sábado, 25 de fevereiro de 2023

A geração desclassificada

 



A geração desclassificada

 

As gerações, no sentido impreciso que têm hoje, já não alternam: atropelam-se, coexistem numa simultaneidade de tempos culturais e sociais.

 

António Guerreiro

24 de Fevereiro de 2023, 9:58

https://www.publico.pt/2023/02/24/culturaipsilon/cronica/geracao-desclassificada-2039738

 

A crise da habitação veio acrescentar um novo e forte motivo ao discurso das “portas fechadas” e da “falta de perspectivas” com que os jovens hoje se defrontam. Há uma questão geracional nos debates sociais que não se tem transferido para a construção das políticas públicas. O problema é muito complexo tanto no plano pragmático das medidas sociais e políticas capazes de o resolver ou pelo menos de o atenuar, como de um ponto de vista puramente teórico, o qual não dispensa a referência a uma teoria ou sociologia das gerações que tem como marco fundador um livro de 1928, do sociólogo Karl Mannheim, intitulado O Problema das Gerações.

 

Na verdade, muito embora a ocorrência da palavra “geração” seja cada vez mais frequente no espaço público, ela é usada sem qualquer rigor conceptual e sem sequer pensar com pertinência em que consiste actualmente “o problema das gerações”. No nosso tempo, o processo geracional impôs-se com um ritmo muito mais acelerado. A clássica teoria das gerações supunha que cada nova geração precisava de 25 a 30 anos para se manifestar inteiramente (cada século conhecia assim quatro novas gerações). Ora, hoje já não há nenhum domínio (seja ele político, social, cultural, tecnológico, etc.) que seja compatível com esse antigo ritmo da alternância geracional.

 

Hoje, já não há tempo para uma inteira geração, já não há tempo de espera que ultrapasse os dois ou três anos. As gerações, no sentido impreciso que têm hoje, já não alternam: atropelam-se, coexistem numa simultaneidade de tempos culturais e sociais. Os professores conhecem bem este fenómeno: o estrato de população jovem que está num determinado momento a entrar no ensino secundário ou na universidade parece pertencer já a uma geração diferente do estrato que no mesmo momento está a sair.

 

A noção de geração, que começou por ser complexa e controversa, tornou-se entretanto de pouca utilidade e origem de grandes equívocos. É assim fácil perceber as razões pelas quais enquanto as reivindicações identitárias do género se foram impondo, as reivindicações com base em identidades geracionais não conheceram o mesmo fulgor.

 

Mesmo a noção de “jovem” é hoje tão elástica ou fluida que já não pode servir como identificação. Não pelas razões defendidas pelo sociólogo Pierre Bourdieu que, mostrando em 1978 as diferenças entre várias “juventudes, concluía que “a juventude é apenas uma palavra”, mas porque, paradoxalmente, a “cultura jovem” passou a ser objecto de uma espoliação, um ethos universal e um privilégio ao alcance dos menos jovens.

 

Observando o ar do tempo, percebem-se os sinais de um “conflito de gerações” a crescer. E já não se trata apenas daquele “fosso geracional” que a antropóloga Margaret Mead definiu num ensaio de 1970, onde mostrava que as sociedades contemporâneas, ao contrário das sociedades tradicionais, eram “prefigurativas”, isto é, são os filhos que ensinam os pais a aceder às regras, aos hábitos e às tecnologias do novo mundo, invertendo-se assim o sentido da transmissão do saber e da cultura.

 

E também já não se trata pura e simplesmente da questão intergeracional tal como ela se colocou prioritariamente no plano dos valores culturais, da moral sexual, dos costumes (o Maio de 68 foi, a este respeito, o exemplo maior e mais eloquente). Agora, a questão tem uma dimensão principalmente sócio-económica e ecológica (a chamada “eco-ansiedade” é uma patologia que, por razões óbvias, afecta sobretudo os jovens), e coloca no banco dos réus a geração dos baby-boomers, acusando-a de deixar uma dívida colectiva demasiado pesada.”

 

Um paradoxo bem à vista é este: a mesma “geração” da qual se diz (com razão ou sem ela, tanto faz, o que interessa é o modo de representação) que é a “mais qualificada de sempre”, é também aquela que mais se vê na situação de “desclassificada”, confrontada com as perspectivas sociais mais difíceis e portadora dos sinais mais evidentes das desigualdades intergeracionais.

 

As políticas de austeridade, na sequência da crise financeira de 2008, e a situação sanitária de 2020 só acentuaram esta tendência que ameaça tornar-se uma “cólera geracional” dirigida não apenas contra o “sistema”, mas disposta a articular discursos de acusação directa. Em França, surgiu há algum tempo um slogan que já tem este tom perigosamente acusatório “Vous allez mourir de vieillesse, nous de détresse” (Vocês vão morrer de velhice, nós de miséria).

 

Livro de recitações

“Países inteiros poderão desaparecer para sempre. Podemos vir a assistir a um êxodo em massa de populações inteiras a uma escala bíblica”

António Guterres, na apresentação de um relatório,14/02/2023

 

O Secretário-Geral da ONU atinge neste discurso o mais elevado nível da “colapsologia” em curso. É fácil perceber as suas razões e o impacto que quer produzir. Mas não podemos ignorar que há hoje uma forte discussão acerca da utilidade deste discurso e dos seus efeitos. A “colapsologia”, dizem alguns, não serve de modo nenhum uma ecologia política e o discurso colapsologista até tem servido muitas vezes para mascarar o fim do mundo que não se quer ver, colocando-nos perante uma ameaça anestesiante, já que se apresenta como uma nova forma do sublime. Do lado oposto estão os que, co o Guterres, acham que só a retórica das catástrofes pode estar à altura de uma gigantesca acção salvífica.

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