EDITORIAL
A ameaça aos pequenos regantes do Mira
O caso do Mira, que o PÚBLICO em tempo denunciou, chegou
à imprensa internacional porque expõe de forma escandalosa um modelo de
desenvolvimento ambiental e socialmente iníquo
Manuel Carvalho
5 de Setembro de
2021, 22:30
https://www.publico.pt/2021/09/05/economia/editorial/ameaca-regantes-mira-1976385
Portugal é um
país cheio de paradoxos e um dos mais intrigantes é o que resulta do cepticismo
em relação ao aproveitamento dos escassos recursos naturais de que dispõe. A
água do Alqueva impulsionou uma forte dinâmica agrícola baseada no olival
intensivo e logo houve quem defendesse o regresso ao inviável cereal de
sequeiro ou às pastagens intensivas; as reservas de lítio podem dar origem a
uma fileira económica capaz de animar regiões deprimidas, mas logo geraram um
muro de resistência à sua exploração; a fileira do eucalipto alimenta uma
indústria de classe mundial, mas, ainda assim, o eucalipto tornou-se uma
espécie maldita e alvo de combate.
Há uma razão
capaz de explicar este paradoxo: o limite entre a exploração sustentável e o
seu abuso. A monocultura excessiva do Alqueva, o crescimento até ao limiar da
sustentabilidade do perímetro de rega do Mira ou a expansão descontrolada do
eucalipto tornam pertinente a ideia de que em Portugal há uma propensão
predatória, baseada na utilização desregrada e irresponsável dos recursos.
Mesmo que a agricultura ou florestação intensiva beneficiem a economia do país
no seu todo, acabam por beneficiar em particular os que os as exploram. E a
causar danos, ambientais ou outros, à comunidade em geral.
É neste ponto que
vale a pena olhar para o que se passa no Mira. Havendo escassez de água, é
recomendável que haja uma redução do seu uso. Mas nessa deliberação, era fundamental
que os pequenos agricultores fossem protegidos. Porque as suas práticas
agrícolas são por natureza mais sustentáveis, como defende a FAO. Porque
precisam de menos água. Porque conservam a paisagem agrícola nas zonas mais
desfavorecidas. Serem penalizados com aumentos de preços que os forçam a
reduzir ou a suspender a sua actividade é um atentado contra a equidade e a
racionalidade que deve presidir ao uso de recursos nacionais, mesmo quando são
concessionados.
O caso do Mira,
que o PÚBLICO em tempo denunciou, chegou à imprensa internacional porque expõe
de forma escandalosa um modelo de desenvolvimento ambiental e socialmente
iníquo. O Ministério da Agricultura e o Governo não podem cruzar os braços e
dizer que o problema é dos regantes. Tem de agir. É mais inteligente reduzir a
área de irrigação intensiva do Mira para a ajustar aos recursos disponíveis do
que penalizar a pequena agricultura familiar. Não o fazer é dar argumentos aos
fundamentalistas que são contra qualquer exploração económica de recursos
naturais.
Há soluções de
equilíbrio e essas soluções têm de ser importadas dos países desenvolvidos. O
modelo do Mira nada tem a ver com isso: pelo contrário, lembra as actividades
predatórias das multinacionais no Terceiro Mundo.
tp.ocilbup@ohlavrac.leunam


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