António Costa o "OPTIMISTA IRRITANTE"
OVOODOCORVO
“Sobre a eventual necessidade de importar este discurso
para Portugal, a economista Susana Peralta considera que “faz todo o sentido”.
“O discurso [de Macron] é importante, é importante ajustar as expectativas. É
importante que as pessoas percebam que o Inverno que se avizinha vai ser de
dificuldades”, sustenta a professora na Nova SBE.
A docente lamenta que se tarde em replicar este tipo de
mensagem em Portugal, onde “esse discurso não está presente”, até pela
necessidade premente de promover condições para famílias e empresas fazerem
planeamento.
“Em Portugal faz falta não só uma pedagogia como também
uma capacidade de planeamento, que aparentemente não tem havido. Ou seja, tem
havido medidas pontuais, por exemplo de alívio das contas das famílias mais
carenciadas, que me parecem insuficientes, mas além disso vai ser preciso
planos de poupança para limitar o consumo”, afirma Susana Peralta.”
Costa tem de alertar para “fim da abundância”, mas “sem
ser catastrofista”
Macron lançou o debate ao falar do “fim da abundância”.
Costa deve segui-lo? A economista Susana Peralta defende que é preciso preparar
as pessoas para o que aí vem, enquanto o secretário de Estado Tiago Antunes
admite que apesar dos “efeitos” sentidos em Portugal, o país “está protegido
dos efeitos mais nocivos” da guerra e da crise energética.
David Santiago
3 de Setembro de
2022, 22:55
Outrora visto
como “grande optimista”, o Presidente francês Emmanuel Macron surpreendeu ao
proclamar em tom de aviso aos seus concidadãos, franceses e de caminho também
europeus, o “fim da abundância”, realidade inevitável num contexto de guerra na
Europa e de alterações climáticas. Este é um discurso demasiado pessimista ou
tão somente realista? E com o Inverno já no horizonte, deveria o
primeiro-ministro português, apelidado em Belém de “optimista irritante”,
assumir o mesmo pendor realista/pessimista?
Para o embaixador
Pedro Lourtie, Representante Permanente de Portugal junto da União Europeia
(REPER), “este discurso tem um certo realismo e acaba por reconhecer algo
evidente: o nosso mundo em termos de geoeconomia e de geopolítica mudou”. “Uma
das ideias subjacente ao discurso do Presidente Macron é que estamos a viver
uma crise energética e que essa crise não vai passar a breve prazo”, analisa o
diplomata.
Por seu turno, o
secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Tiago Antunes, interpreta as
declarações de Macron como um “alerta para uma realidade que mudou e vai ter o
seu impacto”. “É um alerta porque os cidadãos vão sentir os efeitos desta
guerra”, reforça o governante, defendendo, porém, que “devemos ser realistas
sem ser catastrofistas. Não vale a pena entrar numa espiral catastrofista”.
Já a economista
Susana Peralta afasta qualquer tipo de leitura que veja catastrofismo no
discurso do chefe de Estado gaulês.
A professora de
Economia na Nova SBE vinca que, ainda que difícil, a actual conjuntura “vai ser
sempre uma situação temporária” e recorre à “imaginação humana”, que permitiu,
em tempo recorde, encontrar vacinas para “nos tirar da pandemia”, para defender
que “os avanços tecnológicos e a própria transição energética fazem com que
este discurso do fim da abundância não deva ser visto como uma catástrofe”.
Considerando que,
não obstante as dificuldades, a UE deve priorizar trabalhar para “aumentar o
bem-estar das pessoas”, Pedro Lourtie sublinha que a mensagem de Macron
sinaliza que “os recursos com que o vai fazer são limitados, estão a ser
transformados e têm condicionantes, desde logo climáticas, mas também
geopolíticas”. “Julgo que é mais essa a mensagem”, frisa.
Não vale a pena entrar numa espiral catastrofista
Tiago Antunes
Sobre a eventual
necessidade de importar este discurso para Portugal, a economista Susana
Peralta considera que “faz todo o sentido”. “O discurso [de Macron] é
importante, é importante ajustar as expectativas. É importante que as pessoas
percebam que o Inverno que se avizinha vai ser de dificuldades”, sustenta a
professora na Nova SBE.
A docente lamenta
que se tarde em replicar este tipo de mensagem em Portugal, onde “esse discurso
não está presente”, até pela necessidade premente de promover condições para
famílias e empresas fazerem planeamento.
“Em Portugal faz
falta não só uma pedagogia como também uma capacidade de planeamento, que
aparentemente não tem havido. Ou seja, tem havido medidas pontuais, por exemplo
de alívio das contas das famílias mais carenciadas, que me parecem
insuficientes, mas além disso vai ser preciso planos de poupança para limitar o
consumo”, afirma Susana Peralta.
A economista crê,
aliás, que a estabilidade política conferida pela maioria absoluta conquistada
pelo PS nas legislativas de Janeiro atribui a António Costa as condições necessárias.
“Temos um Governo de maioria absoluta que tem que servir para isso também. O
Governo tem um capital político e uma longevidade que agora o obriga a fazer o
que é necessário fazer. Não tem um horizonte de curto prazo”, argumenta.
Partindo do princípio
de que neste contexto “não se pode ter considerações eleitorais”, Susana
Peralta sustenta que “a oposição tem que estar no mesmo diapasão porque esta é
uma questão verdadeiramente essencial”, embora salvaguarde que os partidos “não
devem demitir-se de fazer oposição”. A docente considera que o presidente do
PSD deu já indicações positivas: “Luís Montenegro pelo menos já pôs a tónica na
crise.”
Preferindo não
responder directamente acerca da eventual necessidade de também o Governo
português seguir a linha ensaiada por Macron, Tiago Antunes concede que “é
natural que o discurso político se vá ajustando às diferentes realidades de
cada momento”.
“Gerir a
escassez”
Esse ajustamento
será feito com base “no limiar da tolerância”, um conceito que Miguel
Monjardino traz à reflexão. O professor de Geopolítica na Universidade Católica
explica que “toda a estratégia russa será tentar minar a coesão social das
sociedades europeias através da manipulação da crise energética, inflação e
consequências sociais”, isto é, “fazer as sociedades ultrapassar o limiar da
tolerância”.
Partindo do
“ponto de vista da decisão política”, Monjardino vê nos discursos de Macron e
Olaf Scholz – o chanceler alemão também alertou, depois do presidente francês,
para as dificuldades que aí vêm, enquadrando mesmo o que pode ser uma “Europa
geopolítica” – “uma consciência muito aguda daquilo que é o limiar da
tolerância de solidariedade em relação à Ucrânia”.
Dadas as actuais
dificuldades, Miguel Monjardino afirma que “os governos terão de ser capazes de
governar muito melhor, não só na gestão de expectativas, mas na execução e
demonstração de que conseguem resolver os problemas das pessoas”. Mas esta não
é uma questão que obriga apenas a mudanças na forma de governar, exige também
uma introspecção de todos os cidadãos sobre os sacrifícios a que estão
dispostos.
“Há um problema
de comunicação por parte dos governos, mas também das sociedades, que terão de
pensar nos seus valores, interesses e no preço que estamos dispostos a pagar
para viver na Europa de acordo com as nossas convicções políticas. Do ponto de
vista europeu, estamos a defender a ordem regional europeia que mais nos
interessa e isso, obviamente, tem um preço”, anota, rematando com uma conclusão
tão dura quão realista: “A Ucrânia paga um preço em sangue; nós pagaremos em
termos económicos e financeiros.”
Pedro Lourtie
corrobora: “Estamos numa conjuntura e estrutura em termos climáticos que nos
obriga a pensar muito bem nos recursos que consumimos, nomeadamente nos
recursos energéticos, e isso tem consequências.”
Na mesma linha,
Susana Peralta sintetiza dizendo que “o que temos de fazer é gerir a escassez”.
Para tal, defende que é preciso actuar do lado da procura para fazer descer os
preços. “Ao diminuir a procura consegue-se limitar o mecanismo de aumento do
preço. É melhor cortarmos agora em consumos menos essenciais do que sermos
obrigados a racionar no gás para aquecer as casas nas regiões mais frias da
Europa, o que inclui uma parte de Portugal”, declara, lamentando que a UE não
tenha começado a preparar as respostas necessárias logo em Março.
A Ucrânia paga um preço em sangue; nós pagaremos em
termos económicos e financeiros
Miguel Monjardino
Assim sendo, os
discursos sobre o fim da abundância “fazem todo o sentido” para a economista,
“até porque este garrote, nomeadamente o energético, vai-se manifestar muito
mais quando vier o Inverno”.
Impulso à zona
euro
Susana Peralta
não vislumbra sequer grandes riscos de a adopção de mensagens mais pessimistas
poder acrescentar recessão à recessão que se antecipa na Europa. “Este problema
que temos de inflação é causado pelo sobreaquecimento do consumo e por um
garrote na oferta.”
Apesar de
Portugal, “felizmente, estar protegido, por circunstâncias várias, dos efeitos
mais nocivos” da crise inflacionista, ainda que “obviamente sinta alguns desses
efeitos”, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus deposita esperanças na
UE para responder ao “garrote” enunciado pela economista.
“É preciso
respostas adequadas e elas estão em marcha. Estou certo que isso acontecerá,
mas não estou com isto a dizer que esta guerra é uma oportunidade. A UE vai
ser, e já está a ser, obrigada a reagir e isso vai em benefício do
aprofundamento do projecto europeu em várias áreas: plano energético, da defesa
mas também no plano económico. A deterioração da situação económica obriga-nos
a fazer uma reflexão que já estava agendada, mas que se torna mais relevante,
da reforma da governação económica da zona euro”, concretiza Tiago Antunes.
No discurso que
fez a 29 de Agosto na Universidade Charles de Praga, Olaf Scholz abordou
precisamente um dos temas tabu para Berlim ao abrir a porta à reforma das
regras de governação da moeda única.
Para responder à
actual conjuntura, o Governo anuncia, esta segunda-feira, um pacote de medidas
“que visa combater a inflação e apoiar as famílias a lidar com estes choques”,
explica Tiago Antunes. Falta saber se permitirão retirar pressão do “limiar da
tolerância” e se não desincentivam a necessária “gestão da escassez”.


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