segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Renováveis vão poupar mais de 1,5 mil milhões em importações de gás e carvão


O mau tempo não deixa ir à praia, mas faz as barragens e eólicas funcionar como nunca. E vai fazer com que, até agora, este seja o ano em que mais se poupou em combustíveis fósseis
Renováveis vão poupar mais de 1,5 mil milhões em importações de gás e carvão

29/09/2014 Dinheiro Vivo
Por Ana Baptista

A produção de eletricidade através de fontes renováveis continua a crescer este ano devido à persistência da chuva e do vento, mesmo no período de verão. O que significa que este será, novamente, um bom ano para a redução da dependência energética do país. No total, diz um estudo da Deloitte sobre o sector, Portugal deverá poupar cerca de 1589 milhões de euros em importações de combustíveis fósseis, mais precisamente carvão e gás natural.
"No presente ano, a produção hídrica, eólica e solar tem sido superior à do ano passado, contudo os preços dos combustíveis fósseis estão mais baixos e conjugando esses dois factores é possível que este ano as poupanças sejam da ordem de 10% superiores às do ano passado", disse ao Dinheiro Vivo o presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), António Sá da Costa.
Aliás, a confirmarem-se os 1589 milhões, este será o valor mais alto desde 2008, ano em que as poupanças foram apenas de 731 milhões, mas porque havia ainda pouca potência instalada de renováveis. Para o ano seguinte não há dados, mas, entre 2010 e 2013 e com o aumento do número de barragens e eólicas a funcionar, pouparam-se 1133, 1222, 1537 e 1479 milhões de euros nesse período.
De facto, repara ainda Sá da Costa, Portugal está a atravessar um dos melhores momentos de sempre no que respeita a poupanças em importações de combustíveis fósseis. "Em termos de eletricidade, até final de agosto, o saldo com Espanha era nulo, quando no ano passado representava 5% do consumo e, em 2012, quase 1/3 do consumo", repara o mesmo responsável.
Como já foi referido, a contribuir para esta realidade está o aumento do peso das renováveis na produção de eletricidade que, segundo o estudo da Deloitte, será de 55% este ano. E a causa é mesmo o mau tempo, ou seja, mais chuva e mais vento que fazem com que as eólicas e as barragens produzam mais e, consequentemente, que as centrais a carvão e gás natural produzam menos. Segundo dados da REN, as centrais a gás natural da Endesa e da Turbogás têm estado paradas.
Ora, como o carvão e o gás natural são caros e a chuva e o vento são gratuitos, Portugal e o sector consegue poupar dinheiro, mas para já principalmente nas importações. O impacto na conta final do consumidor só será mais visível daqui a uns anos, lá para 2020 quando se estima que défice tarifário (a diferença entre o que se paga pela energia consumida e o que ela custa a produzir) esteja todo pago.
Aliás, uma análise da Fitch divulgada quinta-feira revela que Portugal está no bom caminho para atingir essa meta. "O défice tarifário em Portugal está agora a estabilizar e irá, muito provavelmente descer nos próximos trimestres", diz. Em causa está a melhoria do perfil financeiro do sistema elétrico nacional por via dos cortes nas rendas.
Poupanças sobem mesmo sem mau tempo

Mesmo que haja menos chuva e vento nos próximos anos, Portugal term mais barragens, eólicas e centrais solares em construção. Além disso, as empresas estão a começar a reforçar a potência das atuais eólicas, o que significa que o país vai ter mais potência e que o peso das renováveis na produção total de eletricidade vai subir. Como tal, também as poupanças em importações vão crescer. Segundo a Deloitte, em 2030 não só o peso das renováveis na produção vai ser de 68%como as poupanças em importações podem atingir os 2750 milhões de euros.

Catalunha. Guerra jurídica de Madrid bloqueia referendo e provoca revolta.


Catalunha. Guerra jurídica de Madrid bloqueia referendo e provoca revolta
Por Sérgio Soares
publicado em 30 Set 2014 in (jornal) i online

"O que lhes faz medo é a resposta", denunciou Artur Mas, minutos antes da decisão "hostil"
"Autonomia não é soberania." Foi com esta frase que o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, quis matar ontem à nascença a Lei de Consultas aprovada pelo parlamento da Catalunha e que abre as portas à secessão daquela região.

Ao fim do dia, e em tempo recorde, o Tribunal Constitucional (TC) suspendeu a lei catalã de Consultas, aprovada pelo parlamento desta região autónoma.

Agora, resta saber se o governo Catalão de Artur Mas vai cumprir a decisão do Tribunal Constitucional ou incorrer deliberadamente no crime de desobediência.

"O que lhes faz medo é a resposta", reagiu Artur Mas, minutos antes de ser conhecido o veredicto do TC.

Mas qualificou de "hostil" a atitude do governo por recorrer contra o referendo e a lei emque se amparava.

O chefe do governo catalão criticou ainda o Tribunal Constitucional por se ter reunido a uma "velocidade supersónica".

Para o governo de Madrid, a Catalunha não pode realizar uma consulta sobre a independência porque não dispõe de soberania própria. "Uma parte não pode tomar decisões sobre todos", sublinhou Rajoy ontem de manhã.

Esta foi a base de sustentação dos dois recursos interpostos pelo executivo no TC contra o decreto de convocatória da consulta, conhecido por 9-N, que o presidente da Generalitat, Artur Mas, assinou solenemente no sábado passado.

Mariano Rajoy diz que esse decreto viola nada mais nada menos que 13 artigos da Constituição e seis do Estatuto de Autonomia da Catalunha.

O chefe do governo espanhol lembrou que já havia várias sentenças do Tribunal Constitucional que retiram às comunidades autónomas a competência para convocar consultas deste género, e rematou: "Autonomia não é soberania."

Rajoy disse que o seu governo nem política nem juridicamente podia fazer outra coisa senão "defender e proteger" a Constituição aprovada por todos os espanhóis.

LIMITES DA SOBERANIA
"Uma reforma constitucional que produza uma mudança substancial do modelo de Estado terá de ser produto de uma decisão do povo espanhol, titular da soberania nacional", e deve fazer-se "no respeito absoluto pelos princípios da própria Constituição", sustenta o principal recurso interposto por Madrid.

Para Rajoy, "não há nada, nem ninguém, que possa romper o princípio da unidade indivisível do Estado e privar os demais de decidir o que é o seu país".

CATALUNHA QUER SER OUVIDA
 Rajoy recolheu também o apoio inequívoco do líder dos socialistas espanhóis, que também se opõe à consulta.

O secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, declarou o seu apoio aos recursos apresentados pelo executivo contra a consulta independentista, criticando a "quebra de legalidade" que ela representava.

Sánchez mostrou-se disponível para colaborar num processo de diálogo que ajude a resolver a situação, considerando que a questão não se resolve com "trincheiras" ou monólogos".

Para o líder socialista, o presidente do governo da Catalunha "está fora do quadro da legalidade democrática" e a actuar com "enorme irresponsabilidade".

"Não se pode justificar qualquer acto contrário à lei. Os catalães estão há 37 anos a pronunciar-se em democracia, não há democracia sem lei", reiterou.

"Condeno esta quebra da legalidade e apoio o recurso que o governo fez contra a consulta", disse Sánchez.


Mas defendeu-se alegando que a votação é legal, porque o resultado não é vinculativo. "A Catalunha quer exprimir-se, quer ser ouvida e quer votar", salientou ao assinar o decreto sobre a Lei de Consultas no parlamento catalão. Segundo as sondagens, 80% dos catalães são favoráveis à consulta. O imbróglio jurídico vai dominar agora as relações entre Madrid e Barcelona nos próximos tempos.

Mark Reckless’s defection to Ukip is a sign of Tory decline Fanaticism and hatred has turned a once ruthlessly successful Conservative party into a fractious rabble. / GUARDIAN.




Mark Reckless’s defection to Ukip is a sign of Tory decline
Fanaticism and hatred has turned a once ruthlessly successful Conservative party into a fractious rabble
Geoffrey Wheatcroft   

David Cameron has said that the circumstances in which the Conservative conference was opening were “not ideal”. Fans of the late – but immortal – Peter Cook may remember his incarnation as Sir Arthur Streeb-Greebling, the great British eccentric, who told an interviewer about his lifelong endeavour to teach ravens to fly under water. Asked if this task was not somewhat difficult, Streeb-Greebling hummed and hawed before replying, “I think ‘difficult’ is an awfully good word you’ve got there.”

I think “not ideal” are awfully good words to describe the prime minister’s predicament. In many ways things were looking rather good for him. Unemployment is falling; growth is happening; in polls the Tories rate far ahead of Labour for economic competence, as Cameron is ahead of Ed Miliband in person; the Labour conference was embarrassing.

The Tories should have begun their own last conference before the election on a high note. Instead of which the headlines are dominated by a defection and a resignation, and Cameron faces a party that he knows has never liked him, but which now looks like a fractious rabble.

Has it really come to this? Has what was the most successful political party in modern European history succumbed to some strange death wish, determined to tear itself to pieces and snatch defeat from the jaws of victory?

Forty years ago the Tories were the European party (and Labour the insular Europhobes). But a perfervid obsession with the European Union, which is – in any objective view – almost the least of our many problems, has infected the Tories, and corroded any spirit of loyalty. MP Mark Reckless was the second of two defectors to Ukip, timing his departure in a way that ordinary Tories would once have considered despicably treacherous. But he may be not be the last, from a party that now seems to have adopted the Leninist notion of revolutionary defeatism.

Several times over its history the Tory party has succumbed to bouts of internecine squabbling – over the Corn Laws, over “tariff reform”, over appeasement. But there was always a default mechanism, a ruthless will to win, which made it so astoundingly successful. Of the 111 years from 1886 to 1997, the Conservatives were in office – alone or in coalition – for 79. That was not how it was meant to be in the age of mass democracy, the advent of universal suffrage, “the century of the common man”, but so it proved.

And it was not just their electoral success. To a degree now quite forgotten, British Conservatism was a genuine mass movement. At the 1950 election, the Labour government retained power but lost many of the seats won in the landslide five years earlier. One of them was Barnet, north London, which Reginald Maudling took for the Tories.

Two details now seem barely credible. In Barnet that year, turnout was 87%. And in a constituency with an electorate of just over 70,000, the local Conservative Association had 12,000 members. At the time, the national Conservative and Unionist party had 2.7 million members, even if it was as much a social as a political organisation.

By the 2005 election membership had collapsed, to 253,000. And if rumours are true – and the party is reticent on the subject – it may now be below 100,000. Membership of all parties has plummeted since the mid-century heyday, but whereas the Tories then had more than twice as many members as Labour, it is possibly now the other way round.

Although we have not seen “the end of history”, we’ve witnessed the decline of traditional ideological politics, which ought to have helped rather than hindered the Tories. Instead, they have mysteriously assumed the doctrinaire fanaticism and internal hatreds that used to be the prerogative of the left.

Cameron may not be the most charismatic or sincere leader the Tories have ever had. But could anyone have done better with this lot?

domingo, 28 de setembro de 2014

Bater em Seguro era um dever. Bater em Costa será um prazer, por Henrique Raposo.


Bater em Seguro era um dever. Bater em Costa será um prazer
   
Henrique Raposo |
22:29 Domingo, 28 de setembro de 2014 in EXPRESSO online

1. Os militantes que se envolveram à pancada em Braga são a personificação do problema criado pelas primárias. Ao contrário do que se diz, muita democracia não é necessariamente boa democracia. Ou melhor: uma democracia não é só eleitoralismo. Um acto eleitoral é uma demonstração de força, não é uma demonstração de razão ou virtude. É um momento que causa fricção entre dois pólos, criando ódio e ressentimento. Abusar do acto eleitoral é forçar a sociedade a estar em permanente contacto com o ressentimento, é forçar a sociedade a ficar no lado mais primitivo das lealdades caninas. Foi isso que aconteceu nestas primárias primitivas. Ainda há pouco vimos isso na televisão. Enquanto Seguro fazia a declaração de derrota, a sala de Costa explodiu em alegria. O contraste fala por si. Mais: no seu discurso, António Costa não se dirigiu uma única vez a António José Seguro. Como é que esta gente se sentará à mesa num conselho de ministros?

2. Para mim, António Costa é um mistério. Participou nos governos que afundaram o país, mas tem "boa imprensa". A sala onde fez o discurso de vitória parecia um conselho de ministros do socratismo, mas tem "boa imprensa". Fez uma patética gestão da Câmara de Lisboa, mas tem "boa imprensa". Ou seja, Costa é uma daquelas personagens lisboetas que têm sempre "boa imprensa". Façam o que fizerem, digam o que disserem, passam sempre entre os intervalos da chuva e são sempre levados ao colo. Bastava ver a ansiedade dos jornalistas, "então Dr. Costa, já nos pode dizer que ganhou?", "então Dr. Costa, já vai fazer o discurso da vitória?" Podiam ao menos disfarçar um poucochinho. É por isso que será um prazer bater em Costa. Criticar Seguro era só um dever, mas criticar António Costa será mesmo um prazer. Até porque ficaram à vista três características que não o recomendam.

Em primeiro lugar, revelou um carácter vingativo na forma como não se dirigiu ao adversário desta noite. Em segundo lugar, está rodeado pela gente que enterrou o país, os socráticos. Só lá faltava o chefinho da tribo. Em terceiro lugar, António Costa revelou um patético vazio de ideias ao longo desta campanha. Costa não sabe a realidade que tem pela frente (interna e europeia) ou está deliberadamente a mentir aos portugueses. O que não surpreende, tendo em conta as companhias.


PS: Dizem-me que Paulo Campos já está nas TVs a comentar enquanto apoiante de Costa. Dizem-me, mas acredito. Não pode ser verdade, não é?

A pressa do PS, por Alexandre Homem Cristo

Costa tem uma tremenda ambição de governar e montou um projecto que, sem ideias ou propostas, conseguiu ser apelativo aos socialistas só porque tresanda a poder.
"São perguntas difíceis, mas para as quais Costa precisará de resposta. Quer queira, quer não queira. É que qualquer debate com Passos Coelho ou Portas será travado no plano dos números, do concreto, dos tratados e da realidade. E por mais que os socialistas não gostem das soluções do Governo, elas têm uma lógica. Nem que seja uma lógica matemática: identificam-se os problemas, assume-se o custo das soluções e os números batem certo. Não gostar dessas contas não legitima alternativas irrealistas. O problema dos socialistas europeus, perante a necessidade de inverter as políticas de endividamento, foi esse. O problema de Seguro foi esse. E o problema de Costa será esse."
A.H.C.

PRIMÁRIAS NO PS
A pressa do PS
Alexandre Homem Cristo  Email
28/9/2014, OBSERVADOR
Costa tem uma tremenda ambição de governar e montou um projecto que, sem ideias ou propostas, conseguiu ser apelativo aos socialistas só porque tresanda a poder.

António Costa ganhou categoricamente e, agora, os corações socialistas enchem-se de esperança por um recomeço. Goste-se ou não e diga-se o que se disser, este é um dos momentos-chave da legislatura. Tudo irá mudar daqui para a frente? Bem, alguma coisa mudará. Mas a grande mudança é só esta: a pressa.

Seguro, há tempos, chegou a perguntar qual era a pressa. Chegou mesmo a rejeitar um cenário negocial, proposto por Cavaco Silva, que lhe garantiria eleições legislativas antecipadas. Só que a pressa que Seguro teve a menos tem Costa a mais. Nada os distingue mais do que isso: enquanto Seguro tardou em convencer que pode chegar a primeiro-ministro, Costa tem uma tremenda ambição de governar e montou um projecto que, sem ideias ou propostas, conseguiu ser apelativo aos socialistas e simpatizantes só porque tresanda a poder.

Hoje, ficou claro que é mesmo isso que os militantes querem – poder. Resultado: a pressão sobre o Governo e os partidos da maioria irá aumentar muito com Costa na primeira linha. Até porque, nestas coisas, quanto mais depressa melhor – há que aproveitar o efeito mobilizador de uma vitória tão clara no partido para começar a guerra das legislativas.

Ora, sendo esta questão a grande diferença entre Seguro e Costa, a dúvida é se, agora que pretende ganhar o país, o lisboeta mudará o partido no essencial: na incapacidade do PS de propor uma alternativa realista. Sem querer estragar a festa socialista, tudo indica que não: é que foi precisamente pela ausência de ideias claras e de alternativas às (más) alternativas de Seguro que a campanha de António Costa se notabilizou.

Até pode ser interessante discutir as várias implicações práticas da vitória de António Costa – em termos de expectativas eleitorais, de potenciais coligações caso o PS vença as legislativas, de capacidade em unir o partido em torno de si ou da reacção dos partidos da actual maioria perante um novo adversário. Mas o que interessa realmente ao país é outra coisa: se António Costa quer mesmo ser primeiro-ministro, terá de responder às perguntas difíceis a que, habilmente, se foi esquivando nestes últimos meses. Qual é a sua posição em relação ao Tratado Orçamental e ao euro? E o que pensa sobre a reestruturação da dívida? Como pensa fazer baixar o défice sem recorrer à austeridade e que dados apoiam a exequibilidade da sua solução de pôr a economia a crescer mais? E, por fim, como pretende defender o Estado Social sem o reformar?

São perguntas difíceis, mas para as quais Costa precisará de resposta. Quer queira, quer não queira. É que qualquer debate com Passos Coelho ou Portas será travado no plano dos números, do concreto, dos tratados e da realidade. E por mais que os socialistas não gostem das soluções do Governo, elas têm uma lógica. Nem que seja uma lógica matemática: identificam-se os problemas, assume-se o custo das soluções e os números batem certo. Não gostar dessas contas não legitima alternativas irrealistas. O problema dos socialistas europeus, perante a necessidade de inverter as políticas de endividamento, foi esse. O problema de Seguro foi esse. E o problema de Costa será esse.


As ilusões trazem sempre desilusões. A ideia resume bem este percurso de 4 meses de Costa, desde que assumiu a candidatura à liderança do PS. Nos próximos tempos, o entusiasmo da vitória poderá fazer esquecer as desilusões, mas não é certo que deixem de surgir. Afinal, querer ganhar é importante, mas não é tudo.

Três notas a contracorrente, José Manuel Fernandes

"Se era necessária uma prova de que a campanha deixou feridas duradouras, tivemo-las nesse discurso, pois o vencedor da noite não foi capaz de citar o nome do seu adversário e tratou de contornar o incómodo dizendo que quem tinha vencido era todo o PS, que não havia derrotados. Não foi elegante nem teve grandeza."
J.C.S.
"Para que o PS se unisse rapidamente teria sido necessário que António Costa tivesse ontem mostrado, no seu discurso, uma grandeza para com os vencidos que não foi capaz de mostrar. Essa é que é essa."
J.M.F.

PRIMÁRIAS NO PS
Três notas a contracorrente
José Manuel Fernandes 
28/9/2014, OBSERVADOR
Não estou certo que as primárias tenham vindo para ficar. Não acho a participação eleitoral assim tão extraordinária. E duvido que seja fácil voltar a unir o PS. Sem certezas, mas a contracorrente

1. Parece haver um consenso entre os comentadores e, também, entre os políticos do PS que se pronunciaram na noite das primárias: a de que este método de escolher o candidato a primeiro-ministro veio para ficar. É uma unanimidade quase igual à que existiu quando António José Seguro decidiu convocar estas primárias: a única diferença é que antes todos as criticaram e agora todos as aplaudem. A mim, que nunca me pareceu um mau método, também não me surge como mezinha para todos os males do nosso sistema partidário.

As razões porque não tenho a certeza que este método se generalize é que as condições destas primárias não são repetíveis. Far-se-ão primárias para “candidato a primeiro-ministro” no início de um ciclo eleitoral, isto é, quando um partido perde as eleições e escolhe um novo líder para quatro anos? Ou deixa-se isso para um ano antes das eleições? E quanto a candidatos presidenciais? E candidatos a presidentes de câmara? Desaparecem as directas? Sujeitar-se-á um primeiro-ministro em funções a “primárias”, como se sujeita o Presidente dos Estados Unidos?

Como veem, o caminho é tudo menos claro. Para além que não convém embandeirar em arco e esquecer, por artes mágicas, o tom lamentável desta campanha, um tom que facilmente se poderia repetir em exercícios semelhantes. Quantos partidos estarão dispostos a passar por este tipo de experiência?

2. Terão votado ontem 170 a 180 mil militantes e simpatizantes do PS. Esse número provocou enorme entusiasmo. É prudente colocar alguma água na fervura. Se compararmos estas eleições primárias com as que tiveram lugar em França e Itália na mesma área política, a participação em Portugal foi uma desilusão. Para, proporcionalmente, a participação ser semelhante deveriam ter votado cerca de 600 mil portugueses – votaram bem menos de 200 mil.

Esta questão não é menor. Porque é que os socialistas portugueses, principal partido da oposição no tempo de um Governo que foi obrigado a aplicar medidas duríssimas, não conseguiram mobilizar tanto a cidadania como os seus correligionários franceses ou italianos? Será a nossa crise de participação política ainda maior do que nesses dois países – dois países onde há movimentos anti-sistema muito fortes, a Frente Nacional em França e o movimento Beppe Grillo em Itália?

E, já agora, mais uma pergunta incómoda: porque é que cerca de 30% dos que podiam votar não o fizeram, sendo que muitos se tinham inscrito apenas algumas semanas antes? Há quem tenha dito que foi uma abstenção baixa – a mim pareceu-me algo elevada se pensarmos no carácter voluntário e muito próximo do acto de inscrição como simpatizante do PS.

3. Toda a gente jurou nesta curta noite eleitoral que o PS se vai voltar a unir rapidamente. De novo, tenho dúvidas. E as minhas dúvidas foram reforçadas pelo discurso de vitória de António Costa. Se era necessária uma prova de que a campanha deixou feridas duradouras, tivemo-las nesse discurso, pois o vencedor da noite não foi capaz de citar o nome do seu adversário e tratou de contornar o incómodo dizendo que quem tinha vencido era todo o PS, que não havia derrotados. Não foi elegante nem teve grandeza.

Numa das suas últimas entrevistas antes das primárias, ao DN, este sábado, Costa antecipou que só um pequeno número de irredutíveis de Seguro manterão a acrimónia. Um Seguro que ele trata nessa mesma entrevista com desprezo e altivez, ao afirmar que não lhe devia ter dado oportunidade de se afirmar. Mais uma vez julgo que aquilo que estas palavras revelam não se resolve apenas porque um lado conseguiu mais de dois terços dos votos.

Para que o PS se unisse rapidamente teria sido necessário que António Costa tivesse ontem mostrado, no seu discurso, uma grandeza para com os vencidos que não foi capaz de mostrar. Essa é que é essa.


Numa noite de tantas certezas, deixo aqui estas dúvidas. A contracorrente.

Front National wins seats in French senate for first time / GUARDIAN


Front National wins seats in French senate for first time
Marine Le Pen’s far-right party make third political breakthrough after strong showings in municipal and European elections
Anne Penketh in Paris

The far-right Front National (FN) scored a historic victory in elections to the French senate on Sunday, winning its first ever seats in the upper chamber as the ruling Socialists and their leftwing allies lost their majority to rightwing parties.

The shock victory of Stéphane Ravier from Marseilles and David Rachline from Fréjus confirmed the party’s political breakthrough under Marine Le Pen, who has brushed the poisonous legacy of her father Jean-Marie Le Pen under the carpet in an attempt to “de-demonise” the FN.

The two seats are both in the FN’s stronghold in southern France, and at 26 Rachline, the mayor of Fréjus, is the youngest French senator ever elected.

The result marks a third humiliating electoral defeat for the Socialist party, which has been punished by disillusioned voters while support for the FN has surged. Le Pen’s party won control of a dozen municipalities in elections last March, including the 7th district in Marseilles where Ravier was elected mayor.

It also came top in the European elections two months later, when it knocked the centre-right UMP into second place. One poll earlier this month said that Le Pen could theoretically beat the country’s president, François Hollande, in the second round of the next presidential election, scheduled for 2017.

Referring to the presidency after his election to the senate, Ravier said: “There’s just one more door to open, the Elysée. In 2017 we’ll have Marine Le Pen to do it.”

Sunday’s complex vote was for half of the 348 seats in the senate by an electoral college of 87,000 voters made up of city councillors and local officials. A first round of voting which concluded around midday provided a foretaste of the final shock result, with the Socialists losing seven seats, including in Hollande’s own constituency of La Correze. “It’s Berezina,” one leading Socialist said, referring to Napoleon’s defeat while retreating from Russia.

With Hollande’s popularity at an unprecedented low of 13% and the government hit by budget woes, record joblessness and zero growth, his party had expected to lose the senate majority it has held with the Communists and Greens since 2011.

Le Pen hailed her party’s success as a “great victory, an absolutely historic victory” which she said would represent a “breath of fresh air in a rather sleepy chamber”.

“With every day that passes, our ideas are making progress,” she told BFMTV, predicting further gains for the FN in the forthcoming territorial and regional elections.

The result is also a much-needed shot in the arm for the UMP of the former president Nicolas Sarkozy, who is bidding to return to head the party. Sarkozy returned to the political arena last week, and is clearly positioning himself for another run at the presidency after Hollande defeated him in 2012.

With the final senate results still awaited, the Socialist leader, Jean-Christophe Cambadélis, played down the scale of his party’s defeat, saying it had feared greater gains by the opposition right-wing parties.


The Socialist leader of the senate, Didier Guillaume, predicted that the right would not have a stable majority, saying that the UMP would need to rely on centrist allies. The government spokesman Stéphane Le Foll stressed that whatever the outcome, the prime minister, Manuel Valls, would not be deflected from his reform plans.