OPINIÃO
Fukuyama, a Ucrânia e a defesa da democracia liberal
No Congresso dos EUA, os sucessivos pacotes de ajuda
militar e financeira à Ucrânia têm sido aprovados por um número decrescente de
republicanos. Trump é o derradeiro trunfo de Putin para vencer o Ocidente na
Ucrânia.
Teresa de Sousa
4 de Setembro de
2022, 6:30
https://www.publico.pt/2022/09/04/opiniao/opiniao/fukuyama-ucrania-defesa-democracia-liberal-2019291
1. Num magnífico
texto na revista “The Atlantic” sobre o discurso do Presidente Biden em
Filadélfia, na quinta-feira passada, a jornalista e ensaísta Anne Applebaum
cita Francis Fukuyama para lembrar que “a filosofia que, em última análise,
criou a nossa democracia tinha como finalidade ‘baixar a temperatura da vida
política’, retirando as questões sobre verdades essenciais de cima da mesa para
que as pessoas pudessem viver em segurança”.
Continua a
escritora americana que, nas democracias liberais, “os cidadãos são persuadidos
a adoptar uma cultura de moderação, de contenção e de adesão ao império da lei
(…)”. Applebaum recorda de novo Fukuyama para referir que ele também argumenta
que os valores das democracias liberais são, por definição, “menos apelativos
do que os que são oferecidos em sociedades vinculadas por uma única doutrina religiosa”.
Nem por acaso,
Anne Applebaum estava em Lisboa para participar nas Conferências do Estoril,
organizadas pela Nova School of Business and Economics, e Francis Fukuyama, que
também participou nas conferências, foi o convidado de um jantar organizado
pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica para falar sobre o
seu livro “O Liberalismo e os seus descontentes”, publicado nos Estados Unidos
em Maio, que já está traduzido em português pela D. Quixote.
Fukuyama tem
escrito frequentemente sobre a guerra na Ucrânia, porque considera que o seu
desfecho é vital para salvar a democracia à escala global. No jantar, falou da
guerra para dizer que há uma real possibilidade que termine com uma derrota de
Putin, contrariando a ideia generalizada de que se está num impasse militar,
que ameaça prolongar-se indefinidamente.
Começou por
explicar a decisão de escrever a sua obra mais recente em defesa do liberalismo
– nasceu da entrevista que Vladimir Putin deu ao Financial Times, em 2019, na
qual disse que o liberalismo era uma “doutrina obsoleta”. Não ignora que a
democracia liberal está hoje sob um duplo ataque, à sua direita e à sua
esquerda – à direita, pelo nacionalismo identitário; à esquerda, pelas chamadas
“políticas de identidade”. Os dois extremos negam a ideia central do
liberalismo de uma “humanidade comum” em que cada indivíduo nasce com os mesmos
direitos fundamentais à vida e à dignidade. Esclareceu que hoje o perigo maior
vem da direita radical.
Fukuyama conhece
muito bem a Ucrânia, graças aos programas de cooperação de Stanford, onde
lecciona, com as universidades ucranianas. Em 2014, quando da anexação da
Crimeia e da ingerência russa no Donbass, escreveu que a Ucrânia seria “a linha
da frente entre as democracias liberais e o mundo autoritário”. Ou, por outras
palavras, a frente de batalha em que é possível derrotar a crença das
lideranças chinesa e russa de que as democracias liberais estão em “declínio
acelerado”.
Expôs os
argumentos que podem levar à vitória da Ucrânia, na qual acredita. São vários.
A Ucrânia representa hoje, apesar da guerra ou por causa dela, uma sociedade
civil forte, mobilizada e determinada. Vemo-lo todos os dias. Na Rússia, tudo
depende e é decidido por um só homem. A Ucrânia tem à sua disposição uma base
de recrutamento de tropas mais vasta, do que a de Putin, que tem medo de
recorrer a uma mobilização geral, preferindo enviar para a batalha recrutas das
regiões mais periféricas e mais pobres.
O espírito que
anima os governos da maioria das democracias europeias e de Washington mudou
desde o início da invasão, quando se acreditou no Ocidente que o poderio
militar da Rússia imporia facilmente à Ucrânia uma derrota ou quando a ideia de
sentar os dois principais protagonistas – Putin e Zelensky – lhes parecia ainda
uma forma de pôr termo ao conflito. O poderio militar russo revelou-se uma
quimera. Hoje, a disposição das democracias é apoiar a Ucrânia até onde for
preciso.
Fukuyama chama a
atenção para a importância da contra-ofensiva ucraniana na região de Kherson.
Se resultar, como acredita que pode resultar, servirá de suplemento de ânimo às
opiniões públicas ocidentais – sobretudo europeias – para enfrentar as
dificuldades do próximo Inverno. Haverá um fim à vista com a possibilidade de
uma vitória ucraniana. Sabemos que a última aposta de Putin é a revolta das
opiniões públicas europeias contra a carestia de vida. A decisão tomada no
Kremlin de suspender “indefinidamente” o fornecimento de gás através do Nord
Stream 1 quer dizer isso mesmo. Se a Ucrânia conseguir derrotar Putin, há a
esperança de podermos “recriar o espírito de 1989, o que seria algo de muito
bom”. Aliás, o académico americano confessou-se “maravilhado” com a resposta da
União Europeia à guerra e “a reversão de 40 anos de política externa
2. Estas palavras
inspiradoras de Fukuyama levam-nos de regresso aos EUA e ao discurso de Biden
em Filadélfia, a Applebaum e ao argumento de Fukuyama de que os valores das
democracias liberais são, por definição, menos apelativos às emoções das
pessoas. “Esta é a origem profunda do mais grave problema que Biden enfrenta e
não apenas ele: como mobilizar os cidadãos para defender a moderação, como
criar entusiasmo por instituições que foram desenhadas para não excitar ninguém,
como criar entusiasmo pelo centro político – as pessoas de todos os credos
políticos que continuam a respeitar as leis e a compreender a razão pela qual
são importantes?”
E, acima de tudo,
como levar os americanos a compreender que o desafio colocado pelos
“Republicanos MAGA” não é um desafio político normal. Não é, em suma, uma
questão de divergências políticas sobre impostos, imigração, segurança social
ou o aborto, nem sequer é ameaçador por ser conservador no sentido tradicional
do termo. Os Republicanos de Trump são uma ameaça porque o seu líder “não
aceita o resultado de eleições que perdeu”, não aceita que “o Estado de direito
se lhe aplique”, “não adere à cultura de contenção, tolerância e moderação”.
“Porque o seu objectivo é mudar o sistema político de forma a poder manter o
poder mesmo que perca”, se preciso for pelo recurso à violência, como aconteceu
no ataque ao Capitólio a 6 de Janeiro de 2021. Porque ele e os seus acólitos
usam “linguagem que apela à violência”.
Applebaum nota
que, até agora, Biden lidou com este desafio, em grande medida, ignorando-o e
raramente pronunciando a palavra Trump. Mas interroga-se se esta atitude de
contenção pode obter resultados numa “cultura tão barulhenta como a nossa, e
num mundo em que as redes sociais promovem automaticamente as mensagens e os
pensamentos mais emocionais”.
“A contenção pode
parecer fraqueza ou indiferença.” Por isso, Biden “resolveu correr o risco,
genuinamente assumido, de recorrer à linguagem emocional em defesa do nosso
sistema político assente na lei”. Escolheu o Hall da Independência, em
Filadélfia, onde estas regras foram escritas. Não tratou os “Republicanos MAGA”
como um adversário político, mas como uma ameaça à democracia americana – “uma
forma de extremismo que ameaça as próprias fundações da nossa república”.
Apelou à acção, com uma veemência inusitada. “Sem responder à violência com
violência, mas através da palavra incansável e do voto.”
Applebaum não
ignora os riscos que esta mudança de Biden comporta. Já começou a ser criticado
até por vozes moderadas, que alegam que foi apenas uma forma de campanha
eleitoral a favor do Partido Democrata. Os republicanos acusam-no de querer
dividir a nação. A Fox News diz que “criminalizou” a oposição. O apelo às
emoções numa sociedade profundamente polarizada “comporta riscos”.
Biden acredita
que ainda está a dirigir-se a uma vasta maioria de americanos, perfeitamente
capazes de entender a sua mensagem. “O futuro da democracia na América depende
de Biden ter ou não ter razão.”
3. Voltando a
Fukuyama, o que pode acontecer na Ucrânia se os Republicanos vencerem as
eleições de meio mandato, em Novembro, e capturarem o Congresso? O académico
lembra que Trump nunca condenou a invasão russa, mesmo quando instigado a
fazê-lo pelos jornalistas. No Congresso, os sucessivos pacotes de ajuda militar
e financeira à Ucrânia têm sido aprovados por um número decrescente de
republicanos. Trump é o derradeiro trunfo de Putin para vencer o Ocidente na
Ucrânia.
Por isso Fukuyama
tem razão quando diz que o destino das democracias liberais está hoje em jogo
na frente de batalha ucraniana. Convém ler o seu livro. Ajuda a entender os
riscos da radicalização política. Mas também as razões pelas quais a democracia
pode ser o mais forte de todos os regimes.
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