OPINIÃO
Lagarde e os gritos de Ulisses
Dará jeito a todos, do Governo à oposição, passando pelo
Presidente, culpar a infame Lagarde por todos os males do mundo. Mas não foi a
governadora do BCE que decidiu amarrá-los aos seus mastros.
Pedro Norton
4 de Julho de
2023, 6:37
https://www.publico.pt/2023/07/04/opiniao/opiniao/lagarde-gritos-ulisses-2055517
Conta-nos o
glorioso Ulisses, na magnífica tradução da Odisseia de Frederico Lourenço que
se deixa ler com mitológico deleite, que, antes de passar ao largo da ilha das
sereias, ordenou aos seus homens que colocassem nos ouvidos “cera doce, para
que nenhum deles as oiça”. E, um pouco mais à frente ou uns versos mais atrás,
para o caso pouco interessa, conta-nos mais ainda. Conta-nos que, consciente
das suas tentações e fraquezas, sabedor de que nem ele próprio conseguiria
resistir ao mítico canto das criaturas “que todos os homens enfeitiçam”, se fez
amarrar ao mastro do seu navio, deixando indicações expressas aos companheiros
para que o “[amarrassem] com mais cordas ainda” caso viesse, como sabia que
viria, a ordenar-lhes que o libertassem. Só assim – disso tem a certeza porque
lho garantiu a própria Circe – escapariam, uns e outros, ao destino de acabar
como meras “ossadas de homens decompostos” com suas “peles marcescentes”.
Se vos disser,
logo eu que arrisco nadar para fora de pé sempre que me lanço ao mar revolto da
macroeconomia, que tudo isto tem que ver com política monetária e com as declarações
e decisões de Lagarde, é muito provável que me tomem por louco. Talvez o seja,
mas não necessariamente por estas razões. Dêem-me, por minutos, o benefício da
dúvida e ajuízem depois.
Julgo que, da
esquerda à direita, será consensual a ideia de que a inflação é um fenómeno
muitíssimo penalizador para os cidadãos e para a economia. Na sua versão mais
moderada, tem o potencial para fazer degradar lentamente os rendimentos reais
com a agravante de atingir com particular severidade os portugueses mais vulneráveis.
É isso, aliás, que andam a dizer-nos há mais de um ano – e com inteira
propriedade – quase todos os agentes políticos. É por isso que o Governo (e, no
essencial, bem, mais uma vez) se tem desdobrado em esforços para mitigar os
seus efeitos junto das camadas mais desfavorecidas da população.
Na sua versão
mais aguda e descontrolada (cenário de que, por ora, estamos muito distantes),
a hiperinflação pode mesmo destruir por completo o funcionamento de uma
economia e fazer perigar as fundações de uma sociedade política. Basta
regressar aos anos 20 e à república de Weimar, antecâmara de todos os horrores
da II Guerra Mundial, para perceber a seriedade da coisa.
Sucede que, se
todos convergem na necessidade de fazer um combate à inflação, os agentes políticos,
tal como Ulisses, são os primeiros a ter consciência de que podem ser tentados
a não o travar. Por um lado, sabem que, se tivessem controlo direto sobre a
política monetária, poderiam não resistir a usá-la para criar a ilusão de
distribuir benesses a curto prazo remetendo para mais tarde, possivelmente para
ser justificada por outrem, uma conta que apareceria aos cidadãos, precisamente
sob a forma de inflação. Por outro lado, e ainda que não o confessem, sabem bem
que, uma vez instalada, a inflação tem de ser combatida com instrumentos que
causam muita dor e sofrimento no curto prazo. Entre estes, o mais consensual é
a subida das taxas de juro. Ora, serão muito poucos os agentes políticos,
sujeitos que estão a exames todos os quatro ou cinco anos, dispostos a infligir
dores muito palpáveis no imediato para poupar os cidadãos a uma degradação mais
grave e severa, mas mais lenta e silenciosa, das suas vidas no longo prazo.
E é porque sabem
tudo isto que, sensatamente, os agentes políticos de boa parte das sociedades
mais avançadas decidiram fazer amarrar-se, de pés e mãos, aos mastros dos
navios que comandam. A prisão é metafórica, bem entendido. E aparece sob a
forma de bancos centrais independentes, com a missão exclusiva de combater a
inflação, e com mecanismos institucionais que os tornam surdos aos apelos dos
próprios agentes políticos que os instituíram.
Os gritos que
agora ouvem, os gritos indignados que agora ecoam de São Bento a Belém, são,
pois, os gritos de Ulisses. Dará jeito a todos, do Governo à oposição, passando
pelo Presidente da República, culpar a infame Lagarde de todos os males do
mundo. Mas sucede que, exatamente como na Odisseia, não foi a governadora do
BCE que decidiu amarrá-los aos seus mastros ou que decidiu cobrir os seus próprios
ouvidos de “cera doce” para se fazer surda aos seus pedidos. Muito pelo
contrário. São essas as regras do jogo que eles próprios, deliberadamente,
instituíram.
Faço parte dos
que acreditam que a arquitetura institucional do BCE é prudente e é sensata.
Mas, enquanto decisão política, reconheço que é absolutamente legítimo que a
queiramos discutir. O que me parece menos inteligente é que nos deixemos levar
pelo “límpido canto” das sereias. Se queremos debater a independência do BCE
(que pressupõe também, em sentido inverso, a liberdade para fazer orelhas
moucas aos seus conselhos sobre política orçamental), não apontemos a Lagarde
mas aos demagógicos Ulisses que lhe confiaram a missão que se limita a fazer
cumprir.
O autor é
colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


Sem comentários:
Enviar um comentário