OPINIÃO
Requiem para a cidade de Lisboa
Todos os dias a câmara e o Governo têm invenções. Vias
para bicicletas, congressos de web, passes gratuitos... Mas o mais simples,
limpar, tapar buracos, alojar e legalizar fica para trás.
António Barreto
12 de Novembro de
2022, 6:29
https://www.publico.pt/2022/11/12/opiniao/opiniao/requiem-cidade-lisboa-2027469
Foi esta semana
anunciada a decisão de transformar o edifício da Caixa Geral de Depósitos em
sede do Governo. Era para ser apenas uma parte, sabe-se agora que será por
inteiro. As mudanças já começaram. Parece que dentro de quatro anos a operação
estará terminada. É possível que a maior parte do Governo e dos ministérios se
localize ali, naquele que a opinião designou, há anos, por Palácio Ceausescu,
versão reduzida de um dos mais horrorosos edifícios de toda a Europa!
Será então a
altura para prestar atenção, comparar e reflectir. À Lisboa do Governo do
Terreiro do Paço e da Praça do Comércio, do Cais das Colunas e da Ribeira das
Naus, sucede a Lisboa do Governo da Caixa e da arquitectura vulgar e pseudo…
Pseudo monumental, pseudo pós-moderna, pseudo funcional e pseudo ousada!
Entre as duas
cidades, houve hesitação. Durante dois séculos, o coração e o poder balanceavam
entre as Necessidades, a Ajuda e Belém. Os ministérios foram dispersos. Parecia
desenhar-se São Bento como lugar de referência, primeiro por causa de Salazar e
da sua residência, depois por causa dos deputados e seu Parlamento. Mas nunca foram
suficientes para organizar a cidade e seus poderes. O retrato agora é simples:
da Lisboa do Terreiro do Paço para a Lisboa da Caixa.
A serena
majestade do Terreiro do Paço, o apuramento de linhas dos edifícios, o
equilíbrio das arcadas e das janelas, a abertura para o rio, o comovedor Cais
das Colunas, a calma do tablado central, a nascença das ruas pombalinas, a
vista para algumas colinas, a visão do Castelo São Jorge e um sentimento de
grandeza recatada serão substituídos pela medonha arquitectura pagode da
burocracia. Aliás, a evolução desenhava-se. Na Praça do Comércio, a que outros
também chamam a Praça do Cavalo Negro, vem crescendo a cidade do burburinho
pechisbeque, feita de hamburgers e tuk-tuk, hotéis atrevidos e restaurantes
pretensiosos, à procura dos turistas da cerveja e da bola.
Apesar das
chamadas de atenção e mau grado os programas eleitorais, a cidade prossegue o
seu declínio. Ou antes, a sua metamorfose, a transformação numa cidade
desinteressante, difícil, incaracterística, suja, barulhenta e desconfortável.
A cidade é
seguramente uma das mais belas do mundo. A sua disposição, a sua geografia e a
sua orografia fazem dela uma raridade. Vista da Outra Banda, do Cristo Rei, das
pontes, do Tejo, do Parque de Monsanto ou de qualquer outro local que permita
uma panorâmica, a cidade exibe-se esplendorosamente. A Lisboa de Carlos do
Carmo, de Ary dos Santos e seus amigos é inesquecível, emparceira com as mais
bonitas do mundo.
O problema é
Lisboa por dentro, Lisboa por perto, às voltas em Lisboa, Lisboa de todos os dias,
Lisboa das ruas e do comércio, Lisboa do trabalho e do passeio, Lisboa do
património e da vida.
A Lisboa
histórica está a desaparecer. É natural. Nada é eterno. Mas o que muda, para
diferente, pode ser para pior ou melhor. Com cuidado, o que se transforma pode
incluir o que de melhor tem e trazer o que de melhor se pode ter. Com Lisboa,
pode simplesmente tratar-se do pior dos mundos. Desaparece o melhor, a
história, a beleza, a identidade… E aparece o pior, a uniformidade, o
excêntrico, a insegurança, o banal, a vulgaridade com ar de contemporâneo, a
infâmia inestética e parola. Para além do que desaparece, e mal, e do que
aparece, pior ainda, há o que fica, o que se mantém e agrava. Este é o pior
capítulo.
Assistimos a um
verdadeiro assassinato da cidade de Lisboa, mais propriamente da Baixa de
Lisboa, da Lisboa histórica, da Lisboa da tradição. Morrem as melhores Lisboa.
A Baixa Pombalina, um prodígio urbano em vias de demolição. A Lisboa mourisca,
quase única na Europa, em vias de destruição. A Lisboa burguesa dos séculos XIX
e XX, com irrepetível personalidade. A Lisboa dos monumentos, dos palácios, das
quintas nobres e das quintinhas e dos retiros. A Lisboa do rio e das colinas.
Prossegue o
despovoamento do centro, da Baixa e dos bairros históricos. Multiplicam-se os
hotéis e escritórios de aparente luxo, para reciclar capitais sorrateiros e
“vistos Gold”. Nas ruas, alastra o turismo nómada do souvenir e da placa
magnética para colar no frigorifico. Nas ruas pombalinas e no Rossio, ainda se
poderia ouvir grito desesperado “Acudam, que matam Lisboa!”, mas já é tarde.
As ruas da Baixa
estão inundadas de lojas de mau gosto, com grafiti e souvenirs plásticos,
portas e janelas tapadas com tijolos para proteger dos sem-abrigo, da droga e
dos ratos. Multiplicam-se as lojas que nunca se perceberá o negócio que fazem,
dado que os recuerdos não chegam para pagar a luz, quanto mais as rendas de
milhares de euros. Crescem os comércios que negoceiam residências falsas e
contratos fictícios para imigrantes ilegais. Há lojas de fachada e de droga. Há
lojas de residência e de contrato. Há lojas de conveniência e de contrabando.
Há lojas de tatuagem e casas de passe. Há negócios escuros para pagar rendas
milionárias com que nenhum comércio legítimo será capaz de competir.
Como se fosse
pouco, há a sujidade tradicional, aumentada pelo turismo, pela indiferença,
pela megalomania dos planos integrados incapazes de arrumar e calcetar. Buracos
voltaram a aparecer. Nas ruas e nos passeios, trotinetas e bicicletas são ameaças
para os velhos, os deficientes, as crianças e os doentes. Não é seguramente o
vereador X ou o presidente Y nem sequer o partido Z… São vários em sucessivos
anos que deixaram Lisboa morrer e definhar. Regressaram os pedintes. Voltaram
os esfomeados. Cresceram os sem-abrigo. Estão por ali novamente falsas mães com
crianças de empréstimo para pedir esmola. Sobram os receptadores de telemóveis,
carteiras, iPad, computadores e equipamentos dos automóveis. Esgueiram-se por
todo o lado os carteiristas da Carris. Pululam os indocumentados, os imigrantes
ilegais e os candidatos a refugiados. A Baixa divide-se por grupos étnicos, por
ramos de negócio ilegal, por sectores de actividades nocturnas e por artigos de
contrabando.
Todos os dias a
câmara, as autoridades e o Governo têm invenções. Vias para bicicletas, centros
de negócios, congressos de web, passes gratuitos, é só pensar. Mas o mais
simples, lavar e limpar, remendar e tapar buracos, pintar e restaurar, alojar e
legalizar, fica para trás. À espera de negócios obscuros e de demolição, casas
devolutas e palacetes arruinados morrem devagar, até que a grua e o caterpílar
ponham termo à cidade. Lisboa necessita de habitantes, moradores, estudantes
residentes, lojas decentes, limpeza e cuidado, não necessita de start-ups
chiques.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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