domingo, 4 de setembro de 2022

Costa tem de alertar para “fim da abundância”, mas “sem ser catastrofista”

 

               António Costa o "OPTIMISTA IRRITANTE"

                                   OVOODOCORVO



“Sobre a eventual necessidade de importar este discurso para Portugal, a economista Susana Peralta considera que “faz todo o sentido”. “O discurso [de Macron] é importante, é importante ajustar as expectativas. É importante que as pessoas percebam que o Inverno que se avizinha vai ser de dificuldades”, sustenta a professora na Nova SBE.

 

A docente lamenta que se tarde em replicar este tipo de mensagem em Portugal, onde “esse discurso não está presente”, até pela necessidade premente de promover condições para famílias e empresas fazerem planeamento.

 

“Em Portugal faz falta não só uma pedagogia como também uma capacidade de planeamento, que aparentemente não tem havido. Ou seja, tem havido medidas pontuais, por exemplo de alívio das contas das famílias mais carenciadas, que me parecem insuficientes, mas além disso vai ser preciso planos de poupança para limitar o consumo”, afirma Susana Peralta.”

 

 GOVERNO

Costa tem de alertar para “fim da abundância”, mas “sem ser catastrofista”

 

Macron lançou o debate ao falar do “fim da abundância”. Costa deve segui-lo? A economista Susana Peralta defende que é preciso preparar as pessoas para o que aí vem, enquanto o secretário de Estado Tiago Antunes admite que apesar dos “efeitos” sentidos em Portugal, o país “está protegido dos efeitos mais nocivos” da guerra e da crise energética.

 

David Santiago

3 de Setembro de 2022, 22:55

https://www.publico.pt/2022/09/03/politica/noticia/costa-alertar-fim-abundancia-catastrofista-2019229

 

Outrora visto como “grande optimista”, o Presidente francês Emmanuel Macron surpreendeu ao proclamar em tom de aviso aos seus concidadãos, franceses e de caminho também europeus, o “fim da abundância”, realidade inevitável num contexto de guerra na Europa e de alterações climáticas. Este é um discurso demasiado pessimista ou tão somente realista? E com o Inverno já no horizonte, deveria o primeiro-ministro português, apelidado em Belém de “optimista irritante”, assumir o mesmo pendor realista/pessimista?

 

Para o embaixador Pedro Lourtie, Representante Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER), “este discurso tem um certo realismo e acaba por reconhecer algo evidente: o nosso mundo em termos de geoeconomia e de geopolítica mudou”. “Uma das ideias subjacente ao discurso do Presidente Macron é que estamos a viver uma crise energética e que essa crise não vai passar a breve prazo”, analisa o diplomata.

 

Por seu turno, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Tiago Antunes, interpreta as declarações de Macron como um “alerta para uma realidade que mudou e vai ter o seu impacto”. “É um alerta porque os cidadãos vão sentir os efeitos desta guerra”, reforça o governante, defendendo, porém, que “devemos ser realistas sem ser catastrofistas. Não vale a pena entrar numa espiral catastrofista”.

 

Já a economista Susana Peralta afasta qualquer tipo de leitura que veja catastrofismo no discurso do chefe de Estado gaulês.

 

A professora de Economia na Nova SBE vinca que, ainda que difícil, a actual conjuntura “vai ser sempre uma situação temporária” e recorre à “imaginação humana”, que permitiu, em tempo recorde, encontrar vacinas para “nos tirar da pandemia”, para defender que “os avanços tecnológicos e a própria transição energética fazem com que este discurso do fim da abundância não deva ser visto como uma catástrofe”.

 

Considerando que, não obstante as dificuldades, a UE deve priorizar trabalhar para “aumentar o bem-estar das pessoas”, Pedro Lourtie sublinha que a mensagem de Macron sinaliza que “os recursos com que o vai fazer são limitados, estão a ser transformados e têm condicionantes, desde logo climáticas, mas também geopolíticas”. “Julgo que é mais essa a mensagem”, frisa.

 

Não vale a pena entrar numa espiral catastrofista

Tiago Antunes

 

Sobre a eventual necessidade de importar este discurso para Portugal, a economista Susana Peralta considera que “faz todo o sentido”. “O discurso [de Macron] é importante, é importante ajustar as expectativas. É importante que as pessoas percebam que o Inverno que se avizinha vai ser de dificuldades”, sustenta a professora na Nova SBE.

 

A docente lamenta que se tarde em replicar este tipo de mensagem em Portugal, onde “esse discurso não está presente”, até pela necessidade premente de promover condições para famílias e empresas fazerem planeamento.

 

“Em Portugal faz falta não só uma pedagogia como também uma capacidade de planeamento, que aparentemente não tem havido. Ou seja, tem havido medidas pontuais, por exemplo de alívio das contas das famílias mais carenciadas, que me parecem insuficientes, mas além disso vai ser preciso planos de poupança para limitar o consumo”, afirma Susana Peralta.

 

A economista crê, aliás, que a estabilidade política conferida pela maioria absoluta conquistada pelo PS nas legislativas de Janeiro atribui a António Costa as condições necessárias. “Temos um Governo de maioria absoluta que tem que servir para isso também. O Governo tem um capital político e uma longevidade que agora o obriga a fazer o que é necessário fazer. Não tem um horizonte de curto prazo”, argumenta.

 

Partindo do princípio de que neste contexto “não se pode ter considerações eleitorais”, Susana Peralta sustenta que “a oposição tem que estar no mesmo diapasão porque esta é uma questão verdadeiramente essencial”, embora salvaguarde que os partidos “não devem demitir-se de fazer oposição”. A docente considera que o presidente do PSD deu já indicações positivas: “Luís Montenegro pelo menos já pôs a tónica na crise.”

 

Preferindo não responder directamente acerca da eventual necessidade de também o Governo português seguir a linha ensaiada por Macron, Tiago Antunes concede que “é natural que o discurso político se vá ajustando às diferentes realidades de cada momento”.

 

“Gerir a escassez”

Esse ajustamento será feito com base “no limiar da tolerância”, um conceito que Miguel Monjardino traz à reflexão. O professor de Geopolítica na Universidade Católica explica que “toda a estratégia russa será tentar minar a coesão social das sociedades europeias através da manipulação da crise energética, inflação e consequências sociais”, isto é, “fazer as sociedades ultrapassar o limiar da tolerância”.

 

Partindo do “ponto de vista da decisão política”, Monjardino vê nos discursos de Macron e Olaf Scholz – o chanceler alemão também alertou, depois do presidente francês, para as dificuldades que aí vêm, enquadrando mesmo o que pode ser uma “Europa geopolítica” – “uma consciência muito aguda daquilo que é o limiar da tolerância de solidariedade em relação à Ucrânia”.

 

Dadas as actuais dificuldades, Miguel Monjardino afirma que “os governos terão de ser capazes de governar muito melhor, não só na gestão de expectativas, mas na execução e demonstração de que conseguem resolver os problemas das pessoas”. Mas esta não é uma questão que obriga apenas a mudanças na forma de governar, exige também uma introspecção de todos os cidadãos sobre os sacrifícios a que estão dispostos.

 

“Há um problema de comunicação por parte dos governos, mas também das sociedades, que terão de pensar nos seus valores, interesses e no preço que estamos dispostos a pagar para viver na Europa de acordo com as nossas convicções políticas. Do ponto de vista europeu, estamos a defender a ordem regional europeia que mais nos interessa e isso, obviamente, tem um preço”, anota, rematando com uma conclusão tão dura quão realista: “A Ucrânia paga um preço em sangue; nós pagaremos em termos económicos e financeiros.”

 

Pedro Lourtie corrobora: “Estamos numa conjuntura e estrutura em termos climáticos que nos obriga a pensar muito bem nos recursos que consumimos, nomeadamente nos recursos energéticos, e isso tem consequências.”

 

Na mesma linha, Susana Peralta sintetiza dizendo que “o que temos de fazer é gerir a escassez”. Para tal, defende que é preciso actuar do lado da procura para fazer descer os preços. “Ao diminuir a procura consegue-se limitar o mecanismo de aumento do preço. É melhor cortarmos agora em consumos menos essenciais do que sermos obrigados a racionar no gás para aquecer as casas nas regiões mais frias da Europa, o que inclui uma parte de Portugal”, declara, lamentando que a UE não tenha começado a preparar as respostas necessárias logo em Março.

 

A Ucrânia paga um preço em sangue; nós pagaremos em termos económicos e financeiros

Miguel Monjardino

 

Assim sendo, os discursos sobre o fim da abundância “fazem todo o sentido” para a economista, “até porque este garrote, nomeadamente o energético, vai-se manifestar muito mais quando vier o Inverno”.

 

Impulso à zona euro

Susana Peralta não vislumbra sequer grandes riscos de a adopção de mensagens mais pessimistas poder acrescentar recessão à recessão que se antecipa na Europa. “Este problema que temos de inflação é causado pelo sobreaquecimento do consumo e por um garrote na oferta.”

 

Apesar de Portugal, “felizmente, estar protegido, por circunstâncias várias, dos efeitos mais nocivos” da crise inflacionista, ainda que “obviamente sinta alguns desses efeitos”, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus deposita esperanças na UE para responder ao “garrote” enunciado pela economista.

 

“É preciso respostas adequadas e elas estão em marcha. Estou certo que isso acontecerá, mas não estou com isto a dizer que esta guerra é uma oportunidade. A UE vai ser, e já está a ser, obrigada a reagir e isso vai em benefício do aprofundamento do projecto europeu em várias áreas: plano energético, da defesa mas também no plano económico. A deterioração da situação económica obriga-nos a fazer uma reflexão que já estava agendada, mas que se torna mais relevante, da reforma da governação económica da zona euro”, concretiza Tiago Antunes.

 

No discurso que fez a 29 de Agosto na Universidade Charles de Praga, Olaf Scholz abordou precisamente um dos temas tabu para Berlim ao abrir a porta à reforma das regras de governação da moeda única.

 

Para responder à actual conjuntura, o Governo anuncia, esta segunda-feira, um pacote de medidas “que visa combater a inflação e apoiar as famílias a lidar com estes choques”, explica Tiago Antunes. Falta saber se permitirão retirar pressão do “limiar da tolerância” e se não desincentivam a necessária “gestão da escassez”.

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