domingo, 1 de junho de 2014

Aprenderam alguma coisa? Não aprenderam nada

Aprenderam alguma coisa? Não aprenderam nada
OPINIÃO
Aprenderam alguma coisa? Não aprenderam nada
JOSÉ PACHECO PEREIRA 31/05/2014 - PÚBLICO
Os eleitores deram uma bofetada nos vultos dos grandes gabinetes das instituições europeias, mas em vez de perceberem por que é que isso aconteceu, vão mas é comprar um capacete para proteger a cara.

É um ritual dos partidos e dos governos depois de derrotas eleitorais dizerem que ouviram as pessoas, perceberam a lição, aprenderam alguma coisa. Na verdade, estas frases significam que não aprenderam nada e que vão continuar na mesma. Quando um partido tem uma derrota estrondosa e a atribui a “erros de comunicação”, não quer aprender nada, quer apenas salvar a pele dos responsáveis. Quando um partido tem uma vitória tangencial, que para nada lhe serve, e a festeja como “enorme”, não quer aprender nada, quer apenas salvar a pele dos responsáveis.

Não é a excepção, é a regra. Aprendeu o PS com a derrota a e maldição pública de Sócrates? Não. Aprendeu o PSD com as duas catastróficas derrotas eleitorais da actual direcção política de Passos? Não. Aprenderam o PS e o PSD o que significavam os sucessos das listas independentes nas últimas autárquicas? Não. Aprenderam o PS e o PSD com o aumento de votos brancos e nulos e as abstenções por protesto, desinteresse ou revolta contra a “oferta” política que é dada ao eleitor? Não. Aprenderam o PS e o PSD com a quebra cada vez mais acentuada dos votos do chamado “arco governativo” em relação ao conjunto dos votos expressos? Não. Aprenderam o PS, o PSD e o CDS com o divórcio já profundo entre eleitores e eleitos, entre os portugueses e a sua representação política? Não. Aprenderam o PSD e o PS o que significam resultados como os de Marinho e Pinto? Aprenderam o PSD e o PS com a cada vez maior dúvida sobre o mérito da democracia para resolver os problemas dos portugueses? Não.

Eles sabem, mas não aprendem. Sim, porque quer o PS quer o PSD sabem bem o que aconteceu em todos os casos enunciados em cima e compreendem o que se está a passar entre os portugueses e os seus partidos. O PS sabe muito bem que a responsabilidade de Sócrates no descalabro de 2011 é grande e que os portugueses não o esqueceram. Podem vir com lutas entre “narrativas”, que a convicção da maioria dos portugueses não muda sobre Sócrates. E Sócrates ainda mantém uma sombra de influência, porque convém à direita alimentá-lo como papão, que ele já não é de todo. Quando Rangel e Nuno Melo fizeram a campanha que fizeram, foram buscar o único fantasma que lhes podia dar leverage. Foi uma campanha pior que má, mas em que a Aliança Portugal se agarrou à única coisa que ainda podia mobilizar os fiéis, a recusa veemente de Sócrates.

Por seu lado, a desculpa dos “erros de comunicação”, que é alimentada pelos comentadores na área governamental, ilude o fundo dos problemas que é de outra natureza: o dos erros políticos, incompetência, mentira e logro como método, desprezo pelas dificuldades dos portugueses em nome de uma “revolução” dos “empreendedores” contra os “piegas”, que só pode ter origem na ignorância e impreparação ideológica e política. E, tendo como pano de fundo a captura da governação pelos interesses económicos, que impõem intransigência total na sua defesa. Não admira que o primeiro-ministro use a fórmula dos “erros de comunicação”, para fugir a assumir as responsabilidades dos erros cometidos da sua governação e para fazer uma tão cómoda como falsa autocrítica.

Mas se a diferença entre “saber” e aprender pode pôr em causa a partidocracia, eles não querem tirar nenhuma conclusão e muito menos actuar contra os interesses instalados dentro dos partidos. Essa é uma enorme força de bloqueio que os mecanismos cada vez maiores de profissionalização política a partir das jotas tendem a reproduzir e a ampliar no PS e PSD.

Alguém dizia-me “mas há o cheiro do poder” e isso pode beneficiar na actual contenda do PS António Costa, mais bem posicionado em todos os estudos de opinião. Discordei. Até há uns anos o “cheiro do poder” era uma forte motivação para as escolhas partidárias “para fora”, hoje penso que o único “cheiro do poder” que funciona nos partidos é o de dentro. Ou seja, a motivação para escolher um “ganhador” potencial dentro dos aparelhos instalados é muito menos importante do que a sobrevivência da casta, desde que a derrota não mexa muito no pool de lugares que se podem manter seja no poder, seja na oposição. Se jogar tudo numa vitória eleitoral pode reforçar um “inimigo” interno e desequilibrar os poderes “de dentro”, a opção é muito mais definida pela estabilidade dos poderes internos.

Este processo de fechamento explica o que aconteceu nas últimas eleições autárquicas no PSD e no PS, em que no Porto, em Gaia, em Sintra, em Oeiras e em Matosinhos se fizeram escolhas na base da fidelidade à nomenklatura interna do partido, mesmo que fossem eleitoralmente desastrosas. E isso ainda mais se torna evidente quando ninguém tira qualquer conclusão crítica interna das derrotas eleitorais e tudo continua na mesma, senão pior, com uma mentalidade de bunker para manter lugares no grupo parlamentar, nas distritais e federações, nos cargos de nomeação governamental. Alguém se demitiu devido às escolhas que fez no PSD no Porto, em Sintra, Gaia, Oeiras, ou no PS em Matosinhos? Pelo contrário, acelerou-se o processo de expulsões, para reforçar o poder interno, o único que conta. É por isso que só os partidos que ainda têm um eleitorado interior não inteiramente controlado pelo aparelho instalado podem mudar pela pressão externa da opinião, os outros não. Seja qual for o “cheiro do poder”.

O mesmo se passa, por razões ainda maiores, logo mais graves, a nível da Europa. Aprenderam os governos da União Europeia o que significou a derrota da Constituição Europeia na Holanda e França? Não. Aprenderam os governos com o facto de que cada vez que há um referendo as propostas do mainstream europeu chumbam ou passam por um fio? Não. Aprenderam os governos o desastre das políticas das troikas dos últimos anos? Não. Aprenderam os governos e os partidos europeístas com a enorme abstenção que há muito atinge a legitimidade do Parlamento Europeu? Não. Aprenderam os governos e os partidos centristas e de esquerda com o ascenso da extrema-direita xenófoba por toda a Europa? Não. Aprenderam os governos nacionais e os partidos europeístas com o crescimento de forças anti-União Europeia ou apenas eurocépticas por toda a Europa? Não.

Eles sabem, mas não aprendem, porque não podem aprender. Dão apenas desculpas e falsas causas. O curso antidemocrático da União nos últimos anos dificilmente pode ser revertido sem pôr em causa políticos e partidos que têm mandado na Europa nos últimos anos, principalmente o PPE e o PSE. Ambos são responsáveis pela transformação da União numa burocracia autoritária e numa hierarquia de “dominação” entre países de primeira e de segunda. Eles não podem aprender sem pôr em causa a enorme e privilegiada burocracia que tem crescido em Bruxelas, no Luxemburgo, em Estrasburgo e em múltiplos gabinetes e “centros” nacionais, e que precisa de enfraquecer os parlamentos nacionais e os povos para poder crescer e consolidar-se.

Para voltar a ter pés que não sejam de barro, a União deveria aprender com os milhões de eleitores que consideram que o Parlamento Europeu não serve para nada, e nem sequer vão votar, e com os milhões que votaram no UKIP e na Frente Nacional. Sim, também com os eleitores que votaram na Frente Nacional, porque de uma forma perversa estes partidos falam mais dos problemas, dos receios, das defesas do homem comum do que os politicamente correctos PPE e PSE que mandam na Europa. Os eleitores deram uma bofetada nos vultos dos grandes gabinetes das instituições europeias, mas, em vez de perceberem por que é que isso aconteceu, vão mas é comprar um capacete para proteger a cara.


Aprenderam alguma coisa? Não, não aprenderam nada.

European Union dream threatened by austerity and disharmony

 
Valéry Giscard d'Estaing, one of the founding forces behind the European Union, thinks people 'are voting against what Europe is doing'. Photograph: Olivier Hoslet/EPA
European Union dream threatened by austerity and disharmony
Structural problems with the eurozone and economic blunders have dragged the postwar project into a critical phase
William Keegan

This columnist didn't get where he is today by becoming involved in debates about immigration. My Irish surname speaks for itself. But I have spent most of my career keeping a watchful eye on Europe and, in common with many fellow Europeans, I do not like the way that the European dream is turning into a nightmare.

The principal aim of the founding fathers of the European community was to ensure that there should never be another war between Germany and the rest, the most notable member of the rest being France.

But a closely associated aim was to ensure general prosperity that, among other things, would not give rise to either the hyperinflation experienced in Germany after the first world war or the mass unemployment which created the conditions that gave rise to Hitler – who was democratically elected, but after that used undemocratic methods to remain in power.

The aim of the two prominent founding fathers, Jean Monnet and Robert Schuman, was to bring Europe closer together politically by economic means. The nightmare would be if the economic means adopted in recent decades served to pull Europe apart.

One of the prominent successors, decades later, to Monnet and Schuman was Valéry Giscard d'Estaing who, as president of France in the second half of the 1970s, was a leading participant in the formation of the European monetary system and the exchange rate mechanism, the precursor to full monetary union and the euro.

It was noteworthy that in a recent interview with the Financial Times, Giscard observed: "It is said people are voting against Europe – that's not true. They are voting against what Europe is doing wrong."

For Giscard, it is bad management, not the basic architecture, of the eurozone that is the problem. But if he studied the timely new book by Philippe Legrain, European Spring – Why Our Economies and Politics are in a Mess, he might be more inclined to accept that the fundamental structure of the eurozone is also to blame.

Legrain, a former economic adviser to the president of the European commission, gives a vivid insider's account of just how badly the European political and economic elite responded to the financial crisis. As in the UK, the wrong diagnosis was made when laying so much of the blame on putatively excessive public spending – an analysis that may have applied to Greece, but not the others – as opposed to the credit crunch.

Fiscal austerity was the wrong response, rendering the crisis much worse. The crisis was aggravated in the eurozone by the loss of such instruments as independence in the determination of monetary and exchange rate policy. But as Legrain forcefully points out, the UK's freedom from such constraints did not prevent policymakers after 2010 from extending the crisis, with those three years of "flatlining".

Giscard does accept that the eurozone needs "harmonised economic and fiscal policies". Alas, all the evidence is that, on their record so far, eurozone policymakers dominated by a pre-Keynesian consensus in Germany would probably be experts in disharmony.

It will presumably please David Cameron that Giscard distinguishes between the "big project" – the current and potential new members of the European Union in a predominantly free trade zone, and the "inner core" favouring further economic and political integration.

There are several ironies here. The French enthusiasm for the eurozone was motivated partly by its wish for a European Germany rather than a German Europe. French policymakers thought they would be less subject to the restrictive economic policies of the Bundesbank if there were to be a European Central Bank. The demotic phrase was that the French wanted their fingers in the Bundesbank till. But it did not work out that way.

The strategy of successive British governments has been to try to undermine continental plans for "deepening" Europe – ie, for ever-closer union – by broadening or widening Europe. The British were among the strongest advocates of the extension of the EU membership to members of the former Soviet bloc, so it is rather unsporting of us to object to the obvious consequences for flows of workers. We now find that the supposedly unstoppable political will of the European elite for ever-closer union may be up against the irresistible force of those tiresome citizens called voters.

But I am reminded of a conference I attended in Hamburg in November 2008, where both Helmut Schmidt, former chancellor of Germany, and Giscard were panellists. Schmidt was, of course, the other driving force behind the formation of the European monetary system.

It was at that conference that Sir Stephen Wall, whose history of our negotiations with the European community I referred to recently in this column, made the remarkable – at least to me – revelation that towards the end of his life Monnet was having doubts about the goal of ever-closer union.


I suspect that President de Gaulle's vision of a Europe of nation states will prevail in the end, but it is important that they co-operate as much as possible within the European Union. There always seemed to be a fundamental flaw in the idea of a United States of Europe. After all, the United States of America was formed by people who had left Europe.

Como vai responder a política ao 25 de Maio? “Se queremos salvar a Europa, temos de a mudar.”

“Assinala-se também o desgaste dos sistemas políticos, um inquietante descrédito da política e dos partidos do “sistema”.

Perante isto, o espectáculo a que fomos obrigados a assistir nos últimos dias, espectáculo aliás preparado, maquiavélicamente com larga antecedência, de perfilamento com ameaças e anúncio de “caminhos abertos” ... demonstra, visto de uma perspectiva Europeia e perante os verdadeiros desafios para o prestígio  da Classe Política e do respectivo Sistema, um total autismo e consequentemente uma deprimente e erosiva irresponsabilidade.
António Sérgio Rosa de Carvalho

Como vai responder a política ao 25 de Maio?
“Se queremos salvar a Europa, temos de a mudar.”
Análise Jorge Almeida Fernandes / 1 jun 2014 / PÚBLICO


 A reacção aos resultados das eleições europeias, à esquerda e à direita, começou em registo de alarme: “surto da extremadireita”; “vaga eurófoba”, “maré populista”. Lendo os resultados mais atentamente, verificamos que os partidos neofascistas recuaram; que aumentou o voto populista de esquerda; e que, sobretudo, cresceram os partidos de direita radical e os conservadores eurocépticos.
Em lugar de falar em ascensão da extrema-direita deve falarse em surto do eurocepticismo e de uma pulsão nacionalista para os países se fecharem sobre si mesmos. Bruxelas e o euro tornaram-se um “federador dos descontentamentos”. Assinala-se também o desgaste dos sistemas políticos, um inquietante descrédito da política e dos partidos do “sistema”.
Uma análise dos efeitos começa inevitavelmente pela França, não só por ter sido
o caso “impressionante” da noite de 25 de Maio, mas pela engrenagem que pode desencadear na Europa.
É inútil minimizar a vitória de Marine Le Pen. A FN foi o partido mais votado e com uma vantagem clara (cinco pontos sobre a direita conservadora e dez sobre o PS). Não foi surpresa, confirmou meses de sondagens. Não foi a abstenção que provocou o seu triunfo. Multiplicou por oito o número de mandatos em Bruxelas. Está a fidelizar os eleitores. Alargou a implantação no eleitorado popular. Foi o partido-líder na faixa dos 18-35 anos. Marine Le Pen prepara desde já as presidenciais de 2017: sem uma mudança substancial na relação de forças, é candidata a disputar a segunda volta.

O contexto é mais preocupante do que os números. Continua a crescer o eurocepticismo e a desconfiança dos franceses perante a política atinge níveis recorde. “Em 2009, o nível de desconfiança era já muito elevado. Hoje tornou-se vertiginoso”, observa Pascal Perrineaud, responsável pelo Barómetro da Confiança Política, anualmente realizado pelo Centre de Recherches Politiques de Sciences Po (Cevipof ).
Em 2009, 48% dos franceses pensavam que a democracia funcionava mal. Hoje são 69%. “A degradação é espectacular e a desconfiança geral, ao reforçar-se, acaba por lançar dúvidas sobre o próprio mecanismo democrático”, explica Perrineau. Metade dos inquiridos são seduzidos por uma democracia de tipo “bonapartista”, dirigida por “um homem forte que não tenha de se preocupar nem com o Parlamento nem com eleições”.
Escreve o Monde que “o 25 de Maio é mais grave do que o 21 de Abril”. Em 21 de Abril de 2002 a eliminação do socialista Lionel Jospin por Jean-Marie Le Pen, na primeira volta das presidenciais, provocou um “sobressalto democrático”. E agora? “A vitória histórica da FN numa eleição nacional não provoca uma reacção colectiva, como se o encefalograma democrático permanecesse desesperadamente plano.”
Hollande tem a confiança de apenas 18% dos franceses. Acusam-no de “sonambulismo”. A UMP (direita liberal e conservadora) está enredada em escândalos e crises internas. Maioria e oposição, ambas descoladas da realidade, perdem dia a dia a capacidade de iniciativa — na França e na Europa.
Por que importa tanto o resultado das europeias? Não faltam os diagnósticos. Observa Pieter Cleppe, do think tank Open Europe: “O voto de protesto terá um enorme impacto nos partidos e nas políticas nacionais. O surto desses partidos pode tornar particularmente difícil centralizar poderes na UE, especialmente no relativo à gestão da crise.”
Os governos europeus e a UE defrontam-se com múltiplos problemas. Em primeiro lugar não podem ignorar o significado do voto de protesto. Volta-se a citar a famosa fórmula de Laurent Fabius, nos anos 1980, quando era primeiro-ministro: “A Frente Nacional levanta as verdadeiras questões e dá as respostas erradas.” Com todas as suas simplificações, os populistas têm o mérito de pôr o dedo numa ferida sensível: não apenas a crise, mas o estado da política e o mal-estar democrático na Europa. O seu programa — escreveu há anos o historiador anglo-americano Tony Judt — é “um prolongado grito de ressentimento — contra os imigrantes, o desemprego, o crime e a insegurança, a ‘Europa’, e em geral ‘contra eles’, que provocaram isto”.
O ressentimento actual — assinalou o espanhol José Ignacio Torreblanca — tem muito a ver com o fatídico ano de 2011: “A letal combinação de hesitações, preconceitos, miopia, falta de liderança, divisões entre os países e uma exasperante lentidão institucional conseguiu converter uma profunda crise económica numa crise existencial que pôs em causa a sobrevivência do euro.” A crise não é apenas económica, “mas também política e de legitimidade, já que dentro da UE se abriu uma brecha entre elites e cidadãos e entre devedores e credores”.
Por outro lado, esta crise — na senda das reacções à globalização — reabriu e radicalizou o debate sobre federalismo e Estado-nação. A responsabilidade começa nos Estados, governos e partidos nacionais, incapazes de dar um horizonte de esperança aos cidadãos. Foi a mola da vitória de Le Pen. Nestas eleições só os populistas tinham uma “oferta política forte”.
A “onda populista” não foi geral e teve notáveis excepções como
“Sem um governo em Paris que disponha de um mandato popular europeísta não parece viável nenhuma iniciativa que modifique o actual quadro das instituições europeias”, argumenta o economista italiano Carlo Bastasin. “O voto em Le Pen é um poderoso aviso sobre os perigos da inacção. Os populistas não podem desmantelar a UE. Mas uma França debilitada pode”, alerta o analista Philip Stephans, do Financial Times.
Escreve no Monde o filósofo alemão Wolf Lepenies: “Se não fossem os resultados das eleições na Grã-Bretanha, poder-se-ia minimizar o sucesso eleitoral da FN e, a despeito da ascensão dos eurocépticos e partidos antieuropeus noutros países, tomá-lo como uma ‘excepção francesa’. É o triunfo dos antieuropeus de Nigel Farage que faz da vitória da FN um mau presságio político para a Europa.” E enfraquece a UE perante os Estados Unidos.
A Itália de Matteo Renzi não pode ocupar o papel da França, mas abre uma janela. Renzi diz algo que deve ser escutado noutras capitais europeias: “Se a Itália e outros países têm problemas, não é por culpa da Europa.” O imobilismo europeu é que agrava esses problemas. “Se queremos salvar a Europa, temos de a mudar.”
A nova força de Roma decorre do exemplo. “A única maneira de ser credível na Europa não está ligada aos 40,8% do Partido Democrático, mas ao facto de se apresentar com medidas que permitem aos outros acreditar que desta vez a Itália faz as coisas com seriedade. (...) Se fizermos reformas e formos credíveis, [o populismo] não terá futuro.”

A construção europeia sempre foi feita de sobressaltos. Fica a pergunta: como vai responder a política ao 25 de Maio?

Tudo correu mal, mas vamos seguir em frente.

Tudo correu mal, mas vamos seguir em frente
Cameron deixou-se apanhar pela ratoeira do “concurso” que ele próprio criou para ver quem era mais eurocéptico
Teresa de Sousa / Sem fronteiras / 1 jun 2014 / PÚBLICO



"A Europa já viu este “filme” muitas vezes e sabe onde pode conduzi-la. O que não podem continuar a dizer, a torto e a direito, é que “a crise resolve-se com mais Europa”. Já ninguém os pode ouvir. Arriscam-se a ver à sua volta um grande espaço vazio que alguém se encarregará de preencher."

1.Um amigo meu enviou-me a frase perfeita para iniciar este texto. É de Guy Mollet, socialista que foi primeiro-ministro de França em finais da década de 50, citada por Raymond Aron, e reza o seguinte: “Dizem-nos que a nossa política fracassou. É uma boa razão para renunciar a ela?” Serve para resumir a reacção dos líderes europeus ao desastre político das eleições europeias. Os chefes de Estado e de governo juntaram-se num jantar informal para reflectir sobre eles. Não se conhece ainda com todo o detalhe o teor das discussões, mas sabe-se, pelo menos, que desperdiçaram uma ocasião fundamental para dar uma resposta política forte ao que se passou em toda a Europa, com a ascensão dos partidos nacionalistas, populistas e de extrema-direita praticamente em toda a parte.
Preferiram “dispersar” as conclusões do jantar, mantendo a fórmula politicamente correcta com que tentam sempre disfarçar as divisões, mesmo que tivessem admitido que talvez seja preciso mudar as prioridades europeias. Falaram, naturalmente, do crescimento e emprego — é uma frase que fica sempre bem, mas que ainda não teve qualquer tradução prática. Incluíram dois temas recorrentes, que citam quando não têm mais nada para dizer: é preciso olhar para a segurança energética (é verdade, mas chegaram tarde) e para as alterações climáticas. Transmitiram a ideia de que o avanço dos extremos era um problema localizado e no contexto particular das eleições europeias. O nosso primeiroministro resumiu na perfeição esta ideia quando disse, e cito de memória, que o avanço da extrema-direita com contornos preocupantes foi apenas em dois países. Ao ouvi-lo, pensaríamos que ia acrescentar. Malta ou Chipre (sem ofensa para nenhum destes países). Mas não. “Apenas” queria dizer a França e o Reino Unido.
O presidente da Comissão Europeia, que se mostrou muito consternado com os resultados, não levou muito tempo a acrescentar que isso não nos deve impedir de “manter o rumo”. Perdeu mais, disse ele, quem cedeu aos populismos. Qual rumo? Outros líderes utilizaram o cenário póseleitoral para justificarem os seus objectivos europeus. Cameron, naturalmente, voltou a insistir que a Europa precisa de reformas profundas. Deixou-se apanhar pela ratoeira do “concurso” que ele próprio criou para ver quem era mais eurocéptico e agora não sabe bem o que há-de fazer. Matteo Renzi, a nova vedeta do centro-esquerda europeu, disse que chegou a altura “de mudar as políticas europeias”. A Itália recebe em Julho a presidência rotativa da União Europeia e ele não tenciona perder a oportunidade. Mark Rutte, o primeiro-ministro holandês, diz que vai apresentar uma nova agenda. Hollande insistiu em que a França não está enfraquecida. O problema é que está. E, se a França for abaixo, a Europa vai com ela. A margem de manobra do Presidente para levar os franceses a aceitar algumas mudanças ficou ainda mais reduzida. A cartada Manuel Valls pode esgotar-se muito rapidamente. A UMP do anterior Presidente está a desfazer-se graças aos escândalos de corrupção. Se é difícil à Frente Nacional ganhar legislativas (por causa do sistema eleitoral francês), o mesmo não acontece com as presidenciais.
Se nada acontecer na Europa, se os partidos europeus não perceberem que a vitória de Marine e de outros deve-se ao facto de conseguirem falar aos mais atingidos e ameaçados pela crise, pela globalização e pela imigração, então as coisas podem mesmo correr muito mal. Os europeus sentem-se longe das decisões da Europa, não percebem quem as toma, não sabem como influenciá-las. Há um problema democrático na Europa que é preciso enfrentar de vez. O risco maior está em Berlim. É verdade que os alemães se preocupam com o declínio francês. A elite política tem uma ideia do que seria uma Alemanha sem a França e sem a Europa. O problema é que não consegue traduzir essa consciência numa mudança política que não se limite a impor aos outros o seu próprio modelo. Isso nunca resultará.
Até porque é preciso dizer também que a ascensão dos extremos é, em boa medida, o resultado directo da forma como esta crise foi gerida politicamente. Desde 2010, quando a Grécia estava à beira da falência, o discurso de Berlim (e dos seus parceiros do Norte) foi petróleo atirado para a fogueira. Partiu a Europa em duas, abrindo um fosso entre os países do Sul e da periferia, incapazes, preguiçosos, culturalmente atrasados, e os do Norte,
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competentes e probos. Nalguns casos quase que atingiu níveis de xenofobia, que não é só uma cultura da direita mais extrema em relação aos imigrantes vindos de fora. Impôs-lhes doses maciças de austeridade em programas mal pensados e de resultados ambíguos. Disse-lhes que era esse o preço a pagar, e, sem discutir, se quisessem ficar no euro. Abriram-se feridas profundas, acordaram-se velhos fantasmas. Criou-se um clima que também ajudou a alimentar nos países credores o sentimento de que lhes estava a ser pedido um preço demasiado elevado para garantir a sobrevivência do euro, incluindo as economias periféricas.
As instituições, a começar pela Comissão, faliram na sua missão de tentar preservar o interesse comum. A eurocracia perdeu qualquer peso político e, em muitos aspectos, passou a rodar em seco, surda e muda perante a realidade e os seus problemas. Hoje, de Haia a Berlim, passando por Paris, há um coro de vozes a defender a redução dos seus poderes e a devolução de algumas das competências europeias para o nível nacional. Na Holanda, foi simbolicamente a directiva de Bruxelas para fixar o limite da potência dos aspiradores que animou o debate. Matteo Renzi diz numa entrevista a vários jornais europeus: “Se a Europa me explica com todo o detalhe como é que se deve pescar um peixe-espada, mas não me diz nada sobre como salvar um imigrante que se afoga, isto quer dizer que alguma coisa está a correr mal.” Como é que um país como a Dinamarca, por exemplo, onde o desemprego é baixo, o crescimento é algum e as pessoas vivem bem, consegue que o partido populista anti-imigrantes e antieuropeu obtenha a vitória que obteve? À frente do centro-esquerda da primeiraministra e do centro-direita?

Há 130 deputados contra a Europa no Parlamento Europeu. Se calhar nem se conseguem organizar. O problema é que os partidos que os elegeram vão influenciar as agendas políticas nacionais, levando possivelmente os governos a ter ainda mais medo de tomar decisões verdadeiramente europeias e de as explicar aos seus eleitorados com a clareza e o rigor que são necessários para retomar a sua confiança. Já temos aí a tentação do proteccionismo, que seria o golpe final na capacidade europeia de ter um papel no mundo que está a emergir. Já temos as novas leis para expulsar imigrantes sem trabalho, incluindo europeus. A Europa já viu este “filme” muitas vezes e sabe onde pode conduzi-la. O que não podem continuar a dizer, a torto e a direito, é que “a crise resolve-se com mais Europa”. Já ninguém os pode ouvir. Arriscam-se a ver à sua volta um grande espaço vazio que alguém se encarregará de preencher.

Bicefalia na liderança implica cumplicidade.


Bicefalia na liderança implica cumplicidade
Num auditório que lhe é mais favorável, Seguro jogou um trunfo que veio baralhar o jogo
1 jun 2014 / Público

A semana política no Largo do Rato foi evoluindo num crescendo que, já se sabia, teria o seu ponto alto no 4.º piso do Hotel Golf Mar, no Vimeiro, onde os socialistas se reuniram em comissão nacional. A agenda seria analisar os resultados das eleições europeias e, como tal, a proposta de António Costa para discutir a convocação de um congresso e de eleições directas foi chumbada. A partir daqui os socialistas enredaram-se num emaranhado burocrático de regulamentos, de questões processuais e estatutárias. António Costa viu-se obrigado a ter de reunir as assinaturas necessárias para forçar a convocação de uma nova reunião da comissão nacional dentro de duas semanas para discutir a marcação de um congresso extraordinário.
Eis que entretanto António José Seguro surpreende tudo e todos, num movimento que alguns apelidaram de fuga para a frente. O secretário-geral do partido propôs não eleições directas para escolher o líder do PS, mas sim eleições primárias para escolher o candidato do PS a primeiro-ministro. Seguro reúne a comissão política na próxima semana para debater o assunto e o mais provável é que daqui a 15 dias haja uma reunião da comissão nacional em que vá a votos uma proposta para directas e outra para primárias. Os próximos dias serão, já se percebeu, de arregimentar as tropas e contar espingardas.
A proposta de Seguro abre um cenário inédito no PS que poderá culminar num partido cujo líder não é o candidato a primeiro-ministro. Daqui não vem mal ao mundo, muito pelo contrário. As primárias são um sistema que vigora, por exemplo, nos Estados Unidos ou no PS francês e que é interpretado por muitos como um sinal de abertura dos partidos à sociedade, já que, além dos militantes, os simpatizantes também são chamados a votar.
O problema é que para este sistema funcionar tem de haver uma sintonia e cumplicidade total entre o líder do partido e o candidato às legislativas, caso não seja a mesma pessoa a acumular os dois cargos. Se, por exemplo, António Costa ganhar as primárias e António José Seguro as directas, ou vice-versa, o PS pode cair numa situação de constante guerrilha interna, dada a radicalização de posições entre ambos. No Vimeiro António Costa acusou Seguro de se esconder atrás dos estatutos e Seguro retorquiu: “Isto é uma irresponsabilidade causada por ti.”
A ruptura entre Costa e Seguro já não vem de hoje. Vem desde os tempos da JS, como conta a edição deste domingo da revista 2. E se a proposta de Seguro vingar, e se estes dois dirigentes dividirem entre si as cadeiras do Largo do Rato e de São Bento, o PS poderá cair numa situação semelhante à do PSOE de Espanha em 1998 quando, no seguimento de umas primárias, o catalão Josep Borrell se candidatava à presidência do governo e o basco Joaquin Almunia era secretário-geral dos socialistas. A experiência durou pouco e acabou mal. Um queixava-se do pouco empenhamento do partido, enquanto o outro esperava por uma escorregadela do primeiro. E escorregou. A bicefalia só funciona se houver cumplicidade.

PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE OS CENÁRIOS SAÍDOS DO VIMEIRO
PÚBLICO

Pelo pouco que foi explicado sobre o assunto percebe-se que serão eleições abertas aos militantes e simpatizantes do partido — já previstos nos estatutos do PS e com um número ontem não revelado de inscritos —, que irão escolher, entre os candidatos que se apresentarem, aquele que estará em melhores condições para se propor como primeiro-ministro. As primárias estão previstas nos estatutos e regulamentos do PS? Não, há uma total ausência de referências ao assunto e, por isso, o líder já anunciou para a semana uma comissão política para estabelecer o regulamento das primárias. Seguro pediu à presidente do partido uma leitura comparada com as experiências francesa, italiana e espanhola.
Isso não obriga à alteração dos estatutos do PS?
Seguro diz que não, mas há outras opiniões. O líder afirma que não é necessário mudar os estatutos, porque o candidato a primeiro-ministro não é um cargo estatutário. Mas a tradição no PS sempre foi a de que o secretário-geral é o candidato natural à chefia do governo. Tal como o número um de uma lista às eleições legislativas é naturalmente o candidato a primeiro-ministro. Por isso Pedro Delgado Alves contestou a opinião da direcção, afirmando que seria necessário que os estatutos — a constituição de um partido — previssem as primárias, até porque estas já tinham sido rejeitadas em congresso (embora para o cargo de secretáriogeral). A alteração de estatutos tem de ser feita em congresso.
O que se segue agora?
Prosseguem dois processos em paralelo. Por um lado, a comissão política reúne-se na próxima semana para definir o modelo das primárias. Por outro, vai haver outra comissão nacional do PS, dentro de duas semanas, convocada pelos apoiantes de António Costa, para discutir a realização de um congresso extraordinário. Nessa altura, as duas soluções (primárias e congresso) vão confrontar-se, mas só a última deverá ir a votos. E a comissão nacional continua a ser maioritariamente apoiante de Seguro. Quanto tempo se pode arrastar a crise de liderança no PS? É difícil prever. No caso das primárias, Seguro revelou não ter pressa: “Se puderem ser em Novembro, não serão em Dezembro, se puderem ser em Setembro, não serão em Outubro.” Caso o congresso pedido por Costa seja aprovado, não sendo electivo, apenas pode decidir a realização de directas. E qualquer acto eleitoral interno demora, no mínimo, dois meses desde a sua marcação, para cumprir os prazos regulamentares. Caso não consiga realizar o congresso, Costa perde todas as hipóteses de disputar a liderança a Seguro? Não. Mesmo que não vingue a solução por via do congresso, os adversários podem tentar vencer a maioria das federações (distritais) que irão a votos no final do Verão. Ou, caso Costa venha a vencer as primárias anunciadas por Seguro, a incompatibilidade entre ambos pode levar Seguro a demitir-se. Ou não.

Leonete Botelho

David Cameron says vote for Juncker might push UK out of EU: report


David Cameron says vote for Juncker might push UK out of EU: report
Der Spiegel says PM warned he could not guarantee membership if Jean-Claude Juncker becames European Commission chief
Reuters in Berlin

David Cameron has warned he would no longer be able to guarantee that Britain would remain a member of the European Union if European leaders elect Jean-Claude Juncker as European Commission chief, Germany's Der Spiegel said.

The commission president is selected by EU leaders but must be approved by the assembly, where Eurosceptics from the right made gains in last week's election. The European People's Party, which won the most seats in the vote, had chosen Luxembourg's former premier Juncker as its candidate.

In a pre-publication copy of an article, Spiegel said the prime minister had explained, on the sidelines of an EU summit in Brussels on Tuesday, that if Juncker became commission president, Cameron would no longer be able to ensure Britain's continued EU membership.

The magazine said participants understood Cameron's comments to mean that a majority vote for Juncker could destabilise his government to the extent that an "in-out" referendum would have to be brought forward.

That in turn, they understood, would most likely lead to the British people voting to quit the EU, the magazine said.

A spokesman for the prime minister declined to comment on the Spiegel article.

But Juncker called on the majority of leaders not to bow to pressure from the minority in their decision, according to an advance extract of an article due to be published in Germany's Bild am Sonntag newspaper on Sunday.

"Europe must not allow itself to be blackmailed," Juncker said, adding that a broad majority of Christian Democratic and socialist leaders in the European Council backed him.

He said he was in favour of getting "all of the other heads of government on board too" in the coming three to four weeks, and offered to hold talks on priorities for the next commission.

Der Spiegel said Cameron, who regards Juncker as too federalist and likely to damage his hopes of reforming Britain's EU ties, dismissed the candidate during a recess with the words: "A face from the '80s can't solve the problems of the next five years."

Cameron has promised to renegotiate the terms of Britain's EU membership and, if the Conservatives win next year's election, to hold a referendum by the end of 2017 on whether to remain in the EU.

On Monday he rejected calls to bring the referendum forward after his party was beaten into third place in European elections by Ukip.

Bild am Sonntag, which did not name its sources, said the French president, Francois Hollande, was also trying to prevent Juncker from getting the job of commission president and instead wanted a French candidate.

The newspaper said Hollande had this week told Merkel he urgently needed a signal for his government, given the strong performance of the far-right National Front in the European elections. He had suggested his former finance minister Pierre Moscovici for the job.

But Juncker said he was "optimistic about being chosen as the next commission president by mid-July".

European energy commissioner Guenther Oettinger told Bild it was clear to everyone involved that personnel decisions should be made before the summer recess and it would be "worrying" if there was no agreement by the end of June.


"Given that the EPP, with Jean-Claude Juncker, has a leading margin of more than 20 seats in the EU parliament, the council should nominate him," he was quoted as saying.

A Casa dos Espíritos (parte II)


Esta é a segunda e última parte da saga da família Espírito Santo, que a jornalista Inês Dentinho publicou na revista do jornal O Independente em Março de 2000 e que o Dinheiro Vivo volta agora a publicar
A Casa dos Espíritos (parte II)
30/05/2014 | 16:04 |  Dinheiro Vivo

Quando Ricardo do Espírito Santo Silva morre, em 1955, a Família dobra uma esquina no tempo. Esgotam-se os anos de afirmação financeira, cultural e social. E resta ao irmão mais novo, Manuel, consolidar a herança a par de um regime que se extingue devagar. Para trás ficara a obra de José Maria, seu pai [ver A Casa dos Espíritos. A história da única família de banqueiros portuguesa (I)], que, do nada, erguera um nome e uma casa bancária imune às crises da monarquia e ao caos da I República. Ficara também a exigente travessia da Grande Guerra e a difícil fundação do banco (1920) suportada pelo irmão mais velho.
Ficara ainda a projecção financeira atingida pelo irmão do meio, Ricardo Espírito Santo Silva. Em pouco mais de 20 anos, o novíssimo banqueiro ligara-se ao Banco Comercial de Lisboa (1937) e espalhara uma rede de balcões por todo o País. Antes da hora, preparava uma estrutura capaz de absorver os benefícios da economia da II Guerra Mundial, instalando o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa no topo da banca privada portuguesa.
A par das conquistas financeiras, Ricardo dera dimensão cultural à segunda geração da Família Espírito Santo. Deixara ao País uma fundação com a mais completa coleção de peças de arte portuguesa, perdidas durante o tumultuoso século XIX e resgatadas pelo banqueiro nos cantos mais escondidos da Europa e dos Estados Unidos. Organizara em Paris uma grande exposição de ourivesaria portuguesa, que seria inaugurada pelo Presidente René Coty pouco depois da sua morte. E é também com Ricardo Espírito Santo que a Família se estreia numa teia de valiosos contactos internacionais que dão escala ao nome e ao negócio.
O terceiro irmão, Manuel, será um anfitrião de primeira água, fortalecendo a rede dos Espíritos. "Podia ter sido diplomata. Tinha um trato extraordinário", lembra Ferreira Neto [no ano 2000] presidente do BIC. Chega a ser convidado por Marcello Caetano para ocupar a embaixada de Portugal em Washington.
"O meu pai dava muita importância aos estrangeiros. No mundo dos negócios, são contactos que ficam", diz José Manuel E.S. Lembra-se, em pequeno, de ver lá em casa os condes de Paris, Calouste Gulbenkian, o duque de Kent, os condes de Barcelona, o rei de Itália, Richard Nixon, Giscard d'Estaing, os Firestone, Bernardo da Holanda, os irmãos Rockefeller, as famílias reais do Luxemburgo e do Liechtenstein e George Woods, presidente do Banco Mundial.

Mas a história desta Família parece ser feita apenas por homens. Na sombra, as mulheres construíam um mundo que os fazia existir a tamanha escala. Isabel Pinheiro de Melo, mulher de Manuel, empresta aos Espírito Santo o mundo tradicional que a pacatez dos anos salazaristas devolve a algumas famílias de Lisboa. Filha do conde de Arnoso, um dos Vencidos da Vida, amigo e secretário do rei D. Carlos, "é uma grande figura do matriarcado e da dignidade", nas palavras de Augusto Athaíde [no ano 2000; entrou para o grupo Espírito Santo no Brasil, depois de abril de 1974. Entre outros cargos que ocupou no grupo, foi presidente do Banco Internacional de Crédito, integrado depois por fusão no Banco Espírito Santo].