surpreende o arquitecto: "Se repararmos bem, grande parte dos anúncios são dirigidos a estudantes estrangeiros e por isso é que estão traduzidos para inglês. O que para eles é um pouco alto é insuportável para os portugueses".
Na página como cerca de três meses, Ricardo vai contando de jeito peculiar os resultados das suas descobertas. Num dos posts, falou sobre um TO de 27m2 colocado à venda por 300.000 euros." Em plena Rua do Crucifixo [ndr: em Lisboa] pode crucificar 300.000€ num imóvel... é tão pequeno que talvez dê para arrastar pelas ruas", escreveu o arquitecto.

A ironia foi novamente usada na denúncia de um caso na zona do Príncipe Real: um T1 para alugar por 2.358 euros por mês. "Podia até ser na Suécia, onde um 'T2 pode facilmente ultrapassar os 2500 euros' mas é Lisboa e é um T1!", reforçou.                                          

terça-feira, 13 de março de 2018

Saudades lá do bairro






REPORTAGEM
Saudades lá do bairro
A partir de 1990 centenas de pessoas saíram do centro histórico com a promessa de que voltariam para casas reabilitadas, mas muitas ficaram nos bairros de acolhimento. Agora há 21 famílias de regresso.

JOÃO PEDRO PINCHA 12 de Março de 2018, 8:20

Na sala de Jorge Dias as paredes estão impecavelmente brancas e quase despidas. A monotonia só é quebrada por uma gravura, não muito grande, colocada por cima da mesa de jantar, que mostra como seria o Largo do Chafariz de Dentro no século XIX. “O bairro é sempre o bairro. Eu posso dizer que gosto de estar aqui, mas há sempre qualquer coisa neste cantinho”, suspira, já resignado, enquanto leva a mão ao peito e aponta para o coração.

Alfama não lhe sai do pensamento, mas para lá das vidraças o que se vê é o vale de Chelas, com a sua vegetação mais ou menos selvagem, as casas precárias e os armazéns enferrujados, enquanto no topo da encosta se erguem desordenadamente os prédios da Picheleira e das Olaias. A paisagem foi-se tornando familiar com o passar dos anos. Jorge Dias sabe e aceitou que já não vai sair da Quinta do Ourives, o bairro municipal para onde foi forçado a mudar-se em 1992.

Vivera até aí na Rua da Regueira. “Naquela casa nasceu a minha irmã mais velha, nasci eu e a minha filha. A casa era muito grande, tinha uma sala de jantar enorme e uma grande cozinha”, recorda, sentado à mesa com o amigo Domingos Silva, também um alfamista deslocado. Ambos vieram para a Quinta do Ourives com a promessa de um dia regressar a casa, mal se concluíssem as obras de reabilitação acordadas entre a câmara e os senhorios. “O meu prédio foi demolido e nunca fizeram mais nada. Eu tenho aí uma acta em como voltávamos para a nossa habitação, mas era tudo mentira”, lamenta Jorge.

Os dois vizinhos moravam em casas velhas muito necessitadas de obras, tal como milhares de outras em todo o centro histórico. Entre meados dos anos 1980 e o início dos 1990, a Câmara Municipal de Lisboa criou os primeiros gabinetes técnicos locais, que depois alargou a mais zonas, cujo objectivo era reabilitar os bairros arruinados. A autarquia comprou prédios e negociou com os proprietários de outros. Centenas de famílias foram realojadas em casas municipais, à espera que as obras se fizessem. A grande maioria nunca regressou ao local de origem.

“Eu fui chamado à junta e o presidente disse-me ‘Eh pá, tu tens de sair dali, já viste como aquilo está?’”, conta Domingos Silva. Deixou a sua casa na Calçadinha de Santo Estêvão em 1987. “Esteve vinte e tal anos sem ninguém lá dentro, sem ter obras nenhumas”, relata. Tanto tempo depois já não lhe passa pela cabeça sair da Quinta do Ourives, onde se entretém com um quintal que foi fazendo crescer. Tem pessegueiros, pereiras, laranjeiras, tangerineiras e morangueiros espalhados pelo terreno labiríntico, que percorre entusiasmado, enquanto mostra o elaborado sistema de som que conseguiu instalar e que leva a Rádio Amália a todos os recantos.

Hoje os dias são pacíficos e encarados com boa disposição, mas a vinda para aqui foi dura. Para lá de terem saído de Alfama, tanto Jorge como Domingos tiveram de viver em casas pré-fabricadas, num terreno ali perto, até que os novos lotes estivessem acabados. “Caía lá água e tudo”, diz Jorge. “Eu estive lá dois anos. Um dia um vereador foi lá e disse ‘Isto está impróprio para animais, quanto mais para pessoas’”, lembra Domingos. No dia em que lhe deram a chave da casa nova já não dormiu na pré-fabricada. Foi a correr desmontar a cama e mudou-se logo, ainda nem tinha luz.

Ao contrário da zona em que moram Domingos Silva e Jorge Dias, só concluída a meio dos anos 1990, a parte mais elevada da Quinta do Ourives foi construída ao longo da década de 1970. É num desses prédios que vivem Filomena e Mário Rodrigues, também antigos moradores de Alfama. “A câmara obrigou o senhorio a fazer obras coercivas e eu disse-lhes que queria uma casa. Fomos a reuniões e concordámos que, enquanto eles faziam as obras, nós vínhamos para aqui durante cinco anos. Já lá vão 15”, conta Filomena Rodrigues.

Em 2002, quando o casal deixou a casa da Travessa São João da Praça, o município tinha mudado de estratégia em relação à reabilitação urbana. Esta passou a fazer-se com intervenções de larga escala, muitas vezes obrigando os senhorios a fazer obras. E quando estes se recusavam ou mostravam não ter capacidade, a câmara substituía-se. Foi nesta época que se fez, por exemplo, a famosa reabilitação da Rua da Madalena.

Entre 1990 e 2008, a câmara gastou mais de 450 milhões de euros em reabilitação urbana, a maior parte através dos gabinetes técnicos locais. Ainda assim, no fim da década passada, muitos bairros continuavam a cair aos bocados. E a factura era pesada para os cofres municipais. Dos 77 edifícios que era suposto terem sido intervencionados até 2007 directamente pela câmara, só 33 tinham tido obras. Foram gastos 32 milhões de euros em obras coercivas até 2010, mas a autarquia nunca voltou a ver a cor de grande parte desse dinheiro: àquela data, os proprietários só tinham pago 4,2 milhões.

Pelo meio, as pessoas sentiram-se esquecidas. “Na minha casa, só a sala metia esta casa toda lá dentro. Tinha lá uma mesa para oito pessoas, sofás e um móvel-bar de canto”, conta Mário Rodrigues. A revolta cresce-lhe à medida que fala porque não gosta da Quinta do Ourives, não gosta da casa, já devia estar de volta a Alfama. Um vizinho, que veio do Castelo, também reage com irritação. “Eu não gosto disto, nunca gostei. Se eu pudesse ia-me embora já amanhã”, diz.

A actual vereadora da Habitação diz que há ainda 187 famílias espalhadas pela cidade que antes viviam nas freguesias do centro. “A orientação que eu dei aos serviços foi: negociar família a família, quem quiser regressar ao centro histórico pode regressar; quem quiser ficar na localização em que está, fica”, explica Paula Marques. Houve 21 famílias que mostraram interesse em voltar. “Na Quinta do Ourives são cinco. Temos outras pessoas em Marvila, Campo de Ourique, Olivais”, precisa a vereadora. Ninguém regressará à casa de origem, antes a outras habitações que a câmara está agora a reabilitar.

“Eu nasci na Mouraria, mas estou há 50 anos em Alfama. Já dá para dizer que sou de Alfama”, afirma Filomena Rodrigues, indiferente ao facto de viver na freguesia do Beato há década e meia. “Isto não me diz nada. Queria fugir daqui, não é bairro que me diga alguma coisa.”

“O meu pai morreu com 90 anos. Todos os dias ia com a bengalita até Alfama para estar com os amigos e voltava só à noite. Para ele, aquilo tinha de ser. O vício de ir lá era muito grande. E continua a ser”, conta Jorge Dias. “Não nos faltava lá nada”, comenta Domingos Silva – e as saudades param-lhe os olhos por uns instantes.


Já chega de confiar na sorte



Imagem do Dia / OVOODOCORVO
EDITORIAL
Já chega de confiar na sorte
Sim, conversem todos, mas comecem por arranjar o que se tem perdido. Já que o dinheiro nunca é muito, o melhor é começar pela base. Já basta de confiar na sorte

David Dinis
13 de Março de 2018, 6:30 Partilhar notícia

Nos últimos quatro anos, Portugal registou 20 descarrilamentos de comboios. Sempre em troços de caminhos-de-ferro que são considerados problemáticos pela empresa que é responsável pela sua manutenção. Registe as palavras, usadas no relatório que hoje Carlos Cipriano nos desvenda: estas linhas são “medíocres” ou “más”. Estas, entre muitas outras, porque a conclusão dos técnicos da Infra-Estruturas de Portugal é que quase 60% das linhas do nosso país está neste estado.

Registe também uma outra palavra que ele nos diz ser a mais usada, por estes tempos, dentro daquela empresa: “Sorte.” Sorte de, nestes 20 descarrilamentos, só haver registo de seis comboios de passageiros, “sorte” sobretudo de não haver registo de qualquer morte nestes acidentes.

Agora junte a tudo isto a triste história da Ponte 25 de Abril, em que há um parecer alertando para a necessidade de obras, o parecer anda de gaveta em gaveta durante anos — e só salta de lá com o respectivo envelope financeiro quando se sabe que há uma revista, a Visão, que vai fazer do tema capa.

Não, o problema não é o das cativações, porque a questão é bem mais séria e transversal. A discussão que se lançou por causa da Ponte 25 de Abril, e que agora terá de se fazer também sobre as linhas férreas, é uma discussão que tem de se alargar a outros sectores do nosso Estado. Deve fazer-se no Serviço Nacional de Saúde, onde se discute mais a falta de profissionais do que os meios com que estes trabalham; deve fazer-se nas escolas, onde também se fala muito dos professores, mas pouco das condições em que eles ensinam os nossos filhos.

É este o estado do país e da discussão política. Hoje, por exemplo, os sindicatos de professores iniciam uma greve, que se fará dia a dia, região a região, porque não conseguem convencer o Governo a dar mil milhões de euros para lhes garantir uma reposição salarial de acordo com as suas pretensões. No dia em que reclamarem o mesmo, mas metade para eles e outra metade para que tenham condições para ensinar, é provável que tenham o país todo com eles.

Se António Costa e Rui Rio decidiram começar a conversar sobre onde aplicar os fundos europeus e que responsabilidades passar para as autarquias, podiam bem começar por aqui: olhar, sector a sector, que partes do Estado precisam de mais investimento, de reabilitação, ainda antes de nos lançarmos em novas aventuras. Sim, conversem todos, mas comecem por arranjar o que se tem perdido. Já que o dinheiro nunca é muito, o melhor é começar pela base. Já basta de confiar na sorte.


Começou demolição de edifícios para dar lugar ao “mono do Rato”, futuro hotel



Começou demolição de edifícios para dar lugar ao “mono do Rato”, futuro hotel

Samuel Alemão
Texto
12 Março, 2018

Apesar de ainda estar por confirmar a construção do polémico edifício conhecido como “mono do Rato”, pelo menos naquela versão que tão contestada tem sido, desde o início do processo, em 2005, o destino dos prédios até agora existentes naquele local parece estar traçado. Começaram, na manhã desta segunda-feira (12 de Março), os trabalhos de demolição desses imóveis, para dar lugar ao projecto dos arquitectos Manuel Aires Mateus e Frederico Valsassina – que deverá ser uma unidade hoteleira, e não um prédio de habitação e escritórios, apurou O Corvo. O início do processo de derrube do casario pré-existente ocorre assim um mês depois de terem sido colocados os tapumes em redor do gaveto situado entre o Largo do Rato e as ruas do Salitre e Alexandre Herculano, ressuscitando um processo do qual se havia deixado de falar no início desta década. Há, no entanto, quem se esteja a mobilizar para o travar.

O Corvo apurou que alguns dos moradores daquela zona, que serão vizinhos do “mono do rato”, se preparam para encetar uma batalha legal contra tal construção, contestando a sua grande volumetria. Em causa estará não só o ensombramento que tal construção provocará nas zonas circundantes, bem como a invasão de privacidade que a fachada a tardoz – isto é, a fachada das traseiras – representará para quem ali vive. Recorde-se que, numa reunião pública, a 28 de Fevereiro, o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina (PS), confessou que, apesar de gostar do projecto, o considerava pouco adequado ao lugar. “Acho que o projecto não é bonito naquele sítio, que cria uma disfunção, uma ruptura naquele local”, disse, no momento, prometendo estabelecer “diálogo com os promotores e tentar encontrar uma solução que minore o impacto da adaptação da zona”. O autarca avisou, todavia, que não poderia garantir o sucesso da tentativa de mediação e lembrou mesmo os direitos do promotor, que viu o projecto aprovado no final de 2010.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Moradores e comerciantes ainda gostam da “cidade do futuro”, apesar do boom imobiliário



Moradores e comerciantes ainda gostam da “cidade do futuro”, apesar do boom imobiliário
REPORTAGEM
Sofia Cristino
Texto
12 Março, 2018

20 anos da Expo 98
Há vinte anos, numa zona industrial abandonada, acontecia a Expo 98. A exposição mundial foi um sucesso e, a partir daqueles terrenos, nasceu uma zona nova de Lisboa. Quinze anos depois do evento, criou-se a freguesia do Parque das Nações, muito pela insistência de um grupo de residentes da área. O Corvo falou com os primeiros moradores e comerciantes que ali se instalaram, recordando como era e no que se tornou aquela parte da cidade. “No início, conseguíamos contar as pessoas que moravam cá pelas luzes das casas”, diz a proprietária da primeira mercearia. Um dos primeiros moradores lembra que havia limpeza 365 dias por ano e um sistema de recolha de lixo inovador. “Era a primeira grande cidade nova”, afirma. Outra residente, que constituiu ali família, conta que os filhos não gostavam de sair dali. “Diziam que Lisboa era suja e velha. Sentia-se uma diferença enorme relativamente ao resto da cidade”, frisa. Mas os problemas não tardaram em aparecer. “Antes viam-se crianças a fazerem piqueniques e agora não. Os bebedouros estão verdes, uma fonte de micróbios. Há ruas que cheiram a urina”, queixam-se. Há também quem considere que a zona cresceu muito rápido. “Não era suposto existir este boom imobiliário. Estamos no limite”, alerta outro residente. Segundo o ex-presidente da Junta de Freguesia perdeu-se muito com a extinção da Parque Expo, empresa que geriu o Parque das Nações. “Foi feita uma passagem de competências atabalhoada”, acusa. Ainda assim, muitos dos moradores não trocariam “a Expo” por nenhuma outra zona.

 “À noite, este piso em frente era terra e, de manhã, estava todo calcetado. Na Expo 98, trabalhavam dia e noite, era impressionante”, conta Teresa Reis, 60 anos, enquanto aponta para a entrada da Farmácia Parque das Nações, um dos primeiros estabelecimentos comerciais a surgir ali. De passada firme, a proprietária da farmácia vai explicando quando surgiram os edifícios circundantes, quais foram os primeiros e os mais recentes e, até, quem foram os primeiros moradores. “Não havia nada do que vemos agora, o que aconteceu aqui foi surpreendente. Quando o português é posto à prova consegue fazer coisas extraordinárias e a Expo foi do melhor que já se fez no nosso país”, diz.

Abriu em plena exposição mundial, em junho de 1998, quando não havia praticamente habitantes. “Por cima da minha farmácia estavam a funcionar algumas delegações da exposição. Lembro-me das primeiras compras dos moradores e de histórias caricatas de paquistaneses e de pessoas de outras culturas muito diferentes da nossa. Tínhamos de falar por gestos para nos entendermos. Foi tudo tão rápido”, recorda Teresa Reis, que também mora ali perto, no quinto andar de um prédio na Alameda dos Oceanos.

Nos meses que antecederam um dos maiores eventos mundiais que Lisboa recebeu, a Expo 98, vivia-se em contrarrelógio. O tempo parecia sempre insuficiente para terminar um projecto sem paralelo na capital portuguesa. E, num ápice, os pavilhões temáticos estavam concluídos, saltando à vista numa frente ribeirinha praticamente deserta. As cabines do teleférico começavam a fazer os primeiros percursos, os vulcões jorravam água e as portas do recinto abriam-se, para receberem milhões de visitantes dos cinco continentes.

Aquela parte da cidade foi, durante muitos anos, uma zona industrial, onde se localizavam fábricas e armazéns abandonados, a antiga refinaria da Sacor, um matadouro e uma lixeira a céu aberto. Estes terrenos e a zona ribeirinha foram totalmente requalificados para acolher a Expo 98 e, assim que o evento terminou, transformaram-se numa zona privilegiada de residência. A 30 de Setembro de 1998, a Exposição Mundial de Lisboa dedicada ao tema “Os Oceanos, um Património para o Futuro” fechava portas e começava a desenhar-se uma “cidade nova”. Durante muitos anos e, ainda hoje, são muitos os que se referem a esta zona oriental de Lisboa como “Expo”, embora já tenha sido baptizada de Parque das Nações.

Hoje, vivem lá mais de 20 mil habitantes e já não há espaço para mais construção. O novo território do Parque das Nações cresceu a um ritmo inesperado, surpreendendo quem não acreditava na revitalização de uma zona industrial deixada ao esquecimento. A oferta comercial é igualmente vasta, respondendo às necessidades de uma população que cresceu muito para além da área do recinto da exposição. Mas nem sempre foi assim.

O Pomar da Rosa foi a primeira mercearia do Parque das Nações. Abriu dois anos depois de terminar a exposição, no Terreiro dos Corvos, na Zona Norte. Pedro Barradas, morador desde 1998, é um cliente habitual da mercearia. “Quando vim para cá morar, para comprar pão quase que se tinha de ir de carro, porque a rede de transportes ainda não estava muito desenvolvida e só tínhamos a Dona Rosa”. Hoje, é preciso pensar antes de sair de casa, tal é a variedade de opções. “Há muito comércio e uma densidade populacional muito maior. A Zona Sul consolidou mais depressa, principalmente com o metro. O que tenho mais saudades é da vista, era melhor em 1998, havia menos prédios e via-se poucos turistas”, explica.

Rosa Coelho ou “Dona Rosa”, como é tratada pelos moradores, veio das ex-colónias portuguesas em África para Portugal depois do 25 de Abril, conta, “apenas com a roupa do corpo”. “Não foi nada fácil, mas conheci pessoas que me ajudaram muito a construir a minha vida aqui. Éramos poucos, uma família. No início, conseguíamos contar as pessoas que moravam cá pelas luzes das casas. Vivia meia dúzia de gente”, lembra. Depois de 27 anos a trabalhar no Centro Comercial da Portela, foi para aquela parte da cidade a pedido das próprias clientes. Passados estes anos, é uma das grandes responsáveis, diz quem lá vai diariamente, por ainda existir ali “um espírito de bairro”, que se poderia ter perdido com a instalação das grandes superfícies comerciais.

“As minhas clientes, que viviam na Portela, vieram morar para aqui e pediram-me para vir. Não me arrependi, são as mesmas de há 40 anos. Só não vi os partos, conheço-as desde crianças. Umas já são mães e avós. Isto é uma espécie de aldeiazinha bairrista”, explica Rosa, 67 anos, de sorriso nos lábios. Mas “não podemos esquecer o que era a zona oriental”, nota. “Isto era só lixo, havia muitas ratazanas. A construção do Parque das Nações foi muito importante para a cidade. As pessoas que moram aqui não dão valor ao potencial que temos”, considera.

Natércia Pinheiro, nora de Rosa, também trabalha na mercearia e partilha a mesma opinião. “Supostamente, isto ia ser uma zona de dormitório, mas deu-se um desenvolvimento flash. Havia prédios com três famílias apenas. Hoje, já não há espaço para mais pessoas. Acho que o Parque das Nações não perdeu nada e ainda tem muito a ganhar”, prognostica.

Ao lado da mercearia, Lucília Santos, 53 anos, vende flores e plantas desde o fim da exposição. Deixou Toronto, no Canadá, para abrir a loja e, admite, não acreditava que o Parque das Nações crescesse tanto. “Não esperava o que aconteceu aqui, foi uma surpresa total no que isto se transformou”, diz. Chegou mais cedo que Rosa, em setembro de 1998. Aproveitou, tal como outros comerciantes, a oportunidade para comprar um espaço a um preço mais acessível. Do que sente mais falta, explica, é do sossego que caracterizava aquela zona. “Não acontecia nada, era muito pacífico. Lembro-me de vir para aqui namorar, não havia ninguém. Foi uma aventura, não sabíamos se ia dar certo, mas correu muito bem”, conta.



Leonor Cunha, 73 anos, é cliente da florista há 16 anos, ou seja, desde que se mudou para ali. “Ver nascer uma cidade de uma lixeira foi um prazer muito grande”, vai falando, enquanto procura uma flor para colocar numa campa, no cemitério. Salienta, no entanto, “perdeu-se paz de espírito”. “O desenvolvimento foi surpreendente, mas perdeu-se pacatez. O Campus de Justiça trouxe uma nova vida, mas também mais trânsito e problemas”, diz, depois de contar as últimas novidades à florista.

Caminhando em direcção à Zona Sul encontramos a papelaria Espelho do Tejo que, juntamente com a farmácia de Teresa Reis, foi a primeira a instalar-se no bairro. “Era um bairro pequenino, todos nos conhecíamos, eram meia dúzia de pessoas. Gosto de viver aqui, porque ainda conheço muita gente”, explica a proprietária da loja e moradora Margarida Barros, 59 anos, que antes morava no Prior Velho. Margarida diz, porém, sentir saudades de algumas características que se foram perdendo.

“Era tudo mais verde e mais cuidado. As minhas filhas saíam à noite e lembro-me de o carro da polícia acompanhá-las até casa no regresso, em 2000. Agora, já não se vê isso”, explica. Quando as filhas foram para a universidade, Margarida conta que os amigos e colegas de faculdade pediam para vir estudar para sua casa. “Adoravam a Expo e pediam para virem para aqui, porque era mais sossegado e, depois, passeavam à beira-rio. Sentia-me feliz, porque vim para aqui mais por elas até”, admite.

“O que se fez aqui foi óptimo, uma cidade completamente nova…”, diz um cliente, que acaba de entrar na papelaria. É dia de Euromilhões e o quiosque está cheio. José Jacinto é um dos clientes mais antigos, foi dos primeiros a morar ali. “Tinha algum receio, quando vim, porque isto era um monte de lixo, mas valeu muito a pena. Esperava que fosse mais um dormitório, não esperava que tivesse este desenvolvimento económico. Superou muito as minhas expectativas iniciais”, diz José Jacinto, que também abriu ali uma clínica dentária.

Nos dias que correm, adquirir produtos alimentares, flores, jornais, ou qualquer outro artigo, não é um problema para quem ali vive. O Parque das Nações desenvolveu-se a um ritmo alucinante e há muitos estabelecimentos comerciais. Durante 23 anos sob a alçada da Parque Expo, entidade responsável pela construção da Expo 98, revitalização urbana e gestão do espaço público desta parte da zona oriental de Lisboa, o Parque das Nações conhecia finalmente o estatuto de freguesia em 2012, no âmbito de uma reorganização administrativa que só entrou em vigor depois das eleições autárquicas de 2013. Nesse ano, foi, também, anunciada a decisão do Governo de extinguir a empresa e, em dezembro de 2016, a Parque Expo cessava oficialmente funções.

Os moradores e os comerciantes já ambicionavam criar uma freguesia autónoma desde o final da exposição, conta a dona da farmácia Parque das Nações. Teresa Reis foi sócia-fundadora da Associação de Moradores e Comerciantes do Parque das Nações (AMCPN), a primeira colectividade de residentes a pensar na criação de uma freguesia. No seu estabelecimento comercial, que começou por chamar-se Farmácia Elma, muitos dos primeiros habitantes reuniram-se para falarem sobre o futuro da “Expo”, como muitos ainda se referem àquela parte da cidade.

“Não havia nada aqui depois da Expo terminar. Para tomar café, tinha de ir à bomba de gasolina. Onde é que as pessoas se encontravam? Na farmácia. Foi aqui que, eu e outros habitantes, começámos a pensar na criação de uma freguesia. Nas primeiras eleições da associação de moradores, vieram cá votar”, conta. A colectividade viria a ser constituída a 10 de agosto de 1999, no cartório de Moscavide. O candidato a presidente da Junta de Freguesia foi José Moreno, pelo PNPN. Também ele chegou a encontrar-se ali com alguns moradores, mais tarde.

Frederico Valente, 67 anos, morador há doze anos, lembra-se bem desses tempos. “As pessoas juntavam-se na farmácia para falarem sobre o Parque das Nações. Foi ali que tudo começou, só sabe quem lá esteve. Foram feitos abaixo-assinados e petições na farmácia. Fazia todo o sentido que se criasse uma freguesia autónoma, numa zona com características muito próprias”, conta.

Em 2013, depois de anos de luta dos comerciantes e moradores da AMCPN e da implementação do modelo da reforma administrativa da cidade, nascia a freguesia do Parque das Nações, que integraria parte da freguesia dos Olivais, no concelho de Lisboa, e parte das freguesias de Moscavide e Sacavém, ambas do concelho de Loures. José Moreno foi, durante mais de dez anos, quem deu a cara pela criação da freguesia, à qual presidiu até ao ano passado. Conhecedor da zona onde vive desde 1998, é de brilho no olhar que vai relatando uma história com “bem mais de vinte anos”.

O Parque das Nações, diz, era “uma autêntica zona industrial”, que começou a desenvolver-se depois dos anos 40. “O aeroporto marítimo de Cabo Ruivo teve um papel importantíssimo durante o período da II Guerra Mundial e ficou ali abandonado, como um tanque de lama. A Doca dos Olivais, onde está o Oceanário, era uma doca de atracagem de hidroaviões e havia lá barcos encalhados, que apodreciam ali. As petrolíferas também já tinham conhecido dias melhores”, descreve José Moreno. “Era uma zona que estava, de facto, altamente decadente. Era preciso acudir-lhe e esta oportunidade da exposição foi excelente”, frisa, ainda.

Moreno vivia na Portela e foi dos primeiros a adquirir os apartamentos, quando estes começaram a ser comercializados ainda em maquetes, em 1994. Na altura, reconhece, a decisão de morar num sítio deixado ao abandonado comportava “algum risco”. “Não havia nada, mas, como gosto de um pouco de aventura, apostei. Tinha familiares reticentes, aconselharam-me a ser prudente e acabaram por comprar mais tarde em condições já menos favoráveis que as minhas”, diz.

Quando o sol espreita, são muitos os que elegem o Parque das Nações para passear, andar de bicicleta ou praticar exercício físico à beira-rio. Alguns sentam-se nos bancos às riscas construídos para a Expo e ficam ali, a observar o Tejo. António Pina, 53 anos, é um deles. Agora está desempregado, mas chegou a trabalhar como pintor da construção civil na edificação da exposição mundial. Diz que precisa de ouvir o rio, longe da confusão do centro de Lisboa. “O Parque das Nações foi das melhores coisas que se fez em Portugal, deu trabalho a muita gente. Vou até Sacavém a pé, faz-se bem”, diz, nostálgico. António salienta, no entanto, que poderia haver mais manutenção do passeio ribeirinho. “A água do rio estraga os passadiços e alguém tem de tratar disto”, alerta.

Paulo Folgado, 49 anos, está a meio de uma corrida. “Corro aqui sempre que posso, é a melhor zona da cidade para o fazer”, diz, enquanto olha para o cronómetro. Trabalhou na Expo 98, na área da fiscalização, mas prefere não se alongar em muitos detalhes. “Posso dizer que esta parte oriental da cidade estava caótica e, agora, está bem melhor”, destaca. Não deixa, porém, de fazer alguns reparos. “Quem cá vive tem uma qualidade de vida inegável, mas a pressão urbanística que se sente agora também é de mais. É um exagero. A restauração é feita para uma classe etária muito específica”, concluí, enquanto faz o último exercício de aquecimento para finalizar o percurso.

A população do Parque das Nações, uma zona que continua a ser muito cobiçada para viver, é, maioritariamente, da classe média-alta. Segundo o único diagnóstico social realizado sobre a freguesia é, também, das freguesias mais jovens e das que tem mais estudos em toda a cidade.

Francisco Martinho, 26 anos, está a passear com uma amiga e confessa que gostava de morar ali. “O único problema é que isto ficou feito para uma elite. Há pouco tempo, andei a ver a possibilidade de morar cá e é impossível. Até os restaurantes não são acessíveis a todos, são caros. Ficamo-nos pelo passeio”, diz, entre risos.  Ana Gouveia, 25 anos, diz que “o melhor do Parque das Nações” é mesmo a zona ribeirinha. “Gosto muito desta zona, essencialmente pelo sossego, sinto que estamos em Lisboa, mas, ao mesmo tempo, não estamos”, diz a habitante de Vila Franca de Xira. Guilherme Alves e Catarina Ornelas acabaram de chegar a Lisboa para estudarem Medicina e, ao contrário de Francisco, escolheram o Parque das Nações para viver. “Agradou-nos muito a calma e sentimos que era uma zona segura. É um espaço muito acolhedor e familiar”, explica Catarina Ornelas.

Filipe Rodrigues, 20 anos, não mora ali, mas frequenta a zona com amigos. Queixa-se da falta de iluminação. “Acho que, à noite, há pouca luz. Venho tomar café com amigos e sentimo-nos inseguros”. Verónica Sousa, 21 anos, vive no Parque das Nações há quatro anos e concorda com Filipe. “Gosto de passear à noite e, se houvesse mais iluminação, se calhar, ia passear mais”, confessa. “Por mim, podiam voltar a abrir alguns espaços nocturnos que fecharam, ficaram completamente abandonados”, acrescenta um amigo, Bruno Almeida, morador desde 2009. Os três estudantes universitários salientam, ainda, que os espaços verdes estão “muito degradados”.

O aumento de visitantes poderá, juntamente com um menor investimento na manutenção dos jardins, ter contribuído para a descaracterização do espaço público, dizem alguns moradores. Sentem que a freguesia está a tomar um rumo diferente do inicial e que, se não se agir rapidamente, o Parque das Nações como o conheceram há vinte anos poderá deixar de existir. Há canteiros sem plantas, espaços com relva seca e ervas daninhas que saltam à vista, até de um olhar mais desatento. O piso é irregular, anda-se aos solavancos, porque as raízes das árvores não páram de crescer. Na Alameda dos Oceanos, as tábuas que compõe o pavimento da artéria central estão partidas, o que põe em risco a segurança de quem por lá passeia ou anda de bicicleta. Nos jardins desenhados para a exposição mundial há árvores a pedirem uma intervenção urgente.

“A Junta não geriu bem o dinheiro público. Os espaços verdes estão abandonados e há muitos pontos de rega desligados. Nunca podaram as árvores, que constituíam uma zona verde identificativa da Expo. Identificava-se logo o Parque das Nações através dessa faixa de árvores, quando se chegava a Lisboa de avião. As árvores são esqueletos no inverno e, no verão, um excesso de folhagem. Não podemos deixar crescer tudo desmesuradamente. Esta é uma Expo muito diferente da que eu conheci e, se esta junta não se mexer, isto perde-se”, repara Emília Morgado. A residir no Parque das Nações desde 2003, diz que ir viver para ali foi “uma decisão ponderada”. “Morar no Parque das Nações foi, no fundo, a procura de um espaço com outro tipo de qualidade de vida. Vim pelos espaços verdes, por ser mais fora do centro da cidade e, aparentemente, mais segura. Era uma promessa de uma qualidade de vida melhor, na qual acreditei”, diz.

Gisela Sá Frias tinha a mesma visão, em 2000. “Vim porque ia ser uma zona feita de raiz, com uma localização excepcional, com uma grande área verde”, explica. “Agradou-me, também, o sistema moderno de recolha do lixo. Os meus filhos nasceram aqui e detestavam sair porque diziam que Lisboa era suja e velha. Na altura, sentia-se uma diferença enorme relativamente ao resto da cidade. Gostava muito mais de quando vim para aqui morar”, confessa.

Florbela Morais mudou-se em 2004 e sente o mesmo. “A Expo tem uma identidade própria. Há uns anos, percebíamos que estávamos numa zona diferente. Mas perdeu muito dessa identidade, os relvados estão a morrer e há remendos em todo o lado. Pondero se ainda é uma opção viver aqui, perdi muita qualidade de vida. O Parque das Nações foi desenhado há muito pouco tempo para já estar assim”, queixa-se. E continua: “O Pavilhão de Portugal é um ícone da Expo e está abandonado. Não aproveitaram o que aqui foi feito e o que se faz de novo é tudo feito de uma forma muito atabalhoada. Está-se a estragar um património muito próprio”. A moradora diz ainda que sente “um grande desequilíbrio” entre a zona acima da linha de comboio, onde se situam os bairros do Casal dos Machados e a Quinta das Laranjeiras, e a zona ribeirinha do Parque das Nações. “Eles acham que nós somos privilegiados, mas eles é que têm piscina, biblioteca e um posto médico”, ressalva.

Gisela Sá Frias vai mais longe. “Antes viam-se crianças a fazerem piqueniques e agora não. Os bebedouros estão verdes, uma fonte de micróbios. Há ruas que cheiram a urina. Temos um grande problema de transportes, a Câmara de Lisboa privilegia passeios pedonais e ciclovias e não faz sentido haver tantas. Vivo na zona Norte e ainda tenho de caminhar muito para chegar ao metro”, queixa-se. A iluminação pública, diz ainda, parece “um catálogo de candeeiros” porque muitos dos antigos foram substituídos por novos, com um design mais moderno.

Emília Morgado concorda. “Os candeeiros velhos estão misturados com os novos, está tudo descaracterizado”, observa. A opção de utilizar lâmpadas LED, apesar de mais económica, também preocupa as moradoras. “Nunca tinha tido problemas em correr à noite e, há pouco tempo, ia sendo atropelada pela falta de iluminação. Estas luzes novas têm menos intensidade”, diz Florbela.

Como estas habitantes, que viviam em freguesias próximas, Pedro Graça foi viver para o Parque das Nações por acreditar que iria encontrar “uma qualidade de vida superior ao resto da cidade” e constituir família numa zona em crescimento. “Mudei-me porque precisava de uma casa maior, já tinha um filho e ia ter outro. As nossas expectativas eram boas, imaginávamos que seria uma zona boa para as crianças crescerem”, diz o morador, a viver na Alameda dos Oceanos.

“Vivi intensamente toda a criação do Parque das Nações. Fomos bombardeados com o pó e os camiões das obras. A Expo, como ainda lhe chamo, era a terra de ninguém. Cheguei a ver cinema ao ar livre”, recorda o ex-morador de Santa Maria dos Olivais. Viveu, também, em Moscavide, quando parte desta freguesia ainda pertencia ao concelho de Loures. “Os limites do concelho de Lisboa não eram mudados desde o século XIX e colocaram-nos dentro do mapa, foi surpreendente”, diz.

Luís Cardoso, 34 anos, vive na Expo desde 2000 e também se lembra de quando visitava o terreno com os pais, que compraram a casa ainda em projecto. “Íamos ver as obras de jipe, aquilo era uma lixeira. Quando os meus pais viram o terreno, até puseram as mãos à cabeça, mas arriscaram. Pensaram que, se se ia fazer ali a Expo, não poderia correr muito mal”, diz, entre risos. Na altura da exposição, entrava no recinto para chegar a casa, tinha uma credencial por ser morador. Hoje, já vive na sua própria casa e também trabalha ali, numa empresa de tecnologia.

 “Senão fosse a Expo, isto continuava a ser um aterro. Houve uma gestão brutal e aproveitou-se bem uma oportunidade única. A vinda de algumas das principais empresas tecnológicas para aqui também trouxe uma grande dinâmica sem se perder a vida de bairro. Hoje, a Expo já é uma parte de Lisboa, já tem características de Lisboa”, explica, sem deixar de fazer reparos. “Não era suposto existir este boom imobiliário. Iam fazer um prédio em cima do rio, mas já está embargado. Estamos no limite, não há espaço para alargar. Acho que se poderão integrar partes mais antigas e reabilitá-las. A ligação da zona sul ao Terreiro do Paço poderá ser a expansão natural”, diz.

Ivo Pereira, 34 anos, morava em São João da Talha antes de se mudar para o Parque das Nações e também acredita que o que se fez naquela frente ribeirinha tem de servir de exemplo para o resto da cidade. “A Expo deu uma nova alma ao Parque das Nações, mas ficou muita coisa por fazer. A frente de Marvila podia ser melhor aproveitada, há quilómetros de rio que se estão a começar a aproveitar agora, mas devia-se ter começado mais cedo. Há aqui muito potencial desaproveitado”, lamenta.

Apesar de ainda ser considerada uma zona nobre da cidade, a freguesia continua a carecer de serviços públicos fundamentais, nomeadamente um centro de saúde, escolas e uma rede de transportes públicos que ligue a zona oriental a outros pontos centrais da cidade de Lisboa. A falta de equipamentos escolares públicos é uma das eternas promessas adiadas. Os filhos de Pedro Graça não conseguiram entrar na Escola Vasco da Gama. “Moramos pertíssimo da escola e o meu filho está na escola em Moscavide, tenho de o levar de carro. Não há oferta escolar pública. Começou por ser uma escola de elite e, agora, está sobrelotada”, explica.

Pedro Graça alerta, ainda, para a falta de um espaço que conte a história da exposição mundial. “Devíamos ter, também, um sítio que mostrasse aos nossos filhos o que foi a Expo e, neste momento, não temos. Acho importante não nos esquecermos do que foi”, queixa-se, referindo-se à exposição “A Cidade Imaginada”, que contava a história da exposição, patente no Pavilhão de Portugal até o ano passado.

Há moradores que vêem na extinção da Parque Expo o motivo da degradação da freguesia. “Antes, lavavam as ruas, agora é a chuva que as lava. A Câmara devia ser trocada pela Parque Expo, fez um excelente trabalho. Não ficou nada por fazer, ficou por manter”, diz Gisela Sá Frias. A maioria dos residentes, contudo, tem uma opinião bem diferente. “A Parque Expo não tinha limite de orçamento para gastar e houve um conjunto de mordomias que não eram necessárias. Há obras embargadas e outras que entraram em falência, porque o dinheiro acabou”, diz Frederico Valente.

Luís Pastor, 62 anos, um dos primeiros moradores, acredita que era “impossível” manter-se a qualidade de manutenção e limpeza que existia no início. “Tínhamos limpeza 365 dias por ano e um sistema de recolha do lixo inovador. Era a primeira grande cidade nova. Era impossível manter essa qualidade, porque os paradigmas da gestão urbana mudaram. O relvado à inglesa tem uma manutenção caríssima e a transição das competências da Parque Expo para a Junta não foi natural. Era previsível o que ia acontecer”, considera o arquitecto.

Segundo o ex-presidente da Junta de Freguesia, José Moreno, a dissolução da Parque Expo tem sido “um processo moroso e extremamente penoso”, o que tem tido reflexos na transferência das competências da empresa para os órgãos de poder local. “Perdeu-se muito com a extinção da Parque Expo, por ter sido tardia e ter sido decidido da forma apressada que foi. Já se sabia que se ia fazer uma reforma administrativa e tê-lo feito dessa forma foi muito mau. Foi feita uma passagem de competências atabalhoada, que ainda hoje não está totalmente concretizada”, indica.

Apesar de tecer várias críticas ao estado actual do Parque das Nações, José Moreno diz que o que se fez ali foi “uma oportunidade única de se recuperar e entregar à cidade uma parte que lhe pertence, com a qualidade que hoje reconhecemos”. “A prova do sucesso que foi a Expo é que, passados vinte anos, continua a suscitar interesse por parte dos estudiosos de vários campos do conhecimento. Nós somos bons e temos de acreditar na capacidade do português em construir, não temos de ter complexos de inferioridade. Temos de acreditar nas pessoas, porque sem pessoas não há nada”, conclui.