segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Der Spiegel descobre em Odemira uma agricultura que agride o ambiente e os trabalhadores

 




AGRICULTURA

Der Spiegel descobre em Odemira uma agricultura que agride o ambiente e os trabalhadores

 

Um proprietário admite à equipa de reportagem que os padrões de qualidade dos supermercados britânicos são mais rigorosos que a lei e as autoridades portuguesas.

 

Face ao diagnóstico da Der Spiegel, o JPS refere que o ímpeto agrícola descrito só é possível porque o “Estado português abdicou de cuidar e vigiar partes muito significativas do seu território, permitindo a instalação de interesses que não devolvem nada à região e que estão em completa contradição com os valores que se pretendem proteger” no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

 

Carlos Dias

30 de Agosto de 2021, 20:21

https://www.publico.pt/2021/08/30/local/noticia/der-spiegel-descobre-odemira-agricultura-agride-ambiente-trabalhadores-1975699?fbclid=IwAR249CfZDpRqnxEcQ9nIuBmq2VpuFleJNu0EsEqaaTVM2YqiZrjns3vBrD8

 

O semanário alemão Der Spiegel publicou há uma semana uma extensa reportagem sobre as culturas intensivas de frutos vermelhos (framboesas, morangos e mirtilos) produzidos em Odemira para a Europa rica consumir ao pequeno-almoço. E o retrato traçado é tudo menos abonatório para esta produção nacional: “Os trabalhadores migrantes e a maior reserva natural do país estão a sofrer com o boom” desta cultura na região, escreve

 

A revista alemã deslocou uma equipa de reportagem que fez uma descrição pormenorizada do modelo agrícola baseado em culturas de estufa e consumidora da água que foi, lê-se, sonegada aos pequenos agricultores. “A maioria deles vive com uma pensão de 200 a 400 euros”, relata o semanário alemão, realçando a importância da agricultura familiar. “Para pagar as contas, cultiva-se batata e feijão, junto com morango e espinafre”. Mas em Março o acesso à água que era fornecida pela Associação de Beneficiários do Mira (ABM) foi-lhes interdito. E quando reclamaram da situação, “o chefe do lobby agrícola recomendou que eles, no futuro, regassem as batatas com água da torneira.”

 

O Movimento Juntos pelo Sudoeste (JPS), comentando a reportagem da Der Spiegel, recorda a denúncia que fez em Março à decisão da ABM, lembrando que esta entidade “recebe benefícios fiscais, paga impostos não se sabe bem onde mas certamente não em Odemira e remunera a sua força laboral pelo mínimo”.

 

O jornalista acabara de constatar um dos mais chocantes absurdos do modelo agrícola que continua a crescer em pleno parque natural do sudoeste alentejano, sem que as autoridades portuguesas interviessem para devolver a água aos pequenos regantes. A entidade que administra a água da albufeira do Mira “é controlada pelos seus maiores usuários - os grandes proprietários”, lembra a reportagem do Der Spiegel, confrontada, por outro agricultor, com mais uma das “incongruências” do modelo agrícola instalado no Perímetro de Rega do Mira: “Os grandes produtores estão a construir novas plantações directamente na costa íngreme, sem nenhuma licença”.

 

Enquanto o aumento da área de culturas cobertas de plástico prossegue na região, a seca toma contornos dramáticos: “O baixo Mira está a secar, as plantas aquáticas morrem e os biótopos desaparecem” em nome de um negócio de “247 milhões de euros com frutos vermelhos para serem servidos ao pequeno-almoço na Europa”, realça o semanário alemão.

 

O JPS reforça a observação da revista alemã, acusando os proprietários das explorações de frutos vermelhos de “operarem à margem da inexistente fiscalização portuguesa”, capturando a água que fornece o” consumo humano nos concelhos de Odemira e Aljezur”, uma crítica também extensível ao Estado Português, “culpado por total omissão.”

 

As vendas ao exterior de frutos vermelhos são três vezes mais altas hoje do que em 2015. E a expectativa da indústria é de que o consumo quadruplique nos próximos anos. Mais de 90% deste tipo de bagas são destinadas à exportação e a Alemanha é o cliente mais importante depois da Holanda.

 

Exército de migrantes

Mas o “florescente” negócio dos frutos vermelhos só funciona porque um “exército de trabalhadores migrantes trabalha na sua colheita, muitos dos quais sabem tão pouco sobre os seus direitos quanto sobre a língua portuguesa”, comenta o semanário alemão. O seu número, consoante as estimativas, varia entre os 10.000 a 15.000 imigrantes, vindos de cada mais longe.

 

João Rosado, que coordena a actividade de uma exploração de mirtilos com quase 100 hectares, explica à reportagem da Der Spiegel que é importante para o bom sucesso da exploração saber “reconhecer e usar os trabalhadores certos.” A maioria dos quase 300 apanhadores de mirtilos “não tem mais de 1,70 metros de altura. Pessoas mais altas não têm utilidade porque sofrem de dores nas costas mais rapidamente”, explica o encarregado da exploração. 

 

“O facto de Portugal atrair tantos trabalhadores migrantes deve-se a um dos sistemas de imigração mais liberal da Europa”, observa a reportagem da revista alemã, surpreendida com a revelação de Lourenço Barral de Botton, que tem uma exploração de mirtilos. “No ano passado, as nossas plantações foram inspeccionadas pela Tesco [rede grossista britânica] com mais frequência do que pelas autoridades portuguesas”, disse, encolhendo os ombros. Ou seja, “os padrões de qualidade dos supermercados britânicos parecem mais perigosos para ele do que a lei”, analisa a Der Spiegel.

 

João Rosado não esconde o seu optimismo em relação ao futuro. “Se as coisas correrem melhor depois da pandemia, precisaremos de uma terceira exploração. O negócio do mirtilo está apenas a começar”, conclui o funcionário de uma das maiores plantações deste tipo de bagas no concelho de Odemira.

 

Face ao diagnóstico da Der Spiegel, o JPS refere que o ímpeto agrícola descrito só é possível porque o “Estado português abdicou de cuidar e vigiar partes muito significativas do seu território, permitindo a instalação de interesses que não devolvem nada à região e que estão em completa contradição com os valores que se pretendem proteger” no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

 

O PÚBLICO tentou, sem êxito, obter uma reacção da ABM a este retrato feito pela revista alemã.

 

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