domingo, 4 de setembro de 2022

Fukuyama, a Ucrânia e a defesa da democracia liberal

 



OPINIÃO

Fukuyama, a Ucrânia e a defesa da democracia liberal

 

No Congresso dos EUA, os sucessivos pacotes de ajuda militar e financeira à Ucrânia têm sido aprovados por um número decrescente de republicanos. Trump é o derradeiro trunfo de Putin para vencer o Ocidente na Ucrânia.

 

Teresa de Sousa

4 de Setembro de 2022, 6:30

https://www.publico.pt/2022/09/04/opiniao/opiniao/fukuyama-ucrania-defesa-democracia-liberal-2019291

 

1. Num magnífico texto na revista “The Atlantic” sobre o discurso do Presidente Biden em Filadélfia, na quinta-feira passada, a jornalista e ensaísta Anne Applebaum cita Francis Fukuyama para lembrar que “a filosofia que, em última análise, criou a nossa democracia tinha como finalidade ‘baixar a temperatura da vida política’, retirando as questões sobre verdades essenciais de cima da mesa para que as pessoas pudessem viver em segurança”.

 

Continua a escritora americana que, nas democracias liberais, “os cidadãos são persuadidos a adoptar uma cultura de moderação, de contenção e de adesão ao império da lei (…)”. Applebaum recorda de novo Fukuyama para referir que ele também argumenta que os valores das democracias liberais são, por definição, “menos apelativos do que os que são oferecidos em sociedades vinculadas por uma única doutrina religiosa”.

 

Nem por acaso, Anne Applebaum estava em Lisboa para participar nas Conferências do Estoril, organizadas pela Nova School of Business and Economics, e Francis Fukuyama, que também participou nas conferências, foi o convidado de um jantar organizado pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica para falar sobre o seu livro “O Liberalismo e os seus descontentes”, publicado nos Estados Unidos em Maio, que já está traduzido em português pela D. Quixote.

 

Fukuyama tem escrito frequentemente sobre a guerra na Ucrânia, porque considera que o seu desfecho é vital para salvar a democracia à escala global. No jantar, falou da guerra para dizer que há uma real possibilidade que termine com uma derrota de Putin, contrariando a ideia generalizada de que se está num impasse militar, que ameaça prolongar-se indefinidamente.

 

Começou por explicar a decisão de escrever a sua obra mais recente em defesa do liberalismo – nasceu da entrevista que Vladimir Putin deu ao Financial Times, em 2019, na qual disse que o liberalismo era uma “doutrina obsoleta”. Não ignora que a democracia liberal está hoje sob um duplo ataque, à sua direita e à sua esquerda – à direita, pelo nacionalismo identitário; à esquerda, pelas chamadas “políticas de identidade”. Os dois extremos negam a ideia central do liberalismo de uma “humanidade comum” em que cada indivíduo nasce com os mesmos direitos fundamentais à vida e à dignidade. Esclareceu que hoje o perigo maior vem da direita radical.

 

Fukuyama conhece muito bem a Ucrânia, graças aos programas de cooperação de Stanford, onde lecciona, com as universidades ucranianas. Em 2014, quando da anexação da Crimeia e da ingerência russa no Donbass, escreveu que a Ucrânia seria “a linha da frente entre as democracias liberais e o mundo autoritário”. Ou, por outras palavras, a frente de batalha em que é possível derrotar a crença das lideranças chinesa e russa de que as democracias liberais estão em “declínio acelerado”.

 

Expôs os argumentos que podem levar à vitória da Ucrânia, na qual acredita. São vários. A Ucrânia representa hoje, apesar da guerra ou por causa dela, uma sociedade civil forte, mobilizada e determinada. Vemo-lo todos os dias. Na Rússia, tudo depende e é decidido por um só homem. A Ucrânia tem à sua disposição uma base de recrutamento de tropas mais vasta, do que a de Putin, que tem medo de recorrer a uma mobilização geral, preferindo enviar para a batalha recrutas das regiões mais periféricas e mais pobres.

 

O espírito que anima os governos da maioria das democracias europeias e de Washington mudou desde o início da invasão, quando se acreditou no Ocidente que o poderio militar da Rússia imporia facilmente à Ucrânia uma derrota ou quando a ideia de sentar os dois principais protagonistas – Putin e Zelensky – lhes parecia ainda uma forma de pôr termo ao conflito. O poderio militar russo revelou-se uma quimera. Hoje, a disposição das democracias é apoiar a Ucrânia até onde for preciso.

 

Fukuyama chama a atenção para a importância da contra-ofensiva ucraniana na região de Kherson. Se resultar, como acredita que pode resultar, servirá de suplemento de ânimo às opiniões públicas ocidentais – sobretudo europeias – para enfrentar as dificuldades do próximo Inverno. Haverá um fim à vista com a possibilidade de uma vitória ucraniana. Sabemos que a última aposta de Putin é a revolta das opiniões públicas europeias contra a carestia de vida. A decisão tomada no Kremlin de suspender “indefinidamente” o fornecimento de gás através do Nord Stream 1 quer dizer isso mesmo. Se a Ucrânia conseguir derrotar Putin, há a esperança de podermos “recriar o espírito de 1989, o que seria algo de muito bom”. Aliás, o académico americano confessou-se “maravilhado” com a resposta da União Europeia à guerra e “a reversão de 40 anos de política externa

 

2. Estas palavras inspiradoras de Fukuyama levam-nos de regresso aos EUA e ao discurso de Biden em Filadélfia, a Applebaum e ao argumento de Fukuyama de que os valores das democracias liberais são, por definição, menos apelativos às emoções das pessoas. “Esta é a origem profunda do mais grave problema que Biden enfrenta e não apenas ele: como mobilizar os cidadãos para defender a moderação, como criar entusiasmo por instituições que foram desenhadas para não excitar ninguém, como criar entusiasmo pelo centro político – as pessoas de todos os credos políticos que continuam a respeitar as leis e a compreender a razão pela qual são importantes?”

 

E, acima de tudo, como levar os americanos a compreender que o desafio colocado pelos “Republicanos MAGA” não é um desafio político normal. Não é, em suma, uma questão de divergências políticas sobre impostos, imigração, segurança social ou o aborto, nem sequer é ameaçador por ser conservador no sentido tradicional do termo. Os Republicanos de Trump são uma ameaça porque o seu líder “não aceita o resultado de eleições que perdeu”, não aceita que “o Estado de direito se lhe aplique”, “não adere à cultura de contenção, tolerância e moderação”. “Porque o seu objectivo é mudar o sistema político de forma a poder manter o poder mesmo que perca”, se preciso for pelo recurso à violência, como aconteceu no ataque ao Capitólio a 6 de Janeiro de 2021. Porque ele e os seus acólitos usam “linguagem que apela à violência”.

 

Applebaum nota que, até agora, Biden lidou com este desafio, em grande medida, ignorando-o e raramente pronunciando a palavra Trump. Mas interroga-se se esta atitude de contenção pode obter resultados numa “cultura tão barulhenta como a nossa, e num mundo em que as redes sociais promovem automaticamente as mensagens e os pensamentos mais emocionais”.

 

“A contenção pode parecer fraqueza ou indiferença.” Por isso, Biden “resolveu correr o risco, genuinamente assumido, de recorrer à linguagem emocional em defesa do nosso sistema político assente na lei”. Escolheu o Hall da Independência, em Filadélfia, onde estas regras foram escritas. Não tratou os “Republicanos MAGA” como um adversário político, mas como uma ameaça à democracia americana – “uma forma de extremismo que ameaça as próprias fundações da nossa república”. Apelou à acção, com uma veemência inusitada. “Sem responder à violência com violência, mas através da palavra incansável e do voto.”

 

Applebaum não ignora os riscos que esta mudança de Biden comporta. Já começou a ser criticado até por vozes moderadas, que alegam que foi apenas uma forma de campanha eleitoral a favor do Partido Democrata. Os republicanos acusam-no de querer dividir a nação. A Fox News diz que “criminalizou” a oposição. O apelo às emoções numa sociedade profundamente polarizada “comporta riscos”.

 

Biden acredita que ainda está a dirigir-se a uma vasta maioria de americanos, perfeitamente capazes de entender a sua mensagem. “O futuro da democracia na América depende de Biden ter ou não ter razão.”

 

3. Voltando a Fukuyama, o que pode acontecer na Ucrânia se os Republicanos vencerem as eleições de meio mandato, em Novembro, e capturarem o Congresso? O académico lembra que Trump nunca condenou a invasão russa, mesmo quando instigado a fazê-lo pelos jornalistas. No Congresso, os sucessivos pacotes de ajuda militar e financeira à Ucrânia têm sido aprovados por um número decrescente de republicanos. Trump é o derradeiro trunfo de Putin para vencer o Ocidente na Ucrânia.

 

Por isso Fukuyama tem razão quando diz que o destino das democracias liberais está hoje em jogo na frente de batalha ucraniana. Convém ler o seu livro. Ajuda a entender os riscos da radicalização política. Mas também as razões pelas quais a democracia pode ser o mais forte de todos os regimes.

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