A ideia da Eurásia versus “Ocidente” é muito
parecida com a de “espaço vital” hitleriano
José Pacheco Pereira
OPINIÃO
O que é um ponto sem retorno da história: a invasão da
Ucrânia
O mundo depois da invasão russa mudou completamente, em
particular a sensação de risco de guerra que induz tanto o medo como a vontade
de resistir.
José Pacheco
Pereira
25 de Fevereiro
de 2023, 6:17
https://www.publico.pt/2023/02/25/opiniao/opiniao/ponto-retorno-historia-invasao-ucrania-2040213
A um ano da
invasão russa da Ucrânia não há maneira de fugir do tema, porque qualquer outra
matéria é infinitamente menos importante. A invasão é um daqueles pontos sem
retorno que na história do mundo marcam um antes e um depois, e a partir do
qual nada é semelhante. Precisamos de pensar diferente, e agir de modo novo,
até porque uma das características destes pontos sem retorno é serem sempre uma
surpresa.
Os eventos mais
importantes da história têm essa característica de não serem previsíveis, por
muito que a posteriori se reconstruam sequências de causas que parecem apontar
para aí. Na verdade, tanto podiam apontar no sentido do evento-surpresa como de
muito outros eventos que não aconteceram. A razão desta surpresa é que há uma
dimensão não-humana na história que vem da complexidade do mundo e do nome que
têm estes artigos de “ruído do mundo”. Ninguém controla tudo, existe o acaso
muito mais poderoso do que a necessidade e a “seta do tempo” na história não é
diferente da da física: a desordem aumenta.
A invasão russa
da Ucrânia vista a posteriori parece ter algumas “razões”. Os propagandistas
pró-Putin repetem sempre essas razões com mais ou menos dolo. Uma é de que a
guerra começou em 2014, com o “golpe” da Praça Maidan. Mesmo que se admita toda
a descrição dos eventos que aparecem associados a esse “golpe”, só um,
normalmente escamoteado por esses propagandistas, pode ser considerado o início
da guerra, a anexação do território ucraniano da Crimeia, a que o tenebroso
“Ocidente” fez vista grossa. Tudo o resto, incluindo o conteúdo anti-russo do
“golpe”, está longe de justificar a invasão. A entrada da Ucrânia na NATO e na
UE foi sempre recusada pelo “Ocidente”, mesmo que agora se perceba que a
“razão” por que foi a Ucrânia invadida aplicava-se aos países bálticos, onde o
sentimento anti-russo é virulento, e onde existe um enclave russo, mas que têm
sido defendidos até agora por pertencerem à NATO.
A teorização mais
ampla da invasão é uma variante da tese geopolítica de Alesandr Dugin sobre a
necessidade de combater a unipolaridade resultante do fim da URSS, que implica
a hegemonia de valores que são intrinsecamente anti-russos, os do capitalismo,
do liberalismo político e traduzem o poder global americano. A Eurásia
levantar-se-ia contra essa hegemonia com a ascensão de uma nova versão da URSS,
e da China, criando um mundo multipolar em contrapartida da unipolaridade. As
suas teses geopolíticas influenciam quer a extrema-direita, quer os restos do
movimento comunista.
Em Portugal,
Dugin foi editado muito antes da invasão, por uma pequena editora
nacional-socialista – e aqui o nome não é um anátema, é mesmo o que é –, e
influencia muitos artigos do Avante! e algumas publicações recentes, como o
livro de Albano Nunes, um dos raros dirigentes do PCP com enormes
responsabilidades na área internacional que ainda diz claramente que o derrube
do capitalismo tem que ser feito “pela força”. Os comunistas, de um modo geral,
não citam Dugin directamente, mas é evidente a sua influência geopolítica.
O “Ocidente” não
tem as mãos limpas em muitos conflitos, particularmente no conflito
israelo-árabe e no apoio político à Arábia Saudita, motivado pela necessidade
de controlar as fontes de energia, fizeram asneiras trágicas no Kosovo, na
Líbia, no Iraque, no Afeganistão, quase sempre com resultados inversos aos
pretendidos (uma das características da frase weberiana do “ruído do mundo”), e
na guerra mundial contra o terrorismo do ISIS, mas convém lembrar que o 11 de
Setembro foi em Nova Iorque e não em Moscovo. Mas à data da invasão da Ucrânia
o “Ocidente” estava em recuo, com a política errática de Trump e o seu
isolacionismo anti-NATO, e com a renitência dos aliados europeus em cumprir as
suas obrigações em despesas militares. Mais ainda: a opinião pública
principalmente na Europa desligara-se do apoio à NATO e estava pouco disposta
em gastar mais dinheiro na defesa.
Com a invasão,
tudo mudou e esse foi talvez o maior erro de Putin. A maioria dos europeus e
não só, as nações mais industrializadas do mundo, com excepção da China,
conheceram um significativo crescendo da legitimação da NATO e o seu efeito
imediato foi o apoio militar crescente à Ucrânia. A tudo isto acresce o apoio
político: em nenhuma circunstância Putin pode ganhar a guerra que iniciou. E é
isso que impede a “paz” russa e é a primeira grande consequência do ponto sem
retorno da invasão.
O mundo depois da
invasão russa mudou completamente, em particular a sensação de risco de guerra
que induz tanto o medo como a vontade de resistir. Em Portugal, como em muitos
outros países, a condenação da invasão é quase unânime e não é fruto da
propaganda “ocidental” nem da desinformação. É isso, por exemplo, que num clima
da contestação social impede o PCP de recuperar o que perdeu, porque o apoio,
enviesado que seja, à invasão é um forte anátema junto da opinião pública,
mesmo para muitos militantes do PCP. Acresce que não há nenhuma fidelidade a
“princípios” que justifique a atitude ambígua face à invasão, e isto é um
eufemismo, a Rússia de Putin é uma versão autocrática e imperial, eslavófila, e
a ideia da Eurásia versus “Ocidente” é muito parecida com a de “espaço vital”
hitleriano. Ambas têm em comum uma afirmação de valores entre o paganismo e a
ortodoxia, contra a decadência do “Ocidente”, dito de outras maneiras, contra
as democracias. A correlação entre a democracia e a decadência tem uma longa e
sinistra história.
A ideia da Eurásia versus “Ocidente” é muito parecida com
a de “espaço vital” hitleriano
A partir do
momento em que isso tem uma expressão militar agressiva, acabou a complacência.
Não é uma guerra semelhante à Guerra Fria, é mesmo uma guerra a sério que tem
que ser ganha no plano convencional. Se passar daí, é o Armagedão, mas isso
também “eles” sabem.
O autor é
colunista do PÚBLICO
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