sábado, 25 de fevereiro de 2023

The Internet as we know it goes to trial in the U.S. Supreme Court / A Internet como a conhecemos vai a julgamento no Supremo dos EUA

 


USA

The Internet as we know it goes to trial in the U.S. Supreme Court

 

For the first time in the past 27 years, U.S. judges have agreed to hear lawsuits that could leave companies like Facebook and Twitter exposed to defamation charges.

 

Alexander Martin

25 February 2023, 7:00

https://www.publico.pt/2023/02/25/mundo/noticia/internet-conhecemos-vai-julgamento-supremo-eua-2040158

 

It's February 1996. Mark Zuckerberg, the billionaire creator of Facebook, was 11 years old, and the search engine that would become a synonym for Internet search, Google, was just an idea in the minds of two PhD students at Stanford University. At the same time, in Washington, two U.S. congressmen signed into the laws of the country a short paragraph that would become known as "the 26 words that made the Internet."

 

"No provider or user of interactive computer services will be treated as the publisher or spokesperson for any information provided by another information content provider," says Section 230 of the Communications Decency Act, passed by the U.S. Congress in 1996.

 

 

In other words, the few technology companies that existed at the time — nodding to online discussion forums, the grandparents of modern social networks — could not be held responsible for most of the things their users said on the Internet; but they were also not prevented from moderating or deleting comments that they themselves considered to be abusive.

 

Section 230 -- and the very existence of the Internet as we know it, according to lawyers for companies such as Google and Twitter -- is now being put to the test for the first time in two cases accepted by the U.S. Supreme Court. Both have had major developments in the last week, but the final decision is not expected before June.

 

What's at stake?

In one case, the family of a U.S. citizen killed in the 2015 Paris attacks, Nohemi Gonzalez, accuses YouTube (through Google) of violating U.S. anti-terrorism laws by using an algorithm to recommend videos produced by Daesh users.

 

 

 

 

By creating recommendations, YouTube is acting as an editor —the Gonzalez's lawyers say—and not as a simple publishing vehicle; once you accept this distinction, YouTube could be held accountable for users' content.

 

In another case, the family of Jordanian Nawras Alassaf, who was killed in a 2017 Daesh bombing in Istanbul, accuses Twitter of "aiding and encouraging" a terrorist organization by recommending content published by that group.

 

For lawyers at Google and Twitter, the end of Section 230 would have devastating consequences for technology companies and freedom of expression.

 

In a scenario of uncertainty about corporate responsibility, most of them -- especially those with less capacity to face an avalanche of lawsuits -- would choose not to publish anything, which would close doors to political dissidents and human rights activists.

 

At the preliminary hearings last week, the judges' questions to lawyers have made it clear that Section 230 is indeed a problem in today's world, but it must be Congress that looks at it. "We are not the nine leading internet experts," Judge Elena Kagan said in a comment that caused laughter in the assistance.

 

Origin of Section 230

The 26 words drafted by the two congressmen in 1996 -- Republican Chris Cox and Democrat Ron Wyden -- were designed to address a problem created by two separate court decisions that had left the courts and Congress without knowing what to do.

 

A year earlier, in 1995, the New York Supreme Court had appealed to Stratton Oakmont -- the broker at the center of the 2013 film The Wolf of Wall Street -- in a defamation suit against the Prodigy portal, where an anonymous man had accused the company of committing financial crimes.

 

According to the judges, the portal could be judged because it filtered the comments of users, which made it a publisher of content and not a mere support.

 

This decision exposed companies to a mountain of lawsuits that could bankrupt them in years of accelerated Web development; and it followed a 1991 judgment in which CompuServe had been cleared of a similar charge for not moderating its content —not demonstrating at trial that the company "knew, or should have known, the existence of defamatory content," according to the court.

 

Republican and Democratic critics

For two decades, Section 230 was an illustrious stranger. That has changed with Donald Trump's rise in US politics, and with complaints that social media censors right-wing speech and promotes the left.

 

In 2018, when YouTube and other companies expelled American Alex Jones (the conspirator who was convicted in 2022 of paying $1.5 billion to family members of children killed by a shooter at Sandy Hook Elementary School), the charge that the right was being censored became a rallying cry that united Trump,  the most extreme Republican congressmen and fringes in the country.

 

On the other hand, current U.S. President Joe Biden, and more and more Democratic Party congressmen, also advocate an end -- or at least a profound amendment -- of Section 230, but for very different reasons.

 

While Republicans say social media takes refuge in Section 230 protections to censor the right, Democrats accuse Facebook and Twitter of not using the other part of the 1996 law (the incentive to ban content that promotes violence) to prevent the sharing of misinformation that led to the invasion of the Capitol and the boycott of measures to contain the 19-19 pandemic.

 

tp.ocilbup@snitram.erdnaxela


EUA

A Internet como a conhecemos vai a julgamento no Supremo dos EUA

 

Pela primeira vez nos últimos 27 anos, os juízes norte-americanos aceitaram ouvir processos que podem deixar empresas como o Facebook e o Twitter expostas a acusações de difamação.

 

Alexandre Martins

25 de Fevereiro de 2023, 7:00

https://www.publico.pt/2023/02/25/mundo/noticia/internet-conhecemos-vai-julgamento-supremo-eua-2040158

 

Estamos em Fevereiro de 1996. Mark Zuckerberg, o bilionário criador do Facebook, tinha 11 anos de idade, e o motor de busca que viria a tornar-se num sinónimo de pesquisas na Internet, o Google, era apenas uma ideia na cabeça de dois alunos de doutoramento na Universidade de Stanford. Ao mesmo tempo, em Washington, dois congressistas norte-americanos inscreviam nas leis do país um curto parágrafo que ficaria conhecido como "as 26 palavras que fizeram a Internet".

 

"Nenhum fornecedor ou utilizador de serviços interactivos por computador será tratado como o editor ou porta-voz de qualquer informação fornecida por outro fornecedor de conteúdo informativo", diz a Secção 230 da Lei da Decência nas Comunicações, aprovada pelo Congresso dos EUA em 1996.

 

 

Por outras palavras, as poucas empresas tecnológicas existentes na época — com destaque para os fóruns de discussão online, os avós das modernas redes sociais — não podiam ser responsabilizadas pela maioria das coisas que os seus utilizadores diziam na Internet; mas também não eram impedidas de moderar ou apagar comentários que elas próprias considerassem ser abusivos.

 

A Secção 230 — e a própria existência da Internet como a conhecemos, segundo os advogados de empresas como a Google e o Twitter — está agora a ser posta à prova, pela primeira vez, em dois casos aceites pelo Supremo Tribunal dos EUA. Ambos tiveram desenvolvimentos importantes na última semana, mas a decisão final não é esperada antes de Junho.

 

O que está em causa?

Num dos casos, a família de uma cidadã dos EUA morta nos atentados de 2015 em Paris, Nohemi Gonzalez, acusa o YouTube (através da Google) de violar as leis norte-americanas de combate ao terrorismo, ao usar um algoritmo para recomendar aos utilizadores vídeos produzidos pelo Daesh.

 

 

 

 

Ao criar recomendações, o YouTube está a agir como um editor — dizem os advogados dos Gonzalez —, e não como um simples veículo de publicação; uma vez aceite esta distinção, o YouTube poderia ser responsabilizado pelo conteúdo dos utilizadores.

 

Num outro caso, a família da jordana Nawras Alassaf, morta em 2017 num atentado do Daesh em Istambul, acusa o Twitter de "auxiliar e incentivar" uma organização terrorista ao recomendar conteúdo publicado por esse grupo.

 

Para os advogados da Google e do Twitter, o fim da Secção 230 teria consequências devastadoras para as empresas tecnológicas e para a liberdade de expressão.

 

Num cenário de incerteza sobre a responsabilidade das empresas, a maioria delas — principalmente as que têm menos capacidade para enfrentar uma avalancha de processos — optariam por não publicar nada, o que fecharia portas a dissidentes políticos e a activistas dos direitos humanos.

 

Nas audições preliminares, na última semana, as perguntas dos juízes aos advogados deram a entender que a Secção de 230 é de facto um problema no mundo actual, mas deve ser o Congresso a debruçar-se sobre ele. "Não somos os nove maiores especialistas sobre Internet", disse a juíza Elena Kagan, num comentário que provocou gargalhadas na assistência.

 

Origem da Secção 230

As 26 palavras redigidas pelos dois congressistas em 1996 — o republicano Chris Cox e o democrata Ron Wyden — foram pensadas para responder a um problema criado por duas decisões judiciais distintas, que tinham deixado os tribunais e o Congresso sem saberem o que fazer.

 

Um ano antes, em 1995, o Supremo Tribunal de Nova Iorque dera razão à Stratton Oakmont — a corretora no centro do filme O Lobo de Wall Street, de 2013 — num processo por difamação contra o portal Prodigy, onde um anónimo tinha acusado a empresa de cometer crimes financeiros.

 

Segundo os juízes, o portal podia ser julgado porque filtrava os comentários dos utilizadores, o que fazia dele uma editora de conteúdos e não um mero suporte.

 

Essa decisão expôs as empresas a uma montanha de processos que podia levá-las à falência em anos de acelerado desenvolvimento da Web; e seguiu-se a uma sentença de sentido contrário, de 1991, em que a CompuServe tinha sido ilibada de uma acusação semelhante por não moderar o seu conteúdo — não se demonstrando, no julgamento, que a empresa "sabia, ou devia saber, da existência do conteúdo difamatório", segundo o tribunal.

 

Críticas republicanas e democratas

Durante duas décadas, a Secção 230 foi uma ilustre desconhecida. Isso mudou com a ascensão de Donald Trump na política dos EUA, e com as queixas de que as redes sociais censuram o discurso da direita e promovem a esquerda.

 

Em 2018, quando o YouTube e outras empresas expulsaram o norte-americano Alex Jones (o conspiracionista que foi condenado, em 2022, a pagar 1500 milhões de dólares a familiares de crianças mortas por um atirador na escola primária de Sandy Hook), a acusação de que a direita estava a ser vítima de censura tornou-se num grito de guerra que uniu Trump, os congressistas republicanos e as franjas mais extremistas do país.

 

Por outro lado, o actual Presidente dos EUA, Joe Biden, e cada vez mais congressistas do Partido Democrata, também defendem o fim — ou, pelo menos, uma alteração profunda — da Secção de 230, mas por razões muito diferentes.

 

Enquanto os republicanos dizem que as redes sociais se refugiam nas protecções da Secção 230 para censurarem a direita, os democratas acusam o Facebook e o Twitter de não fazerem uso da outra parte da lei de 1996 (o incentivo à proibição de conteúdo que promova a violência) para impedirem a partilha de desinformação que levou à invasão do Capitólio e ao boicote de medidas de contenção da pandemia de covid-19.

 

tp.ocilbup@snitram.erdnaxela


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