ANÁLISE
Que é o anti-semitismo? Regressa o debate a Israel
Ao definir o anti-semitismo como uma forma de racismo e
de ódio ao outro, o ministro Yair Lapid coloca o Holocausto no mesmo plano que
o genocídio arménio ou o dos tutsis do Ruanda. É uma tese que tem efeitos
políticos.
Jorge Almeida
Fernandes
24 de Julho de
2021, 7:00
https://www.publico.pt/2021/07/24/mundo/analise/antisemitismo-regressa-debate-israel-1971616
Há questões que
voltam sempre. Que é o anti-semitismo? O israelita Yair Lapid, ministro dos
Negócios Estrangeiros, reabriu o debate em Israel. Toca um problema tão mais
interessante quanto se segue a anos de manipulação política do tema por Bibi
Netanyahu. Abriu, ao mesmo tempo, uma batalha diplomática com Varsóvia, a
propósito do anti-semitismo e da verdade histórica.
Ganhemos um pouco
de perspectiva. Raul Hilberg (1926-2007), o grande historiador do Holocausto,
concluiu a sua obra-prima, A Destruição dos Judeus Europeus (1961), com um
capítulo intitulado “As implicações”.
Nele lembrava a
dimensão ética da catástrofe e interrogava-se sobre o destino da grande
promessa dos judeus: “Nunca mais.” Na derradeira versão, de 2003, prolongou a
reflexão até aos nossos dias, culminando na evocação do genocídio dos tutsis no
Ruanda, “à vista de todo o mundo”. Ninguém respondeu ao desafio, acusava. “Os
juristas do Departamento de Estado, nos Estados Unidos, recusaram até o emprego
do termo genocídio a propósito do Ruanda, com medo que isso os obrigasse a
fazer qualquer coisa.” O Conselho de Segurança da ONU adoptou, a 17 de Maio de
1994, uma “resolução unânime” condenando o “massacre de civis”. A última frase
do livro é logicamente esta: “A História tinha-se repetido”.
No dia 14, Yair
Lapid discursou no 7.º Forum Global para Combate ao Anti-semitismo, em
Jerusalém. A primeira parte da intervenção foi dedicada à memória do pai, o
antigo ministro Yosef “Tommy” Lapid, que passou parte da infância no gueto de
Budapeste, e à história do avô, assassinado no campo de concentração de
Mauthausen.
Depois, passou à
reflexão. “É tempo de contar a história verdadeira dos anti-semitas. (…) Os
anti-semitas não estavam só no gueto de Budapeste. Anti-semitas eram os membros
da tribo hutu no Ruanda, que massacraram os tutsis. Anti-semitas são aqueles
muçulmanos que mataram mais de 20 milhões de irmãos muçulmanos na década
passada. Anti-semitas são o Daesh e o Boko Haram [da Nigéria].”
Onde quer chegar
Lapid? “O anti-semitismo é racismo, falemos portanto a todos os que se opõem ao
racismo. Anti-semitismo é o ódio aos outros. (…) Odeio-o, logo quero-o morto.”
Conclusão: as
vítimas do genocídio arménio e dos massacres do Ruanda eram vítimas nacionais
odiadas, tal como os judeus o foram. “Anti-semitismo não é o primeiro nome do
ódio: é o nome da família.”
“Nunca mais”
Num editorial
intitulado “Lapid teve razão”, comentou o diário Haaretz: “O Holocausto foi um
evento único na História humana. Não teve precedentes com um programa genocida
tão sistemático e satânico. No entanto, devemos reconhecer o facto de que o
ódio aos judeus não é diferente do ódio a outras nacionalidades e raças.”
Outro problema é
o uso que Israel faz do anti-semitismo para refutar a crítica da política de
ocupação dos territórios palestinianos. “Tais críticas são automaticamente
qualificadas de anti-semitismo.” Esta tem sido uma estratégia eficiente, em
particular na Europa.
Lida na sequência
de Hilberg, a mensagem de Lapid nada traz de novo. Mas, sublinha o analista
Anshel Pfeffer, toca num ponto nevrálgico: “Quão únicos são os judeus?”
“Lido no seu
contexto, não há nada no discurso de Lapid que relativize o Holocausto ou o
anti-semitismo. Pelo contrário. O que Lapid propõe são lições e soluções
universais para o anti-semitismo que muitos israelitas - depois de anos em que
Netanyahu e os seus apoiantes dominaram o discurso – não estão preparados para
ouvir. Em Israel, a grande advertência do Holocausto, ‘Nunca mais’, que
significa ‘nunca mais para ninguém’, passou inclusive a ser interpretada como
‘nunca mais para nós.”
A direita
nacionalista, a começar por Netanyahu, imediatamente abriu fogo sobre Lapid,
procurando anular o debate que ele abriu. Diz Bibi numa resposta a Lapid: “A
verdade histórica é que o anti-semitismo era o ódio aos judeus e o novo
anti-semitismo é o ódio ao Estado de Israel.”
Responde o
Haaretz: “É uma ultrajosa reivindicação nacionalista que coloca o povo judaico
no centro da História e que relega as outras vítimas do racismo para um lugar
secundário.”
Durante anos,
Netanyahu manipulou o anti-semitismo de acordo com os seus interesses
políticos. Não teve escrúpulos em dar cobertura aos líderes nacionalistas
da Hungria e da Polónia, os mesmos que negam o anti-semitismo que vitimou os
judeus polacos e húngaros. Ele mesmo impediu o embaixador israelita em
Budapeste de denunciar actos anti-semitas de Viktor Orbán.
O conflito com a
Polónia
Esta foi uma
semana intensa para Lapid, para o cidadão e para o ministro. O judeu Lapid
abriu um debate. Mas também o ministro não tem tido repouso. Abriu inclusive
uma nova frente de combate com a Polónia a propósito da restituição de bens das
vítimas do Holocausto.
O governo polaco
garante que nada pagará. Foi um crime alemão, diz. Lapid sabe perfeitamente que
que nenhuma reparação será feita. Sabe que o governo de Varsóvia jamais
satisfará um pedido que nega a sua versão da História da II Guerra Mundial. A
manipulação da História é um ponto central da sua agenda política.
Mas é exactamente
este o objectivo de Lapid: denunciar a “narrativa” de Jaroslaw Kaczynski,
segundo a qual os polacos, e não os judeus, foram as primeiras vítimas. No
Holocausto, morreram três milhões de judeus polacos.
Lapid sabe que,
neste diferendo, encontrará apoios na Europa, onde Kaczynski não é popular. Por
outro lado, procura o apoio do Congresso americano para pressionar Varsóvia,
que já recebeu uma carta de pressão assinada por vários senadores, com Marco
Rubio à cabeça.
A ofensiva de
Lapid contra Varsóvia revela, ao mesmo tempo, uma viragem diplomática.
Netanyahu tinha uma “fobia irracional” em relação à União Europeia. E
privilegiou uma aliança tácita com Budapeste e Varsóvia, esperando que o Grupo
de Visegrado lhe pudesse servir de escudo contra eventuais decisões de Bruxelas
sobre o Médio Oriente. É uma história a seguir de perto.
Nem tudo corre
bem a Lapid. Confrontado como a decisão da Ben and Jerrry’s, filial da
Unilever, de deixar de vender os gelados nos colonatos israelitas, o governo
israelita avisou a multinacional sobre as “graves consequências” da decisão. Um
ministro israelita está sempre enredado nas contradições de Israel: Lapid
acusou a Unilever de “se render ao anti-semitismo”.


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