CRÓNICA ACÇÃO
PARALELA
A ideologia automobilista
António Guerreiro
22 de Outubro de
2021, 10:00
https://www.publico.pt/2021/10/22/culturaipsilon/cronica/ideologia-automobilista-1981774
Se o preço dos
combustíveis continuar a aumentar ao mesmo ritmo verificado nos últimos meses e
que há muito foi anunciado como inevitável, a “questão automóvel” (entre aspas,
para citar implicitamente outras célebres e sinistras “questões”) entrará numa
nova fase e o que as políticas ambientais não ousam nem conseguem impor será
resolvido por uma nova condição coerciva. No entanto, parafraseando uma célebre
boutade, é mais difícil imaginar o fim, ou mesmo o uso estrito, do automóvel
individual do que o fim do mundo.
Há alguns anos
surgiu na Suíça e na Alemanha o Partidos dos Automobilistas. Nunca conseguiu
atrair muitos votantes, mas conseguiu brandir um slogan que é um exemplo maior
de sofisma populista: “Nós somos todos automobilistas”. Os partidos dos
automobilistas são essencialmente reaccionários, isto é, o carburante dos
respectivos motores é o espírito de reacção. Ao que reagem eles? Contra as
novas tendências sociais e políticas que discriminam os automóveis e penalizam
os automobilistas. Os principais inimigos destes partidos são, por conseguinte,
os defensores de uma nova consciência ambiental. Os ecologistas erigiram o
carro a obrigatório ódio de estimação e os automobilistas devolvem-lhes esse
ódio com força redobrada. A ideologia automobilista encontrou assim as
condições ideais para se desenvolver e, contra ela, não há engarrafamentos
suficientes. Na termodinâmica automóvel, o engarrafamento é tão irremediável
(e, por isso, inscrito na lei “natural”) como a entropia. Pode ser muito
irritante, mas não há condição mais necessária para a ideologia automobilista do
que ficar parado por excesso de mobilidade potencial. O engarrafamento, para o
automobilista ideologizado, está para a circulação como a austeridade está para
o sistema económico: é um mal, mas um mal necessário. É no engarrafamento que
acontecem os raros momentos de solidariedade dos automobilistas. E quantos
encontros, quantas trocas de contactos propiciam esses tempos de circulação
nula? Sim, porque o engarrafamento não é um momento de imobilidade, mas o grau
zero da circulação.
Um crítico desta
ideologia pode dizer que o automóvel é, antes de mais, a eclosão triunfal do
individualismo moderno, o lazer, a família, o trabalho e a idiotia montados
sobre rodas; pode dar razão a quem descreveu os tipos ideais (os Idealtypen) do
neo-liberalismo como alegres automóveis, seres que que põem em movimento por si
mesmos para perseguir o bem que emana com brilho da produção e do consumo; pode
fazer uma caricatura sarcástica daquele antigo presidente da Câmara de Paris
que louvava o automóvel porque “a circulação é o Estado”; pode lembrar aquele
reverendo Moon que pretendia, com o seu projecto de túneis e auto-estradas
transcontinentais realizar um sonho da humanidade: circular sem
constrangimentos, sem paragens obrigatórias, sem sinais vermelhos, de Londres a
Tóquio; pode até analisar a psicologia do “homem médio” sobre rodas e forjar a
ideia de uma mentalidade auto-estrada; mas estaria a ser injusto, pretensioso
e, provavelmente muito pouco auto-crítico, já que o automóvel não vem equipado
com uma estupidez inerente às massas domesticadas e muito poucos são os
excêntricos que não participam desta ideologia automobilista.
Uma crítica da
ideologia começará certamente por dizer que o automobilista é uma eloquente
metáfora — e o apogeu — do nosso regime (neo)liberal, que nos faz acreditar que
cada um de nós se move pelos seus meios próprios, autónomos, que precisam de
ser treinados e estimulados porque deles dependem as conquistas que o mérito
torna possíveis. Mas não basta fazer uma crítica desta ideologia da “mobilização
total” num duplo sentido (físico e ideológico). Também é preciso fazer uma
etologia do animal automobilista que nós somos, antes que a espécie se extinga
por acção de uma catástrofe. Trata-se de uma etologia visceral porque o
automóvel tornou-se uma víscera do humano e do seu interior a realidade pode
ser observada nos seus extremos. Podemos começar por ver um filme de Godard, de
1967, Weekend. Mas aí eram outros tempos do petro-nomadismo automóvel, quando
mais altos tropismos ideológicos se erguiam, nas vésperas de uma tomada
piétonne das ruas de Paris por jovens estudantes, desautomobilizados. Hoje, as
guerras de peões e automobilistas já não são uma luta por um espaço político,
mas por um espaço vital.
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