quarta-feira, 21 de junho de 2017

Depois dos escombros em Pedrógão


Depois dos escombros em Pedrógão

Os governos só se empenham no dossier árduo e pouco visível da floresta com a força da revolta e da indignação cidadã.

21 de Junho de 2017, 6:45

A tragédia de Pedrógão Grande continua incontrolável e para lá da cortina de fumo formada pela enésima recuperação das propostas para ordenar a floresta começam a desenhar-se três panos de fundo: a maré condescendente com as explicações oficiais criada pela dor, a onda punitiva que chega a propor o recurso aos reclusos para se limparem as matas e a vaga lírica que defende o regresso a uma floresta original, pura e límpida, húmida e rica em fauna, viçosa e livre de eucaliptos. Compreende-se e aceita-se. Depois do que se passou é difícil travar o sentimento de revolta que, como se sabe, cede mais facilmente aos instintos da emoção do que às exigências do pensamento racional. Mas, se em Agosto de 2016 os 160 mil hectares ardidos levaram António Costa a declarar que o país não podia perder mais tempo a reformar a floresta sob pena de se perderem as “as condições políticas" do momento, em Junho de 2017, após o horror de Pedrógão Grande, ficou claro que a preservação da floresta portuguesa exige muito mais do que uma simples reforma paliativa. Exige uma atitude emocional de revolta, capaz de ultrapassar os limites do decreto-lei ou do sistema fiscal favorável.

Quem, como o autor destas linhas, acompanhou as discussões sobre a política florestal nos últimos 25 anos percebe que os governos só se empenham no dossier árduo e pouco visível da floresta com a força da revolta e da indignação cidadã. Em 1995 arderam 150 mil hectares (um valor que hoje nos parece “normal”) e no ano seguinte fez-se a Lei de Bases da Política Florestal; em 2003 arderam mais de 400 mil hectares e, acto contínuo, a lei de bases foi regulamentada e criou-se o pomposo plano nacional de defesa contra incêndios; no ano passado o fogo devastou 160 mil hectares e o sentido de urgência regressou à ordem do dia. O que há de novo depois de Pedrógão Grande, da absurda perda de tantas vidas e da trágica dimensão da área ardida (um quinto das perdas totais do ano passado em apenas um fim-de-semana) é a sensação de que chegámos ao momento do tudo ou nada. Já não nos bastam bancos de terras feitas a partir do milhão de parcelas florestais sem dono conhecido, não chegam medidas que travam a expansão do eucalipto ou criam sociedades de investimento. Uma floresta que arde como ardeu na zona do Pinhal Interior exige muito mais. Exige uma revolução.

O Estado pode começar a reconhecer de uma vez por todas que os donos da floresta (os privados dominam 98% da área total) não são capazes de responder ao desafio que se lhes coloca. Manchas de pinho ou eucalipto contínuas como as que arderam exigem a criação de aceiros para travar a marcha do fogo, empreitadas que proprietários absentistas ou populações idosas e empobrecidas do mundo rural jamais poderão fazer. Seria uma boa ideia pôr a engenharia militar a prestar esse serviço? Manchas de povoamento com tojos ou giestas, espécies altamente combustíveis, têm de ser limpas, o que só se conseguirá se a colheita da biomassa for rentável. Seria uma boa ideia o Estado financiar a criação a laboração de centrais para produzirem energia – ou pellets? As orlas das estradas ou os limites das aldeias e vilas do interior têm de ser impositivamente limpas de coberto vegetal, e aqui não se pede ao Estado Central que intervenha: pergunta-se antes às autarquias para que servem os seus pomposos gabinetes técnicos florestais, que recebem até 16 mil euros por ano do fundo florestal permanente, para, salvo raras excepções, criarem apenas jobs for the boys.

Para que este desafio colossal fizesse sentido, o eixo da discussão sobre os fogos teria de passar dos bombeiros para os silvicultores. Há muito que em Portugal se gastam dezenas de milhões de euros por ano em operações de estilo militar (70 milhões em 2016, quatro vezes mais do que na prevenção) quando toda a gente sabe que em incêndios dantescos como o destes dias os bombeiros pouco mais podem fazer senão mostrar a sua coragem, abnegação e por vezes sacrifício. É neste ponto que aparece o tal discurso lírico sobre a floresta natural, imune ao fogo e à especulação capitalista, que tem tanto de inocente como de perigoso. Sejamos claros: em Portugal, e no mundo, a floresta natural ou é um mito ou um tesouro da museologia natural guardado em nichos como a Madeira ou no Gerês. A floresta em Portugal cresceu pela força do interesse económico, fosse sob a égide do Estado, ou dos particulares – no princípio do século XIX os povoamentos ocupavam 10% do território nacional, e esse valor chega hoje aos 34.5%. O eucalipto ou o pinheiro que ardem têm um papel fundamental na sustentação da economia rural. E na economia nacional também – a pasta e o papel rendem ao país cerca de 2800 milhões de euros por ano e a Navigator Company (ex-Portucel) é a maior exportadora líquida de Portugal.

Travar a eucaliptização, como fez este Governo, faz sentido. A floresta não pode ser apenas um negócio. Por isso, faz sentido manter ou reforçar o apoio público à plantação de montado de sobro ou de carvalhos – espécies que viram a sua área na floresta nacional aumentar, embora menos do que o desejado e muitíssimo menos do que o galopante eucalipto. Ou como se torna imperioso exigir que haja linhas destas espécies instaladas entre manchas maiores de floresta de produção. Mas acreditar numa utopia florestal sem árvores aptas para a indústria, capazes de remunerar o investimento e de dar lucro aos proprietários, não passa disso mesmo: de um acto de fé.


Com o ordenamento florestal atribuído a planos regionais (PROF), a zonas de intervenção e a planos de gestão congelado por inépcia política, todas as promessas de 1996 se goraram e o que era um barril de pólvora tornou-se um arsenal pronto a explodir por força das alterações climáticas. Na prática, o equilíbrio entre a floresta-recurso público e a floresta-recurso económico desequilibrou-se e, como sempre que há falhas, somos nós quem vai ter de pagar a factura. Vão ser precisas leis de excepção para intervir no espaço privado, vão ser necessários recursos financeiros vultuosos, as autarquias vão ter de assumir as suas responsabilidades na defesa das populações e dos seus recursos, vai ser preciso travar o protagonismo do lobbie do fogo, vai ser necessário recuperar o que resta de um dos melhores serviços públicos que o país teve em tempos – os serviços florestais. A dor colossal dos mortos em Pedrogão exige um esforço colossal e rápido do país para evitar a sua repetição. Um Verão terrível pode estar às portas e, se nada se fizer agora, os fogos vão continuar a ser primeiras páginas dos jornais em Portugal e no mundo.

THE LAUGHING STOCK OF EUROPE


THE LAUGHING STOCK OF EUROPE
Paula Kirby
June 17 at 11:21pm ·
This article in a Swiss newspaper today is so ruthlessly clear-sighted in its assessment of just how screwed we are that I just had to translate it for the non-German speakers. Hold on to your hats:
THE LAUGHING STOCK OF EUROPE
[Translation by Paula Kirby]

If it weren't so serious, the situation in Great Britain would almost be comical. The country is being governed by a talking robot, nicknamed the Maybot, that somehow managed to visit the burned-out tower block in the west of London without speaking to a single survivor or voluntary helper. Negotiations for the country’s exit from the EU are due to begin on Monday, but no one has even a hint of a plan. The government is dependent on a small party that provides a cozy home for climate change deniers and creationists. Boris Johnson is Foreign Secretary. What in the world has happened to this country?
Two years ago David Cameron emerged from the parliamentary election as the shining victor. He had secured an absolute majority, and as a result it looked as if the career of this cheerful lightweight was headed for surprisingly dizzy heights. The economy was growing faster than in any other industrialised country in the world. Scottish independence and, with it, the break-up of the United Kingdom had been averted. For the first time since 1992, there was a Conservative majority in the House of Commons. Great Britain saw itself as a universally respected actor on the international stage. This was the starting point.
In order to get from this comfortable position to the chaos of the present in the shortest possible time, two things were necessary: first, the Conservative right wingers’ obsessive hatred of the EU, and second, Cameron’s irresponsibility in putting the whole future of the country on the line with his referendum, just to satisfy a few fanatics in his party. It is becoming ever clearer just how extraordinarily bad a decision that was. The fact that Great Britain has become the laughing stock of Europe is directly linked to its vote for Brexit.
The ones who will suffer most will be the British people, who were lied to by the Brexit campaign during the referendum and betrayed and treated like idiots by elements of their press. The shamelessness still knows no bounds: the Daily Express has asked in all seriousness whether the inferno in the tower block was due to the cladding having been designed to meet EU standards. It is a simple matter to discover that the answer to this question is No, but by failing to check it, the newspaper has planted the suspicion that the EU might be to blame for this too. As an aside: a country in which parts of the press are so demonstrably uninterested in truth and exploit a disaster like the fire in Grenfell Tower for their own tasteless ends has a very serious problem.
Already prices are rising in the shops, already inflation is on the up. Investors are holding back. Economic growth has slowed. And that’s before the Brexit negotiations have even begun. With her unnecessary general election, Prime Minister Theresa May has already squandered an eighth of the time available for them. How on earth an undertaking as complex as Brexit is supposed to be agreed in the time remaining is a mystery.
Great Britain will end up leaving its most important trading partner and will be left weaker in every respect. It would make economic sense to stay in the single market and the customs union, but that would mean being subject to regulations over which Britain no longer had any say. It would be better to have stayed in the EU in the first place. So the government now needs to develop a plan that is both politically acceptable and brings the fewest possible economic disadvantages. It’s a question of damage limitation, nothing more; yet even now there are still politicians strutting around Westminster smugly trumpeting that it will be the EU that comes off worst if it doesn’t toe the line.
The EU is going to be dealing with a government that has no idea what kind of Brexit it wants, led by an unrealistic politician whose days are numbered; and a party in which old trenches are being opened up again: moderate Tories are currently hoping to be able to bring about a softer exit after all, but the hardliners in the party – among them more than a few pigheadedly obstinate ideologues – are already threatening rebellion. An epic battle lies ahead, and it will paralyse the government.
EU chief negotiator Michel Barnier has said that he now expects the Brits to finally set out their position clearly, since he cannot negotiate with himself. The irony of this statement is that it would actually be in Britain’s best interests if he did just that. At least that way they’d have one representative on their side who grasps the scale of the task and is actually capable of securing a deal that will be fair to both sides. The Brits do not have a single negotiator of this stature in their ranks. And quite apart from the Brexit terms, both the debate and the referendum have proven to be toxic in ways that are now making themselves felt.
British society is now more divided than at any time since the English civil war in the 17th century, a fact that was demonstrated anew in the general election, in which a good 80% of the votes were cast for the two largest parties. Neither of these parties was offering a centrist programme: the election was a choice between the hard right and the hard left. The political centre has been abandoned, and that is never a good sign. In a country like Great Britain, that for so long had a reputation for pragmatism and rationality, it is grounds for real concern. The situation is getting decidedly out of hand.
After the loss of its empire, the United Kingdom sought a new place in the world. It finally found it, as a strong, awkward and influential part of a larger union: the EU. Now it has given up this place quite needlessly. The consequence, as is now becoming clear, is a veritable identity crisis from which it will take the country a very long time to recover.


Crecen las dudas sobre la gestión del incendio de Portugal / Los supervivientes del incendio acusan a las autoridades: “Nos arrastraron hacia la muerte” / Portugal’s prime minister calls on emergency services to explain wildfire response



Crecen las dudas sobre la gestión del incendio de Portugal
Los fuegos persisten tres días después de la tragedia mientras arrecian las críticas a la gestión de las autoridades

JAVIER MARTÍN
Góis 21 JUN 2017 –

Las llamas van de un lado a otro, de Pedrógão Grande a Góis, como las preguntas que se hacen los vecinos, que viven su tercer día de incertidumbre en medio de unos fuegos que han matado ya a 64 personas. Los políticos coinciden en que no es tiempo para las críticas, pero sí se ha abierto el de las preguntas. El mismo primer ministro, António Costa, quiere saber por qué no se cerró a tiempo la N236, la carretera de la muerte. También se ha sabido que el plan contraincendios tiene cuatro años cuando debía ser renovado cada dos años.

En 500 metros de asfalto encontraron la muerte 47 de las 64 personas que han fallecido por los incendios. Atrapadas en sus coches, algunas volvían de las playas, otras salían de las aldeas cercanas, de Figueira, de Nodeirinho, de Pobráis, porque, según una superviviente, les dijeron que el camino era la alternativa segura a la carretera comarcal I8. Y se encontraron con un caldero en llamas.

El primer ministro Costa pregunta a los responsables de la Guardia Nacional republicana por qué no se cerró la N236; también pide explicaciones por las previsiones meteorológicas y por el defectuoso servicio de comunicaciones. “¿Por qué, desde cuándo y qué impacto tuvo en la planificación, dirección y ejecución de las operaciones que vuestros sistemas no estuvieran funcionando? ¿Qué se hizo para establecer conexiones alternativas?, preguntó Costa, según la agencia Lusa, informa Reuters.

En este nuevo escenario de preguntas sin críticas, se revela que el Plan Forestal Contraincendios está congelado desde hace cuatro años; el anterior, de 2012 se publicó ayer, tras la denuncia del diario Público. Este plan debía actualizarse cada dos años, pero no se ha hecho nada desde hace cuatro.

También queda para largo la ley de reforestación que va a prohibir -según el Partido Socialista (PS)- el aumento de la superficie de eucaliptus; también está en trámite el primer catastro de bosques. Se desconoce la propiedad de casi la mitad de las parcelas rurales y boscosas; sin esa herramienta básica se hace muy difícil la planificación y encarar cualquier programa de prevención.

Ahora se echa la culpa a la falta de limpieza de los montes, pero el secretario de Estado de Bosques, Amãndio Torres, restó importancia a este argumento, pues recuerda que se han limpiado 25.000 hectáreas en una superficie forestal de 3,1 millones y que el arbusto también cumple una función ecológica.

No es que falten leyes, dice el propio secretario de Estado Torres, sino que es necesario que se cumplan las que hay. Está prohibido arbolar a 10 metros de las carreteras, los propietarios de los bosques tienen la obligación de mantenerlos limpios y de mantener los cortafuegos libres, pero se desconoce cuántas multas han impuesto los Gobiernos por estas causas.

En el kilómetro 7,5 de la carretera de la muerte todo está calcinado, pero se intuye lo que había: el bosque de eucaliptus, el camino cortafuegos, pero después ya junto a las cunetas, más eucaliptus que brotan de forma silvestre. Este martes, tres días después de la tragedia, unos obreros reemplazaban los quemados guardarraíles por otros nuevos; el asfalto aún se nota levantado por el calor, las señales de tráfico aguantan de pie, pero negras; en una de ellas alguien ha colocado un ramillete de flores. Aquí, el joven Miguel, vecino de Pobráis, encontró a su madre calcinada. Miguel dice que aquello que vio no era su madre, aunque sabe que era porque reconoció el coche.

La ciudadanía se pregunta más cosas. Por ejemplo: ¿Cómo puede ser que 47 cadáveres estuvieran casi 24 horas allí, en medio de la carretera, dentro de sus coches unos, en la huida otro? Solo un médico especialista podía levantar los cuerpos...y era la tarde de un sábado de playa.

El banco BPI y la Fundación bancaria La Caixa han anunciado que destinarán, en colaboración con el Ayuntamiento de Pedrógão Grande, un millón de euros para el realojo y la necesidades básicas de los afectados, según han informado ambas entidades en una nota.

Hace un año, para celebrar el Día del Bosque, el primer ministro Costa recordaba -como se puede leer en su página oficial- que Portugal tenía “un sistema de prevención mejor y un sistema de combate mejor; ahora necesitamos un mejor ordenamiento forestal”.

No hay críticas, es hora de trabajar unidos, dicen desde el presidente Rebelo de Sousa al líder de la oposición, Pedro Passos Coelho, pero sí es tiempo de lanzar preguntas, una más: ¿Por qué un país con tanto terreno forestal no tiene un Cuerpo de Guardas Forestales?

Confusión sobre una aeronave estrellada

Protección Civil de Portugal ha rectificado la información inicial en la que daba por estrellada una de las aeronaves que trabaja en la extinción del fuego. "No hay ningún aparato de combate contra los incendios que haya caído o tenido ningún problema", indicó un portavoz de Protección Civil al medio portugués Publico. La misma fuente añadió que no podían asegurar que otro tipo de aparato, no involucrado en las labores de extinción del fuego, pudiera haber sufrido un accidente.

A las 17.15 hora local (18.15 en la España peninsular) de este martes, un miembro de Protección Civil alertó a la agencia de noticias portuguesa Lusa de que un aparato involucrado en las labores de extinción se había accidentado en el término municipal de Pedrógão Grande.

La Fuerza Aérea de España informó a través de su cuenta de Twitter de que el posible avión de extinción accidentado no era español. El secretario de Estado de Administración Interna de Portugal ha asegurado a los periodistas desde Góis que no podía confirmar que un aparato se hubiera estrellado.

En una comparecencia de prensa, el responsable de Protección Civil, Vítor Vaz Pinto, ha explicado que el origen de la confusión ha podido estar en la explosión de una caravana abandonada que tendría bombonas de gas en su interior. No obstante, Vaz Pinto admitió que se enviaron equipos de búsqueda a la zona, en las proximidades de Ouzenda, en el término municipal de Pedrógão Grande.

EL DRAMA VUELA A GÓIS
Se ha cumplido lo que más temía el bombero español Aitor Soler, que el fuego se extienda por las escarpadas montañas, casi imposible de combatir a pie.

El sábado, el fuego comenzó en una planicie, en Fundeiros, cerca de Pedrógão Grande. La imprevisibilidad -con las condiciones meteorológicas ayudando- provocó el desastre más que la difícil topografía; pero los montes de Góis son otra cosa.

La noche pasada, otra vez con vientos cambiantes y mucha sequedad, el fuego se extendió por la difícil topografía de Góis. Desde las 7 de la mañana los hidroaviones, españoles y franceses principalmente, lanzaban agua sobre la tupida sierra. Pedrógão se daba por controlado y acabado a media mañana; pero al otro lado, en el concejo de Góis, aumentaban los problemas. El humo se elevaba y los aviones dejaron de poder trabajar. Aldea por aldea comenzaban a ser evacuadas: Cadafaz, Cabreira, Sandinha...

-¿Hay que entrar en las casas?, preguntaba un bombero español a los portugueses.

-Sí, casa por casa, pero antes llamad a la puerta.

Aunque llamen, hay ancianos que no se quieren marchar. Los bomberos no tienen autoridad y tienen que llamar a la Guardia Nacional Republicana. Habían sido evacuadas más de 27 aldeas hasta media tarde, la mayoría ancianas, desperdigadas en unas casas por allí y otras por allá, casas tan integradas en la espesura que son difíciles de detectar.
Los ancianos salen montados en sillas y llevados a pulso por zapadores o personal que se ofrece. Los aviones se desviaron a Pedrógão, donde la situación se ha agravado. Aquí también se desalojó la aldea de Ouzenda. Son 40 focos activos, reactivados por el capricho del viento y una tierra que sigue humeando como el cráter de un volcán.

Los supervivientes del incendio acusan a las autoridades: “Nos arrastraron hacia la muerte”

Los agentes indicaron que la carretera donde fallecieron la mayoría de las víctimas era segura.

20 junio, 2017 20:17
Aitor Hernández-Morales Lisboa

Mientras Portugal cierra su segundo día de luto oficial por las al menos 64 víctimas del incendio de Pedrógão Grande, más de 1150 efectivos siguen intentando controlar la conflagración que ha quemado decenas de miles de hectáreas de los distritos centrales de Leiría, Coimbra y Castelo Branco desde su inicio el pasado sábado.

El comandante operacional de Protección Civil, Vítor Vaz Pinto, afirma sentir confianza que el incendio estará controlado en cuestión de 24 horas, pero a lo largo del martes las autoridades lusas se vieron obligadas a evacuar 27 aldeas y un asilo de ancianos en el municipio de Góis, distrito de Coimbra ante el avance imparable de las llamas.

“Estamos ante una situación grave que puede pasar a ser gravísima”, reconoció Lurdes Castanheira, presidente de la Cámara Municipal de Góis, población que se sitúa a unos 40 kilómetros del punto de inicio del incendio. “El incendio ha logrado atravesar la sierra y el viento ha hecho que llegue hasta aquí con una intensidad increíble”.

Castanheira reconoció temer por la vida de algunos de sus conciudadanos, ya que “en varias aldeas los más ancianos han rechazado dejar sus casas, pese al peligro evidente que supone el avance de las llamas. En una aldea ocho personas han decidido obviar el aviso de evacuación. Infelizmente no les podemos retirar a la fuerza”.


 Dos militares españoles salvan la vida en el último atentado yihadista en un hotel de MaliDos militares españoles salvan la vida en el último atentado yihadista en un hotel de MaliAlejandro RequeijoUn subteniente permaneció varias horas en paradero desconocido y un comandante tuvo que usar su arma en el ataque para poder huir.
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Mientras siguen las labores de extinción, crece la indignación contra las autoridades ante noticias que revelan graves fallos de coordinación en las primeras horas del incendio. Errores que, según cuentan los supervivientes, pueden haber provocado la muerte de decenas de personas.

Hacia la “carretera de la muerte”

Maria de Fátima se encontraba volviendo de Coimbra el sábado cuando se enteró que un incendio afectaba la zona donde vive su padre, residente de Pedrógão Grande. “Cuando le llamé me dijo que era verdad, que el fuego les tenía completamente rodeados y que estaban en peligro”, cuenta Fátima en declaraciones a los medios lusos. “Conseguí llegar al pueblo y encontrar a mi padre, pero cuando intentábamos salir de la zona y tomar la IC8 [una autopista que pasa cerca de la zona], la Guardia Nacional Republicana (GNR) la había cortado”.

Según Fátima, cuando preguntó a los agentes de la GNR por dónde debía evacuar la zona, estos le indicaron que la carretera nacional 236 estaba libre de peligro. Al avanzar por esta vía, sin embargo, se encontró con un escenario apocalíptico.

“El humo era tan denso que no se veía absolutamente nada, lo único que resaltaba eran las llamas entre los árboles”, recuerda Fátima. “Chocamos con algo que estaba tirado en medio de la carretera, y de pronto un coche que venía detrás impactó chocó con el nuestro, y en nada el nuestro comenzó a arder. Queríamos salir del coche, pero a la vez el calor era tan intenso que no sabíamos si seríamos capaz de sobrevivir ahí fuera”.

Vi a una madre arder con los dos hijos agarrados a ella. Yo sólo conseguí salvar a mi nieta de milagro
Finalmente, Fátima y su padre se decidieron y lograron salir de la zona a pie, junto a otra mujer que encontraron malherida, con gran parte de su cuerpo quemada. Ante los medios, la superviviente denuncia que los agentes de la GNR la enviaron al sitio donde más de medio centenar de personas murieron calcinados el sábado.

“¡Sólo me salvé gracias a la intervención de Nuestra Señora! ¡Qué horror, qué horror!”Armindo Graça, que también escapó del infierno de la carretera nacional 236, es más explícito en su condena de los agentes de la GNR.

“Nos arrastraron hacia la muerte”, sentencia el residente de Pobrais. “Literalmente señalaron el camino que acabaría con nuestras vidas. Vi a una madre arder con los dos hijos agarrados a ella. Yo sólo conseguí salvar a mi nieta de milagro”.

 “No quiero ver ni a un político paseando por aquí, dando condolencias. Deberían haber estado cuando les necesitábamos, ellos y la GNR, que debería haber cortado las vías y avisado sobre lo que se tenía que hacer. Podrían haber salvado a tantas personas…”.

De momento, la GNR no esclarece si los agentes desplegados por la zona el sábado cometieron el grave error del cual se les acusa, pero el cuerpo de gendarmes luso ha prometido abrir una investigación para determinar que falló en esos momentos cruciales.

Falta de información

Entre los testimonios de los supervivientes otra queja frecuente es la falta de información por parte de las autoridades, y el pánico que se vivió al no saber si era necesario evacuar la zona o, por lo contrario, esperar la llegada de auxilio. El relato más devastador es, sin duda, el de Mário Pinhal, otro de los pocos supervivientes de la “carretera de la muerte”, que se vio sorprendido por el incendio en su casa de vacaciones en Pedrógão Grande.

Nadie nos informaba sobre lo que debíamos hacer, no decían si debíamos evacuar o no
“No sabíamos que hacer”, explica el residente de Póvoa de Santa Iria ante los medios congregados. “Nadie nos informaba sobre lo que debíamos hacer, no decían si debíamos evacuar o no. Cuando vi que el incendio se acercaba y que los eucaliptos del bosque estaban todos en llamas, le dije a mi mujer que metiera nuestras hijas en el coche y que saliera de ahí. Yo seguía atrás en otro coche, con mis padres y mi tía”.

“Vi como mi mujer, Suzana, y mis hijas Joana y Margarida murieron en esa calle”, relata Pinhal, intentando mantener la compostura pero en evidente estado de shock. “Iban por delante y no consiguieron escapar el fuego que nos rodeó en esa carretera. La calle estaba llena de coches desechos por las llamas, vi personas corriendo por el andén con el pelo en llama, la ropa ardiendo. Di marcha atrás como pude, mientras nuestros retrovisores se derretían. Poco después de salir de ahí explotaron nuestras ruedas por la intensidad del calor, pero seguimos como podíamos”.


“¿Por qué no las encerré en casa?”, se pregunta. “Habrían sobrevivido. La casa es nueva, sigue en pie. Las debía haber encerrado en casa. Nunca deberíamos haber intentado escapar. Tenía una vida feliz, a mis chicas les encantaba esta casa de vacaciones. Ahora me he quedado sin nada”.

Costa busca respuestas

Ante la indignación colectiva, el primer ministro António Costa ha pedido explicaciones a los máximos dirigentes de la GNR y Protección Civil.

Entretanto, en las zonas donde ya se ha controlado el incendio los forenses han logrado identificar a la mitad de las víctimas, entre las cuales se encuentran al menos cuatro niños y numerosos turistas. Al menos uno de los fallecidos es extranjero, un ciudadano galo cuya muerte ha sido confirmada por la Embajada de Francia en Lisboa.

La primera víctima en ser identificada ha sido Rodrigo, de apenas cuatro años de edad, que murió junto a su tío Sidel Belchoir en la carretera nacional 236. El pequeño se encontraba en la zona de vacaciones con familiares ya que sus padres –empleados de la aerolínea estatal TAP– estaban en Santo Tomé y Príncipe, celebrando su luna de miel.

Tres generaciones de una familia de Nodeirinho –abuelo, hija y nieta– también fallecieron en esa vía maldita mientras intentaban escapar. El cadáver de la pequeña Bianca fue hallado junto al de su abuelo; su madre, Gina, consiguió escapar del coche a pie, pero murió poco después de ser llevada al hospital local debido a la gravedad de las quemaduras que sufrió por todo el cuerpo.

Varios turistas portugueses, entre ellos la familia Machado, de Santarém –compuesta por Lígia, Sérgio, y sus dos hijos menores– están entre las víctimas mortales. Amigos de la familia que los cuatro se habían desplazado a la zona para visitar la popular playa fluvial de Rocas, a pocos kilómetros de Pedrógão Grande.

El matrimonio compuesto por José Maria y São Graça, de la ciudad de Loures, y Cristina y Eduardo Costa, del suburbio lisboeta de Pontinha, también fallecieron en la conflagración. Los primeros huyeron de la aldea de Vila Facaia, haciendo caso omiso a los vecinos que les aseguraban que estarían más seguros en sus casas que en su coche. El matrimonio de Pontinha parece haber sido sorprendido en la carretera mientras se dirigían a visitar la madre del fallecido, que consiguió sobrevivir el desastre.

Mientras los forenses siguen identificando a las 64 víctimas mortales confirmadas por el Gobierno, las autoridades lusas anticipan que el número total de fallecidos aumente debido a la gravedad de muchos de los 160 heridos. Fuentes de Protección Civil también temen encontrarse más víctimas en las aldeas que se sitúan en el centro de la zona afectada por el incendio, algunas de las cuales han estado incomunicadas desde el pasado sábado, cuando ya estaban rodeadas por las llamas.

Portugal’s prime minister calls on emergency services to explain wildfire response

At least 64 people have been killed, 47 of whom died on one road as they fled flames in their cars

Sam Jones in Madrid
@swajones
Tuesday 20 June 2017 18.52 BST First published on Tuesday 20 June 2017 13.34 BST

Portugal’s prime minister has called on the emergency services to explain their response to the country’s worst wildfire as public anger mounts over the tragedy. At least 64 people have been killed and more than 150 injured.

On Tuesday, António Costa asked the head of the National Republican Guard why officers had not closed off the road where many of the victims burned to death as they fled the flames in their cars.

He also asked for clarification on the extent to which rescuers’ communications systems had been affected by the fire, and for more information on whether the high death toll was the result of unusual weather or problems with the response.

“Why, for how long and what impact was there on the planning, command and execution of operations if your very systems were not working? What was done to establish alternative connections?” Costa asked of the emergency services, according to the state news agency Lusa.

A day earlier, Costa had acknowledged that early efforts to alert the public had been hindered after the flames destroyed phone lines and communications towers but insisted that “nothing compromised the firefighting efforts”.

The prime minister’s calls came as firefighters battling the blaze said they hoped to bring it under control within 24 hours.

More than 1,100 firefighters are still tackling the fire, which is thought to have started after lightning struck a tree in the central municipality of Pedrógão Grande on Saturday.

“The situation is quite a lot better,” operational commander Vítor Vaz Pinto told Lusa. “By tonight or Wednesday morning, the fire will be under control.”

He added, however, that progress would depend on the wind and the temperature, which was expected to reach 43C (109F) on Tuesday.

Reports that one of the water-bombing planes fighting the blaze had crashed on Tuesday were denied by the authorities, who said all the aircraft were accounted for.

As Portugal waits to emerge from three days of national mourning, questions are being asked about why the death toll has been so high in a country where there are wildfires every year.

Many are focusing on the authorities’ failure to close down the N236 road – and why it had apparently been signalled as an alternative route after a nearby road had been sealed off.

Forty-seven of the 64 forest fire victims died on the N236, which has been called the “road of death” or the “road of hell” by the local media. Thirty of them burned to death in their cars, trapped by the flames, while others died after abandoning their vehicles.

A survivor told Portuguese television that gendarmes directed them to the N236 as an alternative to the nearby IC8 route which had been closed and which the gendarmes used themselves.

“When we arrived at the IC8, they told us we couldn’t pass and directed us towards the N236. We thought that the road was safe but it wasn’t,” a survivor, Maria de Fatima, told AFP.

Among those killed as they fled was a four-year-old boy whose parents had left him with his uncle and aunt as they went on their honeymoon. According to the Correio da Manhã newspaper, his mother appealed for help on social media while his grandmother left Lisbon to try to find him. His body and that of his uncle were later found beside a car.

Assunção Cristas, the leader of the centre-right CDS-PP opposition party, said that while the country was still in mourning, a time would come “when all questions will be asked” in parliament.

Many people believe poor forest management – combined with the depopulation of rural villages, which has left many wooded areas untended – have played a part in the disaster.

“What failed this Saturday?” asked a headline in the Público newspaper. “Everything, as it has failed for decades.”

Paulo Fernandes, a professor in the forest science department of Trás-os-Montes e Alto Douro University in Vila Real, said that despite warning signs, people may have been caught off guard because the blaze had broken out before the usual forest fire season began.

“This was a unique event in terms of the impact it had on people and fatalities,” he said. “It was a bit early for this kind of fire, but we’ve had a somewhat dry winter and spring and then this heatwave, which has combined with very extreme atmospheric instability to bring lightning but no rain in the affected region.

“The area is heavily forested and when you have naturally ignited fires, they tend to occur randomly in the landscape and often in more remote locations.”

A burnt-out tractor near Castanheira de Pera. Photograph: Miguel Vidal/Reuters
Fernandes said people may have panicked when firefighters failed to appear and decided to get into their cars rather than staying in their homes.

He added that while forest fires in 2003 and 2005 had led to improvements and innovations in disaster planning, the emphasis still remained on fighting fires rather than preventing them.

A Portuguese environmental lobby group, Quercus, said the fires were the result of “forest management errors and bad political decisions” by governments over recent decades.

Quercus argued that much of the danger came from the highly flammable eucalyptus trees that have outstripped pine and cork oak to become the country’s dominant forest species and now occupy a “scandalous” area of about 9,000 sq km (3,500 sq miles).

However, Fernandes said the risk of eucalyptus had been overstated.

 “It’s a popular perception,” he said. “But it’s quite exaggerated because when we analyse fire data versus land cover data, we really don’t find fire has a preference for eucalyptus forests. It’s true it’s quite flammable, but pine forests are quite flammable and shrubland is highly flammable. Most of our Mediterranean vegetation types burn quite well.”

Three months ago the government announced new measures to combat wildfires, including restrictions on plantations of eucalyptuses and a simplified and cheaper programme of property registration to determine which land is being neglected.

However, not all of the reforms have come into legal force.

Xavier Viegas, an expert on forest fires, said while the fire had outpaced firefighters in some villages, the deaths had mainly highlighted communication problems when it came to evacuating people.

“It’s still hard to identify what failed, but it’s a bit of everything,” Viegas told Reuters.

Other countries prone to forest fires have systems in place to alert people to danger. After the fires that killed 173 people in 2009, Australia began using text messages and emergency broadcasts to get the word out.

“There’s an urgent need to organise that kind of alerting,” Viegas said. “Here, at best, someone from the parish council goes knocking on doors telling people to leave.”


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Como passámos a ter estradas onde corremos o risco de ser incinerados


Como passámos a ter estradas onde corremos o risco de ser incinerados

JORGE PAIVA
20 de Junho de 2017, 12:29

Não me vou alongar demasiado com a história do desastre da cobertura florestal deste desgraçado país, pois está explicitada no artigo "Os incêndios e a desertificação de Portugal florestal", publicado no PÚBLICO, há cerca de dez anos. Apesar de andar a alertar para as causas dos piroverões anuais que acontecem há cerca de quatro dezenas de anos e como se pode resolver o problema, os governos sucessivos que temos tido, não só nada fizeram, como também têm sido colaboracionistas na florestação mono-específica, contínua e contígua, sem o mínimo de ordenamento e regras.

Sabemos que antes da última glaciação (Würm) a laurisilva [floresta (silva, em latim) sempreverde, com predominância de árvores da família dos loureiros (laurus, em latim)] era a floresta que tínhamos no país. Durante o período glaciar, esta floresta praticamente desapareceu em Portugal Continental (existem apenas algumas espécies reliquiais), teve uma cobertura florestal semelhante à actual taiga que circunda a parte continental norte do globo terrestre, em torno do círculo polar árctico. São disso testemunho as relíquias do pinheiro-de-casquinha (Pinus sylvestris) que ainda se encontram em algumas das zonas montanhosas mais frias do Gerês. Finda essa glaciação, isto é, após o início do período actual, o Holoceno (Antropogénico), com o desaparecimento da laurisilva e da taiga, o respectivo nicho ecológico continental foi ocupado por uma nova floresta na qual predominam árvores da família das Fagáceas (Fagaceae), como carvalhos, a faia e o castanheiro. Designo por fagosilva este tipo de floresta, em consonância com a referida laurisilva. Quando o homem inicia o cultivo de cereais e a domesticação de animais, há cerca de 8-7 mil anos, inicia-se a degradação da fagosilva. Os Descobrimentos e respectiva Expansão provocaram uma tremenda devastação da fagosilva, completada, mais tarde, com a construção da rede de caminho-de-ferro, cujas travessas das vias férreas eram de madeira de carvalho.

Assim, as montanhas, particularmente as da região entre o Douro e o Tejo, foram praticamente desarborizadas. Com as montanhas desarborizadas, a população passou a viver do pastoreio. A pastorícia intensiva também teve grande impacto na destruição da flora portuguesa. Os fogos e a prática das queimadas nas regiões agrícolas e também nas regiões de pastoreio contribuíram e continuam a contribuir para a desertificação das nossas montanhas. A partir de certa altura, essas áreas de mato foram rearborizadas com o pinheiro bravo (Pinus pinaster). Particularmente depois da criação dos Serviços Florestais e da política de arborização do Estado Novo, Portugal passou a ter a maior área de pinhal contínuo da Europa.

As nossas montanhas transformaram-se então num imenso pinhal, outrora cobertas fundamentalmente por carvalhais caducifólios.

O povo que vivera da floresta primitiva (caça, bolota, castanha, etc.), após a destruição desta, passou a viver dos matos (pastorícia), passando, seguidamente, a viver do pinhal, que lhe dava madeira, lenha, resina, plantas para “cama” para o gado, depois adubo para os campos de cultivo e muitos objectos manufacturados artesanalmente, como colheres, garfos e até facas.

A partir de meados do século passado (XX), muitos pinhais foram substituídos por eucaliptais e eucaliptaram-se muitíssimas outras áreas. Os eucaliptos interessam mais às celuloses por serem árvores de crescimento mais rápido do que os pinheiros. Nas últimas décadas incrementaram-se tão desenfreadamente as plantações de eucaliptos que se criou em Portugal a maior área de eucaliptal contínuo da Europa.

Com as montanhas ocupadas por eucaliptais, deu-se o êxodo rural pois, como os eucaliptos são cortados periodicamente de dez em dez anos, o povo não fica dez anos a olhar para as árvores em crescimento sem ter mais nada que fazer. Assim, o povo, além do abandono rural a que foi “forçado”, ficou ainda numa dependência económica monopolista, um risco para o qual não é, nem nunca foi, alertado. Desta maneira, as nossas montanhas passaram a estar cobertas por florestas mono-específicas, com árvores altamente inflamáveis (o pinheiro por ser resinoso e o eucalipto por ter produtos químicos aromáticos, arremessando ramada inflamada à distância, por esses produtos serem voláteis e explosivos). Por isso, designo este tipo de floresta por ignisliva (do latim ignis=fogo e silva=floresta), ou melhor, por sugestão da Prof. Maria de Fátima Silva, hilépiros (do grego hyle=floresta e pyr=fogo) ou xilópiros (do grego xylon=madeira e pyr=fogo). Como estamos habituados ao termo laurisilva, talvez seja melhor adoptar ignisliva para a floresta que agora temos. Mas, como há muito designo por piroverões os Verões que temos tido há umas décadas, talvez prefira o termo xilópiros, pois temos estado a plantar floresta para termos madeira para arder.

Quando a floresta era de pinhal continuo, os Serviços Florestais controlavam-na e não tínhamos Verões com tantos incêndios, nem tão devastadores. A partir da década de 80 do século passado, governos sucessivos resolveram não só acabar com os Serviços Florestais, como também delapidaram toda a técnica (material e humana) existente, assim como todo o património construído (as designadas Casas dos Guardas Florestais). Por outro lado, como já foi referido, deu-se a desumanização do meio rural, além do abandono a que foram votadas as montanhas pela diminuição de técnicos florestais. Sem profissionais florestais habilitados (engenheiros florestais e silvicultores, técnicos e guardas florestais), não só se pinheirou e eucaliptou sem regras, criando-se áreas contínuas e contíguas da dita floresta ígnea.

Passámos então a ter Verões com incêndios devastadores (os tais piroverões) e risco de transitar em determinadas estradas, ladeadas desse tipo floresta durante muitos quilómetros sucessivos. Há concelhos perigosíssimos, como aqueles aonde agora aconteceu a última desgraça. Assim, quando amigos meus estrangeiros querem visitar Portugal viajando de automóvel, indico-lhes os concelhos por onde não devem transitar (neste devastador incêndio morreu um francês). É só irem ao Google e verem como estão muitas estradas (nacionais e municipais) para se capacitarem de que não só não estou a mentir, como também para se acautelarem. Actualmente, em Portugal, corre-se o risco de ser incinerado numa estrada.

Na minha opinião, enquanto não efectuarem o ordenamento do território, não criarem novamente Serviços Florestais e os apetrecharem tecnicamente e com profissionais habilitados, nunca vamos deixar de ter piroverões. Não é com voluntários que o problema se resolve, mas com profissionais e no terreno TODO O ANO. Podem dizer-me que os Serviços Florestais eram uma estrutura muito “pesada” (onerosa) e que exigia muito pessoal habilitado. Mas, conheço muita estrutura política “pesadíssima” e com pessoal a mais, mas a que nenhum governo conseguiu pôr fim a tal despesismo DESNECESSÁRIO. Bastam alguns exemplos. A Madeira tem uma superfície de 741 km2 e tem 11 câmaras. O Algarve tem uma superfície de 4.997 km2 (mais do que seis vezes a da Madeira) e 16 Câmaras. Portanto, a Madeira deveria ter apenas duas câmaras (seria uma diminuição brutal de pessoal e estruturas). Ainda por cima tem uma Assembleia Legislativa com 47 deputados. A Região Autónoma da Madeira é “pesadíssima” comparada com os Serviços Florestais. Temos imensas freguesias com menos de 5000 habitantes. Que desperdício em pessoal político e burocrático. E argumenta-se que os Serviços Florestais - a única estrutura profissionalizada e habilitada para gerir a floresta e evitar incêndios - teve que ser suprimida por ser muito “pesada”!!!...


É melhor ficarmos por aqui, pois eu, como português que me honro de ser, tenho VERGONHA de viver num país que importa madeira de carvalho para mobiliário, por não replantar a floresta nativa.

Eucaliptugal, o ecocídio da floresta nacional


Eucaliptugal, o ecocídio da floresta nacional

JOÃO CAMARGO  10.10.2013 às 15h16

Portugal tem a maior área de eucalipto plantado de toda a Europa
Portugal é hoje provavelmente o país com maior área de eucaliptal plantado em toda a Europa. Não falamos em termos relativos, mas em termos absolutos de área plantada. Portugal, o pequeno jardim à beira-mar plantado, tem a maior área de eucalipto plantado de todo o continente.

Em 2008 o território português era já o maior produtor mundial de Eucalyptus globulus, à frente de Espanha e da Austrália. A área de eucaliptal na altura era de mais de 700 mil hectares. Cresceu. Hoje o Eucalyptus globulus atinge oficialmente os 812 mil hectares de área plantada no espaço florestal em Portugal. Em termos de área total de eucaliptos plantados, Portugal fica apenas atrás da Índia, do Brasil, da China e da Austrália.

- A área da Índia é 32 vezes a área de Portugal.

-  A área da Austrália é 84 vezes a de Portugal.

- A área do Brasil é 92 vezes a de Portugal.

- A área da China é 104 vezes a de Portugal.

No entanto Portugal compete diretamente com estes países em termos de área plantada de eucalipto, com os seus modestos 91 mil 470 km², onde 8,8% são eucaliptos, 26% de toda a área florestal, recorde mundial.

Na Austrália, país de que são originários os eucaliptos, o Eucalyptus globulus é conhecido como Tasmanian Blue Gum (Árvore da Seiva Azul da Tasmânia), Southern Blue Gum (Árvore da Seiva Azul do Sul), Fever Tree (Árvore da Febre) e até mesmo Gasoline Tree (Árvore Gasolina). Os nomes comuns das árvores costumam ter forte ligação às suas características próprias. Algumas das características deste eucalipto promoveram a sua expansão por todo o mundo, ocupando hoje uma área estimada em 22 milhões de hectares. Este eucalipto é uma árvore de rotação curta e crescimento rápido, o que permite que seja utilizada com uma elevada produtividade e com rápido retorno nos investimentos, o que anda a par com a escolha da economia de curto prazo vigente nos dias de hoje.

Se o eucalipto for introduzido em territórios onde não exista falta de água, ao contrário do seu terreno natural, este crescimento será ainda mais rápido, com elevada voracidade de absorção de água e nutrientes dos solos. E é assim que em Portugal e Espanha temos boas condições para o eucalipto, razão pela qual os mais altos Eucalyptus globulus do mundo se encontram na Península Ibérica e não na Oceânia O eucalipto está perfeitamente adaptado a Portugal, o problema é que Portugal não está perfeitamente adaptado ao eucalipto.

As árvores não podem nem devem avaliadas segundo as suas características próprias como se fossem boas ou más. As suas características derivam das condições naturais em que as mesmas evoluíram e dos fatores que levaram ao seu sucesso nesses mesmos ecossistemas. As condições nas quais este eucalipto evoluiu favoreceram uma série de características próprias excelentes para o seu desenvolvimento no sul da Austrália e na Tasmânia, que poderão não ser as mais adequadas à sua plantação por todo o mundo.

O eucalipto é altamente inflamável, em particular a partir dos 6/7 anos de idade. As folhas do eucalipto libertam o agradável aroma que todos conhecemos, que se compõe de terpenos e de ácidos fenólicos, óleos e compostos que não só inibem o desenvolvimento de microrganismos nos solos das florestas de eucaliptos como também impedem o crescimento de ervas nestes solos, inibindo o desenvolvimento de raízes de sementes de outras espécies. Esta é uma característica importante para o desenvolvimento do eucalipto na Austrália, onde compete com outras espécies para a ocupação de poucos recursos, nomeadamente para absorção de água e minerais. Apesar de altamente inflamável, não é comum o eucalipto morrer em incêndios. A sua casca incendeia-se muito rapidamente, explode e emite projeções da sua casca incandescente até centenas de metros de distância. A elevada acumulação de biomassa das folhas no leito da plantação aumenta o material disponível para a combustão, de difícil decomposição pelos microrganismos.

Os solos das plantações deste eucalipto são altamente hidrofóbicos e os microrganismos têm dificuldade em digerir as folhas e a casca que caem da árvore, razão pela qual há pouca variabilidade de microrganismos presente nas plantações de eucalipto. Consequentemente há menos invertebrados nestas "florestas", menos cogumelos e menos ervas. A possibilidade de qualificar um eucaliptal como passível de integrar um sistema agro-silvo-pastoril ignora o facto de que tanto cabras como ovelhas ou vacas são incapazes de digerir as folhas de eucalipto.

A maior parte das espécies que come matéria vegetal estará portanto afastada das plantações de eucalipto, em todos os locais exceto aqueles em que existem eucaliptos há milhares de anos e onde as espécies como o koala conseguem de facto comer e digerir as folhas do eucalipto. Considerando a difícil habitação da maior parte das espécies num eucaliptal plantado fora do seu habitat, alguém lembrou-se um dia de lhe chamar a estas plantações de "desertos verdes".

Mitos, dirão os produtores deste eucalipto e da pasta branca de papel, apontando estudos que não confirmam nem desmentem uma série de pequenos aspetos passíveis de discussão. Apontarão problemas de gestão para justificar os impactos dos eucaliptos nos solos, os seus efeitos nos níveis de água, tentando negar as características responsáveis pelo sucesso económico do eucalipto: ele cresce rapidamente porque metaboliza rapidamente os nutrientes, absorve mais água e utiliza-a de forma mais eficiente para extrair dos solos a sua riqueza. Depois é cortado e leva essa riqueza consigo.

Não é um complot do eucalipto, é a forma como ele é utilizado. E as únicas formas de gestão do eucalipto que o compatibilizariam com um desenvolvimento harmonioso seriam a negação das características desta árvore que, sendo benéficas para o crescimento económico a curto prazo, são pelas mesmas características prejudiciais ao território, às características dos incêndios, ao esgotamento dos solos da água, à incompatibilidade com a biodiversidade local. E diploma algum em qualquer parte do mundo permitirá mudar a biologia por decreto administrativo.

Se considerarmos além disto que a previsão atual é de que a temperatura no país possa subir até 10ºC nos próximos 75 anos e que o mercado mundial do papel está em declínio, ficam perguntas: qual é o objetivo de tudo isto? Porquê um eucaliptugal, um portugalipto? Quem ganha com este ecocídio? E quando é que vamos deixar de vez de aceitar que espezinhem o nosso direito universal a um ambiente saudável? Quando já não houver?

 João Camargo

Engenheiro Zootécnico

Engenheiro do Ambiente


Técnico de Intervenção da Liga para a Protecção da Natureza

A economia política dos fogos


A economia política dos fogos
RAQUEL VARELA
Posted on June 20, 2017

Estava há 2 dias com uma dúvida – algo se passava que eu não compreendia, um puzzle a que faltavam peças. A pergunta que estava na minha cabeça é porque é que o Presidente da Liga dos Bombeiros, que disse as coisas mais irresponsáveis e panfletárias que alguém pode dizer nesta situação foi entrevistado 100 vezes mais do que os especialistas em fogos florestais com 60 anos de trabalho acumulado.
Quero recordar-vos que Jaime Marta Soares em cima de um fogo fora de controlo a meio da noite deu declarações em directo aos jornalistas a dizer que “tinha os meios necessários” e que as pessoas quando foram para aquela estrada certamente pensavam que o fogo estava a kms e «inadvertidamente, olhando a distância a que estaria o fogo» – contínuo a citar – não tiveram “a serenidade, o sangue frio, para fugir a essa situação”. Hoje sabe-se que as pessoas estavam a fugir não de um fogo a kms mas das suas casas a arder, onde os bombeiros, dele, não conseguiram sequer chegar. Desconfia-se de pior – algumas teriam sido direccionadas para aquela estrada pela GNR. Coloco no condicional a questão da estrada porque ao contrário de M.S. aguardo o inquérito. Ele não, ele fez o balanço da sua actuação em directo, qual presidente do clube de futebol local. Tem sido juiz em causa própria – não há em Portugal uma entidade independente que fiscalize a sua actuação, mas nem era preciso porque ele em directo, no local, no meio da catástrofe fez análises, tirou conclusões, e os jornalistas publicaram-nas. É o mesmo que eu dar nota 20 aos meus alunos sem ter olhado sequer para as teses. Esta passagem de M.S. a Deus é certamente influenciada pela ideia de que bombeiros não são políticos, ainda que o cargo de M.S. seja esse – presidente de uma Liga de Corporações que eu não faço ideia (os jornalistas fazem?) como funciona, quem representa, quem votou nele, se é por voto, nada. M.S. foi o homem que anunciou ao país, também na hora – contra a opinião dos meteorologistas e silvicultores, com cargos e doutoramentos – que tudo aconteceu por uma situação “inédita e imprevisível”. A tal que todos, sem excepção, que trabalham na área previram.
Hoje fui andar a pé, um par de horas, sozinha para pensar nesta questão – como uma Liga de Bombeiros ganhou este poder? Estamos na mão de um dirigente de colectividades que do alto da sua sabedoria fez saber ao país, em directo, tudo o que tinha acontecido, ainda estava a acontecer. E nada aconteceu como disse.
Penalizo-me por ter levado dois dias a compreender. Há uma economia do fogo – tantos o disseram e bem. Mas o que significa isso? Significa que o dinheiro é canalizado para o combate e não para a prevenção. Muitos o escreveram já. Mas o que significa isto realmente? Significa que se o nosso dinheiro de impostos é gasto na prevenção em guardas florestais esse dinheiro é usado em salário, força de trabalho, não tem, para além do consumo do trabalhador (casa, comida, roupa) nenhum impacto na economia que implique produção de lucro. Ele vai trabalhar com o cérebro e os olhos e uns binóculos. Mas são precisos muitos, ou alguns, espalhados. Mas, se o dinheiro é gasto no combate ele é massivamente usado em compra de carros de combate, equipamentos/roupas complexos, aviões, importações – adivinho alemãs – e ao que parece 500 milhões para um sistema de comunicações…que falhou. Dizem que há redundância dos equipamentos mas as pessoas estiveram quase 24 horas na aldeias sem conseguir ligar a ninguém, dependentes de um vulgar telemóvel que custa 80 euros. O paralelo com a saúde é evidente, há uma economia política da doença – se a pessoa for ao médico e aprender a alimentar-se e tiver um salário decente come bem; se ficar obesa vai mobilizar 1/6 do orçamento do SNS para medicação e afins para os diabetes. A «conversa» do médico ou do enfermeiro não dá lucro a ninguém, é um serviço, com custos exclusivos em força de trabalho. A diabetes porém é uma das mais lucrativas áreas de tratamento do mundo.
Espero não ter que repetir depois deste artigo o óbvio. O fogo não é causado por bombeiros, mas pelas razões que todos já apontaram estes dias de ordenamento da floresta. Os bombeiros são heróis. Necessários, deviam ter salários decentes e ser profissionalizados e respeitados porque ganham – cito um bombeiro numa carta aberta a Marta Soares – o mesmo num dia a trabalhar que um bombeiro alemão 1 hora de prevenção. Mas estava na hora de perguntar a muitos destes heróis se não aceitam ter formação e ser guardas florestais. Estava na hora de termos uma economia política das pessoas. A Marta Soares lamento mas do que assisti nestes dias não tenho palavra alguma de alento para lhe dar – num país a sério já estava demitido. Como estamos numa nação em decadência está ao lado da Ministra a dar conferências de imprensa, a tal ponto que às vezes me pergunto se a Ministra é que é assessora de Marta Soares.

António Costa tem passado por tudo isto com a inteligência que passa desde que tomou poder – pede calma, não tira conclusões, diz que não sabe o que se passou, e deixa que todos falem por si e digam asneiras, quanto ele é um sereno – e discreto – PM de um país em ansiedade profunda. Costa inventou a forma de fazer política: é preciso que não falem de mim.

Lusitano Clube retomará em Setembro actividade em casa nova em São Vicente


Lusitano Clube retomará em Setembro actividade em casa nova em São Vicente
POR O CORVO • 21 JUNHO, 2017 •

Ao fim de longos meses de impasse e de inactividade, o Lusitano Clube encontrou, por fim, novas instalações. A partir de Setembro, ou mesmo no final de Agosto, a colectividade de Alfama funcionará num edifício arrendado à Câmara Municipal de Lisboa (CML), nos números 25 a 29 das Escolas Gerais, perto da Igreja de São Vicente de Fora. A mudança do rés-do-chão do 81 da Rua São João da Praça, onde estava desde a fundação, em 1905, para o imóvel municipal obrigará a uma redefinição do papel da instuição, que passará a estar mais virada para a educação e a formação e não tanto para o lazer e o entretenimento que a vinham notabilizando nos dois últimos anos, quando uma nova direcção tomou posse. “Vamos ter de nos reiventar e funcionar como uma bandeira do rejuvenescimento das colectividades. Isto tem que ser como um grito de revolta, algo que traga esperança”, diz a O Corvo David Costa, presidente da direcção.

 Assumindo o cansaço e o desgaste provocados tanto pelo processo de despejo a que o clube foi sujeito, iniciado há cerca de um ano, como pela incerteza prolongada sobre o desfecho da busca de novas instalações, o dirigente reconhece que o Lusitano conhecerá uma existência algo diferente. As limitações do novo espaço – a rondar uma centena de metros quadrados, quase três vezes inferior ao anterior – e o ambiente em redor, com a muita vizinhança ali existente a impossibilitar a realização de actividades barulhentas, obrigam uma redefinir de prioridades. “Vamos reiventarmo-nos, apostar na educação e na formação. Teremos aulas e workshops, onde tentaremos dar um contributo no combate à iletarcia digital da população sénior ou realizar aulas de código de programação aos miúdos”, explica David Costa, assumindo que as festas e a música ao vivo serão uma raridade. “O local não se coaduna com concertos, embora dê para realizar algo mais acústico”, diz.

 Em todo o caso, o tempo é ainda de “identificar pontos de interesse” que permitam à colectividade integrar-se no novo poiso, o qual, embora seja ainda no bairro de Alfama, se localiza na freguesia de São Vicente – as antigas instalações situavam-se na freguesia de Santa Maria Maior. O objectivo passa por “envolver mais a população, bem como as outras colectividades e a junta de São Vicente”, a qual respondeu de imediato à solicitação do Lusitano Clube para apontar e discutir quais as actividades que ali poderão vir a ser desenvolvidas. “Queremos intervir para construir algo com a comunidade, para não estarmos de costas voltadas”, afirma David Costa, imaginando o grande potencial que tal relação poderá ter. “Nesta zona, percebemos que ainda existe vida, há aqui ainda muita gente a viver e com a qual será possível estabelecer uma relação. No outro lado, na Rua de São João da Praça, sinto que está a ficar moribunda, entregue apenas ao turismo”.

 Mas os desafios à existência futura do Lusitano não deixarão de ser uma preocupação constante. Antes de mais, porque o valor da renda mensal acompanhou numa relação inversamente proporcional a mudança no espaço disponível. Ou seja, se a área é agora três vezes inferior ao que existia, a prestação a pagar todos os meses ao senhorio subiu na mesma conta. Se antes era pouco mais de 300 euros, será agora ligeiramente inferior a um milhar de euros mensais. “Já não há rendas como aquelas a que as colectividades estavam habituadas. Vai ser, por isso, mais duro. Teremos um grande desafio pela frente, sem dúvida, que é o de fazer receitas suficientes para assegurar a nossa existência”, considera o presidente da direcção, sem deixar de agradecer à Câmara de Lisboa a ajuda dada na pesquisa por um novo lugar.

 “A realidade será agora três vezes mais dura, devido ao valor da renda e às limitações de espaço. Além disso, este processo foi longo e moroso. Estamos parados há demasiados meses. Mas conseguimos ficar em Alfama e, assim, manter as nossas raízes. Mas vamos ter de nos saber reiventar, olhando para o que podemos fazer com as populações”, afirma David Costa, sublinhando a importância simbólica desta nova prova de resistência do Lusitano – instituição que já conheceu outros momentos de grande dificuldade ao longo dos seus quase 112 anos de existência. Nas Escolas Gerais, o primeiro ano será de teste, assume o dirigente, vislumbrando o segundo ano nas novas instalções como um momento de consolidação do projecto. “A partir do terceiro ano, ou isto funciona ou vamos ter de procurar outro caminho. Tem de haver uma grande resiliência, um acompanhamento semanal, para que isto resulte”, diz. Por agora, há que preparar o regresso após as férias do verão.


 Texto: Samuel Alemão         Fotografia: Hugo David