O
novo presidente do CCB tem “outra estratégia” para o eixo
Belém-Ajuda
LUCINDA CANELAS e
SÉRGIO C. ANDRADE 01/03/2016 - PÚBLICO
Elísio
Summavielle diz que vai aproveitar parte do trabalho feito pelo seu
antecessor, mas rejeita “em absoluto” o modelo de António Lamas
para a área. Programar o CCB, diz, será “estimulante”.
O convite para
assumir a presidência do Centro Cultural de Belém (CCB) partiu do
ministro da Cultura e foi “inesperado”, reconhece Elísio
Summavielle, mas as hesitações iniciais acabaram por ser vencidas
pelo “desafio” que representa e pela “relação de amizade e de
confiança” que o liga a João Soares, explica.
“É uma enorme
responsabilidade estar à frente de uma instituição com as ambições
do CCB na cidade e no país, mas também é muito estimulante poder
influenciar a sua programação”, disse esta terça-feira ao
PÚBLICO, lembrando que o cargo que deverá assumir em breve o faz
regressar a um “tempo feliz”, o da Lisboa-94 Capital Europeia da
Cultura, período em que, tal como agora, era um dos colaboradores
próximos do actual ministro da Cultura. “As pessoas julgam que sou
só um homem das pedras, porque foi o património que marcou a minha
carreira nas últimas décadas, mas eu já fiz muita programação
cultural para os equipamentos da Câmara de Lisboa quando trabalhava
para a vereação da Cultura, sigo a música e as artes plásticas
com especial interesse e até vou ao teatro”, ironiza Summavielle.
Este técnico
requisitado à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), órgão
que já liderou, para adjunto de João Soares (cargo que deixa para
assumir o CCB), antecipa, assim, as críticas dos agentes do sector,
que têm visto com preocupação uma progressiva perda de relevância
do CCB na oferta cultural. Uma preocupação muitas vezes atribuída
ao facto de na sua presidência ter estado sentado António Lamas, um
professor catedrático de Engenharia com uma carreira reconhecida na
área do património, que acusavam de estar mais interessado no plano
que criara para o eixo Belém-Ajuda do que no cartaz da casa.
“É visível a
perda de importância da programação do CCB nos últimos anos, mas
isso decorre de circunstâncias várias do país, não pode ser
atribuído ao professor António Lamas, por quem aliás tenho a maior
estima pessoal”, argumenta o agora presidente.
Foi na segunda-feira
à noite que João Soares chamou ao seu gabinete António Lamas,
presidente do CCB desde Outubro de 2014, para lhe entregar uma cópia
do despacho da sua exoneração. Uma exoneração que já se fazia
anunciar desde 20 de Fevereiro, quando o ministro disse ao semanário
Expresso que esperava receber das mãos deste gestor público de 69
anos, que assumiu o cargo a convite do Governo de Passos Coelho, um
pedido de demissão.
Em causa estava,
haveria de detalhar nos dias seguintes o ministro, o facto de o plano
de Lamas para o eixo Belém-Ajuda – uma encomenda do anterior
executivo para que criasse uma estratégia para a gestão articulada
dos 30 equipamentos e sítios de interesse turístico e cultural da
zona –ter sido abandonado pelo Governo e a “gestão imprudente”
que promovera à frente do CCB, gastando dinheiro das reservas para
fazer avançar um projecto que haveria de cair. O ministro fala em
despesas da ordem dos seis milhões de euros, Lamas diz que são 220
mil.
O PÚBLICO tentou
apurar junto do gabinete do ministro os fundamentos que justificam a
exoneração, mas sem sucesso. Também António Lamas esteve
incontactável.
Summavielle não
comenta a forma como o anterior presidente foi destituído do seu
cargo, nem as críticas dos que associam a sua nomeação para o CCB
às suas filiações socialistas e maçónicas. Está habituado a que
se evoque a sua ligação à maçonaria para “explicar tudo” e
lembra que foi assim quando um governo PSD-CDS o convidou para
dirigir a DGPC, o maior organismo da Cultura. “Até disseram que o
Francisco José Viegas [o então secretário de Estado], que me
convidou, era maçon. Sou amigo do Francisco há décadas e nunca lhe
conheci outro avental que não fosse o da cozinha.”
Elísio Summavielle,
59 anos, um técnico superior formado em História, passou por
diversos organismos públicos ligados ao património desde a década
de 1980, ocupando várias vezes cargos de direcção. Cruzou-se
profissionalmente com João Soares pela primeira vez em 1990, quando
o ministro era vereador da Cultura em Lisboa.
Centralização
pesada
Destituir António
Lamas parece porém não se traduzir num abandono da ideia de criar
um plano capaz de revitalizar o eixo Belém-Ajuda. Um plano que
deverá continuar a ter na figura do presidente do CCB um pivô
importante. “Tenho um mapa na cabeça para Belém, mas falta
construir o trilho, é preciso trabalhar nele”, diz Summavielle,
referindo-se ao esforço que todas as entidades envolvidas na área
terão de fazer para se harmonizarem de forma a criar aquilo a que
chama a “marca Belém”. “Fui das primeiras pessoas a defender
uma maior articulação das instituições daquela zona quando ainda
era secretário de Estado e continuo a defendê-la. Acho que Belém
tem todas as condições para ser uma marca forte na cidade e no
país, mas para isso não precisa de uma centralização pesada.”
Para Elísio
Summavielle uma “centralização pesada” era precisamente o que
sugeriam Lamas e a sua equipa no Plano Estratégico Cultural da Área
de Belém que, embora não estivesse fechado, “caminhava para uma
anexação dos vários equipamentos culturais” que hoje pertencem à
Cultura, à Defesa ou à autarquia. “Discordo em absoluto do modelo
de António Lamas”, diz, defendendo que tudo o que importa fazer em
Belém para potenciar a área em termos culturais e turísticos pode
ser feito “com uma coordenação muito mais leve, sem que ninguém
perca a sua autonomia, sem a proposta de governança que o plano
representava”.
Rejeitar o modelo,
no entanto, não significa pôr na gaveta todo o trabalho que foi
feito pela estrutura de missão que o concebeu, e que o Governo de
António Costa decidiu extinguir por temer que pudesse vir a
“comprometer a missão e o papel” do CCB “no quadro da sua
intervenção prioritária” – a do apoio à criação artística
contemporânea e à sua divulgação –, segundo a resolução do
Conselho de Ministros publicada em Diário da República a 24 de
Fevereiro.
Summavielle quer
promover uma articulação entre as três dezenas de monumentos,
museus, jardins e palácios públicos e privados do eixo Belém-Ajuda
e para isso vai recorrer ao trabalho de campo já realizado. “Os
levantamentos feitos, a documentação reunida, a informação, vão
ser aproveitados, claro. É um trabalho válido e pago com o dinheiro
dos contribuintes”, diz, acrescentando: “Rejeitar o modelo porque
se tem outra estratégia não implica deitar tudo fora.”
A área geográfica
que pretende abranger com a “outra estratégia” – a que o
Governo vai agora preconizar tendo um novo presidente no CCB – é a
mesma do plano de Lamas, chegando até ao Museu de Arte Antiga,
explica Summavielle, salientando o “papel fundamental” que caberá
à Câmara Municipal de Lisboa (CML) na revalorização do eixo.
O não envolvimento
da autarquia na fase de concepção do anterior plano foi uma das
razões invocadas em DR pelo Governo para extinguir a estrutura de
missão chefiada pelo então presidente do CCB, algo que António
Lamas viria a refutar numa entrevista ao PÚBLICO a 24 de Fevereiro,
revelando de forma peremptória, mas sem referir nomes, que ele e a
sua equipa tinham reunido diversas vezes com vários vereadores e
técnicos da autarquia durante o processo de concepção da proposta
estratégica para Belém. E acrescentando que lamentava que ainda
ninguém tivesse vindo contestar a proposta “na sua substância”.
Um pólo de
referência
Os gastos com um
projecto que acabou por cair, e os eventuais danos que terão causado
na casa, não são a principal preocupação de Summavielle face ao
CCB. Inverter a perda de importância na cena artística e a redução
de públicos é muito mais determinante, argumenta. “As prioridades
não as defini ainda porque não conheço as coisas por dentro.
Quanto ao dinheiro é preciso trabalhar com o que temos. O mais
importante agora é fazer uma avaliação correcta do que existe para
que se possa pensar como potenciar este monumento nacional que foi
construído para a cultura com a ambição de ser um pólo de
referência para o país.”
Avaliar a
instituição passa por avaliar a equipa, explica, e é por isso que
deixará para mais tarde a decisão sobre a eventual contratação de
um director de programação. Também não determinou ainda se vai ou
não fazer substituições no conselho de administração, que hoje é
composto por Daniel Vaz Silva, um engenheiro convidado por Lamas, e
Miguel Leal Coelho, vogal neste órgão desde 2010, mas que assegura
a direcção do Centro de Espectáculos do CCB desde 1993.
Quanto à
permanência da Colecção Berardo na instituição, assegurada por
um contrato de comodato (empréstimo) celebrado em 2006 entre o
coleccionador e o Estado e vigente até ao final deste ano,
Summavielle diz que precisa de estudar atentamente o dossier e que
tem “excelentes relações pessoais” com o empresário, mas
lembra que qualquer alteração será decidida a nível do Governo.
Tal como seu
antecessor, Summavielle gostaria de ver o CCB concluído, com a
construção dos dois módulos que faltam, mas garante que não vai
fazer disso um cavalo de batalha. Vai sim inteirar-se das contas para
poder pensar em medidas que possam promover a sua sustentabilidade.
“É sempre bom ter mais receita”, diz, defendendo que esse
crescimento pode passar por cativar os privados e por um aumento de
públicos, que quer cada vez mais jovens e diversificados.
Arrogância e
prepotência
As reacções à
exoneração de António Lamas e à nomeação de Summavielle não se
fizeram esperar, tanto nas bancadas da oposição, como nas dos
partidos que viabilizaram o programa de governo.
O PSD contesta a
exoneração, em primeiro lugar, pelo modo como ela foi decidida e
“anunciada pela comunicação social”, diz Sérgio Azevedo,
deputado e responsável para a área da Cultura do grupo parlamentar
social-democrata.
“O ministro da
Cultura agiu de forma prepotente e arrogante”, acrescenta o
deputado, estabelecendo um paralelismo entre as mexidas no CCB e
aquelas que o Governo fez noutras instituições públicas, citando
os casos dos institutos de Segurança Social e do Emprego. “Parecem
os novos donos disto tudo”, acusa Sérgio Azevedo.
Também o CDS, em
declarações do deputado Hélder Amaral à Lusa, considerou “pouco
correctos, do ponto de vista institucional” os termos do
afastamento de Lamas.
Críticas que a
deputada pelo PS e antiga ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas,
acha “estranhas e despropositadas por parte de um Governo [PSD-CDS]
que foi campeão na capturação do Estado”, exemplificando com o
caso da CRESAP, “que foi transformado num órgão de sancionamento
das nomeações políticas”.
Canavilhas considera
ainda absolutamente justificada a substituição de António Lamas, a
partir do momento em que a estratégia que o ex-responsável gizou
para o eixo Belém-Ajuda foi já rejeitada pelo Governo. “Se a sua
política foi rejeitada, a sua permanência no CCB deixa de fazer
sentido”, diz a deputada.
Mas o PSD lembra que
o mandato de Lamas “não se esgotava neste projecto particular para
o eixo Belém-Ajuda”, nota Sérgio Azevedo, realçando que ele foi
apenas “o pretexto” para a substituição por “pessoas da
confiança” do novo governante. O deputado do PSD avança ainda que
o seu partido admite chamar João Soares de novo ao Parlamento para
explicar a política que tem para esta área.
Quem também
criticou a forma de nomeação de Summavielle para o CCB foi o Bloco
de Esquerda, que, pela voz do deputado José Soeiro, em declarações
à Lusa, lamentou que não tenha sido realizado um concurso
internacional: “Aos equipamentos culturais devem ser associados
planos estratégicos e realizados concursos públicos para os cargos
de direcção."
Uma posição que
Gabriela Canavilhas considera desajustada, já que “os órgãos de
gestão de uma fundação têm de cumprir os estatutos, que prevêem
a indigitação segundo os requisitos da tutela”. Não se trata
aqui de um cargo de direcção artística, como, exemplifica, a
Fundação de Serralves, onde a presente responsável pelo museu, a
australiana Suzanne Cotter, foi escolhida por concurso.
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