OPINIÃO
Para nosso bem
Como é possível que os socialistas, em todo o caso a
maioria dos dirigentes e deputados, se tenham deixado atrair pela volúpia da
censura, da intoxicação e do controlo da expressão e do pensamento?
António Barreto
24 de Julho de
2021, 0:15
https://www.publico.pt/2021/07/24/opiniao/opiniao/bem-1971629
Há quem pense que
as liberdades e os direitos fundamentais, sobretudo os cívicos e os políticos,
assim como os valores morais e culturais, devem depender do dinheiro, do nome e
da boa educação. Em geral, essas pessoas situam-se à direita. Mas também há os
que acreditam que os direitos e as liberdades dependem do poder, do partido e
da classe social. Em geral, essas pessoas situam-se à esquerda. Tanto num caso
como noutro, estamos, evidentemente, diante de ditaduras e de sociedades
despóticas. Em comum apreciam as suas liberdades, não as de todos. Querer a
liberdade para si não é sinal de liberdade.
É verdade que os
interesses são muito fortes na formação de opiniões e os seres humanos são egoístas.
Assim, é natural que primeiro se queira as liberdades e os direitos para si,
depois para os outros. Talvez. Mas também é verdade que a humanidade fez alguns
progressos e que os seres humanos, alguns pelo menos, são solidários. O que
quer dizer que também há gente que quer a liberdade e os direitos para os
outros. Há gente que entende mesmo que a sua liberdade e os seus direitos só
fazem sentido se forem também a liberdade e os direitos de todos. A melhor vida
em comum, em sociedade, é justamente essa, a que entende que os direitos e a
liberdade devem ser entendidos como bem comum. E que a liberdade e os direitos
de todos exigem a diferença e a contradição, sem exclusão. E sem a ideia de que
a liberdade tem apenas um sentido e que esse sentido deve ser imposto a todos.
As direitas nunca
gostaram particularmente das liberdades, nem dos direitos democráticos, excepto
quando se sentem ameaçadas. As direitas são ciosas das liberdades dos seus
correligionários, dos nomes de famílias ilustres, dos poderosos e dos
religiosos conservadores. As esquerdas são atentas às liberdades e aos direitos
dos seus camaradas, da sua classe social e dos seus intelectuais orgânicos,
nunca das dos seus adversários.
Historicamente,
os socialistas ocuparam um lugar singular. Entre todos, foram os que se
preocuparam quase sempre com as liberdades de todos. Tentaram encontrar uma
ponte entre liberais e jacobinos, entre mercado e Estado, entre maçonaria e
Igreja. Até entre republicanos e monárquicos. O seu papel na democracia portuguesa
não se define pelos seus contributos para a economia e o desenvolvimento, mas
sim por este lugar singular, o de força charneira e de mediador.
Com a lei dos
direitos digitais e as novas tentativas de controlar a expressão, as
narrativas, o tom e a opinião, os socialistas estão a destruir esse lugar
especial. Eles gostam de afirmar, com evidente marialvismo, que “não recebem de
ninguém lições de democracia”. Mas é frase para esquecer. Qualquer democrata
sério sabe que está sempre a receber lições de democracia e de liberdade.
Verdade é que, com essa malfadada lei e com outros fenómenos convergentes, os
socialistas estão a abrir um caminho sem regresso.
Já tivemos uma
manifestação de dezenas de académicos, ou antes, de universitários que
propuseram às autoridades que fossem criados mecanismos de monitorização do
pensamento e da expressão. A pretexto de defender a verdade e a correcção das
narrativas e dos valores, os autores reclamavam ciência e bondade, mas
realmente convocavam a censura.
O Governo e a maioria parlamentar não querem ser eles
próprios a controlar: querem associar a esta tarefa execrável de delação e
censura as instituições e organizações da sociedade civil. Partindo da ideia de
que cada português é, como noutros tempos, um polícia e um inquisidor
Já existem
instituições europeias, financiadas pela UE, que zelam pela verdade e pela
virtude, que se ocupam dos factos e dos discursos. Felizes de nós, europeus,
que temos uma grande instituição, uma mãe zelosa, uma União que financia
organismos que se ocupam da verdade, das narrativas, da desinformação e das
falsas notícias. O Estado português colabora. O Governo e o Parlamento
acrescentam mesmo mecanismos de controlo, com que criam um quadro de honra do
comportamento.
Já temos uma lei
aprovada por grande maioria com a qual as autoridades patrocinam instituições
privadas e corporativas a fim de fazer com que tais aberrações monitorizem a
expressão e o discurso público. Esta lei encontra-se agora em fase de
improvável correcção, mas não de pura e simples revogação, que era o único
método decente. Já há ideias absurdas que propõem instituições que distribuam
selos de garantia e certificados de verdade, correcção e competência para
avaliar os outros. O Governo e a maioria parlamentar não querem ser eles
próprios a controlar: querem associar a esta tarefa execrável de delação e
censura as instituições e organizações da sociedade civil. Partindo da ideia de
que cada português é, como noutros tempos, um polícia e um inquisidor.
A completar este
dispositivo de controlo, temos a pressão insuportável para o desenvolvimento,
nas escolas, das disciplinas de formação moral. A ideia é, mais uma vez, a da
criação de bons cidadãos, isto é, de difundir bons valores. Esta deriva não
democrática e manipuladora é uma tentativa de regular a filosofia, o
pensamento, a cultura, a moral e os valores das populações escolares. Entendem
os seus autores que a escola é o instrumento de formação de espíritos, de
aprendizagem e de convencimento dos valores nas artes, na cultura, na
sexualidade, na religião, no civismo. O Santo Ofício, em seu tempo, também
olhava com atenção para a blasfémia e a heresia. Também se ocupava das crenças
indevidas e dos cismas.
Convém não esquecer: uma autoridade que se ocupa da
mentira acaba por se ocupar da verdade. Uma entidade pública que vigia a
desinformação acaba por criar a informação. Pela verdade e para nosso bem: o
despotismo começa sempre aí
Como é possível
que os socialistas, em todo o caso a maioria dos dirigentes e deputados, se
tenham deixado atrair pela volúpia da censura, da intoxicação e do controlo da
expressão e do pensamento? Em toda esta história, à volta destes tristes
acontecimentos, este é o facto mais surpreendente: o papel desempenhado pelos
socialistas. Estes querem dar continuidade a uma frase atribuída ao rei liberal
D. Pedro IV. Ao chegar ao largo de Mindelo, horas antes do desembarque, o
monarca, dirigindo-se a Mouzinho da Silveira, terá dito: “Vamos lá dar a
liberdade a estes Portugueses, quer eles queiram, quer não!” É possível que
seja verdade. É provável que seja uma invenção dos jacobinos que se ocupam da
liberdade dos portugueses. Como pode ser uma anedota miguelista ou salazarista
para aludir a um pretenso afecto dos portugueses pela autoridade.
Mas é, em todo o
caso, o melhor retrato dos socialistas actualmente. Querem dar aos Portugueses
a liberdade, o bom comportamento e a virtude. E querem ser o instrumento de
luta contra a desinformação e a mentira. Ora, convém não esquecer: uma
autoridade que se ocupa da mentira acaba por se ocupar da verdade. Uma entidade
pública que vigia a desinformação acaba por criar a informação. Pela verdade e
para nosso bem: o despotismo começa sempre aí.


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