A geração desclassificada
As gerações, no sentido impreciso que têm hoje, já não
alternam: atropelam-se, coexistem numa simultaneidade de tempos culturais e
sociais.
António Guerreiro
24 de Fevereiro
de 2023, 9:58
https://www.publico.pt/2023/02/24/culturaipsilon/cronica/geracao-desclassificada-2039738
A crise da
habitação veio acrescentar um novo e forte motivo ao discurso das “portas
fechadas” e da “falta de perspectivas” com que os jovens hoje se defrontam. Há
uma questão geracional nos debates sociais que não se tem transferido para a
construção das políticas públicas. O problema é muito complexo tanto no plano
pragmático das medidas sociais e políticas capazes de o resolver ou pelo menos
de o atenuar, como de um ponto de vista puramente teórico, o qual não dispensa
a referência a uma teoria ou sociologia das gerações que tem como marco
fundador um livro de 1928, do sociólogo Karl Mannheim, intitulado O Problema
das Gerações.
Na verdade, muito
embora a ocorrência da palavra “geração” seja cada vez mais frequente no espaço
público, ela é usada sem qualquer rigor conceptual e sem sequer pensar com
pertinência em que consiste actualmente “o problema das gerações”. No nosso
tempo, o processo geracional impôs-se com um ritmo muito mais acelerado. A clássica
teoria das gerações supunha que cada nova geração precisava de 25 a 30 anos
para se manifestar inteiramente (cada século conhecia assim quatro novas
gerações). Ora, hoje já não há nenhum domínio (seja ele político, social,
cultural, tecnológico, etc.) que seja compatível com esse antigo ritmo da
alternância geracional.
Hoje, já não há
tempo para uma inteira geração, já não há tempo de espera que ultrapasse os
dois ou três anos. As gerações, no sentido impreciso que têm hoje, já não
alternam: atropelam-se, coexistem numa simultaneidade de tempos culturais e
sociais. Os professores conhecem bem este fenómeno: o estrato de população
jovem que está num determinado momento a entrar no ensino secundário ou na
universidade parece pertencer já a uma geração diferente do estrato que no
mesmo momento está a sair.
A noção de
geração, que começou por ser complexa e controversa, tornou-se entretanto de
pouca utilidade e origem de grandes equívocos. É assim fácil perceber as razões
pelas quais enquanto as reivindicações identitárias do género se foram impondo,
as reivindicações com base em identidades geracionais não conheceram o mesmo
fulgor.
Mesmo a noção de
“jovem” é hoje tão elástica ou fluida que já não pode servir como
identificação. Não pelas razões defendidas pelo sociólogo Pierre Bourdieu que,
mostrando em 1978 as diferenças entre várias “juventudes, concluía que “a
juventude é apenas uma palavra”, mas porque, paradoxalmente, a “cultura jovem”
passou a ser objecto de uma espoliação, um ethos universal e um privilégio ao
alcance dos menos jovens.
Observando o ar
do tempo, percebem-se os sinais de um “conflito de gerações” a crescer. E já
não se trata apenas daquele “fosso geracional” que a antropóloga Margaret Mead
definiu num ensaio de 1970, onde mostrava que as sociedades contemporâneas, ao
contrário das sociedades tradicionais, eram “prefigurativas”, isto é, são os
filhos que ensinam os pais a aceder às regras, aos hábitos e às tecnologias do
novo mundo, invertendo-se assim o sentido da transmissão do saber e da cultura.
E também já não
se trata pura e simplesmente da questão intergeracional tal como ela se colocou
prioritariamente no plano dos valores culturais, da moral sexual, dos costumes
(o Maio de 68 foi, a este respeito, o exemplo maior e mais eloquente). Agora, a
questão tem uma dimensão principalmente sócio-económica e ecológica (a chamada
“eco-ansiedade” é uma patologia que, por razões óbvias, afecta sobretudo os
jovens), e coloca no banco dos réus a geração dos baby-boomers, acusando-a de
deixar uma dívida colectiva demasiado pesada.”
Um paradoxo bem à
vista é este: a mesma “geração” da qual se diz (com razão ou sem ela, tanto
faz, o que interessa é o modo de representação) que é a “mais qualificada de
sempre”, é também aquela que mais se vê na situação de “desclassificada”,
confrontada com as perspectivas sociais mais difíceis e portadora dos sinais
mais evidentes das desigualdades intergeracionais.
As políticas de
austeridade, na sequência da crise financeira de 2008, e a situação sanitária
de 2020 só acentuaram esta tendência que ameaça tornar-se uma “cólera
geracional” dirigida não apenas contra o “sistema”, mas disposta a articular
discursos de acusação directa. Em França, surgiu há algum tempo um slogan que
já tem este tom perigosamente acusatório “Vous allez mourir de vieillesse, nous
de détresse” (Vocês vão morrer de velhice, nós de miséria).
Livro de
recitações
“Países inteiros
poderão desaparecer para sempre. Podemos vir a assistir a um êxodo em massa de
populações inteiras a uma escala bíblica”
António Guterres,
na apresentação de um relatório,14/02/2023
O
Secretário-Geral da ONU atinge neste discurso o mais elevado nível da
“colapsologia” em curso. É fácil perceber as suas razões e o impacto que quer
produzir. Mas não podemos ignorar que há hoje uma forte discussão acerca da utilidade
deste discurso e dos seus efeitos. A “colapsologia”, dizem alguns, não serve de
modo nenhum uma ecologia política e o discurso colapsologista até tem servido
muitas vezes para mascarar o fim do mundo que não se quer ver, colocando-nos
perante uma ameaça anestesiante, já que se apresenta como uma nova forma do
sublime. Do lado oposto estão os que, co o Guterres, acham que só a retórica
das catástrofes pode estar à altura de uma gigantesca acção salvífica.


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