AGRICULTURA
Der Spiegel descobre em Odemira uma agricultura que
agride o ambiente e os trabalhadores
Um proprietário admite à equipa de reportagem que os
padrões de qualidade dos supermercados britânicos são mais rigorosos que a lei
e as autoridades portuguesas.
Face ao diagnóstico da Der Spiegel, o JPS refere que o
ímpeto agrícola descrito só é possível porque o “Estado português abdicou de
cuidar e vigiar partes muito significativas do seu território, permitindo a
instalação de interesses que não devolvem nada à região e que estão em completa
contradição com os valores que se pretendem proteger” no Parque Natural do
Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.
Carlos Dias
30 de Agosto de
2021, 20:21
O semanário
alemão Der Spiegel publicou há uma semana uma extensa reportagem sobre as
culturas intensivas de frutos vermelhos (framboesas, morangos e mirtilos)
produzidos em Odemira para a Europa rica consumir ao pequeno-almoço. E o
retrato traçado é tudo menos abonatório para esta produção nacional: “Os
trabalhadores migrantes e a maior reserva natural do país estão a sofrer com o
boom” desta cultura na região, escreve
A revista alemã
deslocou uma equipa de reportagem que fez uma descrição pormenorizada do modelo
agrícola baseado em culturas de estufa e consumidora da água que foi, lê-se,
sonegada aos pequenos agricultores. “A maioria deles vive com uma pensão de 200
a 400 euros”, relata o semanário alemão, realçando a importância da agricultura
familiar. “Para pagar as contas, cultiva-se batata e feijão, junto com morango
e espinafre”. Mas em Março o acesso à água que era fornecida pela Associação de
Beneficiários do Mira (ABM) foi-lhes interdito. E quando reclamaram da
situação, “o chefe do lobby agrícola recomendou que eles, no futuro, regassem
as batatas com água da torneira.”
O Movimento
Juntos pelo Sudoeste (JPS), comentando a reportagem da Der
Spiegel, recorda a denúncia que fez em Março à decisão da ABM, lembrando
que esta entidade “recebe benefícios fiscais, paga impostos não se sabe bem
onde mas certamente não em Odemira e remunera a sua força laboral
pelo mínimo”.
O jornalista
acabara de constatar um dos mais chocantes absurdos do modelo agrícola que
continua a crescer em pleno parque natural do sudoeste alentejano, sem que as
autoridades portuguesas interviessem para devolver a água aos pequenos
regantes. A entidade que administra a água da albufeira do Mira “é controlada
pelos seus maiores usuários - os grandes proprietários”, lembra a reportagem do
Der Spiegel, confrontada, por outro agricultor, com mais uma das
“incongruências” do modelo agrícola instalado no Perímetro de Rega do Mira: “Os
grandes produtores estão a construir novas plantações directamente na costa
íngreme, sem nenhuma licença”.
Enquanto o
aumento da área de culturas cobertas de plástico prossegue na região, a seca
toma contornos dramáticos: “O baixo Mira está a secar, as plantas aquáticas
morrem e os biótopos desaparecem” em nome de um negócio de “247 milhões de
euros com frutos vermelhos para serem servidos ao pequeno-almoço na
Europa”, realça o semanário alemão.
O JPS reforça a
observação da revista alemã, acusando os proprietários das explorações de
frutos vermelhos de “operarem à margem da inexistente fiscalização portuguesa”,
capturando a água que fornece o” consumo humano nos concelhos de Odemira e
Aljezur”, uma crítica também extensível ao Estado Português, “culpado por total
omissão.”
As vendas ao
exterior de frutos vermelhos são três vezes mais altas hoje do que em 2015. E a
expectativa da indústria é de que o consumo quadruplique nos próximos
anos. Mais de 90% deste tipo de bagas são destinadas à exportação e
a Alemanha é o cliente mais importante depois da Holanda.
Exército de migrantes
Mas o
“florescente” negócio dos frutos vermelhos só funciona porque um “exército de
trabalhadores migrantes trabalha na sua colheita, muitos dos quais sabem tão
pouco sobre os seus direitos quanto sobre a língua portuguesa”, comenta o
semanário alemão. O seu número, consoante as estimativas, varia entre os 10.000
a 15.000 imigrantes, vindos de cada mais longe.
João Rosado, que
coordena a actividade de uma exploração de mirtilos com quase 100 hectares,
explica à reportagem da Der Spiegel que é importante para o bom sucesso da
exploração saber “reconhecer e usar os trabalhadores certos.” A maioria dos
quase 300 apanhadores de mirtilos “não tem mais de 1,70 metros de altura.
Pessoas mais altas não têm utilidade porque sofrem de dores nas costas mais
rapidamente”, explica o encarregado da exploração.
“O facto de
Portugal atrair tantos trabalhadores migrantes deve-se a um dos sistemas de
imigração mais liberal da Europa”, observa a reportagem da revista alemã,
surpreendida com a revelação de Lourenço Barral de Botton, que tem uma
exploração de mirtilos. “No ano passado, as nossas plantações foram
inspeccionadas pela Tesco [rede grossista britânica] com mais frequência
do que pelas autoridades portuguesas”, disse, encolhendo os ombros. Ou
seja, “os padrões de qualidade dos supermercados britânicos parecem mais
perigosos para ele do que a lei”, analisa a Der Spiegel.
João Rosado não
esconde o seu optimismo em relação ao futuro. “Se as coisas correrem melhor
depois da pandemia, precisaremos de uma terceira exploração. O negócio do
mirtilo está apenas a começar”, conclui o funcionário de uma das maiores
plantações deste tipo de bagas no concelho de Odemira.
Face ao
diagnóstico da Der Spiegel, o JPS refere que o ímpeto agrícola descrito só é
possível porque o “Estado português abdicou de cuidar e vigiar partes muito
significativas do seu território, permitindo a instalação de interesses que não
devolvem nada à região e que estão em completa contradição com os valores que
se pretendem proteger” no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.
O
PÚBLICO tentou, sem êxito, obter uma reacção da ABM a este retrato feito
pela revista alemã.



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