OPINIÃO
O Grupo Coral das Indignações Fáceis de Esquerda
O BCE e Lagarde estão para 2023 como a troika e Passos
estavam para 2012 – são entidades maquiavélicas que desejam o empobrecimento
dos pobres e o enriquecimento dos ricos.
João Miguel
Tavares
4 de Julho de
2023, 0:25
https://www.publico.pt/2023/07/04/opiniao/opiniao/grupo-coral-indignacoes-faceis-esquerda-2055531
Ah, que saudades
tinha deste magnífico coro de indignações sobre os malvados capitalistas que só
pensam no lucro e se divertem com o sofrimento dos pobres. Durante os quatro
anos de Passos Coelho, ouvíamos esse coro todos os dias, em todo o lado, em
polifonias lacrimosas sobre as maldades da troika e o sádico primeiro-ministro
que torturava Portugal. Era o tempo em que um governo de direita estava a
aplicar o programa de ajustamento assinado por um governo de esquerda, que por
acaso acabara de falir o país, mas esta parte da letra nunca constava do
reportório do Grupo Coral das Indignações Fáceis de Esquerda – chamemos-lhe
GCIFE, para abreviar.
O GCIFE
chilreava, em tudo o que era estrofe e refrão, que os cortes nos salários e os
aumentos de impostos eram uma espécie de divertimento sazonal do Governo PSD e
CDS, que por sua alta recreação decidira esmifrar os portugueses, uma daquelas
actividades que todos sabemos serem muito populares e oferecer enormes
dividendos em futuras eleições. Felizmente, depois do maldoso Passos Coelho
chegou o bondoso António Costa, que reverteu os cortes salariais e as 35 horas
na função pública e renacionalizou a TAP e trocou os impostos directos por
indirectos e fez tantas e tão grandes maravilhas que, desde 2015, o GCIFE não
mais sentiu necessidade de sair em digressão.
Mas eis que
Christine Lagarde vem a Sintra para uma reunião do Fórum do Banco Central
Europeu e diz coisas horríveis. Saído de oito longos anos de silêncio, o Grupo
Coral das Indignações Fáceis de Esquerda voltou à estrada cheio de energia,
para actuar em todos os canais de televisão. Espantosamente, o GCIFE exibe-se
agora tanto ao lado do Governo como da oposição, porque de António Costa a Luís
Montenegro todos parecem estar de acordo que a senhora Lagarde é uma bruxa má,
uma espécie de Robin dos Bosques às avessas, que rouba ao camponês para dar ao
senhor feudal. O BCE e Lagarde estão para 2023 como a troika e Passos estavam
para 2012 – são entidades maquiavélicas que desejam o empobrecimento dos pobres
e o enriquecimento dos ricos.
Lagarde nunca defendeu o abandono dos mais vulneráveis à
sua sorte
Há uns chatos que
insistem em lembrar que: 1) O BCE foi o maior amigo de António Costa até
disparar a inflação. Só em 2021 comprou 22,6 mil milhões de euros de dívida
pública portuguesa. Foi graças a ele que Costa patrocinou oito anos de
reversões e alcançou uma maioria absoluta em 2022. 2) Esta compra cavalar de
dívida inundou os mercados de liquidez. A pandemia e a guerra fizeram
transbordar o copo, mas ele já estava cheio do dinheiro que lá foi enfiado
devido à política monetária dos bancos centrais. 3) O problema da Europa foi a
senhora Lagarde ter-se atrasado a assumir o papel de bruxa má. Nos Estados
Unidos, a Reserva Federal reagiu a tempo e agora já pôde travar a subida de
juros. Na Europa, ainda não foi possível. 4) Nada empobrece mais as classes
baixas do que a inflação alta – ela é brutalmente regressiva. 5) Lagarde já
explicou mil vezes as palavras de Sintra. Cito-a numa notícia do PÚBLICO de
Setembro do ano passado: “As medidas [anti-inflacionistas] devem ser
temporárias e direccionadas às famílias e empresas mais vulneráveis.”
Lagarde nunca
defendeu o abandono dos mais vulneráveis à sua sorte. Ela apenas tem pedido que
as medidas sejam direccionadas para eles, e não para aumentos salariais
generalizados e apoios transversais. Isto é por demais óbvio. Infelizmente, o
óbvio nunca entrou no reportório do Grupo Coral das Indignações Fáceis de
Esquerda.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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