RELEMBRANDO 04-06-2021
:
Miguel Sousa Tavares
jornal Expresso
https://expresso.pt/opiniao/2021-06-04-Uma-vocacao-de-servir-uma-obsessao-de-errar-59d00ff0
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"[…] De uma vez por todas, para que fique claro: a
escolha não é apenas a de um turismo selvagem, sem limites, sem regras, sem
respeito por outros interesses legítimos. Há alternativa: podem é não a
querer."
"António
Costa disse na Assembleia da República: “Não podemos querer turistas e depois
dizer que não gostamos de turistas.” Esta frase, de uma tremenda infelicidade,
contém em si toda a filosofia que nos condena à servidão e ao desastre. Eu
também acho que precisamos de turistas, também gosto de os ver, também gosto
de os receber. Mas nem tantos nem todos. Não gosto dos que acham que Portugal
é um paraíso sem leis ou cujas leis só vigoram para os portugueses e são
dispensáveis para eles. Não gosto da leviandade com que os ingleses
desembarcados no Porto declaravam que, mais do que vir assistir a um jogo de
futebol, vinham porque aqui não estavam sujeitos às restrições que tinham
no país deles — e que fez com que uma final entre dois clubes ingleses
fosse jogada no
único país que suspendeu as leis em vigor para a receber. Não gosto de ver a
polícia eternamente mobilizada para conter os distúrbios dos hooligans
ingleses em Albufeira, como se fosse um ritual que também já faz parte dos
cartazes turísticos. Não gosto de ver os portugueses de máscara e os
estrangeiros como lhes dá na gana. Os restaurantes a fecharem para nós às
22h30, ninguém percebe porquê, e os turistas a embebedarem-se na rua noite
fora. Não gosto de um sistema fiscal que massacra os portugueses e isenta
estrangeiros. Numa palavra, não gosto de viver num país que, em nome do
“interesse nacional”, trata pior os seus do que os forasteiros de passagem. E
de um Governo que, para tal, nos mente e nos trata como idiotas, sem nenhum
respeito por nós.
A escolha não é
apenas a de um turismo selvagem, sem limites, sem regras, sem respeito por
outros interesses legítimos. Há alternativa: podem é não a querer
Temos pago um
altíssimo preço, a todos os níveis, a favor desta política de turismo e em
benefício real de muito poucos. Só faltava que a isso se acrescentasse agora
o preço de passarmos a ser um Estado de excepção, onde as leis podem ser
suspensas, adaptáveis ou interpretáveis ao sabor dos interesses turísticos
de ocasião.
De uma vez por
todas, para que fique claro: a escolha não é apenas a de um turismo selvagem,
sem limites, sem regras, sem respeito por outros interesses legítimos. Há
alternativa: podem é não a querer."
in https://expresso.pt/opiniao/2021-06-04-Uma-vocacao-de-servir-uma-obsessao-de-errar-59d00ff0

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