segunda-feira, 6 de setembro de 2021

A ameaça aos pequenos regantes do Mira

 



EDITORIAL

A ameaça aos pequenos regantes do Mira

 

O caso do Mira, que o PÚBLICO em tempo denunciou, chegou à imprensa internacional porque expõe de forma escandalosa um modelo de desenvolvimento ambiental e socialmente iníquo

 

Manuel Carvalho

5 de Setembro de 2021, 22:30

https://www.publico.pt/2021/09/05/economia/editorial/ameaca-regantes-mira-1976385

 

Portugal é um país cheio de paradoxos e um dos mais intrigantes é o que resulta do cepticismo em relação ao aproveitamento dos escassos recursos naturais de que dispõe. A água do Alqueva impulsionou uma forte dinâmica agrícola baseada no olival intensivo e logo houve quem defendesse o regresso ao inviável cereal de sequeiro ou às pastagens intensivas; as reservas de lítio podem dar origem a uma fileira económica capaz de animar regiões deprimidas, mas logo geraram um muro de resistência à sua exploração; a fileira do eucalipto alimenta uma indústria de classe mundial, mas, ainda assim, o eucalipto tornou-se uma espécie maldita e alvo de combate.

 

Há uma razão capaz de explicar este paradoxo: o limite entre a exploração sustentável e o seu abuso. A monocultura excessiva do Alqueva, o crescimento até ao limiar da sustentabilidade do perímetro de rega do Mira ou a expansão descontrolada do eucalipto tornam pertinente a ideia de que em Portugal há uma propensão predatória, baseada na utilização desregrada e irresponsável dos recursos. Mesmo que a agricultura ou florestação intensiva beneficiem a economia do país no seu todo, acabam por beneficiar em particular os que os as exploram. E a causar danos, ambientais ou outros, à comunidade em geral.

 

É neste ponto que vale a pena olhar para o que se passa no Mira. Havendo escassez de água, é recomendável que haja uma redução do seu uso. Mas nessa deliberação, era fundamental que os pequenos agricultores fossem protegidos. Porque as suas práticas agrícolas são por natureza mais sustentáveis, como defende a FAO. Porque precisam de menos água. Porque conservam a paisagem agrícola nas zonas mais desfavorecidas. Serem penalizados com aumentos de preços que os forçam a reduzir ou a suspender a sua actividade é um atentado contra a equidade e a racionalidade que deve presidir ao uso de recursos nacionais, mesmo quando são concessionados.

 

O caso do Mira, que o PÚBLICO em tempo denunciou, chegou à imprensa internacional porque expõe de forma escandalosa um modelo de desenvolvimento ambiental e socialmente iníquo. O Ministério da Agricultura e o Governo não podem cruzar os braços e dizer que o problema é dos regantes. Tem de agir. É mais inteligente reduzir a área de irrigação intensiva do Mira para a ajustar aos recursos disponíveis do que penalizar a pequena agricultura familiar. Não o fazer é dar argumentos aos fundamentalistas que são contra qualquer exploração económica de recursos naturais.

 

Há soluções de equilíbrio e essas soluções têm de ser importadas dos países desenvolvidos. O modelo do Mira nada tem a ver com isso: pelo contrário, lembra as actividades predatórias das multinacionais no Terceiro Mundo.

 

tp.ocilbup@ohlavrac.leunam

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