OPINIÃO
Euros caídos do Céu
É tão estranho vivermos num país onde a principal
preocupação é a de gastar dinheiro, mas nunca ou quase nunca de fazer dinheiro,
criar negócios, desenvolver actividades e, numa só palavra, criar riqueza!
António Barreto
3 de Setembro de
2022, 6:18
Basta ler
jornais, ouvir rádio e ver televisão. O PRR está aí para gastar. Apesar da
guerra na Ucrânia, da persistente pandemia, do rescaldo dos fogos florestais e
da balburdia inédita do SNS, mau grado estas e outras grandes dificuldades, um
sinal está já visível no firmamento: euros para distribuir. Benefícios a
administrar. Subsídios a espalhar. Não obstante a inflação, talvez até por isso
mesmo, toda a gente se prepara para gastar. O que não é mau, nem defeito. Só
que… para gastar, é preciso criar riqueza!
É um dos grandes
mitos da história e da política nacionais: os portugueses são incapazes de
criar riqueza! Trabalham (e muito) com o dinheiro dos outros, mas os lucros
vão-se. Trabalham (ainda mais) no estrangeiro ou sob as ordens dos outros, mas
os rendimentos desaparecem. Trabalham (com gosto) graças aos dinheiros que os
outros (a União Europeia) nos enviam, mas gastam muito e investem pouco. Se,
finalmente, há momentos de prosperidade, é sempre graças ao estrangeiro. Foram
os recursos e as matérias-primas de África, da Ásia e da América Latina. Ou os
empréstimos ingleses e franceses. Ou ainda os investimentos alemães, ingleses e
americanos. Foi a emigração para o Brasil, a América do Norte e agora a Europa.
Assim como tivemos a Europa em todas as suas versões: a EFTA (Associação
Europeia de Livre Comércio), a CEE (Comunidade Económica Europeia), agora a UE
(União Europeia). São, finalmente, oligarcas chineses, russos e angolanos.
Verdade é que os rendimentos e as riquezas que vêm do estrangeiro ficam nas
mãos de poucos ou ao estrangeiro regressam.
Os mitos não
ficam por aqui. As grandes empresas portuguesas (indústria, bancos e serviços)
são estrangeiras na origem ou à chegada. A maior parte das grandes empresas e
dos grandes serviços privatizados e reprivatizados, depois da revolução de
Abril, ficou nas mãos de estrangeiros, tendo as empresas sido desvalorizadas e
descapitalizadas. Estas empresas são submetidas aos interesses das
multinacionais. Os estrangeiros só investem em Portugal em condições leoninas,
exigem benefícios excepcionais, condições especiais e facilidades fora do
normal.
Mas há mais. Os
grandes empresários portugueses são podres de ricos, têm o dinheiro lá fora,
pagam poucos impostos, são iletrados e egoístas, situam-se sempre à direita e
sobretudo dependentes do Estado e dos favores políticos. Os trabalhadores portugueses
são analfabetos e mandriões, só mandados à força e dirigidos por estrangeiros,
têm inveja dos ricos e não defendem as suas empresas. As classes médias, as
mais prejudicadas de todas, são miseráveis, detestam os ricos e os pobres, não
sabem poupar, querem fugir para o estrangeiro. Todos eles, empresários,
trabalhadores e classes médias, só pensam em si, não têm consciência do bem
comum e acham sempre que tudo o que é estrangeiro, vive no estrangeiro ou vem
do estrangeiro é sempre melhor.
Finalmente, o
Estado cobra impostos a mais, gasta tudo consigo próprio e com os seus
funcionários, que aliás são mal pagos. É incapaz de bem gerir e bem
administrar. É vítima permanente da corrupção, está nas mãos dos interesses,
das corporações, dos sindicatos e das empresas privadas. Não é capaz de bem
administrar a saúde, a educação, a segurança social e a justiça, sectores onde
reina a desigualdade social e nos quais o Estado português gasta mais do que a
maior parte dos Estados europeus. Mas é nesses mesmos sectores, onde se revela
um permanente caos, que os mais desfavorecidos são sistematicamente preteridos.
Portugal nunca
soube criar riqueza de modo durável e estável. Nunca investiu com o sentido do
tempo e das gerações futuras. Os Portugueses quiseram sempre ganhar depressa,
muito e rapidamente, explorando e roubando se fosse necessário, desde que fosse
no estrangeiro e fácil. Especiarias, escravos, açúcar, ouro, pedras preciosas,
café, diamantes, petróleo e outras matérias-primas fizeram riquezas fáceis e
rápidas, mas frágeis e inconstantes.
Muito do que
precede é mentira. Ou enganador. E muito é verdade. Ou factual. Mas o problema
é real: há incapacidade para criar riqueza em Portugal. Pelo menos em proporção
do que se gasta, do que se necessita ou do que se espera. A legislação de
atracção de investimentos estrangeiros é tosca, insuficiente, parola e venal. A
actuação dos governantes e dos empresários junto dos meios financeiros mundiais
dedicados ao investimento é medíocre e pedinte. As condições legais e fiscais
de desenvolvimento de uma actividade lucrativa em Portugal são difíceis, pouco
atraentes e até repelentes. Os parceiros portugueses para grandes empresas e
grandes investimentos estrangeiros são pouco experientes, muitas vezes tacanhos
e quase sempre débeis. O Estado português, que cresce pouco, mas engorda muito,
não tem agilidade para atrair investimento, ser flexível, garantir estabilidade
e segurança. O Estado refugia-se no que sabe fazer, a burocracia, a corrupção e
o favoritismo.
O PRR, Programa
de Recuperação e Resiliência (designação europeia estúpida e saloia), é sinal
exacto de que vêm aí Euros. Como se sabe e viu, não é a primeira vez que tal
acontece. O governo faz propaganda todos os dias e anuncia medidas que são um
verdadeiro bodo aos pobres. A oposição de centro e direita tenta antecipar-se e
já propôs gastar, ainda mais do que o governo pretende, com a saúde, a
educação, a segurança social, os idosos, os pobres, os sem abrigo, os
imigrantes, os grupos do rendimento mínimo, os desempregados… A esquerda quer
gastar ainda mais, evidentemente, liquidando, de passagem e preferência, a
economia privada. Todos, aliás, governo, direita e esquerda, exigem uma acção
imediata para contrariar a inflação, minimizar os efeitos dos aumentos do custo
de vida e apoiar os aumentos das rendas de casa. Mas poucos, muito poucos,
propõem ou exigem que se crie riqueza.
A pergunta é
simples: quem vai pagar? Aonde há recursos financeiros para distribuir, para
pagar as benesses e os benefícios, para sustentar aumentos de salários,
subsídios e pensões, assim como para custear o aumento das despesas com a
saúde, a educação e a segurança social? É tão estranho vivermos num país onde a
principal preocupação é a de gastar dinheiro, mas nunca ou quase nunca de fazer
dinheiro, criar negócios, desenvolver actividades e, numa só palavra, criar
riqueza!
Uma coisa
sabemos: gastar sem criar pagar-se-á muito caro dentro de pouco tempo.


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