LISBOA
Moradores do Bairro Alto desesperam: “A Lisboa nocturna
nunca foi pensada”
Como “não houve planificação” no regresso à diversão
nocturna e a câmara age com “o clássico ‘logo se vê’”, investigador diz que as
tensões entre moradores e noctívagos “eram expectáveis”. Jordi Nofre defende
que é urgente haver “uma mesa de diálogo” entre todas as partes.
João Pedro Pincha
21 de Outubro de
2021, 20:30
Há muito tempo
que Teresa Ferreira de Almeida não ia a Albufeira e o que viu por lá deixou-a
“chocada”. Dois anos depois dessa visita, olha para o seu Bairro Alto e garante
que há cada vez mais parecenças. As cenas que se habituou a ver no centro da
cidade algarvia, com centenas de pessoas a divertirem-se durante toda a noite à
porta de bares que mal se distinguem uns dos outros, tornaram-se costumeiras em
frente à sua casa.
Habitante do
histórico bairro lisboeta desde sempre e dona do restaurante Rosa da Rua, que é
um dos mais duradouros da vizinhança, Teresa conheceu as diferentes vidas da
zona – do surgimento da diversão nocturna nos anos 1980 à decadência de meados
de 2000, seguindo-se a redescoberta a meio da década passada, alavancada pelo
turismo. Problemas sempre houve, sublinha, mas o período pós-pandemia parece
tê-los exacerbado.
A cidade nocturna nunca foi pensada. Tudo o que existe de
políticas urbanas foi pensado para a cidade de dia. A questão é que estamos a
avançar para ter uma cidade de 24 horas
Jordi Nofre
“O Bairro Alto
não tem estrutura. Não tem casas de banho, não tem sítios para pôr o lixo,
simplesmente não tem estrutura para aguentar milhares de pessoas”, afirma. “Se
quiserem isto para o bairro, eu lamento”, desabafa Teresa. Um vizinho, José
Pedro Baptista, decidiu congregar alguns moradores para escrever à junta e à
câmara. “Eu não quero acabar com a noite, mas acho que há direitos que deviam
estar antes dos outros: o direito ao descanso e à salubridade”, diz.
As suas queixas
encaixam numa longa história de tensões num bairro que é um dos epicentros da
noite lisboeta e, ao mesmo tempo, um bairro com residentes. “Chegámos a um
ponto de loucura. São seis noites por semana de barulho até altas horas. Saímos
de manhã e é só vidro partido. Parece que estamos num bairro medieval, está
tudo tão sujo. Viver ali é impraticável neste momento.”
Teresa dá um
exemplo: “Moro num terceiro andar e para conseguir ouvir a televisão tenho de
ter o volume no máximo.” E não é só o barulho que a incomoda, mas os graffiti
que se multiplicam, o cheiro a urina em cada esquina, a quase total
impossibilidade de se deslocar de carro a partir de determinada hora. “Neste
momento está impedida a minha liberdade de sair de casa”, lamenta.
Pensar para além
da diversão
Manter o
equilíbrio entre habitabilidade e vida nocturna é um desafio com tantos anos
como aqueles em que se sai à noite para beber copos e dançar. Recentemente, as
associações de moradores e comerciantes de diferentes bairros com movida vieram
novamente a terreiro pedir mais regulação. A Junta de Freguesia da
Misericórdia, que engloba Bairro Alto, Bica, Santa Catarina e Cais do Sodré,
tenta evitar a multiplicação de colunas de som em plena rua, mas diz não
conseguir combater sozinha “a onda de destruição” que se tem verificado.
Jordi Nofre,
investigador principal do projecto LxNights, da Universidade Nova de Lisboa,
diz que “era totalmente expectável a reapropriação do espaço e este ímpeto [das
saídas à noite], como também eram expectáveis os problemas”, mas que “não houve
uma planificação” por parte das autoridades. “Não houve co-governança com os
actores locais para ver como é que podíamos reactivar o sector sem afectar os
direitos dos outros. Não houve nada, foi abrir as portas e as pessoas que se
desenrasquem”, acusa.
O académico, que
há quatro anos propôs ao executivo de Fernando Medina a criação de uma Lisbon
Nightlife Commission – que “ficou na gaveta” – diz que a animação nocturna é
encarada como “elemento central” da promoção turística da cidade, mas que
continua a faltar “uma visão institucional clara sobre a noite de Lisboa”.
“A cidade
nocturna nunca foi pensada. Tudo o que existe de políticas urbanas foi pensado
para a cidade de dia. A questão é que estamos a avançar para ter uma cidade de
24 horas”, comenta. Se assim é, há que reflectir sobre a diversão nocturna, mas
não só – sobre transportes, actividades económicas, oferta cultural, segurança.
“Mas temos sempre o clássico ‘logo se vê’”, lamenta Jordi Nofre, convicto de
que a importância do turismo para a economia tem impedido um debate sério com a
Câmara de Lisboa.
Para José Pedro
Baptista, “o que seria bom era a junta, a câmara, os moradores, os bares e a
polícia todos juntos a conversar” e, quem sabe, “fazer uma legislação
específica para estes bairros”. Considera que “as pessoas têm o direito de
beber até ao coma alcoólico se assim quiserem, mas não num bairro onde moram
pessoas.” Questiona, meio na brincadeira: será preciso pôr um gradeamento à
volta do Bairro Alto, como aconteceu em Santa Catarina?
“Tem de haver uma
mesa de diálogo. A câmara municipal tem de se abrir a todas as perspectivas”,
defende Jordi Nofre. Há alguma expectativa para ver como vai actuar a equipa de
Carlos Moedas, que acaba de tomar posse e que prometeu a criação célere de uma
assembleia de cidadãos que deverá reunir regularmente.
O investigador do
LxNights tem algumas propostas. Em Berlim, relata Jordi, há espaços de diversão
nocturna que passaram a abrir mais cedo para receber espectáculos, exposições e
até reuniões comunitárias. “Seria uma forma de descomprimir essa pressão que
existe na noite de Lisboa”, acredita. “E porque não recuperar a cena cultural
da Av. de Roma? Ou de Alcântara? A ideia não é criar novos Bairros Altos ou
novos Cais do Sodré, mas criar dinamização cultural que permita
descentralizar.”
tp.ocilbup@ahcnip.oaoj
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