opinião
Pedro Santos Guerreiro
Diretor executivo CNN Portugal
O Governo está cheio de dinheiro. Vai gastá-lo todo na
segunda-feira - e é uma loucura
Ontem às 14:49
O governo vai
desatar a passar cheques. Se não tem paciência para ler quem discorda, leia só
isto: o que vai ser melhor agora vai ser pior depois.
Na segunda-feira
sai o Totobola, uma taluda de uns dois mil milhões em subsídios, pensões,
energia, cabaz alimentar, rendas, salários, mais pompa e propaganda e toda a
gente vai aplaudir porque a vida está cara e poucos querem parar para pensar.
Paro já. Sim, este é um texto contracíclico. É isso que a política orçamental
devia ser – mas não será.
Na pandemia, o
governo gastou de menos, agora vai gastar de mais. Qual é a diferença? Oito
letras: inflação.
A inflação muda
tudo. Ela esteve tanto tempo tão baixa que nos esquecemos que quanto mais tarde
se lida com ela mais dolorosa será a fatura. O que é dado agora com uma mão
será retirado com outra.
Vai parecer
sensibilidade social, vai parecer justo redistribuir o que se ganha, mas o
pacote de medidas que aí vem ameaça ser errado no valor que inclui e nas
medidas que exclui. Se for mesmo assim, estão doidos.
Quanto mais
encharcar, mais terá de enxaguar
A inflação é um
monstro que come dinheiro e que, se não é travado cedo, se descontrola
morbidamente. Para travá-la, os bancos centrais tentam restringir a procura
aumentando os juros. Mas a política monetária dos bancos centrais é só um
braço, o outro é a política orçamental dos governos. Neste momento, o BCE está
para um lado e o governo está para o outro.
O BCE está a
secar a economia, o governo está a encharcá-la. Adivinhe o que acontece a
seguir? O BCE vai secar ainda mais subindo taxas de juro. Na reunião da próxima
semana do BCE, já se conta com um aumento de taxas. Eu já conto que, além
disso, se sinalize um novo aumento posterior, o que fará taxas como as Euribor
subir imediatamente.
Se Portugal não
fosse um país endividado... Mas a nossa dívida pública e privada é de quase 800
mil milhões de euros, donde cada ponto percentual de juros custa mais oito mil
milhões por ano à economia. Vamos subir mais do que isso: nos créditos à
habitação, a Euribor já subiu quase 1,5 pontos este ano; o Estado, que durante
anos se financiou a zero, acabará o ano talvez a roçar os 3%. São impostos
futuros.
Para lidar com a
inflação não se despeja moeda na economia, o que aumenta a procura e, logo, os
preços; faz-se o contrário. E preferir a subsidiação (que é despesa do Estado)
poupando no investimento (que faz crescer a economia) é deitar água num balde
ao mesmo tempo em que o furamos.
Despesa a mais,
alvos e menos
Se tiver
paciência, já respondo em baixo à sua crítica* (os que insultaram já deixaram
de ler).
O Estado está a
nadar em dinheiro porque está a faturar mais em quase todos os impostos,
incluindo o IRS (porque o emprego e os salários estão a subir) e sobretudo no
IVA. Porque os consumidores pouparam muito na pandemia, estavam fartos de
privação e vingaram-se a comprar férias e produtos, aumentando a procura. Os
portugueses estão a consumir mais e a receber mais turistas, que também
consomem, numa economia mais uma vez salva pelo turismo.
O governo parece
que não sabe o que há de fazer ao dinheiro, logo gasta-o. Alternativas: em vez
de aumentar tanto a despesa, descer impostos ou pagar dívida. A descer
impostos, que fossem os diretos (como o IRS), mas o governo já se esqueceu da
classe média outra vez. E quanto a descer dívida…
O que faz uma
pessoa endividada quando os juros disparam se tiver um rendimento com que não
contava? Paga dívida. O que faz o Estado endividado? Aumenta a despesa. Faça
por exemplo esta conta: estes dois mil milhões prenunciados para segunda-feira
vão custar ao Estado uns 3% ao ano, 60 milhões em juros. Por ano.
Indefinidamente. São mais 60 milhões de euros em impostos. Por ano.
Indefinidamente. E isto num Estado que outra coisa não tem feito se não
aumentar despesa fixa. Não é preciso uma máquina do tempo para viajar ao
futuro, já lá estivemos.
E depois, os
alvos. O mesmo Estado que encaixa impostos e aumenta despesa não concretiza o
investimento público que anunciou e atrasa-se no PRR. É uma lástima. Porque o
investimento é que gera riqueza duradoura e empregos mais bem pagos. Além
disso, a (boa) preocupação com os custos da energia nas famílias não tem
paralelo para as empresas: António Costa vai aparentemente ficar à espera da
Comissão Europeia. Mas as empresas estão aflitas, porque estão a pagar salários
mais altos, têm dificuldades em encontrar mão-de-obra e estão a suportar
faturas de energia colossais - nos altos fornos das grandes indústrias aos pequenos
fornos das padarias ou aos agricultores nas colheitas.
Temos uma
política de redistribuição, e ela ameaça ser inflacionista, mas não de
crescimento económico. E o crescimento deste ano não se repetirá em 2022. Quem
está a chegar de férias rapidamente vai cair na real.
E já agora:
porque sobem tanto os preços?
Quando Mário
Centeno disse esta semana que “não devemos ser exuberantes”, estaria a
verbalizar o receio de ver o governo passar tantos cheques. Mas ele disse outra
coisa: que grande parte dos preços internacionais de matérias-primas já está de
novo ao nível de há um ano. É a procura global que continua a fazer subir os
preços, em benefícios dos seus produtores.
A exceção são os
produtos energéticos, é aqui que os governos estão a agir bem depois de terem
agido mal. Como o governo alemão, pela dependência da Rússia que criou. Mas só
para não darmos lições de moral: Portugal também é por exemplo dependente do
gás natural da Nigéria, que não é propriamente uma democracia promissora de
estabilidade.
Mas adiante. E
adiante é olhar também para os salários, que estão a crescer 4% em Portugal com
um emprego a crescer 6%, o que aumenta a massa salarial em quase 10%. Sim, a
inflação tira poder de compra aos portugueses mas – por paradoxal que isto
pareça – não está a tirar muito rendimento disponível à economia. A economia
está com aumento de salários, de emprego e de inflação. E que fazemos?
Incentivamos a procura.
É a política
estúpida
O Ministério de
Fernando Medina está cheio de economistas que sabem isto. O governo está a agir
assim por razões políticas: porque tem dificuldade em explicar como está a
encaixar tanto dinheiro, porque prefere aumentar despesa a descer impostos e a
pagar dívida, porque talvez não queira descer tanto o défice como seria possível
e porque está fragilizado por um mau arranque político desta legislatura e
precisa de popularidade.
Que isto aconteça
em Espanha, onde o governo está em farrapos, a pressão social é intensa e o
primeiro-ministro está com medo das próximas eleições, é uma coisa. Em Portugal
há estabilidade, há uma maioria absoluta no início… e há um PSD que ainda pede
mais aumento de despesa.
A sua *crítica:
“Queres cortar apoios aos pobres?”
A macroeconomia é
uma abstração, a vida real das pessoas é que interessa. E, na vida real, as
pessoas estão a perder poder de compra. Por isso, é fácil responder a este
texto acusando-me de defender cortes nos apoios sociais aos mais carenciados.
Não. Defendo mais
parcimónia na despesa e mais vigor no investimento, a não exclusão da classe
média e das empresas e, sobretudo, mais capacidade de ver e mostrar o longo
prazo. Este pacote de subsídios aponta para problemas no futuro, de inflação a
subir ou a descer mais devagar, de taxas de juro altas, de desvalorização de
rendimentos reais e de uma possível recessão em 2023 e com subida de
desemprego. Aí sim, será necessário ativar estabilizadores e apoiar os mais
necessitados. Com que dinheiro então, se já o estamos a gastar?
O governo há de
apresentar este ano crescimento económico alto, desemprego baixo, défice
controlado e dívida a cair em percentagem do PIB. Darão beijos a si próprios.
Mas quando o primeiro-ministro disse esta semana que “a força vem da calma”,
estaria também a sugerir que “para o ano logo se vê”? É que já se vê 2023 – e
será pior. Ainda diremos que 2022 foi de vacas gordas.


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