domingo, 1 de março de 2020

Vivemos bem com o pântano na Relação de Lisboa? / Presidente da Relação de Lisboa suspeito de irregularidades na distribuição de processos


Presidente da Relação de Lisboa suspeito de irregularidades na distribuição de processos
Resultados preliminares de auditoria aberta pelo Conselho Superior da Magistratura implicam actual presidente da Relação de Lisboa, Orlando Nascimento. Esta terça-feira órgão de gestão da magistratura reúne-se para tomar medidas.

Mariana Oliveira 1 de Março de 2020, 6:30

Uma investigação que foi aberta pelo Conselho Superior da Magistratura (CSM) há cerca de duas semanas, para apurar eventuais falhas na distribuição de processos aos diversos juízes do Tribunal da Relação de Lisboa, detectou irregularidades na atribuição de alguns casos a determinados magistrados. Os indícios de fraude implicam o actual presidente da Relação de Lisboa, Orlando Nascimento, que sucedeu ao ex-presidente daquele tribunal, Luís Vaz das Neves, constituído arguido na Operação Lex no último dia de Janeiro. O PÚBLICO tentou, sem sucesso, contactar Orlando Nascimento.

A auditoria foi ordenada quando ainda não era público que Vaz das Neves era arguido neste caso, centrado nas actividades ilícitas de dois juízes desembargadores, igualmente da Relação de Lisboa, Rui Rangel e Fátima Galante, que ainda é mulher do magistrado que foi candidato à presidência do Benfica apesar de estar separado deste há vários anos.

A primeira notícia sobre as suspeitas de que Vaz das Neves terá ajudado Rui Rangel na escolha de um juiz relator para decidir um recurso interposto pelo próprio Rangel contra o Correio da Manhã surgiram na TVI, na quinta-feira da semana passada. Em causa estava uma notícia sobre uma dívida do magistrado a uma clínica, em que o juiz era considerado “caloteiro”, o que levou Rangel a processar aquele jornal.

Nessa altura, o CSM já tinha conhecimento formal de que Vaz das Neves tinha sido constituído arguido no âmbito da Operação Lex há vários dias.  Tal, segundo o PÚBLICO apurou, aconteceu na sexta-feira, 31 de Janeiro, dia em que o ex-presidente da Relação de Lisboa foi ouvido pela procuradora Maria José Morgado e pelo colega Vítor Pinto, os actuais titulares do inquérito, numa sala do Supremo Tribunal de Justiça. Nessa altura, já Orlando Nascimento tinha sido igualmente ouvido pelos mesmos magistrados do Ministério Público, mas na qualidade de testemunha.

É que a distribuição viciada que terá sido acordada entre Rangel e Vaz das Neves teve como resultado a entrega do caso a Orlando Nascimento, actual presidente da Relação de Lisboa, que condenou o Correio da Manhã a pagar uma indemnização de 50 mil euros ao magistrado que foi candidato à presidência do Benfica. O dinheiro só acabou por não ser pago porque o jornal e os jornalistas visados recorreram para o Supremo Tribunal de Justiça que anulou a anterior decisão e absolveu todos, como antes o fizera o tribunal de primeira instância.

Além deste caso, a TVI revelava mensagens trocadas entre Rangel e Vaz das Neves que indiciavam a viciação de outra distribuição, desta vez relacionada com um recurso do antigo agente do futebol, José Veiga, que acabou absolvido pela Relação de Lisboa em Julho de 2013, num caso de fraude fiscal relacionado com a transferência de João Vieira Pinto para o Sporting. A absolvição de Veiga aconteceu depois do empresário ter sido condenado pelo tribunal de primeira instância.


O PÚBLICO sabe que apesar de só terem vindo a público estes dois casos, Vaz das Neves é suspeito de viciar a distribuição de um terceiro caso. O ex-presidente da Relação está indiciado por corrupção e abuso de poder por alegadamente ser cúmplice nos subornos arquitectados por Rangel.

A investigação que está a ser realizada pelo Conselho Superior da Magistratura está a ser conduzida por um juiz do Supremo Tribunal de Justiça que está a trabalhar com uma equipa de que faz parte um técnico do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça, que audita o sistema informático dos tribunais e esteve a olhar para os registos do módulo que faz a distribuição electrónica dos processos.

Uma análise semelhante foi feita no âmbito da Operação Lex tendo os indícios recolhidos apontado para que a viciação da distribuição tenha sido feita através do recurso a uma ferramenta do próprio sistema informático que permite ao responsável pela distribuição entregar um caso específico a um juiz específico. Tal acontece porque há casos em que a própria lei obriga a que seja um magistrado determinado a ficar com o caso. Por exemplo, quando a sentença foi alvo de recurso e o tribunal superior invalida a primeira decisão e manda o mesmo juiz proferir uma nova (ver texto ao lado).

O problema é que tanto Vaz das Neves como Orlando Nascimento usariam essa ferramenta de forma fraudulenta para viciar a distribuição, evitar o sorteio electrónico e entregar determinados casos a juízes que escolhiam previamente. Não foram, por isso, detectadas “vulnerabilidades estruturais ou intrusões de natureza informática” no sistema, como anunciou este sábado o Ministério da Justiça num comunicado. “As notícias apontam para o eventual uso abusivo de funcionalidades do sistema electrónico associadas às regras e parâmetros legais da distribuição”, afirma ainda a nota.

O CSM tem marcado para a próxima terça-feira um plenário e já informou, numa nota divulgada no seu site, que havia uma investigação em curso e que “os primeiros resultados dessas averiguações serão apresentados para apreciação ao próximo Plenário de dia 3 de Março”.

Face à detecção de irregularidades na distribuição de processos na Relação de Lisboa, o CSM decidiu alargar a investigação à forma como os processos são atribuídos a cada juiz a todas as Relações do país (Guimarães, Porto, Coimbra e Évora), o que já foi comunicado esta semana aos respectivos presidentes. Em análise estão os processos distribuídos nos últimos dois anos. O PÚBLICO falou com alguns dos visados que dizem aguardar tranquilamente os resultados, compreendendo a decisão do conselho que tem a responsabilidade de gerir e de aplicar penas disciplinares aos juízes que violem os seus deveres deontológicos.

Uma fonte ligada à Operação Lex garantiu que as irregularidades agora detectadas não vão ser investigadas naquele inquérito que deverá ser concluído até ao Verão, devendo dar origem a um novo processo-crime.  

tp.ocilbup@arieviloem

EDITORIAL
Vivemos bem com o pântano na Relação de Lisboa?

Não precisamos apenas de sindicâncias, nem de inquéritos, nem de processos para que se tomem medidas já

MANUEL CARVALHO
29 de Fevereiro de 2020, 19:33

Como a água que aquece lentamente, a Justiça portuguesa foi acumulando sinais de esclerose e de perdição que incomodavam muita gente mas não queimavam ninguém. As histórias de Fátima Galante, Rui Rangel e do anterior e actual presidentes da Relação de Lisboa atingiram o ponto de fervura que torna a situação insustentável. O país precisa de Justiça, hoje mais desesperadamente do que nunca, e a Justiça desfaz-se a si própria em negociatas, em remunerações ilegais e em sorteios que falseiam a sua exigida neutralidade e transparência. Não é caso para desacreditar nem lançar sobre todos os magistrados o labéu da venalidade e da indignidade para o exercício de funções de soberania. Mas basta a suspeita de que num corpo virtuoso pode haver uma infecção como a que o PÚBLICO tem revelado na Relação de Lisboa para que seja necessário mais do que os habituais paninhos quentes com que o país arrasta os problemas sem os resolver.

O caso é gravíssimo e justifica a indignação e o alarme que o eurodeputado Paulo Rangel deixou nas páginas deste jornal esta semana, ao dizer “Não, não e não! Toda a indignação é necessária: não podemos viver com esta suspeita. Diria mais, diria mesmo: em democracia não podemos sobreviver com ela”. Mas se no momento em que esse texto foi escrito as suspeitas se limitavam à manipulação do sorteio na distribuição dos processos, depois soubemos da utilização de um espaço do Tribunal da Relação para uma sessão de justiça privada e suspeitamos que entre o actual e o anterior presidente desse tribunal haja práticas graves que se repetem e conexões que legitimam o temor da concertação. É grave dizê-lo, mas não precisamos apenas de sindicâncias, nem de inquéritos, nem de processos para que se tomem medidas já. O juiz Orlando Nascimento não pode continuar no cargo.

Nada indica, porém, que a revelação pela imprensa de factos não contestados possa retirar a classe política ou as próprias instâncias da magistratura do torpor habitual da água tépida. Com a digna excepção do Sindicato dos Juízes, a manipulação de sorteios ou o uso de lugares públicos para obter receitas privadas parece ter entrado na longa lista de episódios da normalidade perversa a que nos habituámos. Não ouvir o Governo ou mais juízes prestigiados a dizer basta e a exigir responsabilidades há-de ficar bem no formalismo da presunção da inocência ou dos respeitinhos burocráticos que higienizam acções deploráveis. É exactamente entre esses silêncios que germina a revolta dos cidadãos contra os poderes democráticos e fermenta a extrema-direita que até já sonha com Belém.

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