domingo, 25 de julho de 2021

Que é o anti-semitismo? Regressa o debate a Israel

 



ANÁLISE

Que é o anti-semitismo? Regressa o debate a Israel

 

Ao definir o anti-semitismo como uma forma de racismo e de ódio ao outro, o ministro Yair Lapid coloca o Holocausto no mesmo plano que o genocídio arménio ou o dos tutsis do Ruanda. É uma tese que tem efeitos políticos.

 

Jorge Almeida Fernandes

24 de Julho de 2021, 7:00

https://www.publico.pt/2021/07/24/mundo/analise/antisemitismo-regressa-debate-israel-1971616

 

Há questões que voltam sempre. Que é o anti-semitismo? O israelita Yair Lapid, ministro dos Negócios Estrangeiros, reabriu o debate em Israel. Toca um problema tão mais interessante quanto se segue a anos de manipulação política do tema por Bibi Netanyahu. Abriu, ao mesmo tempo, uma batalha diplomática com Varsóvia, a propósito do anti-semitismo e da verdade histórica.

 

Ganhemos um pouco de perspectiva. Raul Hilberg (1926-2007), o grande historiador do Holocausto, concluiu a sua obra-prima, A Destruição dos Judeus Europeus (1961), com um capítulo intitulado “As implicações”.

 

Nele lembrava a dimensão ética da catástrofe e interrogava-se sobre o destino da grande promessa dos judeus: “Nunca mais.” Na derradeira versão, de 2003, prolongou a reflexão até aos nossos dias, culminando na evocação do genocídio dos tutsis no Ruanda, “à vista de todo o mundo”. Ninguém respondeu ao desafio, acusava. “Os juristas do Departamento de Estado, nos Estados Unidos, recusaram até o emprego do termo genocídio a propósito do Ruanda, com medo que isso os obrigasse a fazer qualquer coisa.” O Conselho de Segurança da ONU adoptou, a 17 de Maio de 1994, uma “resolução unânime” condenando o “massacre de civis”. A última frase do livro é logicamente esta: “A História tinha-se repetido”.

 

No dia 14, Yair Lapid discursou no 7.º Forum Global para Combate ao Anti-semitismo, em Jerusalém. A primeira parte da intervenção foi dedicada à memória do pai, o antigo ministro Yosef “Tommy” Lapid, que passou parte da infância no gueto de Budapeste, e à história do avô, assassinado no campo de concentração de Mauthausen.

 

Depois, passou à reflexão. “É tempo de contar a história verdadeira dos anti-semitas. (…) Os anti-semitas não estavam só no gueto de Budapeste. Anti-semitas eram os membros da tribo hutu no Ruanda, que massacraram os tutsis. Anti-semitas são aqueles muçulmanos que mataram mais de 20 milhões de irmãos muçulmanos na década passada. Anti-semitas são o Daesh e o Boko Haram [da Nigéria].”

 

Onde quer chegar Lapid? “O anti-semitismo é racismo, falemos portanto a todos os que se opõem ao racismo. Anti-semitismo é o ódio aos outros. (…) Odeio-o, logo quero-o morto.”

 

Conclusão: as vítimas do genocídio arménio e dos massacres do Ruanda eram vítimas nacionais odiadas, tal como os judeus o foram. “Anti-semitismo não é o primeiro nome do ódio: é o nome da família.”

 

“Nunca mais”

Num editorial intitulado “Lapid teve razão”, comentou o diário Haaretz: “O Holocausto foi um evento único na História humana. Não teve precedentes com um programa genocida tão sistemático e satânico. No entanto, devemos reconhecer o facto de que o ódio aos judeus não é diferente do ódio a outras nacionalidades e raças.”

 

Outro problema é o uso que Israel faz do anti-semitismo para refutar a crítica da política de ocupação dos territórios palestinianos. “Tais críticas são automaticamente qualificadas de anti-semitismo.” Esta tem sido uma estratégia eficiente, em particular na Europa.

 

Lida na sequência de Hilberg, a mensagem de Lapid nada traz de novo. Mas, sublinha o analista Anshel Pfeffer, toca num ponto nevrálgico: “Quão únicos são os judeus?”

 

“Lido no seu contexto, não há nada no discurso de Lapid que relativize o Holocausto ou o anti-semitismo. Pelo contrário. O que Lapid propõe são lições e soluções universais para o anti-semitismo que muitos israelitas - depois de anos em que Netanyahu e os seus apoiantes dominaram o discurso – não estão preparados para ouvir. Em Israel, a grande advertência do Holocausto, ‘Nunca mais’, que significa ‘nunca mais para ninguém’, passou inclusive a ser interpretada como ‘nunca mais para nós.”

 

A direita nacionalista, a começar por Netanyahu, imediatamente abriu fogo sobre Lapid, procurando anular o debate que ele abriu. Diz Bibi numa resposta a Lapid: “A verdade histórica é que o anti-semitismo era o ódio aos judeus e o novo anti-semitismo é o ódio ao Estado de Israel.”

 

Responde o Haaretz: “É uma ultrajosa reivindicação nacionalista que coloca o povo judaico no centro da História e que relega as outras vítimas do racismo para um lugar secundário.”

 

Durante anos, Netanyahu manipulou o anti-semitismo de acordo com os seus interesses políticos. Não teve escrúpulos em dar cobertura aos líderes nacionalistas da Hungria e da Polónia, os mesmos que negam o anti-semitismo que vitimou os judeus polacos e húngaros. Ele mesmo impediu o embaixador israelita em Budapeste de denunciar actos anti-semitas de Viktor Orbán.

 

O conflito com a Polónia

Esta foi uma semana intensa para Lapid, para o cidadão e para o ministro. O judeu Lapid abriu um debate. Mas também o ministro não tem tido repouso. Abriu inclusive uma nova frente de combate com a Polónia a propósito da restituição de bens das vítimas do Holocausto.

 

O governo polaco garante que nada pagará. Foi um crime alemão, diz. Lapid sabe perfeitamente que que nenhuma reparação será feita. Sabe que o governo de Varsóvia jamais satisfará um pedido que nega a sua versão da História da II Guerra Mundial. A manipulação da História é um ponto central da sua agenda política.

 

Mas é exactamente este o objectivo de Lapid: denunciar a “narrativa” de Jaroslaw Kaczynski, segundo a qual os polacos, e não os judeus, foram as primeiras vítimas. No Holocausto, morreram três milhões de judeus polacos.

 

Lapid sabe que, neste diferendo, encontrará apoios na Europa, onde Kaczynski não é popular. Por outro lado, procura o apoio do Congresso americano para pressionar Varsóvia, que já recebeu uma carta de pressão assinada por vários senadores, com Marco Rubio à cabeça.

 

A ofensiva de Lapid contra Varsóvia revela, ao mesmo tempo, uma viragem diplomática. Netanyahu tinha uma “fobia irracional” em relação à União Europeia. E privilegiou uma aliança tácita com Budapeste e Varsóvia, esperando que o Grupo de Visegrado lhe pudesse servir de escudo contra eventuais decisões de Bruxelas sobre o Médio Oriente. É uma história a seguir de perto.

 

Nem tudo corre bem a Lapid. Confrontado como a decisão da Ben and Jerrry’s, filial da Unilever, de deixar de vender os gelados nos colonatos israelitas, o governo israelita avisou a multinacional sobre as “graves consequências” da decisão. Um ministro israelita está sempre enredado nas contradições de Israel: Lapid acusou a Unilever de “se render ao anti-semitismo”.

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