Portugal
já sofreu 20 eventos climáticos extremos que custaram 800 milhões às
seguradoras
A
vaga de incêndios de 2017 foi o evento mais dramático e custou 250 milhões às
seguradoras. Nos últimos 17 anos, só em quatro não houve acidentes naturais
relevantes em Portugal. É o 7.º país mais afetado em perdas económicas e o 5.º
em vidas humanas num conjunto de 35 países europeus.
Carla Aguiar
Tornados inéditos, tempestades mais
destrutivas, incêndios incontroláveis e regiões em seca extrema e em risco de
racionamento de água. São sinais de que as alterações climáticas chegaram a
Portugal, vieram para ficar e, dizem-nos, vão piorar.
Portugal já tem um rasto assinalável de
eventos climáticos extremos. Entre inundações, tempestades, incêndios
florestais e tornados, o país enfrentou nos últimos 17 anos um total de 20
“eventos extremos”, na classificação usada pelas companhias de seguros. Entre
2006 e 2023, foram raros os anos em que não houve um ou mais acidentes naturais
relevantes, em danos e custos para o setor, de acordo com dados fornecidos ao
DN pela Associação Portuguesa de Seguradoras (APS).
É, aliás, o 7.º país europeu mais afetado em
perdas económicas, num conjunto de 35 países, e está em 5.º lugar em mortes
prematuras, segundo um relatório da Agência Europeia do Ambiente, de 2022, que
analisa duas décadas entre 1980 e 2020, e que tem em conta também fenómenos
como ondas de calor e seca.
Para além do rasto deixado nas cidades e nos
campos, na vida de pessoas e animais ou nas infraestruturas, as alterações
climáticas estão também a ter um impacto na economia e, em particular, no setor
segurador, muito exposto ao risco pela natureza da sua atividade.
Ao longo dos últimos 17 anos, foram
participados às seguradoras nacionais cerca de 166 500 sinistros relacionados
com eventos climáticos, segundo a análise do DN dos dados da APS. O evento mais
dramático em vidas e em custos financeiros foi a vaga de incêndios florestais
de 2017, que motivaram a participação de 47 668 sinistros. Nesse ano, só o
incêndio de Pedrógão Grande - no qual perderam a vida 66 pessoas e 253 ficaram
feridas -, significou um encargo da ordem dos 25 milhões de euros para as
seguradoras. E os restantes incêndios do mesmo ano, no fatídico mês do outubro,
implicaram um custo de quase 230 milhões de euros em indemnizações e provisões,
indicou ainda aquela associação. No total perderam a vida 116 pessoas e
centenas de habitações ficaram destruídas.
No período em análise - 2006 a 2023 - o setor
segurador português pagou uma fatura pesada pelos eventos climáticos extremos.
Foram perto de 800 milhões de euros em indemnizações e provisões, de acordo com
cálculos feitos pelo DN, a partir dos dados enviados pela Associação Portuguesa
de Seguradores.
Cobertura de seguros é muito baixa
Entre 1980 e 2020, o relatório da Agência
Europeia do Ambiente havia estimado as perdas totais em 13,46 mil milhões de
euros, mas apenas 478 milhões de euros delas estavam cobertas pelos seguros em
Portugal. Este enorme desvio entre as perdas registadas e o valor de
indemnizações deve-se, sobretudo, ao facto de “mais de 90% das perdas
patrimoniais registadas não estarem cobertas pelos seguros”, de acordo com os
dados da plataforma CATDAT e do NatCatService em que se baseia o relatório da
Agência Europeia do Ambiente (AEA). Estes dados englobam todos os eventos
meteorológicos e relacionados com o clima, mas nem todos podem ser atribuídos
às alterações climáticas.
Apesar do aumento previsível deste tipo de
fenómenos extremos, o grau de cobertura dos danos patrimoniais pelos seguros é
muito baixo em Portugal. Apenas 3,6% das perdas estavam cobertas, o que faz com
que as vítimas destes desastres sofram prejuízos muito avultados.
Outras fontes, que cruzam os dados da
companhia de resseguro Munich RE com os do Eurostat, sinalizam igualmente uma
brecha de proteção superior a 90% em Portugal (8,09 mil milhões de danos totais
contra 664 milhões milhões de euros em perdas seguradas), significando que
apenas 8,2% dos estragos estavam protegidos por seguros.
Este défice de proteção está longe de ser um
exclusivo nacional, visto que naqueles 40 anos, apenas um quarto dos danos
climáticos registados na União Europeia estavam cobertos por seguros. Ainda de
acordo com a AEA, os desastres meteorológicos ou climáticos ceifaram 142 mil
vidas e deixaram um rasto de 510 mil milhões de euros de danos económicos na
Europa desde 1980.
Apesar de reconhecer que o grau de cobertura
está a aumentar, a AEA defende o reforço da proteção por seguros, tanto a nível
individual, como das entidades públicas para fazer face a fenómenos naturais
que tenderão a ser cada vez mais frequentes.
As vagas de calor ou de frio, secas ou
incêndios florestais são responsáveis por 93% do total de mortes e um quarto
dos prejuízos financeiros. As perdas humanas são muito menores nas inundações,
mas são justamente estes que causaram os maiores prejuízos (44% do total), à
frente das tempestades (34%).
Associação quer fundo para “mitigar” impacto
de grandes catástrofes
Porque o setor segurador sabe que vai ser
confrontado com um número crescente de participações de sinistros relacionados
com fenómenos naturais, está a tentar preparar-se para melhor antecipar e gerir
os riscos, nomeadamente sobre as inundações. A APS defende a criação de um
fundo para grandes catástrofes (Sistema de Proteção de Riscos Catastróficos)
“para mitigar as consequências de incidentes extremos que, previsivelmente,
virão a acontecer com cada vez mais frequência”, disse fonte oficial da Associação
Portuguesa de Seguradoras ao DN.
Por outro lado, revela, estão “nesta altura a
trabalhar, em conjunto com uma entidade externa especializada, na produção de
uma cartografia atualizada do risco de inundações em cenários de alterações
climáticas, uma ferramenta que ajudará o setor segurador a gerir este risco
ainda mais eficientemente, mas que pode vir a ajudar, também, outros agentes
envolvidos na sua prevenção e gestão, incluindo autoridades públicas”.
A preocupação com o aquecimento global é que
este tende a “provocar uma redução da precipitação média nas regiões do Sul da
Europa mas, simultaneamente, um agravamento de fenómenos extremos de
concentração de precipitação, incluindo trombas de água. E tende, ainda, a
determinar uma subida do nível do mar e de erosão das zonas costeiras”,
contextualiza a APS.
Questionada sobre o impacto que estes
fenómenos podem vir a ter no setor, a APS defende que tal depende não apenas do
clima, mas também da efetiva ação preventiva das entidades competentes e de
toda a sociedade.
“Para projetar os impactos destas tendências
climáticas nas condições dos seguros, é preciso introduzir, também, na equação,
o esforço de prevenção e mitigação que, normalmente, estas arrastam consigo.
Porque a avaliação do risco para as seguradoras não pondera apenas a exposição
natural aos fenómenos; envolve também essas medidas de prevenção e mitigação
que os agentes adotam, e que acabam por influenciar, substancialmente, o custo
do risco”.
E, nesta matéria, a associação considera que
“há ainda muito espaço para progresso, sobretudo em relação aos incêndios em
meio florestal ou rural (porque em meio urbano a preocupação está esbatida) e,
nomeadamente, através de políticas públicas”.
Seguros agrícolas em baixo
No universo rural, a agricultura está
particularmente exposta aos humores do clima. Mas nem por isso a subscrição dos
seguros agrícolas tem aumentado substancialmente. O volume total de prémios
representou pouco mais de 30 milhões de euros em 2023, o que, segundo a APS,
“espelha bem a escassa penetração deste seguro na atividade agrícola nacional;
e a sua evolução foi bastante moderada nos últimos 5 anos, o que reflete também
a dificuldade de o fazer desenvolver nas atuais condições”.
Em Portugal, os seguros agrícolas estão quase
totalmente enquadrados no Sistema de Seguros Agrícolas (SSA), um sistema de
apoios públicos aos produtores, que condiciona substancialmente a configuração
desta oferta seguradora.
A seca é o maior risco para a agricultura,
“mas não faz parte do leque de coberturas previsto nos contratos abrangidos
pelo SSA”. Já o mesmo não se poderá dizer de “outros que tenderão também a
aumentar, como os de incêndio, tromba de água ou tornado, estes já tipicamente
cobertos nas apólices”.
A APS defende que, fruto das mudanças em
curso, aquele sistema deve redefinir as zonas tarifárias e os níveis dos apoios
e considera que tem outros desafios de natureza económica e operacional para
superar.
dnot@dn.pt

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