sexta-feira, 29 de agosto de 2014

NATO acusa Rússia de "violação flagrante" e abre portas à adesão da Ucrânia. Putin likens Ukraine's forces to Nazis and threatens standoff in the Arctic / GUARDIAN

Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da NATO
"Nato ambassadors emerged from a meeting on Friday morning to accuse Russia of a "blatant violation" of Ukraine's sovereignty. "Despite Moscow's hollow denials, it is now clear that Russian troops and equipment have illegally crossed the border into eastern and south-eastern Ukraine," its secretary general Anders Fogh Rasmussen said." ( GUARDIAN / Ler em baixo) 

NATO acusa Rússia de "violação flagrante" e abre portas à adesão da Ucrânia
ALEXANDRE MARTINS 29/08/2014 - PÚBLICO
Presidente russo, Vladimir Putin, diz que é preciso "forçar" as autoridades de Kiev a negociar com os separatistas e compara ofensiva ucraniana à ocupação nazi na Segunda Guerra Mundial.

O secretário-geral da NATO denunciou nesta sexta-feira a "violação flagrante da soberania e da integridade territorial da Ucrânia" pela Rússia e não fechou a porta à intenção anunciada pelo primeiro-ministro ucraniano de ver o seu país como membro de pleno direito da Aliança Atlântica.

"Apesar dos desmentidos vazios de Moscovo, tornou-se evidente que tropas e equipamento russos atravessaram ilegalmente a fronteira e entraram no Leste e no Sudeste da Ucrânia. Não é uma acção isolada, integra-se num padrão perigoso desenvolvido ao longo de meses com o objectivo de desestabilizar a Ucrânia enquanto nação soberana", lê-se no comunicado de Anders Fogh Rasmussen, publicado no final de uma reunião extraordinária da Comissão NATO-Ucrânia, o órgão que gere a cooperação entre a Aliança Atlântica e a Ucrânia.

A intenção de a Ucrânia passar a integrar a NATO foi posta de lado em 2010 pelo então recém-eleito Presidente Viktor Ianukovich, dois anos depois de o seu antecessor, Viktor Iushenko, ter posto o país no caminho da plena integração. Na altura, Viktor Ianukovich disse que a entrada na NATO "não era realista", alegando que esse passo "precisaria do apoio da maioria da população".

Com a queda de Ianukovich em Novembro do ano passado, depois de se ter recusado a assinar um acordo com a União Europeia e de se aproximar da união aduaneira desenhada pela Rússia, o actual Governo ucraniano retomou a intenção de se tornar membro de pleno direito da NATO.

Nesta sexta-feira, o primeiro-ministro interino, Arseni Iatseniuk, anunciou que vai submeter ao Parlamento uma proposta nesse sentido, sublinhando também que a política externa ucraniana tem como objectivo a integração na União Europeia.

Este anúncio do primeiro-ministro da Ucrânia teve uma resposta do secretário-geral da NATO, já na conferência de imprensa realizada no final da reunião extraordinária desta sexta-feira.

"Permitam-me recordar a decisão tomada em 2008 pela NATO para que a Ucrânia se torne um Estado-membro", disse Anders Fogh Rasmussen, referindo-se à cimeira de Bucareste, realizada em Abril de 2008 – no texto final dessa cimeira, lê-se que os Estados-membros concordaram que a Ucrânia e a Geórgia "serão membros da NATO".

O secretário-geral da Aliança Atlântica sublinhou também que a Ucrânia "tem o direito a decidir por si própria, sem ingerências do exterior", numa referência à oposição da Rússia a que o seu vizinho passe a integrar a NATO.

A questão da entrada da Ucrânia na NATO voltou a assumir uma importância fulcral nos últimos dias, com as acusações da Aliança Atlântica, dos Estados Unidos e da União Europeia de que a Rússia está directamente envolvida nos combates no Leste e no Sudeste da Ucrânia, em particular numa nova ofensiva dos separatistas pró-russos contra a cidade portuária de Mariupol.

Moscovo tem negado o envio de tropas para a Ucrânia, dizendo que todos os russos que estiverem a lutar ao lado dos separatistas são voluntários, ou soldados que perderam a orientação e entraram "sem intenção" em território ucraniano.

Também nesta sexta-feira, o Presidente russo, Vladimir Putin, disse que é preciso "forçar" o início de negociações directas entre as autoridades de Kiev e os combatentes separatistas – algo que o Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, já disse que não está disposto a fazer.

"É preciso forçar as autoridades ucranianas a iniciar negociações sobre as questões de fundo. Não sobre questões técnicas, mas sobre questões de fundo: quais serão os direitos da população do Donbass, de Lugansk, do Sudeste do país", disse Putin, durante uma conversa com jovens russos.

No entender de Vladimir Putin, a recusa de Kiev em pôr fim à sua ofensiva contra os combatentes pró-russos "é um erro colossal, que vai levar a significativas perdas de vidas humanas".


"Pequenas localidades e grandes cidades estão cercadas pelo Exército ucraniano, que está a atingir directamente áreas com o objectivo de destruir as infra-estruturas", disse Putin, fazendo uma comparação com a ofensiva nazi na Rússia: "Faz lembrar os eventos da Segunda Guerra Mundial, quando os ocupantes fascistas alemães cercaram cidades."


Putin likens Ukraine's forces to Nazis and threatens standoff in the Arctic
Russian president hits back at invasion accusations as Nato accuses Kremlin of 'blatant violation' of Ukraine's sovereignty
Shaun Walker in Mariupol, Leonid Ragozin in Moscow, Matthew Weaver and agencies

The Russian president, Vladimir Putin, has hit back at accusations that he has effectively invaded Ukraine, accusing Ukrainian forces of behaving like Nazis in the conflict in the east and ominously threatening to take his standoff with the west into the disputed Arctic.

Hours after Barack Obama accused Russia of sending troops into Ukraine and fuelling an upsurge in the separatist war, Putin retorted that the Ukrainian army was the villain of the piece, targeting residential areas of towns and cities like German troops did in the former Soviet Union.

He added that Russians and Ukrainians "are practically one people", reprising a theme of an earlier statement in which he referred to the disputed areas of south-eastern Ukraine as Novorossiya – a throwback to tsarist times when the area was ruled from Moscow.

And he made a pointed reference to the Arctic, which with its bounteous energy reserves and thawing waterways is emerging as a new potential conflict between Russia and its western rivals. "Our interests are concentrated in the Arctic. And of course we should pay more attention to issues of development of the Arctic and the strengthening of our position," Putin told a youth camp outside Moscow.

Russia's latest alleged interventions in Ukraine, in which it stands accused of sending as many as 1,000 soldiers and military hardware across the border to bolster the flagging separatist insurrection, has prompted a flurry of emergency meetings.

Nato ambassadors emerged from a meeting on Friday morning to accuse Russia of a "blatant violation" of Ukraine's sovereignty. "Despite Moscow's hollow denials, it is now clear that Russian troops and equipment have illegally crossed the border into eastern and south-eastern Ukraine," its secretary general Anders Fogh Rasmussen said.

Barack Obama convened his national security council on Thursday, and emerged to say that Moscow was responsible for the recent upsurge in violence, in which a new front has opened up in Ukraine's far south-east close to the city of Mariupol.

Speaking at a news conference in Washington, the US president said Russia was encouraging, training, arming and funding separatists in the region and warned Moscow that it faced further isolation.

He said: "Russia has deliberately and repeatedly violated the sovereignty and territorial integrity of Ukraine and the new images of Russian forces inside Ukraine make that plain for the world to see. This comes as Ukrainian forces are making progress against the separatists."
Obama again ruled out US military action, but threatened a further tightening of sanctions.

"As a result of the actions Russia has already taken, and the major sanctions we've imposed with our European and international partners, Russia is already more isolated that at any time since the end of the cold war," he said. "Capital is fleeing. Investors are increasingly staying out. Its economy is in decline." Financial markets echoed his words, and the ruble fell to an all-time low against the dollar on Friday morning.

Putin hit back by saying it was the Ukrainians who had failed to make peace happen. "It is necessary to force the Ukrainian authorities to substantively begin these talks – not on technical issues … the talks must be substantive," Putin said. "Small villages and large cities [are] surrounded by the Ukrainian army, which is directly hitting residential areas with the aim of destroying the infrastructure … It sadly reminds me the events of the second world war, when German fascist … occupants surrounded our cities."

For its part, Ukraine raised the stakes further on Friday morning when the prime minister, Arseny Yatseniuk, said he would try to take the country into Nato. Ukraine has formally maintained a position of non-alignment since its independence in 1991; the current crisis started over deep divisions in the country over whether to align itself more closely with the EU or turn towards the Russian camp.

The UN security council met on Thursday night, where the British ambassador, Mark Lyall Grant, repeated Nato assertions that Russia had deployed more than 1,000 troops in Ukraine. "Formed units of the armed forces of the Russian federation are now directly engaged in fighting inside Ukraine against the armed forces of Ukraine. These units consist of well over 1,000 regular Russian troops equipped with armoured vehicles, artillery and air defence systems," he said.

State department spokeswoman Jen Psaki amplified Obama's comments with details of Russia's involvement in Ukraine.

"Russia has … stepped up its presence in eastern Ukraine and intervened directly with combat forces, armoured vehicles, artillery, and surface-to-air systems, and is actively fighting Ukrainian forces as well as playing a direct supporting role to the separatists' proxies and mercenaries," she told a media briefing.

Samantha Power, US ambassador to the UN, accused Russia of lying about its involvement in Ukraine. "It has manipulated. It has obfuscated. It has outright lied," she said.

"The mask is coming off. In these acts, these recent acts, we see Russia's actions for what they are: a deliberate effort to support, and now fight alongside, illegal separatists in another sovereign country."

Russia's UN ambassador, Vitaly Churkin, responded: "There are Russian volunteers in eastern parts of Ukraine. No one is hiding that." Russia has denied that its troops are in Ukraine helping separatists fight the Ukrainian army.

But back at home, relatives of soldiers have started to break ranks, publicising the fact that their kin are in Ukraine.

One grandfather, Mikhail Smirnov, has told the Guardian that his 22-year-old grandson, Stanislav Smirnov, sent a message from the Ukrainian border on 19 August saying his motor rifle brigade was "being deployed". They have heard nothing since.

"Our government has gone too far –- it has lost its head," the grandfather said. When reminded that Moscow claims it has no troops in Ukraine, he added: "Hey, we are not blind."

Há um enxame de tuk tuk à solta nos bairros históricos de Lisboa

O próprio gerente da Eco Tuk Tours, que se apresenta como a única empresa a operar em Lisboa com veículos eléctricos, reconhece que “há tuk tuk a mais”. “Há um exagero, já se ultrapassou em muito o número razoável e as pessoas começam a sentir-se incomodadas”, afirma João Túbal, que estima que haja “pelo menos umas sete” entidades a oferecer este serviço na cidade.

Há um enxame de tuk tuk à solta nos bairros históricos de Lisboa
INÊS BOAVENTURA 17/08/2014 - PÚBLICO
O presidente da Junta de Santa Maria Maior diz que esta actividade, “interessante” para os turistas e para a economia, “está completamente desregulada”. A câmara tem em preparação um regulamento, com o qual quer definir circuitos e locais de paragem.



Num corrupio que só cessa ao entardecer, dezenas de tuk tuk, de cores e dimensões variadas, percorrem por estes dias o percurso que une a Baixa Pombalina à Sé de Lisboa, de onde partem depois em direcção ao miradouro das Portas do Sol. Pelo caminho, os triciclos motorizados de inspiração asiática semeiam ruído e, sempre que há uma subida mais desafiante pela frente, um cheiro a queimado que hão-de espalhar depois pelas ruas de Alfama e do Castelo.

Junto à Sé de Lisboa, como o PÚBLICO pôde comprovar durante uma tarde da passada semana, não passam mais do que dois ou três minutos sem que se aviste um tuk tuk. Alguns seguem rua abaixo, mas a maioria acaba por parar junto ao monumento nacional, seja para tentar angariar clientes ou para que os passageiros que seguem a bordo vejam de perto aquela que é uma das maiores atracções turísticas da cidade.

Tal como o sempre a transbordar eléctrico 28, os tuk tuk encaminham-se depois para o Largo das Portas do Sol, onde é bem visível a ausência de regras de que vários moradores, autarcas e taxistas se vêm queixando nos últimos tempos. Aqui, há triciclos motorizados parados em cima do passeio, numa curva em plena faixa de rodagem e em frente aos acessos ao parque de estacionamento subterrâneo ali existente, onde permanecem o tempo suficiente para que os turistas que transportam apreciem e registem para a posteridade a vista que o miradouro oferece sobre Lisboa.



As ruas estreitas e sinuosas de Alfama são outro ponto de visita obrigatório em boa parte dos circuitos realizados pelos tuk tuk, que para lá entrar contornam os pilaretes instalados à entrada desta “zona de acesso automóvel condicionado”. No dia em que o PÚBLICO andou pela cidade no seu encalço, a passagem de um camião de recolha de lixo da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior provocou um verdadeiro engarrafamento daqueles veículos na Rua dos Remédios, não longe do Museu do Fado. 

Ultrapassado esse obstáculo, uma mão cheia de triciclos motorizados seguiu bairro adentro. O ruído que produzem anuncia a sua chegada e obriga três vizinhas, em amena cavaqueira nos degraus de um prédio na Rua de São Miguel, a interromperem a conversa e a encolherem-se contra a parede.

“É o dia inteiro assim, até às sete e tal da noite. Passam de dois em dois ou de três em três minutos”, descreve uma moradora, que quer ser identificada apenas como Maria. “Fazem muito barulho e muita poluição”, queixa-se.

Também Jorge, que mora em Alfama há 35 anos e dispensa igualmente o apelido, está insatisfeito com a roda-viva de tuk tuk no bairro. “É válido para Lisboa mas acaba por ser saturante. E ainda por cima há os que estão afinadinhos e os que deitam muito fumo”, diz, garantindo que há dias em que são às centenas os veículos que por ali passam.

“Inventem circuitos alternativos para mostrar outras coisas. Lisboa não é só isto”, sugere este residente, criticando que os veículos de inspiração asiática circulem com tanta “facilidade” naquele que é um dos bairros históricos da cidade com acesso automóvel condicionado.



Para o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, reclamações como estas não só não são desconhecidas como são perfeitamente válidas. Os tuk tuk, acusa Miguel Coelho, “ocupam o espaço público de uma forma muito desordenada, estacionam em cima do passeio, enfiam-se por todo o lado, condicionam a circulação nas ruas estreitas e fazem barulho”.

O autarca socialista acredita que esta é “uma actividade interessante para os turistas, para a dinamização da vida da cidade e em termos económicos”, mas lamenta que seja também “uma actividade que está completamente desregulada”. “A sensação que dá é que há tuk tuk a mais”, diz Miguel Coelho, defendendo que, tal como já acontece com os táxis, deve ser estabelecido um número máximo de veículos autorizados a exercer actividade na cidade. Se tal não acontecer, adverte, poderá estar em causa “a salvaguarda da qualidade de vida dos residentes”.

O próprio gerente da Eco Tuk Tours, que se apresenta como a única empresa a operar em Lisboa com veículos eléctricos, reconhece que “há tuk tuk a mais”. “Há um exagero, já se ultrapassou em muito o número razoável e as pessoas começam a sentir-se incomodadas”, afirma João Túbal, que estima que haja “pelo menos umas sete” entidades a oferecer este serviço na cidade.

João Túbal faz questão de sublinhar a “qualidade” dos seis veículos da sua frota. “Não sendo poluentes, isso faz toda a diferença nas zonas históricas”, diz, criticando as empresas rivais por à passagem dos seus tuk tuk deixarem um rasto de “fumarada, mau cheiro e um barulho que não se aguenta”.

O PÚBLICO tentou, sem sucesso, falar com um representante da Tuk Tuk Lisboa, que terá sido a primeira empresa do género a instalar-se na cidade.

Tanto Miguel Coelho como João Túbal vêem com bons olhos a notícia de que a Câmara de Lisboa está a preparar, através da Direcção Municipal de Mobilidade e Transportes, um regulamento que enquadre a actividade dos tuk tuk. “Acho muito bem. É essencial que a câmara tenha mão nisto e que limite o número de veículos. Senão aquilo que já é insuportável começa a tornar-se ainda mais”, diz João Túbal.

“Sim, estamos a preparar uma proposta de regulamento, que deverá ir a reunião de câmara, ter debate público e posterior aprovação pela assembleia municipal”, confirmou ao PÚBLICO um porta-voz do município. Questionada sobre qual será o conteúdo desse documento, cuja necessidade já foi várias vezes defendidas pelos vereadores do PCP, a câmara esclareceu que ele irá “regular aquilo que se enquadra no âmbito das suas competências, em particular os circuitos e as paragens e o uso da via pública”. 

Quanto às queixas de alguns moradores relativamente ao ruído e à poluição provocada pelos triciclos motorizados, o município diz que “naturalmente gostaria que todos os veículos fossem silenciosos e de poluição zero”, acrescentando que “tentará potenciar ao máximo que as futuras tecnologias sejam nesse sentido”.

Quem também tem criticado os tuk tuk são as associações representativas dos taxistas, que falam em concorrência desleal, por aqueles veículos poderem apanhar passageiros em qualquer sítio da cidade e deixá-los onde quiserem, praticando os preços que entenderem. “Não queremos ter essa guerra”, reage João Túbal, garantindo que aquilo que interessa à sua empresa é “fazer circuitos turísticos, não serviços de táxi”.

Ninguém sabe quantos tuk tuk há

Afinal quantos são os tuk tuk a circular nas ruas de Lisboa? Esta é uma pergunta para a qual ninguém parece ter uma resposta. A Câmara de Lisboa diz que se alguém tiver essa informação é o Turismo de Portugal, mas esta entidade nem sequer sabe dizer quantas são as empresas que se dedicam ao transporte de passageiros nestes triciclos motorizados.

De acordo com a legislação que “estabelece as condições de acesso e de exercício da actividade das empresas de animação turística”, aprovada pelo actual Governo, essas empresas não estão obrigadas a qualquer tipo de licenciamento. O que têm então de fazer para iniciar actividade? “Efectuam uma mera comunicação prévia (...), através da regular inscrição no Registo Nacional dos Agentes de Animação Turística (RNAAT), incluindo a apresentação de comprovativo da contratação dos seguros obrigatórios - acidentes pessoais e responsabilidade civil - e o comprovativo do pagamento da taxa, quando devida”, explica o Turismo de Portugal.

Esta entidade acrescenta que essa comunicação “não limita geograficamente a operação das empresas habilitadas para o exercício de qualquer actividade de animação turística”, pelo que uma empresa registada no RNAAT pode exercer actividade em qualquer local do país. Além disso, acrescenta o Turismo de Portugal, “a actividade de ‘transporte de passageiros em tuk tuk’ não faz parte da listagem” constante do anexo ao Decreto-Lei n.º 95/2013. A junção desses dois factores faz com que não seja possível perceber quantas são as empresas que oferecem esse serviço em Lisboa.

Em respostas enviadas através de uma agência de comunicação, o Turismo de Portugal acrescenta que “a tutela do turismo tem repetidamente informado ser contra a introdução de quotas nas actividades económicas do sector”. Nessas respostas diz-se ainda que os tuk tuk “poderão circular, tal como qualquer outro [veículo] homologado pelas entidades competentes, nas vias públicas disponíveis” e que “as empresas de animação turística, tal como quaisquer outras empresas, são livres para estabelecer e/ou definir os preços a praticar”.  

No caso da Eco Tuk Tours, por exemplo, um dos circuitos pré-definidos mais requisitados é o “Old Town”, que ao longo de cerca de uma hora e meia vai da Sé ao Castelo, com passagem por Alfama e Mouraria. O preço desta viagem é 70 euros, tendo os veículos capacidade para um máximo de seis pessoas. Já o circuito “À La Carte”, em que os passageiros são convidados a definir o trajecto, custa 50 euros por hora.


No caso de uma outra empresa, a Tuk Tuk Lisboa, os preços dos circuitos pré-definidos variam entre os 60 (uma hora) e os 100 euros (três horas), sendo também possível a realização de um percurso escolhido pelos clientes.   

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Belém. Fim dos brasões da Praça do Império nas mãos da Direcção-Geral do Património.



Belém. Fim dos brasões da Praça do Império nas mãos da Direcção-Geral do Património
Por Marta Cerqueira
publicado em 29 Ago 2014 in (Jornal) i online
Zona está protegida pela UNESCO, câmara tem de pedir parecer para reabilitar jardim. Os brasões custam 24 mil euros por ano à autarquia

A intervenção no Jardim da praça do Império, em Lisboa, tem de obrigatoriamente passar por uma avaliação da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC). A câmara municipal revelou esta semana a intenção de reabilitar o espaço verde situado em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, não incluindo a recuperação dos brasões feitos de flores e arbustos que representam as ex-colónias.

O vereador José Sá Fernandes defendeu que os brasões deixaram de existir há pelo menos 20 anos pela falta de manutenção, mas isso não impede de estarem legalmente protegidos. Um jurista consultado pelo i, garante que qualquer intervenção no local terá de ser precedida de um pedido à DGPC.

Antes de eliminar os brasões, a autarquia terá sempre de solicitar um parecer, podendo até usar como argumento o facto de a simbologia em causa ser anacrónica e "ultrapassada", como defende o vereador dos Espaços Verdes. E o caso do Jardim da Praça do Império é ainda mais especial por estar duplamente protegido não só por pertencer à área de protecção de Belém, como também por estar em torno da estátua de Afonso Albuquerque".

O mapa do IGESPAR que delimita a área protegida de Belém, coloca em torno dos edifícios considerados Património Mundial da Humanidade - Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém - uma "zona tampão", da qual faz parte o Jardim da Praça do Império. Segundo o Plano Director Municipal, essa área corresponde a uma zona que usufrui de condições especiais no que diz respeito a licenças e autorizações para intervenção.

O vereador Sá Fernandes contudo assegura ao i que, "tal como aconteceu em intervenções noutros jardins da cidade", será pedida autorização à DGPC se o projecto for aprovado em reunião camarária. O vereador dos Espaços Verdes garantiu ainda que o assunto vai ser discutido e votado em reunião de câmara, mas insiste que, na sua opinião, "não faz sentido gastar dinheiro a recuperar brasões das ex-colónias". Segundo o estudo prévio pedido pelo autarca, a manutenção do total dos 32 brasões teria um custo de 100 mil euros anuais. Os oito brasões que representam as ex-colónias custariam à câmara cerca de 24 mil euros.

REACÇÕES A polémica à volta da reabilitação do jardim tem crescido de tom nos últimos dias. Entre os defensores dos brasões está até Elísio Summavielle, apoiante de António Costa nas eleições primárias do PS e antigo director-geral do património: "Como historiador que sou só posso defender que a história não deve ser apagada", avisa, ressalvando contudo que a crítica não se estende ao presidente da câmara, dado que a "asneira" é só da responsabilidade do vereador Sá Fernandes.


O CDS-PP por outro lado enviou uma carta a António Costa a exigir a suspensão imediata das alterações previstas para o jardim. "A câmara está a riscar páginas de história", salientou o vereador João Gonçalves Pereira. Com Kátia Catulo

CDS-PP exige que câmara vote o fim dos brasões coloniais no Jardim da Praça do Império. Câmara desencadeou ontem uma intervenção de emergência para dar melhor aspecto ao jardim em frente aos Jerónimos.


CDS-PP exige que câmara vote o fim dos brasões coloniais no Jardim da Praça do Império.
Câmara desencadeou ontem uma intervenção de emergência para dar melhor aspecto ao jardim em frente aos Jerónimos

O vereador do CDS-PP na Câmara de Lisboa, João Gonçalves Pereira, exigiu ontem que a decisão de acabar com os brasões das ex-colónias, talhados em buxo, que há mais de 50 anos decoram o Jardim da Praça do Império, seja discutida e votada na próxima reunião do executivo.
Marisa Soares / 29-8-2014

Numa carta enviada ao presidente da câmara, António Costa, o vereador da oposição considera que “este é um assunto cuja gravidade não permite que seja tratado com leviandade e ligeireza, ou à margem do processo deliberativo democrático a nível autárquico”. Gonçalves Pereira diz mesmo que a opção pela não-discussão do tema em reunião camarária “revela uma certa ideia de ‘quero posso e mando’ que não respeita as próprias regras da cultura”. Por isso, exige a “suspensão imediata de todas as decisões ou obras que visem alterar o jardim” e pede que a câmara solicite à Direcção-Geral do Património Cultural pareceres sobre a decisão e sobre as suas consequências para aquela zona classificada.
Na quarta-feira, em comunicado emitido pelo gabinete do vereador dos Espaços Verdes, José Sá Fernandes, a autarquia confirmou o que já tinha sido noticiado pelo PÚBLICO. “A Câmara de Lisboa não irá despender recursos financeiros a recuperar os brasões criados pelo Estado Novo das antigas colónias portuguesas e que há muito não existem, nem sequer como arranjos florais no local.”
Segundo o comunicado, apesar de os brasões das ex-colónias não serem
Este era o aspecto que o jardim tinha anteontem à tarde recuperados, Sá Fernandes pretende recuperar os restantes, alusivos aos distritos portugueses e à Cruz de Cristo, entre outros. O vereador acrescentou que os desenhos dos brasões em buxo e flores “há cerca de 20 anos que não eram intervencionados, sendo que alguns já nem existem no local, total ou parcialmente”. A nota não refere quando será feita a recuperação dos brasões.
Embora o comunicado garanta que o espaço “é mantido pela equipa de jardineiros da Câmara de Lisboa, que diariamente zela pelo local”, logo pela manhã de ontem, a autarquia mobilizou duas dezenas de pessoas para uma intervenção de emergência centrada nos canteiros dos brasões.
Supervisionados por vários responsáveis dos serviços de Espaços Verdes e com a presença do próprio Sá Fernandes e de membros do seu gabinete, os jardineiros desmataram durante todo o dia os canteiros em que o abandono era mais notório, servindo-se de várias carrinhas de caixa aberta para depositar as ervas cortadas e arrancadas.
A decisão de não recuperar o jardim e os argumentos invocados por Sá Fernandes — os brasões das ex-colónias estão “ultrapassados” e “não faz sentido mantê-los” — causaram “perplexidade” ao vereador do CDS-PP. “Tal decisão parte de um princípio político errado e enganador, segundo o qual os brasões ajardinados representam ou vinculam Portugal a símbolos coloniais”, afirma Gonçalves Pereira na carta enviada a António Costa, a quem acusa, juntamente com Sá Fernandes, de estarem “equivocados”.
“Se esse critério ideológico fosse seguido, chegaríamos ao absurdo de esconder os Jerónimos — monumento da expansão de Portugal — ou ignorar a Torre de Belém — símbolo dos Descobrimentos — ou ainda riscar das paredes as pinturas do salão nobre da Assembleia da República — alusivas ao ciclo imperial — ou ter vergonha dos brasões do antigo Banco Nacional Ultramarino e hoje excelente Museu de Design, apenas para mencionar quatro exemplos”, diz o vereador da oposição.

Em protesto contra os planos da autarquia surgiu já uma petição online pela preservação do jardim.

CINEMA IDEAL Sala de cinema mais antiga de Lisboa abre as portas esta quinta-feira.




CINEMA IDEAL
Sala de cinema mais antiga de Lisboa abre as portas esta quinta-feira
28/8/2014, SARA OTTO COELHO / OBSERVADOR / LUSA.

A recuperação do cinema mais antigo da capital vai poder ser vista a partir desta quinta-feira, com "E agora? Lembra-me", de Joaquim Pinto. Todos os dias haverá quatro sessões dárias.

O Cinema Ideal, em Lisboa, abre esta quinta-feira com a estreia em sala do premiado filme de Joaquim Pinto “E agora? Lembra-me“. O realizador Joaquim Pinto estará presente na sessão inaugural do cinema, às 21h15, anunciou a distribuidora Midas Filmes. A bilheteira do cinema abre às 20h45.

A recuperação do cinema mais antigo da capital, que já foi Salão Ideal, depois Cinema Ideal, Cine Camões e já exibiu filmes pornográficos enquanto Cine Paraíso, foi anunciada em dezembro do ano passado, pelos promotores do projeto, a distribuidora Midas Filmes e a Casa da Imprensa, proprietária do edifício. O projeto de recuperação, do arquiteto José Neves (Prémio Secil de Arquitetura 2012), custou cerca de 500 mil euros, incluindo o equipamento.

Para além do filme de Joaquim Pinto, a partir de sexta-feira as sessões diárias regulares do Cinema Ideal vão exibir também a versão digital restaurada de “A desaparecida“, de John Ford, clássico do cinema norte-americano, com John Wayne, Jeffrey Hunter e Natalie Wood, um dos dez melhores filmes de sempre, segundo a eleição da revista Sight and Sound, do British Film Institute. A bilheteira vai abrir diariamente às 13h00 e as sessões vão ser às 13h30, 15h45, 19h00 e 21h15, alternando entre “A desaparecida” (13h30 e 19h00) e “E agora? Lembra-me” (15h45 e 21h15).

Está igualmente prevista a estreia, a 11 de setembro – mês em que o Cinema Ideal cumpre 110 anos -, do filme “Os Maias“, de João Botelho, na versão longa de realizador que, segundo disse o responsável da Midas Filmes à Lusa, Pedro Borges, será um exclusivo do Cinema Ideal.

Numa parceria com a Cinemateca, herdeira dos filmes de Paulo Rocha (1935-2012), o novo espaço cultural irá também exibir a última longa-metragem deixada pelo realizador, intitulada “Se eu fosse Ladrão, roubava“.

No âmbito desse trabalho com a Cinemateca, serão igualmente exibidas cópias restauradas de dois filmes de Paulo Rocha dos anos 1960 – “Os Verdes Anos” e “Mudar de Vida” – obras fundadoras do chamado Novo Cinema Português, a par de produções de outros cineastas, como Fernando Lopes, António da Cunha Telles ou José Fonseca e Costa.

O Cinema Ideal, localizado na rua do Loreto, à praça Camões, entre o Chiado e o Bairro Alto, tem perto de 200 lugares, entre plateia (132) e balcão (60), uma cafetaria, uma livraria e vai estar aberto cerca de 14 horas por dia. Ao fim de semana terá sessões para famílias.


O preço dos bilhetes vai oscilar entre os cinco euros (às quintas-feiras, “Dia Ideal”, e nas primeiras sessões, até às 13h00) e os sete euros (sessões da noite). Para as sessões da tarde (até às 18h30), para sessões especiais, a indicar pela Midas Filmes, e para detentores dos cartões jovem e de estudante, o preço é de seis euros.

As reuniões de jovens pelo Facebook e a outra pobreza


OPINIÃO
As reuniões de jovens pelo Facebook e a outra pobreza
PEDRO AFONSO 29/08/2014 - PÚBLICO
O problema reside na incapacidade que muitos destes jovens têm em planear o futuro e adiar a gratificação.


Recentemente ficámos surpreendidos com um encontro de centenas de jovens no Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa, convocado através do Facebook e que terminou com cinco agentes e um jovem de 15 anos feridos, e com dois jovens acusados de resistência e coação à autoridade.

A abordagem de qualquer fenómeno desta natureza é sempre parcial e incompleta, pois cada um destes jovens mobilizados para estas ações através do Facebook tem um percurso de vida único. Além disso, é provável que nestes grupos haja vários jovens “normais” e bem adaptados. Mas afinal o que pode explicar alguns comportamentos antissociais? O que pensam estes jovens? O que sentem? Quais são as suas expectativas sobre a vida?

Quando na infância e na adolescência não se reúnem um conjunto de condições para um normal desenvolvimento psíquico existem sempre consequências. A personalidade é habitualmente afetada, transformando-se nalguns casos numa personalidade doente e perturbada. Neste contexto, estes jovens têm grandes dificuldades de adaptação à sociedade, as relações interpessoais são problemáticas, têm reduzida tolerância à frustração, o que juntamente com a pressão do grupo e alguma impulsividade pode explicar (mas não justifica) alguns comportamentos antissociais observados.

O que pensam estes jovens? Uma grande parte destes jovens pensam essencialmente num assunto: o presente. A satisfação dos desejos imediatos, encontra-se muito ligada à cultura consumista e hedonista. A preocupação está muitas vezes em obter o último gadget ou a roupa da moda. Mas não existe propriamente um comportamento desviante nisto, pois todos nós somos um pouco assim. O problema reside na incapacidade que muitos destes jovens têm em planear o futuro e adiar a gratificação. Esforçar-se hoje para ser recompensado amanhã. Esta é uma característica fundamental para se transitar de uma personalidade imatura para uma personalidade matura. Infelizmente, muitos não são ajudados, nem motivados, para adquirirem esta importante competência social.

O que sentem estes jovens? Por experiência profissional posso afirmar que muitos destes jovens sentem falta de amor, pois têm graves carências afectivas. Dentro de si próprios persiste um enorme sentimento de revolta e rancor. Por vezes mistura-se ainda um sentimento crónico de vazio interior. Assim, basta um pequeno rastilho para surgir a agressividade e a violência. Mas o problema também tem outra dimensão. A nossa sociedade tem promovido nos últimos anos, junto dos jovens, uma cultura afectiva epidérmica, superficial, onde tudo é sexualizado e erotizado. Por esse motivo, nota-se um autêntico analfabetismo emocional, bem visível pelo fato de atualmente muitos jovens não disporem sequer de um vocabulário diversificado para expressarem as suas emoções. Tudo se resume ao “gosto”, “não gosto”, “desejo-te”, “já não significas nada para mim”. Para os mais desatentos, bastará assistir a alguns reality shows para se comprovar este fenómeno que não é mais do que a promoção da estupidificação afetiva da sociedade.

Uma boa adaptação social obriga a que possamos compreender os nossos sentimentos. As nossas emoções também se pensam e isso é essencial para o autocontrolo, tão útil na nossa vida. Sem autocontrolo não somos verdadeiramente pessoas livres, já que ficamos escravos das nossas emoções. É nesta base que assenta o conceito de inteligência emocional e que pode ser desenvolvido em qualquer um de nós.

As expectativas sobre a vida de vários destes jovens são muito baixas e a sua existência está frequentemente centrada no aqui e agora. Se perguntarmos a alguns deles qual é o seu projeto de vida, a resposta habitual é o silêncio. Se insistirmos na pergunta, a reposta surge num tom enfadado: “nunca pensei muito sobre isso”. Esta é a maior pobreza: ser jovem e não conseguir pensar no futuro.


Médico Psiquiatra


O legado de Guterres


O legado de Guterres
Por Pedro Braz Teixeira
publicado em 27 Ago 2014 in (Jornal) i online

Guterres foi um primeiro-ministro incapaz de pensamento e acção estratégicas, tendo esbanjado o último período de vacas gordas

António Guterres foi eleito primeiro- -ministro em Outubro de 1995, herdando uma economia em recuperação, com as contas externas equilibradas. Foi o último chefe de governo a viver em tempo de vacas gordas, aliás gordíssimas, que conseguiu desbaratar sem propósito nem estratégia.

Nessa altura o país enfrentava dois desafios evidentes: preparar-se para uma participação bem sucedida no euro e responder ao desafio que se adivinhava da concorrência dos países de Leste, então ainda a dar os primeiros passos em direcção a uma economia de mercado.

Em relação ao euro, convém recordar que este tinha sido concebido à imagem da Alemanha. Para gerir a procura interna, este país tinha uma combinação muito particular de políticas orçamental e monetária. Tendo uma política orçamental geralmente restritiva (défices públicos baixos), podia ter uma política monetária razoavelmente expansionista (taxas de juro baixas). Em Portugal, a combinação destas políticas era exactamente a oposta: o laxismo orçamental forçava uma política monetária restritiva (taxas de juro elevadas).

Dado que o nosso país ia passar a ter uma política monetária à alemã, era essencial que a política orçamental também passasse a ser germânica, sob pena de se criar um excesso de procura interna, com a concomitante e habitual perda de competitividade. Isto era tanto mais imprescindível quanto o instrumento fundamental de correcção de problemas de competitividade, a desvalorização, ia deixar de estar disponível, mesmo antes de entrarmos no euro. Recorde-se que as taxas de câmbio irrevogáveis das moedas nacionais com o euro foram fixadas em Maio de 1998 e que o critério cambial requeria dois anos de estabilidade da taxa de câmbio. Ou seja, a partir de meados de 1996 já não poderia haver mais desvalorizações.

Estas questões elementares escaparam a Guterres e Sousa Franco, que acharam que os critérios orçamentais de Maastricht eram uma mania, que nos bastava fingir que cumpríamos. Não perceberam que um país como Portugal teria de ir muito mais longe que aqueles critérios, sob pena de gerar graves problemas à nossa economia. O desvario foi completo: desbaratou-se a enorme folga orçamental criada pela gigantesca descida dos juros e ainda se inventaram as PPP, para enganar os nossos parceiros comunitários, gastando debaixo da mesa. Os problemas não tardaram a chegar, com uma perda de competitividade que criou uma estagnação económica desde 2000 até hoje.

Em relação ao dificílimo desafio da concorrência dos países de Leste, foi totalmente ignorando, tendo Guterres e Cravinho dado início a uma extraordinária orgia de betão, que jamais corrigiria os graves problemas que tínhamos face àqueles países: mais longe do centro da Europa, com uma força de trabalho muito menos qualificada e, mesmo assim, a pagarmos salários superiores ao desses países.

Voltando às inacreditáveis PPP rodoviárias, o pináculo do disparate do betão, elas constituíram um gigantesco erro estratégico (um equívoco em relação a tudo o que era importante), um erro macroeconómico (foram lançadas na pior altura, quando a economia já tinha procura a mais), um desastre de finanças públicas (implicavam custos que eram o dobro do que se tivessem sido financiadas com dívida pública) e a justificar as mais profundas suspeitas de corrupção (os contratos são de tal modo contrários aos interesses do Estado e dos contribuintes que é praticamente impossível imaginar que não tenham envolvido corrupção).

Em resumo, apesar de Guterres ser um político inteligente, culto e falar (demasiado) bem, foi um primeiro-ministro da espuma dos dias, sem a menor capacidade de esboçar o mais leve pensamento e acção estratégicas. Além disso, apesar de ser pessoalmente honesto, permitiu à sua volta uma extraordinária profusão dos mais obscuros negócios de Estado.

Veremos qual a miséria de candidato que a direita nos vai apresentar, para revelar o esgotamento definitivo do regime.

Investigador do Nova Finance Center, Nova School of Business and Economics


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