domingo, 28 de setembro de 2014

Calçado na calçada


CALÇADA PORTUGUESA
Calçado na calçada
Lucy Pepper/ 28-9-2014 / OBSERVADOR

Andar na calçada com sapatos rasos já é bastante difícil. Aqueles que o fazem com saltos altos merecem, por isso, todos os louros. Nos dias chuvosos, é ainda pior, e todos parecem potros raquíticos
Se alguma vez me virem de saltos altos, sejam simpáticos. Estarei a fingir que está tudo bem, mas o meu sorriso há-de ser falso, apenas para cobrir a dor. Sentir-me-ei como se estivesse a pisar cinzas quentes, os meus dedos do pé estarão dormentes e os meus tornozelos a lamentar-se. Os saltos fazem-me mais alta e dão-me pernas mais elegantes, mas nada disso compensa o sofrimento. Esqueci-me logo das dores do parto. Mas ainda lembro as dores de uma hora à espera do autocarro nocturno em King’s Cross, com botas novas de saltos altos, há vinte anos.
Tenho muito admiração pelas mulheres que passam os seus dias de saltos altos. Também me preocupo com a sua sanidade mental, a sua capacidade de aguentar a dor (versus o seu desejo de exibir uma aparência elegante) e os seus calos. Mas acima de tudo (porque gosto muito de sapatos), invejo-as. Bem, invejo as que sabem andar com elegância sobre saltos vertiginosos, e que não têm o aspecto de um potro a dar os seus primeiros passos, acabado de cair do útero da mãe. Não há muitas que consigam.

A minha admiração é ainda maior pelas mulheres (e pelos homens) que conseguem andar bem de saltos altos em Lisboa, na calçada. Admiro a capacidade de se deslocarem para cima e para baixo (para baixo é mil vezes pior) em pedras que, de tão devastadoramente gastas, têm o brilho de vidro, e também a arte com que evitam as pedras soltas e os grandes buracos.

Andar na calçada com sapatos rasos e sensatos já é suficientemente difícil. Aqueles que o fazem com saltos altos merecem, por isso, todos os louros. Nos dias chuvosos, é ainda pior, e todos, em saltos altos ou rasos, parecem potros raquíticos. Quando a calçada, já brilhante e gasta, fica molhada e duplamente perigosa, especialmente nas inclinações, vemos toda a gente, em todos os tipos de calçado, a dar cada passo com todo o cuidado. Tentam parecer que andam normalmente, quando na verdade estão cheias de medo que o seu próximo passo as deixe de rabo no chão ou com o pescoço partido, antes de chegar ao escritório. Estou até a pensar em inventar um material para solas completamente à prova-de-calçada… ainda não existe nada no mundo que sirva … não há plástico, nem couro, nem silicone, nem borracha, nada que previna deslizamentos na calçada a 100%. 

A calçada é linda e é um grande ícone de Lisboa, mas, por amor de deus, quem é que a achou uma boa ideia? Há centenas de anos, quando começarem usar calcário como pavimento e, depois de um tempo, quando tudo ficou muito afagado e brilhante, porque é que ninguém disse: “Ó pá, realmente, isto ainda é capaz de não funcionar bem. Que tal inventarmos asfalto ou outra coisa, porque, estás a ver?, as cidades portuguesas têm muitas colinas, precisamos de alguma coisa que agarre!”

A calçada está cá há séculos, é demasiado tarde para mudar, como acontece com todas as tradições. Não podemos desfazer-nos dela. Faz parte deste sítio, do património. Quando se ouvem sugestões de que a calçada deve ser substituída por asfalto, estou rigorosamente do lado de “não!! nem pensar!!!”, porque é tão importante para o aspecto e o toque de Lisboa e do resto do país. Uma parte de mim, porém, imagina o dia em que será possível andar a pé na cidade sem nos inquietarmos com as áreas de calçada muito polida, em que não reparamos até ser tarde demais, ou com os dias chuvosos, ou com as pedras soltas que partem tornozelos. Não desejo que esse dia chegue, mas… desejo.

Lisboetas em saltos altos, saúdo-vos!


(traduzido do original inglês pela autora)

sábado, 27 de setembro de 2014

Keeping up with the Antónios, por José Diogo Quintela


Keeping up with the Antónios
José Diogo Quintela / 28-9-2014 / PÚBLICO

Desde que, em 1960, os debates entre John Kennedy e Richard Nixon foram televisionados, percebeu-se que a imagem dos políticos é fundamental. Kennedy, com o seu estupendo ar jovem e bronzeado, ganhou a um Nixon pálido e de barba por fazer. Passados 54 anos, a imagem ainda conta. No debate entre Seguro e Costa, o vencedor foi Kennedy. Seguido de Nixon. Ambos ficaram com melhor imagem do que os Antónios, uma vez que estão mortos e não participaram naquele escarcéu indecoroso.

A TVI cometeu um erro tremendo ao estrear a Casa dos Segredos antes do fim da campanha para as Primárias do PS. Não é por acaso que se inscreveram 150 mil simpatizantes no PS e apenas 105 mil concorrentes no reality show. O povo português demonstrou bem que, em termos de escandaleira e baderna pública, a dupla Seguro & Costa ganha a um conjunto de cobaias tatuadas a participar numa experiência sociológica.
Aliás, como a Casa dos Segredos começou na semana passada e as Primárias do PS são hoje, houve potenciais participantes que optaram por não entrar no programa da TVI para não perderem o último bate-boca dos Antónios. Em termos de baixo nível, é como marcar um jogo de futebol entre amigos para a mesma hora da final da Champions. Há jogadores amadores que preferem ficar em casa a ver os profissionais jogarem.

Lembremo-nos de que Costa e Seguro são profissionais da grosseria, andam nisto há anos e estão em excelente forma. Basta ver que, pela primeira vez, os candidatos a eleições não precisaram de visitar nenhuma praça para haver peixeirada.

A campanha foi tão ordinária que parecia o reality show americano Keeping up with the Kardashians, só que com mais acusações de traição entre os protagonistas. E com nádegas menos anafadas. O momento no último debate em que os candidatos se confrontaram por terem gravatas iguais foi igualzinho à cena em que uma das irmãs Kardashian, cujo nome começa por K, apareceu com um top igual ao de outra irmã Kardashian (aquela cujo nome também começa por K e não uma das outras cujo nome também começa por K), seguindo-se rebaldaria familiar rasteira.

Há outras semelhanças entre o programa que acompanha a vida das galdérias Kardashian e a campanha das Primárias. Por exemplo, aprende-se imenso sobre o que é que os intervenientes pensam sobre as falhas de carácter dos outros e sobre as suas próprias qualidades. Aprende-se também que, quer as Kardashian quer os Antónios, não têm uma única ideia para Portugal. Se bem que uma das irmãs cujo nome começa por K fez há tempos uma observação muito pertinente sobre o nível de serviço nos hotéis do Norte de África, em que Portugal estava incluído. Se quisermos ter uma ideia do que sucedeu na campanha, já será uma ideia a mais do que os candidatos tiveram.


Agora, aconteça o que acontecer, António José Seguro será sempre vencedor. Mesmo que perca, a sua bandeira da redução do número de deputados será hasteada. Depois desta campanha tão rasca, é provável que o número de deputados vá mesmo diminuir. Tudo bem que será o número de deputados do PS, mas há que começar por algum lado.    

Começou a campanha catalã para um referendo que Madrid diz ser ilegal.


Começou a campanha catalã para um referendo que Madrid diz ser ilegal
SOFIA LORENA 27/09/2014 - PÚBLICO

Braço-de-ferro vai prolongar-se nas próximas semanas, com o Governo a responder no Tribunal Constitucional. Em Barcelona, fazem-se apelos à mobilização cidadã.

Já era esperado e assim aconteceu: o presidente do governo autonómico da Catalunha, Artur Mas, assinou este sábado o decreto a convocar o referendo sobre o futuro político desta região espanhola. 9 de Novembro, uma data que o parlamento catalão já aprovara e na qual uma esmagadora maioria de catalães deseja ir às urnas, para dizer “sim” ou “não” à permanência em Espanha.

Num processo que se arrasta há dois anos, há pouco espaço para surpresas e a reacção do Governo de Madrid foi a que se adivinhava, com a vice-presidente, Soraya Sáenz de Santamaría, a repetir que a consulta é inconstitucional e que, como tal, não vai realizar-se. “Neste país, todos estamos sujeitos à lei”, afirmou, no Palácio de Moncloa de Madrid. De visita à China, o primeiro-ministro do Partido Popular, Mariano Rajoy, lamentou mais este avanço: “Foi Mas que se meteu nesta confusão”, disse.

O braço-de-ferro tem sido permanente e já se conhecem os argumentos de ambas as partes. O guião está escrito e as cenas vão-se sucedendo à espera de um desenlace. A Generalitat (governo regional) nunca escondeu o jogo e tem atrás de si a esmagadora maioria do actual parlamento assim como repetidas sondagens que, mais do que indicarem a intenção de os catalães se quererem separar de Espanha, confirmam a vontade de grande parte da população acreditar que tem o direito a decidir.

Madrid sempre recusou negociar qualquer tipo de consulta. A Constituição, como é normal, prevê a indivisibilidade do Estado espanhol, e, à partida, só o Governo central teria mandato para realizar um referendo desta natureza. Esgotadas várias tentativas para que isso acontecesse, o parlamento catalão aprovou há dias uma lei de consultas que dá a Artur Mas o direito de assinar este decreto. O resultado não será vinculativo, mas servirá para mostrar a vontade dos catalães, insistem os partidos no poder, a Convergência e União, de Artur Mas, mas também a Esquerda Republicana, de Oriol Junqueras, que obteve um resultado histórico nas eleições autonómicas de Novembro de 2012.

Já com o decreto assinado, Junqueras defendeu que a obrigação dos cidadãos é votarem, mesmo que a esse acto se chame desobediência. Se Madrid tentar impedir a consulta, afirmou, estará “a ir contra todo o quadro legal e a legitimidade democrática”. Quim Arrufat, deputado das CUP (Candidatura de Unidade Popular, um partido de esquerda que nunca tinha concorrido às autonómicas e elegeu três membros no actual parlamento catalão), antecipou um “Outono histórico” e pediu a todos os catalães para continuarem a mobilizar-se e assim poderem votar.

Aliás, todos os partidos que defendem o referendo lamentaram que nos últimos dias já o Executivo do PP tenha anunciado o que vai fazer, antes do decreto ser conhecido. Na verdade, é o tal guião de que ninguém se tem desviado muito; sempre se soube que o passo seguinte é pedir que a lei das consultas aprovada pelo parlamento catalão seja considerada inconstitucional, ilegalizando assim o decreto assinado com base nesta lei.

Oficialmente, o Governo vai reunir-se domingo para preparar a resposta ao decreto, mas Sáenz de Santamaría já disse que tudo está em marcha. “Iniciámos esta manhã os passos para promover os recursos de inconstitucionalidade com a petição que informa o Conselho de Estado; quando estiver emitida vamos reunir o conselho de ministros e apresentar o recurso no Constitucional”, explicou a vice-presidente.

Um governo "neutro"

“Claro que o decreto é legal, nós somos um governo legal, democrático e não emitimos decretos ilegais”, antecipava quinta-feira numa entrevista a quatro jornalistas europeus Roger Albinyana, secretário dos Assuntos Externos e Europeus da Generalitat. Albinyana garantia ainda que tudo estava já pronto “do ponto de vista técnico para garantir um voto democrático e livre” a 9 de Novembro. “Assim que o decreto for assinado é lei, ou seja, a campanha começa. Nós, enquanto governo, vamos manter-nos neutrais. Mas os partidos estão preparados e a sociedade civil também. Do que eu oiço, a campanha vai começar.”

Logo depois da assinatura, surgia no site da Generalitat uma página dedicada à consulta com o título “Tu decides”.

Recordando que este processo foi lançado pelas pessoas, Albinyana admitiu que o seu governo está “sob enorme pressão” popular. “As pessoas estão a exigir votar e também têm pedido unidade, é importante que os partidos se mantenham unidos.”

Afinal, o actual pico do nacionalismo catalão explica-se de várias maneiras, incluindo a declaração de inconstitucionalidade de vários artigos de um novo estatuto de autonomia que chegou a ser aprovado pelo Parlamento de Madrid (quando no Governo estava o PSOE, de Rodríguez Zapatero, e o PP, na oposição, levou o documento a tribunal e mobilizou a recolha de assinaturas para um referendo contra o estatuto). Mas há um dia que mudou tudo: a Diada, o dia nacional catalão de 2012, quando, a 11 de Setembro, um milhão de pessoas participou em Barcelona numa manifestação convocada pela Associação Nacional Catalã sob o slogan “Catalunha, um novo estado da Europa”.

Indesmentível é também que Artur Mas não era um independentista, antes alguém que defendia mais autonomia para os catalães dentro de Espanha. Mudou de ideias, afirmou entretanto. Desistiu de esperar o impossível, defende. Pois se de Madrid, diz Albinyana, “nos últimos cinco anos, tudo o que tem acontecido é no sentido da recentralização”.

Garantias democráticas

Uma semana depois do “não” escocês à independência, a Catalunha dá mais um passo num caminho que os seus líderes garantem não poder ser parado. O que Albinyana assegura é que “o voto só vai acontecer se for legal e contar com garantias democráticas”, contrariando assim algumas teorias. Òscar Palau, editor do jornal El Punt Avui, nacionalista, admitia em Fevereiro ao PÚBLICO um cenário em que a generalitat avançasse com a consulta nem que fosse “para que a guarda civil viesse buscar as urnas”.

Depois de assinar o decreto, com uma caneta catalã, no Palácio da Generalitat, Artur Mas fez uma curta declaração para afirmar – em catalão, castelhano e inglês – que “a Catalunha quer falar, ser ouvida e votar”. Do texto do decreto faz parte a pergunta dupla que o parlamento já aprovou: “Quer que a Catalunha seja um Estado?” e, em caso afirmativo, “Quer que esse estado seja independente?”. No decreto também se lê que o objectivo da consulta é “conhecer a opinião sobre o futuro político da Catalunha”.


Se não houver consulta, já se sabe, haverá eleições antecipadas com a independência como único ponto do programa dos partidos que a defendem. Pelo menos aí, o futuro, da Catalunha, e dos líderes envolvidos neste processo, vai mesmo começar a conhecer-se.

Circuito pedonal com 16 paragens dá a conhecer a Cerca Velha de Lisboa.


Circuito pedonal com 16 paragens dá a conhecer a Cerca Velha de Lisboa
O objectivo da câmara, que instalou totens com informação ao longo de todo o trajecto, é “resgatar a memória histórica e arqueológica da cidade”, mas também criar “um novo produto turístico-cultural”

1500 Metros, é a extensão deste circuito pedonal, que vai da Rua do Chão da Feira à Rua do Milagre de Santo António

Inês Boaventura / 27-9-2014 / PÚBLICO

O percurso não tem mais do que 1500 metros e pode ser facilmente percorrido em apenas 50 minutos, mas ir da Rua do Chão da Feira à Rua do Milagre de Santo António significa realizar uma viagem pela história milenar de Lisboa. Ao longo deste trajecto há agora 16 totens, que dão a conhecer a Cerca Velha, o sistema defensivo medieval que perdurou até à construção da muralha fernandina no século XIV.
Este novo circuito pedonal foi ontem inaugurado pela Câmara de Lisboa, por ocasião das Jornadas Europeias do Património. A ideia é que lisboetas e turistas possam percorrê-lo sozinhos, com a ajuda de um mapa que vai estar disponível nalguns pontos turísticos da cidade, ou então integrados numa das visitas guiadas que o município promete realizar.
Ao todo, há 16 pontos de paragem sugeridos, e em cada um deles há um pedaço da história da Cerca Velha para conhecer (alguns deles visíveis, outros não), através da informação constante nos marcos colocados nos passeios e nas placas afixadas nos edifícios. Aquilo que se sugere é que a visita comece na Rua do Chão da Feira, junto ao Castelo de S. Jorge, onde a cerca classificada como monumento nacional se ligava à Muralha da Alcáçova.
Segundo a autarquia, que através do Museu da Cidade realizou nos últimos anos um projecto de estudo e valorização da Cerca Velha, este monumento estendia-se depois por cerca de 1250 metros, ao longo dos quais tinha seis portas e mais de duas dezenas de torres. É no segundo ponto de paragem, no Pátio D. Fradique, que se encontra o mais extenso troço visível da muralha.
Mais à frente, no Largo das Portas do Sol, destaca-se o antigo Palácio Azurara, em cuja fachada é visível uma torre da Cerca Velha. Já na Rua Norberto de Araújo ergue-se, apoiada na escarpa rochosa, aquele que é o único troço visível da cerca da época islâmica.
Antes de se passar pela Torre de S. Pedro, que chegou a ser usada como prisão, por um postigo com o mesmo nome e por um conjunto de portas abertas na muralha em diferentes períodos, há outro ponto que merece uma paragem: a Porta de Alfama.
Aí, como explica o director do Departamento de Património Cultural da câmara, Jorge Ramos Carvalho, foram feitas escavações que revelaram a existência de uma lixeira do período romano. Alguns dos vestígios encontrados, como ossos de vários animais, vegetação, cerâmicas, materiais de construção e ostras, podem hoje ser vistos no interior de um restaurante que abriu as portas no local e no qual foram integrados troços da muralha.
O recém-inaugurado Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos também integra este circuito pedonal. No interior do edifício, onde está sedeada a Fundação Saramago, estão patentes objectos de uso quotidiano dos séculos XVI a XVIII, vestígios romanos como tanques de uma unidade fabril de preparados de peixe e troços da muralha tardo-romana e da muralha medieval.
Para a vereadora da Cultura, a criação deste percurso (que termina na Porta de Alfofa, bem perto do Castelo de S. Jorge) representa uma forma de “resgatar a memória histórica e arqueológica da cidade, de uma estrutura defensiva que foi importante durante vários séculos e estruturante na delimitação urbanística da cidade”. Com ela, diz Catarina Vaz Pinto, criou-se também “um novo produto turístico-cultural”.
Já a arqueóloga Manuela Leitão frisa que com esta iniciativa vai ser possível “dar a conhecer um dos patrimónios mais valiosos da cidade de Lisboa”, uma cerca que segundo diz “é um organismo que continua vivo, a interagir” com o espaço urbano no qual se integra.

Segundo a vereadora Catarina Vaz Pinto, este projecto representa um investimento de cerca de 400 mil euros, que foi financiado pelo Turismo de Portugal. A autarca destaca que além da componente de divulgação, com a introdução dos tais 16 totens, houve uma aposta nas componentes de “investigação científica e conservação do património”, tendo havido “espaços da antiga muralha que foram reabilitados e salvaguardados”.

Passos diz que foi avisado que Governo não ia durar muito.


Passos diz que foi avisado que Governo não ia durar muito
27/9/2014, LUSA / OBSERVADOR
 
O primeiro-ministro diz que foi avisado por um "mensageiro" que lhe disse que por se ter metido com determinada pessoa, não identificada, o Governo não ia durar muito.

O presidente do PSD afirmou na sexta-feira à noite que existe incómodo com as mudanças que introduziu na forma de fazer política em Portugal e falou num “mensageiro” que o terá advertido que o Governo não ia durar muito.

Estas afirmações foram feitas por Pedro Passos Coelho perante o Conselho Nacional do PSD, disseram à Lusa dirigentes que estiveram na reunião deste órgão, realizada na sexta-feira, em Lisboa, durante a qual o primeiro-ministro recebeu palavras de apoio a propósito da polémica em torno da sua relação com a empresa Tecnoforma e dos seus rendimentos enquanto foi deputado em exclusividade.

De acordo com estes dirigentes, na sua intervenção final, o presidente do PSD referiu-se a “um mensageiro” que terá recebido esta semana, e que lhe terá dito que o seu Governo não ia durar muito porque se tinha metido com determinada pessoa – uma menção ambígua, em que não identificou ninguém, e que deixou nalguns a dúvida sobre se era um relato literal ou figurativo.

Passos Coelho não falou diretamente da polémica em que esteve envolvido nos últimos dias, apenas agradeceu as palavras de apoio dos conselheiros nacionais do PSD e declarou que tudo o que tinha a dizer sobre o assunto disse na sexta-feira de manhã na Assembleia da República.

Segundo as fontes contactadas pela Lusa, a maior parte das intervenções nesta reunião extraordinária do maior órgão do PSD entre congressos foram sobre a natalidade, o primeiro tema na agenda da reunião de sexta-feira, e as referências à polémica em torno da Tecnoforma foram todas de apoio ao primeiro-ministro.

Durante o debate quinzenal de sexta-feira, no seu discurso inicial, Pedro Passos Coelho sugeriu hoje que a forma como decide pode “desagradar” a “pessoas com alguma influência” e desafiou quem está por trás das acusações sobre os seus rendimentos a apresentar provas.


O chefe do executivo PSD/CDS-PP afirmou que é “uma pessoa remediada”, mas que isso não o condiciona nas suas decisões: “Portanto, nunca na minha vida em lugares públicos ou de outra natureza exerci ou decidi senão de acordo com a minha consciência, mesmo que isso possa desagradar a algumas pessoas com alguma influência”. Mais à frente, no mesmo discurso, Passos Coelho voltou a sugerir que “alguém importante” está a procurar incriminá-lo, a propósito do acesso da comunicação social a declarações suas de IRS.

Ukip defection and 'sexting' scandal cause Tory chaos / GUARDIAN.


Ukip defection and 'sexting' scandal cause Tory chaos
Mark Reckless blames PM for shock resignation, as minister Brooks Newmark quits after being caught sending explicit photos
Toby Helm and Andrew Rawnsley

David Cameron suffered a devastating double blow on the eve of the Tory party conference as his minister for civil society resigned over a sex scandal and a second Conservative MP defected to Ukip.

As the prime minister sent RAF fighter planes into action over Iraq, domestic troubles inside his own party dramatically punctured the optimism among Tory delegates as they headed to Birmingham for their last annual gathering before next year's general election.

The first blow came when Mark Reckless, the MP for Rochester and Strood, delivered the news that he was defecting to Ukip, at the anti-EU party's conference in Doncaster. His decision came just weeks after Douglas Carswell, formerly Tory MP for Clacton, had quit to join Nigel Farage's party saying the Conservatives were not serious about reforming the EU.

Blaming Cameron directly, Reckless, another Eurosceptic who wants the UK to leave the EU, said the Conservative leadership was "part of the problem that is holding our country back". Amid rapturous applause from Ukip delegates he announced that he would stand down in order to fight a byelection under Ukip's colours.

Voters, he declared, felt "ripped off and lied to" over Europe and immigration. They needed to believe that Britain had control over who came into the country and in what numbers. "At the moment we do not have any sense of that," he said. He added: "I promise to cut immigration while treating people fairly and humanely. I cannot keep that promise as a Conservative; I can keep it as Ukip."

Reckless won the seat for the Tories in 2010 with a majority of just under 10,000 over Labour. Farage told BBC News that he would do "whatever it takes" to get Reckless elected. "This man has shown huge courage. He has thrown his lot in with us and we will do everything we can to get him elected."

No sooner had the Conservative party absorbed news of Reckless's defection than it emerged that Brooks Newmark, a father of five and campaigner to increase the role and number of women in politics, had resigned from the government after being caught sending explicit pictures of himself over the internet to women, in a tabloid newspaper sting operation. After being told that the story would appear in a Sunday newspaper Newmark issued a statement saying he was quitting. He appealed for privacy for himself and his family.

Downing Street said his resignation had been accepted and that Newmark had been replaced by a former aide to chancellor George Osborne, Rob Wilson.

The double disaster means the Tories now meet amid a sense of crisis over the threat posed by Ukip, and sleaze, just at the time when they had hoped to unite and turn their fire on Labour. The party had been feeling more upbeat than for months, after Ed Miliband's Labour conference speech was heavily criticised in the media when it emerged that he had forgotten to make any direct mention of the deficit.

Reckless's shock decision to jump ship to Ukip means Cameron's party now faces two critical byelection fights against Ukip at the very time when it was hoping to concentrate on honing its anti-Labour messages ahead of next May's general election.

In a sign of concern among Tory moderates about the prospect of a shift to the right, former Home Office minister Damian Green warned Cameron: "We must at all costs and at all times resist the temptation to become UKIP-lite."

Sarah Wollaston, Conservative MP for Totnes, tweeted: "The Conservative party won't gain extra support by shifting right but millions of centre-right voters would move elsewhere, myself included."

She later added: "I'm staying put and fighting for the centre-right to be at the heart of the Conservative party, not a Ukip panic attack."

Michael Dugher, Labour's shadow minister for the Cabinet Office, described the defection as "a hammer blow to David Cameron's already weakened authority. David Cameron has always pandered to his right, and even they are now deserting him."

Tory chief whip Michael Gove held talks with Reckless after Carswell's defection as rumours circulated that he might be about to follow his close friend out of the party, but to no avail. After Carswell defected, Farage said that many more Tories would defect to Ukip if he held on to the seat in the byelection, an outcome that looks likely according to recent opinion polls. But he gave no hint that another defection might come so soon.

The Conservatives described the defection as "completely illogical". But it is bound to fuel speculation that other Tories could soon jump ship. As Reckless was introduced on stage at the Ukip conference by a clearly delighted Farage, the crowd broke out into whoops and cheers.

Asked about other possible defections, Farage replied: "We have these conversations. Of course, there are Conservatives I am talking to but there are Labour people too. There are Labour people who are deeply frustrated with Ed Miliband's leadership."

Tory veteran Michael Heseltine says that, while the Conservatives have to worry about Ukip, he believes Farage's party will be a "short-term phenomenon". The pro-EU former deputy prime minister says in an interview with the Observer that, rather than being deflected by Ukip, the Tories badly need to develop policies that resonate more strongly in deprived northern areas if they are to maximise their chances at the next general election. He sees the Tories' absence in large parts of Scotland and the north as a serious weakness the party must overcome.

Heseltine insists that, as the "rightful owners" of the one-nation mantra of government – and particularly in the light of the referendum on Scottish independence – the Conservatives must rebuild support in the poorest regions. With the party holding just one parliamentary seat in Scotland and increasingly absent across large swaths of the north, Heseltine describes the party's weakness in these areas as "deeply depressing".

"Without any shadow of doubt, there is a very important challenge for the Conservative party to have policies and to articulate policies in the language that resonates in those areas," he says.

He adds: "What is missing are the ladders of aspiration, trying to say to people in those communities, 'look, we can help you get out of this condition'. You may have to help them by knocking down a tenement block and building some decent housing, but they can't do that themselves.

"Just going on repairing the leaks is not dealing with the problem."


An Opinium/Observer poll puts Ukip on 17%. Labour on 34%, the Conservatives on 32%, the Lib Dems on 7% and the Greens on 4%.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Passos explicou-se. Pena ter demorado tanto, José Manuel Fernandes. Malabarice, por Francisco Louçã


CASO TECNOFORMA
Passos explicou-se. Pena ter demorado tanto
José Manuel Fernandes / 27-9-2014 / OBSERVADOR
Passos deu a resposta que todos lhe pediam: disse "não, não recebi salários". Disse-o tarde, deixando que se instalasse a desconfiança. Mas tal não autoriza pedidos de levantamento do sigilo bancário.

Pedro Passos Coelho foi à Assembleia da República dizer que não recebeu qualquer remuneração regular enquanto foi presidente de uma organização não-governamental, o CPPC, ligado à Tecnoforma. Nem remuneração regular, nem irregular. Garantiu que recebeu apenas o reembolso das despesas que fez ao serviço daquela organização.

Ao contrário do que sucedeu quando anunciou que iria pedir uma clarificação à Procuradoria-Geral da República, desta vez pareceu autêntico. Pareceu ele próprio. De resto, no debate que se seguiu, só um dos líderes da oposição se colocou no mesmo nível: Jerónimo de Sousa. Separou a questão pessoal das questões políticas e colocou perguntas que se podem considerar pertinentes. O oposto do que fez António José Seguro, que teve uma das suas piores prestações de que tenho memória. Uma intervenção que terminou com o mais populista dos desafios: o de levantamento do sigilo bancário. Mas já irei a esse tema.

O tema desta sexta-feira era, ao mesmo tempo, cristalino e nebuloso. Cristalino porque se impunha que Passos Coelho dissesse se tinha ou não recebido pagamentos suscetíveis de serem declarados ao fisco ou de violarem a condição de deputado em regime de exclusividade. Disse, de forma cristalina, que não, não recebeu.

Mas isso não foi tudo: a acumulação de dúvidas nos últimos dias permitiu que a desconfiança se tivesse instalado, e a desconfiança, tal como a confiança, não aparece ou desaparece apenas pela clareza de um discurso. Importa ir às suas raízes, o que neste caso é especialmente importante.

Boa parte da desconfiança existente foi criada pelo próprio Passos Coelho, ao ter demorado demasiado tempo a reagir ao que foi sendo divulgado pelos órgãos de informação. Se o que tinha a dizer era o que disse aos deputados, porque não começou por aí? Porque sugeriu que não se lembrava? Porque seguiu pelo caminho menos ortodoxo de pedir à Assembleia e, depois, à PGR que prestasse esclarecimentos? O primeiro-ministro pode ter tido boas razões para o fazer, mas desconheço-as. Mais: não consigo imaginar que boas razões possam ser essas. E estou convencido que Pedro Passos Coelho vai pagar um preço político por ter deixado que este clima se instalasse.

O clima de desconfiança também existiu, existe e existirá porque a história da Tecnoforma não é uma história bonita nem recomendável (se tiverem dúvidas, vejam este Explicador). É a história de mais uma empresa que vive pendurada em serviços que presta ao Estado, na sua habilidade não para gerar valor, mas para encontrar os subsídios certos. Há milhares de empresas dessas, pois o regime em que vivemos favorece a sua proliferação, mas isso não torna mais nobre a passagem de Passos Coelho por este tipo de actividade.

Finalmente há uma outra questão que está na origem da desconfiança e que funcionou como uma espécie de vírus. Refiro-me à denuncia anónima. Uma denúncia anónima é sempre um acto cobarde. Uma coisa é pedir protecção para fazer uma denúncia difícil, que pode implicar riscos para os próprios – outra é fazê-lo a coberto do anonimato total. Sem qualquer ónus de prova. Procurando transformar o acusado em culpado, pois até houve quem, referindo-se de um político, disse ser aceitável a inversão do ónus da prova.

Se aceitássemos esse tipo de regras, aceitaríamos as regras da selvajaria. Qualquer ser vivo poderia acusar quem quer que entendesse e, num clima de forte desconfiança face a tudo quanto são políticos, isso seria logo uma acusação, porventura uma condenação antecipada. Caberia ao acusado provar a sua inocência, não à mão que se esconde por trás da cortina fornecer os elementos necessários a uma condenação.

Sou dos que acham que crimes que eventualmente envolvam titulares de cargos públicos podem prescrever juridicamente, mas não prescrevem politicamente. Mas também sei que isso é uma faca de dois gumes. As garantias de defesa que qualquer cidadão tem num processo judicial ou num tribunal não existem para um político nas páginas de um jornal, e isso não é necessariamente bom, sobretudo se tudo o que tivermos de evidência for… uma denúncia anónima, inverificável.

Cavalgar esta onda de desconfiança para pedir o levantamento do sigilo bancário, como fez António José Seguro, é populista e desvairado. Tornaria ainda mais difícil encontrar alguém de qualidade que se prestasse a servir a causa pública, pois o risco de ver toda a vida devassada seria tremendo. E seria ineficaz: os verdadeiros vigaristas não deixam rasto dos seus movimentos em contas bancárias vulgares: o seu dinheiro circula por outros lados. A nossa democracia seria uma democracia pior se a fuga em frente do candidato a candidato a primeiro-ministro do PS fosse seguida pelos outros partidos – mas nem a extrema-esquerda parlamentar deu sinais de o querer fazer.


É possível que exista informação ainda desconhecida que desminta as garantias formais de Passos. Mas sem essa informação, fazer política com base na suspeição e na desconfiança é perigoso e condenável. O primeiro-ministro deu as respostas que lhe pediam – deu-as demasiado tarde, mas deu-as. O ónus de qualquer prova não está agora do lado dele.

Malabarice
26 de Setembro de 2014, 10:50
Por Francisco Louçã 

Um dia, Passos Coelho inventou este termo a propósito de qualquer coisa: malabarice. Não explicou, mas esta filha do malabarismo e da malandrice, que não existe ainda nos dicionários (pelo menos no Aurélio), foi uma magnífica contribuição para a literatura nacional, que só posso saudar.

Malabarice é o que estamos a viver hoje.

Malabarice é o secretário-geral do Parlamento apresentar informações falsas para proteger o seu correligionário, quando tem obrigação de prestar informações verdadeiras.

Malabarice é Passos Coelho fingir que abdicou de 10% a título de exclusividade quando recebia 15% por ser vice-presidente da bancada, o que o impedia de receber os malabaristas 10%.

Malabarice é receber um subsídio de reintegração quando já se tem um trabalho pago e se continua a ocupar o mesmo posto no mesmo trabalho pago.

Malabarice era uma empresa que pedia por intermédio de um amigo (Miguel Relvas) um financiamento de 1,2 milhões para formar 1063 técnicos para 9 aeródromos, dos quais só 3 estavam abertos e tinham dez trabalhadores.

Malabarice foi agora a explicação de Passos Coelho para o dinheiro que recebeu da Tecnoforma enquanto declarava exclusividade no Parlamento.

Malabarice é dizer que não recebeu qualquer remuneração certa e jogar com palavras, quando se fazia pagar em despesas de representação, que na época era a forma legal de não pagar imposto.

Malabarice é não dizer quanto recebeu nessas despesas de representação.

Malabarice é viver com subterfúgios para não pagar impostos e depois impor um colossal aumento de impostos aos trabalhadores e reformados.

Malabarice é dizer a todos os outros que vivem acima das suas possibilidades e usar todas as suas próprias possibilidades para não pagar os seus impostos.



Qual é a ligação de Passos Coelho à Tecnoforma?
26 Setembro 2014 – por Liliana Valente, Sónia Simões / OBSERVADOR

A ligação de Passos Coelho à Tecnoforma começa ainda em 1996, quando funda, por ideia do presidente da empresa, Fernando Madeira, uma organização não-governamental (ONG) chamada Centro Português para a Cooperação (CPPC). De acordo com notícias do jornal “Público”, esta ONG era financiada a 100% pela Tecnoforma e tinha como principal objetivo captar potenciais negócios para a empresa.

Depois, Passos Coelho foi contratado como consultor para a Tecnoforma em 2002, pela mão de João Luís Gonçalves. João Luís Gonçalves, que tinha sido secretário-geral da JSD quando Passos Coelho era presidente, comprou a empresa para a qual trabalhava em 2001 (em algumas versões aparece o ano de 2000).

A entrada de Passos Coelho para consultor não é no entanto certa. Ao Público, o antigo dono da empresa, Fernando Madeira, garantiu que Passos Coelho só entrou depois dele sair, ou seja, depois de agosto de 2001. Em algumas declarações, o primeiro-ministro chegou a falar no ano 2000, mas só lhe é atribuído o cargo a partir de 2002 até 2004, com um pagamento mensal de 2500 euros/mês a recibos verdes. Facto que não consta do perfil oficial na Página Oficial do Governo.

Também não consta no currículo do primeiro-ministro a mudança de cargo dentro da empresa. A partir de 2005 (em algumas versões é referido 2004), Passos Coelho, conjuntamente com Francisco Nogueira Leite, tornou-se administrador da Tecnoforma, cargo que, de facto, ocupou até 2007.

Mas os contornos como ocupou esse cargo também mostram algumas dúvidas. Tanto Passos Coelho como Nogueira Leite foram administradores por procuração. Sérgio Porfírio, então administrador da empresa, disse ao Público que, por não ter tempo, delegou nos dois a administração da empresa. E os dois assinaram, enquanto administradores da empresa, apesar de o registo na conservatória não ter sido feito a tempo, alguns documentos, incluindo relatórios e contas até 2007.

Mas Passos sempre disse, em declarações públicas que a ligação à Tecnoforma tinha terminado em 2004. Além disso, só em 2012, a procuração foi revogada.

Foi aliás, sobre o facto de no currículo não constar a ligação à Tecnoforma enquanto administrador que levou às primeiras notícias e à primeira “confusão” do primeiro-ministro sobre o caso.

Em 2012, respondendo sobre a ligação à Tecnoforma e sobre o facto de ainda ter assinado documentos até 2007, Passos respondeu ao Público: “Confusão minha! Estava convencido de que tinha saído em 2004″.

Passos Coelho recebeu dinheiro da Tecnoforma ou do CPPC?
26 Setembro 2014 – por Liliana Valente, Sónia Simões / OBSERVADOR

Em debate quinzenal na Assembleia da República, Passos Coelho afirmou que não recebeu salário ou avença da Tecnoforma ou do CPPC enquanto foi deputado, ou seja, entre 1991 e 1999. Diz ter recebido do CPPC dinheiro, a título de reembolso de despesas de deslocação. Não declarou esses valores ao fisco porque a lei de então não o obrigava a isso. Não revelou, porém, quanto dinheiro recebeu nessa qualidade.

Nas declarações de rendimentos que Passos Coelho entregou em 1997, 1998 e 1999, o então deputado do PSD não declarou qualquer vencimento proveniente quer da Tecnoforma, quer do CPPC.

Apesar de a declaração de rendimentos referente a 1999 estar em falta – o secretário-geral da Assembleia da República recusou quinta-feira dia 25 de setembro entregar aos grupos parlamentares essa informação -, num parecer da Assembleia da República, que atribui a Passos Coelho o subsídio de reintegração, é reconhecido que o então primeiro-ministro estava de facto em exclusividade de funções. Ou seja, o parecer, assinado pelo então presidente da Assembleia da República, Almeida Santos, fazia referência à declaração de rendimentos dizendo que esta mostrava que Passos Coelho não tinha tido, de 1996 a 1999, outros rendimentos além daqueles que recebia enquanto deputado (ou os excecionados por lei como a colaboração com comunicação social).

O que é o caso da Tecnoforma denunciado por Helena Roseta?
26 Setembro 2014 – por Liliana Valente, Sónia Simões / OBSERVADOR

Uma das polémicas em torno da Tecnoforma – e que deu azo, aliás, às primeiras notícias sobre o caso – começou com uma denúncia da atual vereadora da Câmara de Lisboa, Helena Roseta. Em declarações na Sic Notícias, Helena Roseta denunciou ter sido pressionada por Miguel Relvas para contratar a empresa ao abrigo de um programa de formação de arquitetos de câmaras municipais, “Autarquia Segura”, que seria financiado pelo FORAL.

Cerca de um mês depois de Miguel Relvas ter reunido com Roseta, Passos Coelho, então consultor da Tecnoforma, pediu uma reunião com a Ordem dos Arquitetos e foi recebido, em conjunto com o diretor-geral da empresa Luís Brito, de acordo com o Público, não por Roseta, mas por Leonor Cintra Gomes, dirigente da Ordem.

Nessa reunião, de acordo com documentos da Ordem, Passos deu a conhecer o programa de formação de arquitetos, que tinha como objetivo que todas as autarquias tivessem, até 2007, de “planos de emergência para todos os edifícios públicos, tendo em conta as normativas europeias”.

A proposta foi recusada pela Ordem dos Arquitetos, mas o episódio perdurou. Depois das declarações de Helena Roseta, que acusavam Miguel Relvas, este processou a vereadora por difamação. O processo acabou também ele arquivado.

Passos Coelho está livre do Caso Tecnoforma?
26 Setembro 2014 – por Liliana Valente, Sónia Simões / OBSERVADOR

Não. Apesar de a queixa contra o primeiro-ministro ter sido arquivada, Passos Coelho ainda não está livre do problema Tecnoforma.

Por duas razões: uma política e outra da justiça.

Em termos políticos, a oposição e a comunicação social não deixarão cair o caso até que fique esclarecido quanto dinheiro recebeu Passos Coelho relativo a reembolsos por despesas de representação em nome do CPPC. O Bloco de Esquerda já admitiu até levar o caso ao Parlamento em forma de comissão de inquérito. E o PS garante que vai para já pedir dados à Segurança Social e ao fisco.

Por outro lado, decorre ainda na justiça um inquérito que não foi arquivado. E se à data esse inquérito não corre contra ninguém, também é certo que diz respeito à atividade geral da empresa Tecnoforma, da qual Passos Coelho foi consultor entre 2002 e 2004 e administrador até 2007.

Além deste processo, há ainda um outro na União Europeia, que ainda não se sabe o desfecho.