sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Moradores do Bairro Alto desesperam: “A Lisboa nocturna nunca foi pensada”

 


LISBOA

Moradores do Bairro Alto desesperam: “A Lisboa nocturna nunca foi pensada”

 

Como “não houve planificação” no regresso à diversão nocturna e a câmara age com “o clássico ‘logo se vê’”, investigador diz que as tensões entre moradores e noctívagos “eram expectáveis”. Jordi Nofre defende que é urgente haver “uma mesa de diálogo” entre todas as partes.

 

João Pedro Pincha

21 de Outubro de 2021, 20:30

https://www.publico.pt/2021/10/21/local/noticia/moradores-bairro-alto-desesperam-lisboa-nocturna-pensada-1981980

 

Há muito tempo que Teresa Ferreira de Almeida não ia a Albufeira e o que viu por lá deixou-a “chocada”. Dois anos depois dessa visita, olha para o seu Bairro Alto e garante que há cada vez mais parecenças. As cenas que se habituou a ver no centro da cidade algarvia, com centenas de pessoas a divertirem-se durante toda a noite à porta de bares que mal se distinguem uns dos outros, tornaram-se costumeiras em frente à sua casa.

 

Habitante do histórico bairro lisboeta desde sempre e dona do restaurante Rosa da Rua, que é um dos mais duradouros da vizinhança, Teresa conheceu as diferentes vidas da zona – do surgimento da diversão nocturna nos anos 1980 à decadência de meados de 2000, seguindo-se a redescoberta a meio da década passada, alavancada pelo turismo. Problemas sempre houve, sublinha, mas o período pós-pandemia parece tê-los exacerbado.

 

A cidade nocturna nunca foi pensada. Tudo o que existe de políticas urbanas foi pensado para a cidade de dia. A questão é que estamos a avançar para ter uma cidade de 24 horas

Jordi Nofre

 

“O Bairro Alto não tem estrutura. Não tem casas de banho, não tem sítios para pôr o lixo, simplesmente não tem estrutura para aguentar milhares de pessoas”, afirma. “Se quiserem isto para o bairro, eu lamento”, desabafa Teresa. Um vizinho, José Pedro Baptista, decidiu congregar alguns moradores para escrever à junta e à câmara. “Eu não quero acabar com a noite, mas acho que há direitos que deviam estar antes dos outros: o direito ao descanso e à salubridade”, diz.

 

As suas queixas encaixam numa longa história de tensões num bairro que é um dos epicentros da noite lisboeta e, ao mesmo tempo, um bairro com residentes. “Chegámos a um ponto de loucura. São seis noites por semana de barulho até altas horas. Saímos de manhã e é só vidro partido. Parece que estamos num bairro medieval, está tudo tão sujo. Viver ali é impraticável neste momento.”

 

Teresa dá um exemplo: “Moro num terceiro andar e para conseguir ouvir a televisão tenho de ter o volume no máximo.” E não é só o barulho que a incomoda, mas os graffiti que se multiplicam, o cheiro a urina em cada esquina, a quase total impossibilidade de se deslocar de carro a partir de determinada hora. “Neste momento está impedida a minha liberdade de sair de casa”, lamenta.

 

Pensar para além da diversão

Manter o equilíbrio entre habitabilidade e vida nocturna é um desafio com tantos anos como aqueles em que se sai à noite para beber copos e dançar. Recentemente, as associações de moradores e comerciantes de diferentes bairros com movida vieram novamente a terreiro pedir mais regulação. A Junta de Freguesia da Misericórdia, que engloba Bairro Alto, Bica, Santa Catarina e Cais do Sodré, tenta evitar a multiplicação de colunas de som em plena rua, mas diz não conseguir combater sozinha “a onda de destruição” que se tem verificado.

 

Jordi Nofre, investigador principal do projecto LxNights, da Universidade Nova de Lisboa, diz que “era totalmente expectável a reapropriação do espaço e este ímpeto [das saídas à noite], como também eram expectáveis os problemas”, mas que “não houve uma planificação” por parte das autoridades. “Não houve co-governança com os actores locais para ver como é que podíamos reactivar o sector sem afectar os direitos dos outros. Não houve nada, foi abrir as portas e as pessoas que se desenrasquem”, acusa.

 

O académico, que há quatro anos propôs ao executivo de Fernando Medina a criação de uma Lisbon Nightlife Commission – que “ficou na gaveta” – diz que a animação nocturna é encarada como “elemento central” da promoção turística da cidade, mas que continua a faltar “uma visão institucional clara sobre a noite de Lisboa”.

 

“A cidade nocturna nunca foi pensada. Tudo o que existe de políticas urbanas foi pensado para a cidade de dia. A questão é que estamos a avançar para ter uma cidade de 24 horas”, comenta. Se assim é, há que reflectir sobre a diversão nocturna, mas não só – sobre transportes, actividades económicas, oferta cultural, segurança. “Mas temos sempre o clássico ‘logo se vê’”, lamenta Jordi Nofre, convicto de que a importância do turismo para a economia tem impedido um debate sério com a Câmara de Lisboa.

 

Para José Pedro Baptista, “o que seria bom era a junta, a câmara, os moradores, os bares e a polícia todos juntos a conversar” e, quem sabe, “fazer uma legislação específica para estes bairros”. Considera que “as pessoas têm o direito de beber até ao coma alcoólico se assim quiserem, mas não num bairro onde moram pessoas.” Questiona, meio na brincadeira: será preciso pôr um gradeamento à volta do Bairro Alto, como aconteceu em Santa Catarina?

 

“Tem de haver uma mesa de diálogo. A câmara municipal tem de se abrir a todas as perspectivas”, defende Jordi Nofre. Há alguma expectativa para ver como vai actuar a equipa de Carlos Moedas, que acaba de tomar posse e que prometeu a criação célere de uma assembleia de cidadãos que deverá reunir regularmente.

 

O investigador do LxNights tem algumas propostas. Em Berlim, relata Jordi, há espaços de diversão nocturna que passaram a abrir mais cedo para receber espectáculos, exposições e até reuniões comunitárias. “Seria uma forma de descomprimir essa pressão que existe na noite de Lisboa”, acredita. “E porque não recuperar a cena cultural da Av. de Roma? Ou de Alcântara? A ideia não é criar novos Bairros Altos ou novos Cais do Sodré, mas criar dinamização cultural que permita descentralizar.”

 

tp.ocilbup@ahcnip.oaoj

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