sábado, 24 de julho de 2021

Que farei eu com todo este poder? (Parte II)

 



OPINIÃO

Que farei eu com todo este poder? (Parte II)

 

A impotência de António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, a dupla de políticos mais potentes desde 1991, é uma tremenda frustração.

 

João Miguel Tavares

24 de Julho de 2021, 0:00

https://www.publico.pt/2021/07/24/opiniao/opiniao/farei-parte-ii-1971558

 

Dá-se este perturbante paradoxo: António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa são a dupla política mais poderosa deste país dos últimos 30 anos (a única concorrência é Cavaco/Soares, na época das duas maiorias absolutas do PSD), e pura e simplesmente não se vislumbra o que querem eles fazer com esse poder, e quais as suas visões transformadoras do país. Não há sinal mais profundo, e mais assustador, deste nosso regime em processo de esgotamento, incapaz de enfrentar os seus problemas estruturais, de se libertar dos constrangimentos interiores e de ambicionar mais do que a mera gestão do que vai acontecendo, pintalgada com três ou quatro proclamações vazias sobre o futuro (a “descarbonização”, as “qualificações”, a “digitalização”, o “mar”), para distrair incautos.

 

Os leitores com melhor memória recordar-se-ão que utilizei este mesmo título num artigo de Março, após a tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa. Escrevi nessa altura, após 2,5 milhões de eleitores terem enfrentado uma pandemia para votar nele, que Marcelo era “o político mais poderoso de Portugal; o Presidente de direita eleito maioritariamente com votos de esquerda; a pessoa em quem os portugueses mais confiam na era de todas as desconfianças”. E perguntava: o que fazer com tanto poder?

 

Na quarta-feira, durante o debate do Estado da Nação, confrontado com a confrangedora miséria em que se tornou o PSD de Rui Rio, dei por mim a dizer mais ou menos o mesmo de António Costa. E afirmei algo que gostaria de repetir aqui hoje: ao não arriscar o afastamento da esquerda radical, António Costa pode vir a ser primeiro-ministro até 2027, mas jamais ficará na História por alguma coisa que tenha feito por Portugal, à excepção da habilidosa manutenção do seu cargo e do domínio político do seu partido. Com tanto poder nas mãos, e com a pior oposição de todos os tempos democráticos, António Costa opta por não fazer nada pelo país, porque prefere fazer tudo pelo PS.

 

A impotência da dupla de políticos mais potentes desde 1991 é uma tremenda frustração, porque a nenhum deles falta capacidade para motivar os portugueses a serem mais do que caseiros do rectângulo pobre e mendicante da Europa. Dá-se muitas vezes o caso de haver gente com excelentes ideias e zero capacidade para as implementar. Mas o que dizer daqueles que têm nas mãos os instrumentos da mudança, e que ainda assim preferem não correr riscos? Dos que preferem não reconhecer evidências do tamanho de palácios quanto ao envelhecimento do país e à insustentável dependência do Estado de uma percentagem cada vez mais elevada da população? Dos que preferem envolver-se em narrativas de dissimulação, que ora retratam a austeridade do passado como uma opção ideológica, ora nos enganam com o realismo mágico socialista que promete dinheiro caído do céu, ou – enquanto as comportas do céu não abrem – de Bruxelas?

 

A mais terrível das impotências não é querer e não poder – é poder e não querer. E é esta impotência que se exibe diariamente à nossa frente

 

Há dias, um leitor provocou-me: “Antes era o Paraíso – o governo de Passos, naquele tempo é que era bom, só bons políticos e boas pessoas, tudo competente, agora é tudo mau.” Respondi-lhe que o governo de Passos não era bom, mas sabia, pelo menos, que as coisas estavam mal. E há uma enorme diferença entre ter coragem para enfrentar a realidade, ou viver num permanente estado de embuste, só porque é a forma mais fácil e cómoda de gerir o presente. A mais terrível das impotências não é querer e não poder – é poder e não querer. E é esta impotência que se exibe diariamente à nossa frente.

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