quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Futuro da Europa .

OPINIÃO
Cheira a Pólvora na Europa
PAULO NETO 02/01/2014 – in Público

No plano político, factos recentes agudizaram a tensão na Europa.
No final de 1938, poucos meses antes do início da II Guerra Mundial, Peter Drucker publicou The End of Economic Man, um livro onde antecipou a tragédia que, de forma vertiginosa, se aproximava da Europa e que, no seu entender, era resultado de “uma perda de fé política, de uma alienação política por parte das massas europeias, e de uma total ausência de liderança na Europa, apesar do palco político estar repleto de personagens a trabalharem freneticamente”.

Em The End of Economic Man, os capítulos “Desespero das Massas” e o “Regresso dos Demónios” foram especialmente premonitórios. E os demónios de que Peter Drucker falava eram o desemprego, a crise, o nacionalismo e a guerra.

Setenta e seis anos depois, multiplicam-se os apelos sobre a necessidade da União Europeia (UE) tomar medidas que reavivem os valores e os desígnios da União. O Relatório de 2013 do Eurobarómetro do Parlamento Europeu, publicado em Setembro, expõe uma realidade europeia muito preocupante: i) Apenas 43% dos inquiridos afirma ter algum interesse pelas questões europeias; ii) O interesse dos cidadãos relativamente aos assuntos europeus diminuiu em 25 dos Estados-membros (nomeadamente em França, um dos países fundadores da União); iii) Cerca de 31% dos europeus inquiridos dizem não conhecer nada sobre qualquer das Instituições da União (61% no Reino Unido e 51% na França); iv) Apenas 33% dos europeus consideram como prioritária a coordenação europeia das políticas económicas e orçamentais; v) Somente 51% dos cidadãos europeus valorizam a importância das políticas de luta contra a pobreza e a exclusão social; vi) 74% reconhecem a necessidade das políticas europeias de promoção do emprego; vii) Apenas 54% dos inquiridos reconhecem a protecção dos direitos humanos como um valor fundamental para a UE e viii) Só 33% consideram como muito importante a solidariedade entre os Estados-membros.

No plano político, factos recentes agudizaram a tensão na Europa. Desde logo, a forma como a UE lidou com a crise da dívida soberana de vários Estados-membros e que reacordou alguns dos demónios de Drucker. A tensão social, de que a “Revolta dos Forconi”, de Dezembro de 2013, é apenas mais um exemplo, alastrou por vários Estados-membros e, em muitos deles, o discurso nacionalista ganhou relevância em várias eleições nacionais e regionais. Aumentou também na UE a tensão norte-sul e oeste-este, e no discurso do Estado da União, de Setembro de 2013, no Parlamento Europeu, o Presidente da Comissão Europeia (CE) recordou mesmo o exemplo de 1914 e a forma como a “Europa caminhava sonâmbula para a catástrofe da guerra”.

Outros factos foram igualmente importantes para esta crescente tensão europeia. Por exemplo: i) O modo como a CE abriu a investigação sobre o excedente externo da Alemanha; ii) A reinvindicação britânica de submeter a referendo o futuro das suas relações com a UE; iii) As restrições à livre circulação de trabalhadores búlgaros e romenos, por parte de vários Estados-membros, intensificaram, nesses países, muitas das críticas à UE; iv) Os crescentes confrontos na Turquia, um país até há pouco tempo considerado um exemplo nessa zona do mundo; v) A falta de consenso na União quanto ao futuro do Kosovo; vi) A tensão crescente, entre a UE e a Rússia, decorrente das revoltas pró-UE e pró-Rússia na Ucrânia, em finais de 2013. A Rússia, segundo a Euronews, terá inclusivamente deslocado alguns dos seus mísseis para mais perto das fronteiras da UE. A discussão sobre o futuro da Ucrânia está a aumentar também entre os países da União e o sonho de levar a UE do Atlântico até junto da Rússia parece adiado; vii) A violência da resposta de deputados britânicos, no final do ano, a um comentário do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados sobre a futura lei de imigração do Reino Unido e viii) A distância existente entre os europeus e as Instituições da União, bem como aos temas aí em discussão, como é o caso da União Bancária.

Muitos dos políticos de que Drucker falava, como Neville Chamberlain ou Édouard Daladier, eram, certamente, tal como acontece hoje, homens bem intencionados. Mas não conseguiram, a tempo, evitar o destino que a Europa tomava.

Num artigo publicado no PÚBLICO em 27.12.2013, Viviane Reding e Olli Rehn, dois Vice-Presidentes da CE, defendem que “se soubermos manter as dinâmicas das reformas, as perspectivas de uma intensificação da retoma económica da Europa em 2014 e nos anos seguintes serão uma realidade”. Façamos votos de que assim seja.

Professor Auxiliar com Agregação, Universidade de Évora, Departamento de Economia

OPINIÃO
Em busca da Europa perdida
JOÃO CARAÇA 02/01/2014 – in Público

Como se devia ter feito há 80 anos, é preciso hoje mergulhar nos problemas, chamar as coisas pelos seus nomes, identificar o adversário real, transformar a crise em conflito.
Há precisamente oitenta anos, no terrível período que se seguiu à primeira Grande Guerra, à crise de 1929 e à Grande Depressão, quando a Europa parecia de novo "um arquipélago de antagonismos e conflitos", escreveu Bento de Jesus Caraça um lúcido artigo nas páginas do semanário Globo, intitulado “Crepúsculo da Europa”. Nele afirmava: “A Europa não tem de que queixar-se: tal é o resultado lógico e natural da sua obra…Dela saíram as sementes do que vai pelo mundo: foi dela que partiram os descobridores e os colonizadores, os pregadores e os traficantes. A Europa criou o cristianismo e o capitalismo, a mecânica e as ideologias, as armas aperfeiçoadas e o princípio das nacionalidades… Se hoje o controle do mundo lhe escapa, não tem senão que resignar-se – como os velhos cansados se resignam a passar os símbolos da autoridade aos mais novos.”

Era por demais evidente que o caminho que se estava a seguir então era errado. E que a busca de um “espírito europeu” – ou de uma “identidade europeia” como diríamos hoje – não era mais do que uma quimera, tão fútil como o de definir uma identidade “asiática” ou “americana”, ou “africana”… um exercício vácuo, um projeto ilusório para enganar os incautos. O que era preciso era mergulhar nos problemas, sem preconceitos, para se poder agir.

Como sabemos, não foi este o rumo escolhido. A Europa foi atraída para uma segunda Grande Guerra, da qual saiu derrotada, devastada, dividida entre uma aliança com os Estados Unidos a ocidente e um pacto com a União Soviética a leste. A obsessão americana com a segurança bem como o terror de que os soviéticos chegassem às margens do Atlântico induziu as nações europeias aliadas, em reconstrução sob a alçada do Plano Marshall, a reagruparem-se em comunidade económica. A propaganda americana contra a ameaça do comunismo centrava-se sobre o conceito de mundo livre, defensor da democracia, em luta pelos direitos humanos. A palavra “capitalismo” desapareceu do domínio público e da política. E a esquerda social-democrata viu realizado o seu sonho de conquistar o poder. A grande promessa – transformar o mundo – que carregava no seu ventre desde o século XIX iria finalmente ser cumprida. De facto, a esquerda criou o Estado-providência nas suas várias declinações nacionais, mas foi basicamente surpreendida e dizimada pelas “crises do petróleo” e pela globalização financeira e económica que se lhes seguiram. Na realidade, a esquerda não transformara o mundo. Esquecera-se de que existia o capitalismo e de que o sistema-mundo capitalista em evolução não tolerava pretensões de hegemonia militarmente desestruturadas.

A construção europeia entrou num impasse que apenas as novas adesões escondiam. Mas o golpe fatal na ilusão de uma europa soberana resultou da implosão do bloco soviético. A partir daí, a política dos europeístas consistiu essencialmente em “atirar para a frente”, uma versão cosmopolita de “todos ao molhe e fé em Deus”, na vã esperança de que os problemas que surgissem teriam o condão de reforçar a coesão das nações europeias e robustecer a União. A Europa e a esquerda tinham-se esquecido de que o capitalismo continuava a existir e a evoluir. Veio a crise de 2007 e 2008, que ainda não nos largou, e viu-se o descalabro em que caímos. A democracia representativa entrou no vórtice da crise. Esta é uma das primeiras perceções que avultam de um projeto de investigação e reflexão sobre a crise europeia iniciado recentemente pela Universidade de Cambridge e pela Fundação Maison des Sciences de l’Homme, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

A crise da Europa é também o resultado de uma leitura errada da história. Em primeiro lugar, acreditou-se que «é possível gerir a transição» como se as nações fossem soberanas no sentido em que se aplicava a palavra “soberania” no século XIX! A “governança” não foi introduzida no vocabulário político por ingenuidade… Em segundo lugar, admitiu-se piamente que «as economias convergem no decorrer do tempo» ignorando que o capitalismo tem sempre, pelo contrário, um efeito de “polarização”, provocando divergências na evolução das economias do sistema-mundo e jogando com elas com o objetivo de acumular cada vez mais capital.

Não havia assim qualquer hipótese de o voluntarismo e os instrumentos da esquerda (os Estados-providência principalmente) resistirem ao confronto com a política de direita e a sua retórica de liberalização, desregulação e privatização. Talvez porque o campo da direita se tenha tornado internacional, seguindo os ditames do capitalismo informacional de hoje, ao passo que a esquerda se foi fragmentando e acantonando, tentando defender o que resta da soberania (os territórios) das nações, ou mesmo atirando-se para a frente se a oportunidade parece espreitar. Mas é claro que assim também não irá longe.

Como se devia ter feito há 80 anos, é preciso hoje inescapavelmente mergulhar nos problemas, chamar as coisas pelos seus nomes, identificar o adversário real, transformar a crise em conflito, procurar as alianças onde existem as solidariedades que vão cimentar o mundo novo. Não onde os interesses do mundo-espetáculo nos pretendem acorrentar.

Professor universitário, Físico


O ano em que a troika deixa Portugal
Por Luís Claro e Rita Tavares
publicado em 2 Jan 2014 in (jornal) i online

Os portugueses deverão ir para férias já sem a troika no país. Mas a austeridade fica por cá
2014 será um ano “cheio de desafios”, mas com “algumas incertezas e obstáculos”. Foi desta forma que o primeiro--ministro, Pedro Passos Coelho, classificou o ano que agora começa. E de facto existem ainda muitas dúvidas sobre o que nos pode trazer 2014. Se é certo que está previsto para meados deste ano o fim do programa da troika, não é menos verdade que poucos fazem ideia do que vai acontecer a seguir. Com o fantasma do segundo resgate afastado, Portugal tem duas hipóteses: comprometer-se com um programa cautelar, que ainda não se sabe que implicações teria para o país, ou sair como a Irlanda, que dispensou mais “ajuda” europeia.
Até lá, o Tribunal Constitucional vai ser chamado a pronunciar-se de novo sobre o Orçamento do Estado para o próximo ano. Mesmo com a forte probabilidade de o Presidente não enviar este ano o documento para o Constitucional, o PS, o PCP e o BE vão fazê-lo. Em causa estão os cortes aos funcionários públicos e às pensões de sobrevivência.
O ano ficará ainda marcado pelas comemorações do 25 de Abril. Faz 40 anos que nasceu a democracia e com ela fazem também 40 anos o PSD, que foi fundado a 6 de Maio, e o CDS, que nasceu no dia 19 de Julho. Os dois partidos, coligados no governo, vão ter congressos já no início de 2014. Um dos temas mais quentes será concorrem aliados ou separados nas próximas legislativas, depois de Passos e Portas terem assinado um acordo para se apresentarem em conjunto às europeias.

JANEIRO
congresso CDS
O congresso do CDS, que se realiza em Oliveira do Bairro, no distrito de Aveiro, nos dias 11 e 12 deste mês, deveria ter acontecido na Póvoa de Varzim no Verão de 2013, mas foi adiado devido à crise política, provocada pela demissão de Paulo Portas, na sequência da substituição de Vítor Gaspar por Maria Luís Albuquerque. Seis meses que fazem toda a diferença, perante a mudança de estratégia do CDS dentro do governo. O próximo congresso dos centristas deve ser, por isso,  pacífico e sobretudo virado para assegurar a estabilidade dentro da coligação. O CDS vai aprovar uma aliança com o PSD nas europeias e deixa em aberto se nas legislativas os dois partidos concorrem sozinhos ou em coligação.

FEVEREIRO
congresso do PSD
Apesar das críticas internas ao rumo seguido por Pedro Passos Coelho, o mais certo é o líder do PSD voltar a não ter adversário no congresso que se realiza no Coliseu dos Recreios nos dias 22 e 23 de Fevereiro. As eleições directas realizam-se no último fim-de-semana deste mês e dia 17 termina o prazo para a apresentação de candidaturas. Rui Rio é cada vez mais falado para se candidatar à liderança do partido, mas dificilmente avançará antes das próximas eleições legislativas e nem sequer deve marcar presença no congresso do partido. Passos Coelho já garantiu que não tenciona pôr “o lugar à disposição a curto prazo”. “Tenciono, antes pelo contrário, apresentar a minha recandidatura à liderança do PSD dentro de muito pouco tempo”, disse há um mês.

MARÇO
Execução orçamental
Um mês que ganhou especial relevo nos anos de assistência financeira. É nesta altura do ano que encerra a execução orçamental do primeiro trimestre (normalmente conhecida no final de Abril), o primeiro dado de relevo sobre a eficácia orçamental das medidas aplicadas. Normalmente é este o momento que dita acertos de estratégia e este ano, com o país a meses de concluir o programa de ajustamento, pode ser mais decisivo ainda. Uma boa execução, nesta fase, pode dar ao país margem negocial para o pós-troika. O défice para este ano é de 4%, mas o governo chegou a pedir uma folga para 4,5%. A troika não cedeu.

ABRIL
O Constitucional e os 40 anos da revolução
Em 2013 foi o mês escolhido pelo Tribunal Constitucional para se pronunciar acerca das normas do Orçamento do Estado sobre as quais foi pedida a fiscalização sucessiva. Um pedido de intervenção do Constitucional está garantido, com o PS, o PCP e o BE a avisarem que tomarão a iniciativa. É provável que a resposta chegue por esta altura do ano. Será a terceira vez que um Orçamento de Passos chegará às mãos dos juízes do Constitucional. Os dois últimos contaram com chumbos que obrigaram a medidas de compensação para fintar um deslize orçamental. Será também o mês em que se marcam os 40 anos do 25 de Abril, com a reflexão sobre a democracia a percorrer todo o ano, em particular o mês em que se celebra a Revolução.

MAIO
Eleições europeias
As eleições europeias estão marcadas para o dia 25. Ainda nenhum partido apresentou oficialmente o seu candidato, mas já se sabe que o PSD e o CDS vão apresentar-se em listas conjuntas. O mais provável é a lista voltar a ser liderada por Paulo Rangel. Entre os socialistas, Francisco Assis é o nome mais falado para encabeçar a lista. À esquerda do PS, os partidos discutem uma eventual aliança, embora o PCP esteja de fora. Se não houver coligação, Rui Tavares deverá avançar sozinho com o seu novo partido, o Livre. Outra hipótese forte é Marinho Pinto entrar nesta corrida com a camisola do Movimento Partido da Terra. Estas eleições serão também fundamentais para testar a popularidade do governo e dos socialistas.

JUNHO
O fim da troika
É a expectativa reinante no executivo. Junho será o primeiro mês desde Maio de 2011 com o país livre dos constrangimentos do programa de ajustamento. Mas a história tem tudo para não acabar aqui. A saída portuguesa da condição em que se encontra pode não ser para uma liberdade plena, mas uma espécie de liberdade condicional. Uma saída apoiada é provável, mas nunca experimentada, já que a Irlanda saiu do resgate sem recurso a qualquer programa cautelar. A negociação vai determinar o estado político do governo e da oposição nesta fase. O PS pode nem ser tido e achado no processo, pelo que poderá gozar de especial liberdade de acção, cortando de vez com o governo.

JULHO
O poder do CR7
A 13 de Julho, no Brasil, joga-se a final do Campeonato do Mundo de futebol. A relação com o rol de acontecimentos políticos do ano está longe de ser directa, mas nem por isso é de relevância nula. Uma boa campanha da selecção nacional na competição não é matéria a ignorar por governantes, já que pode ter um efeito galvanizador no país e até anestesiar, ainda que por instantes, o já duradouro sentimento de crise. Um capital que quem estiver no poder valorizará, assim o permita Cristiano Ronaldo (CR7) e companhia.

AGOSTO
Meu tranquilo mês de Agosto
Nos últimos anos, a natural acalmia dos meses de Verão, com os políticos a banhos, não tem sido a regra. Basta olhar para o reboliço político em Julho do ano passado, com as saídas do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e a demissão “irrevogável” de Paulo Portas, que acabaria por ficar como vice-primeiro-ministro. Ainda assim, Agosto acaba por ser o mês menos intenso, com o parlamento de férias e Passos e Cavaco pelo Algarve. Será o último politicamente tranquilo; o que se segue, em 2015, já terá carga eleitoral, com as legislativas logo a seguir à rentrée.

SETEMBRO
E depois de Barroso?
A reorganização europeia, depois das eleições de Maio, marcará a agenda política em Portugal. Em Outubro regressará Durão Barroso, depois de terminar o seu mandato à frente da Comissão Europeia. E nem se trata de passar à discussão das possibilidades do seu futuro político no plano nacional, mas sim de quem lhe vai suceder no cargo em Bruxelas (será a primeira grande tarefa do Parlamento Europeu depois das eleições) e qual o português que será indicado como comissário. A questão já tem levantado algumas questões em Portugal, com o PS a reclamar o direito de escolher o próximo representante português no governo europeu, mesmo estando o PSD no governo nesta altura.

OUTUBRO
O último Orçamento
Em Outubro chega o último Orçamento do Estado deste executivo e a expectativa, depois de terminado o programa de ajustamento financeiro e a um ano de legislativas, é que a carga (sobretudo fiscal) possa ser aligeirada. Seria o primeiro Orçamento de Passos Coelho sem a marca da austeridade, é o primeiro sem o selo da troika, a fazer fé nas garantias do governo de que o país sairá da assistência sem precisar de um segundo resgate. Na apresentação do Orçamento para este ano, a ministra das Finanças disse esperar “que no Orçamento de 2015 seja possível ter um pouco mais de folga para reduzir a carga fiscal que afecta os trabalhadores”. Mas o primeiro--ministro terminou o ano a dizer-se sem condições para assumir essa promessa.

NOVEMBRO
Esquerda
Faz dois anos que João Semedo e Catarina Martins foram eleitos para a liderança do Bloco de Esquerda num modelo pouco habitual entre os partidos portugueses. No final do ano, os bloquistas vão voltar a reunir-se, já com o resultado eleitoral das eleições europeias em cima da mesa, depois da derrota nas autárquicas. Em causa na próxima convenção dos bloquistas não poderá deixar de estar até que ponto o partido está disponível para alianças à esquerda e para ser poder e uma análise da liderança bicéfala.

DEZEMBRO
Presidenciais

Com as eleições presidenciais marcadas para o início de 2016, os candidatos vão começar a abrir o jogo no final deste ano. Cavaco Silva já cumpriu dois mandatos e não pode recandidatar-se, o que abre a porta a que tanto à direita como à esquerda se apresentem nomes fortes. Do lado do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso e Rui Rio são os três nomes mais falados. O comentador é, porém, o que nesta altura aparece com mais hipóteses de vencer. Entre os socialistas, António Costa e António Guterres são os mais prováveis, mas à esquerda do PS podem também surgir nomes fortes, como o do ex-líder da CGTP Carvalho da Silva. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Novo Ciclo de Emigração Jovem e Qualificada e as suas consequências para a Vida e a Reabilitação Urbanas.Em Portugal, a história do futuro já começou muitas vezes a ser escrita na porta de saída.“Num país onde não se sonha, emigrar é natural”

“No regresso ao país das sete partidas do mundo, Portugal corre o risco de ser apenas a terra dos que ficam por falta de alternativa. Portugal pagará caro a leviandade e a falta de visão com que empurrou para a porta de saída uma geração mais bem qualificada do que qualquer outra. Ao excluí-la, é o futuro comum que estamos a hipotecar.”
 Novo Ciclo de  Emigração Jovem e Qualificada e as suas consequências para a Vida e a Reabilitação Urbanas.

Em 2012 foram 120.000. Em 2013 100.000.
A “sangria” do “corpo” Nacional e a hipoteca do Futuro de Portugal através da saída dos jovens Portugueses Qualificados, acentua-se numa nova Diáspora que terá graves consequências para o País e suas Cidades.
É toda uma geração que devia e íria/ exigir o seu espaço de existência e marcar o seu território na Vida Urbana, que deixa o País.
Numa cidade como Lisboa, dominada em grande parte  pela  ruína do Edificado e marcada pelos vazios dos Edifícios Devolutos, seria esta geração, se ficasse e pudesse desenvolver actividade Profissional,  que íria ocupar o Centro Histórico e exigir o seu espaço de Habitação … Em vez disso Lisboa no seu Centro Histórico tornou-se num palco híbrido de "ocupações e actividades temporárias", marcada por eventos determinados pelo “Bezerro de Ouro do Turismo, a “Gentrification” e o Efémero.
O “Planeamento”e respectiva “Sociologia” Residencial, resumem-se ao Licenciamento de um  número crescente de Hóteis e “Hostels”.

JOÃO MIGUEL TAVARES no artigo de Opinião "Nostalgia do que nunca existiu"  publicado no próximo "post", em baixo, tenta ser optimista … eu não posso deixar de me manter céptico e preocupado, perante as consequências calamitosas, também, para o Futuro das Cidades, deste novo Exôdo.
António Sérgio Rosa de Carvalho.

Em Portugal, a história do futuro já começou muitas vezes a ser escrita na porta de saída.
Editorial / Público

Somos um país das sete partidas do mundo, por desamor de uma terra onde a riqueza é distribuída por poucos. Foi assim nos anos finais da ditadura, um período de crescimento económico, durante o qual a pobreza e a guerra colonial puseram em movimento o pêndulo da saída.

Nas décadas seguintes, a emigração tornou-se sazonal e, há 20 anos, o país de emigrantes descobria-se país de imigrantes. Essa (aparente) inversão de papéis inspirou uma narrativa nova: o país que atraía não voltaria a passar pelo trauma da partida dos seus. Em 2013, 120 mil portugueses partiram em busca de oportunidades que o país lhes negou.

O trauma regressou, mas com contornos diferentes. O ajustamento não está a ser apenas financeiro: obriga dezenas de milhares a partir. Entre estes, muitos dos melhores, dos mais qualificados, dos que poderiam ser a base da economia mais dinâmica e competitiva que, dizem, está do outro lado do dilúvio da austeridade.

Numa sociedade global é normal que as pessoas se movimentem. E Portugal deveria estar a exportar e a importar cérebros. Esse movimento teria tudo para ser virtuoso, se Portugal mantivesse a sua capacidade de atrair inteligência. Isso implicaria, em primeiro lugar, que se continuasse a política de investimento na ciência que este Governo descartou. Só que o país do corte-se onde se puder levou necessariamente ao país do salve-se quem puder. O próprio primeiro-ministro o disse, no dia em que fez o elogio público da emigração e confessou tacitamente que o país já não chegava para todos.

No regresso ao país das sete partidas do mundo, Portugal corre o risco de ser apenas a terra dos que ficam por falta de alternativa. Portugal pagará caro a leviandade e a falta de visão com que empurrou para a porta de saída uma geração mais bem qualificada do que qualquer outra. Ao excluí-la, é o futuro comum que estamos a hipotecar.


“Num país onde não se sonha, emigrar é natural”
ANA CRISTINA PEREIRA 29/12/2013 – in Público
Portugal de 2013 é um país a esvaziar-se, como era em 1973 ou em 1993, embora há 20 anos fizesse de conta que não, deslumbrado que estava com o facto de se estar também a converter num país de imigrantes.

Vítor Jesus trabalha na General Electric Company, a multinacional fundada por Thomas Edison, inventor da lâmpada. Quando decidiu trocar Portugal pelo Reino Unido, ninguém ficou espantado: “Toda a gente achou natural”. Assumiam “que era mais um que estava a deixar o café pingado e o pastel de nata por estar frustrado”. O especialista em redes de comunicação, que havia meses defendera o doutoramento na Universidade de Aveiro, até “sentia que estava a trair o país”. E repetia que não, que não perdera esperança, que a crise não se eternizará, que Portugal melhorará.

João Peixoto, do Instituto Superior de Economia e Gestão, da Universidade Técnica de Lisboa, faz parte de um projecto europeu que procura perceber como a crise tem afectado as migrações e a mobilidade no espaço comunitário em geral e, em particular, na Irlanda, na Grécia, em Itália, em Espanha e em Portugal. Parece-lhe “dramático” que 51,9% das 3322 pessoas que responderam ao que acabou por ser um “inquérito à emigração qualificada portuguesa” digam ter saído por “não ver futuro” para si em Portugal. Muitos invocam má inserção no mercado laboral: 20,6% estavam desempregados, 27,9% empregados sem vislumbre de progressão, 19,2% empregados com salário baixo.

Não esperava tanta adesão ao inquérito, que em Portugal esteve disponível no PÚBLICO e em várias redes sociais entre 20 de Maio e 15 de Agosto de 2013. Nem tão altas qualificações entre inquiridos: 87,7% declararam possuir grau de educação de nível superior e, entre esses, 39,1% um mestrado, 9,4% um doutoramento. Julga que, “pela primeira vez”, se pode falar em fuga de cérebros.

As universidades abriram-se após o 25 de Abril de 1974. Em 2012, a taxa bruta de escolarização no nível superior era de 54,6%. “A educação avançou a uma velocidade diferente da economia”, resume o sociólogo. O país não está a conseguir absorver a mão-de-obra qualificada. Mais de metade parte para outros estados da União Europeia ou a ela associados, como Vítor Jesus.

Vítor estava a trabalhar em Lisboa quando foi contactado por uma agência. Tinham visto o seu currículo na rede social LinkedIn. Procuravam alguém com aquele perfil para uma multinacional. A sua candidatura seria bem-vinda. Submeteu-a, passou por três entrevistas, a última das quais em Bristol, na Grã-Bretanha.  Pagaram-lhe o bilhete de avião, o hotel, recomendaram-lhe que ficasse mais uma noite, a ver se gostava da cidade. A empresa suportaria os custos da sua mudança.

Cada vez mais países do Centro e do Norte da Europa recrutam nos países do Sul profissionais de que precisam. Para João Peixoto, há perigo de a livre circulação acentuar desequilíbrios: “A manter-se a direcção de fluxos, a drenagem de trabalhadores (qualificados ou não) pode reforçar as dinâmicas virtuosas da economia a centro e norte e agravar as dinâmicas negativas a sul”.

No entender do sociólogo, “a gestão de expectativas é relevante no desenho de políticas públicas”: além de dados objectivos como taxa de desemprego, precariedade laboral, há que atender às crenças decorrentes do ambiente geral. “É importante dizer que os últimos anos não foram só ilusão”.

Clima, segurança, protecção social, serviços de saúde, infra-estruturas são vantagens apontadas por Pedro Lomba, secretário de Estado adjunto do ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional, para aliciar imigrantes "de elevado potencial", como profissionais qualificados, investidores, reformados.

Competir pelo talento
O número de estrangeiros residentes não pára de cair – 451 mil em 2009, 443 mil em 2010, 434 mil em 2011, 414 mil em 2012, segundo o Serviço de Estrangeiros de Fronteiras (SEF). No ano passado, mais de oito mil dos 12.528 vistos emitidos correspondiam à categoria d5, isto é, eram atribuídos por via do estudo, intercâmbio de estudantes, estágio profissional ou voluntariado.

A crise económica não deve fazer o país fechar-se à imigração, diz Pedro Lomba ao PÚBLICO. No modelo que defende, Portugal tem de entrar “na competição internacional pelo talento”. Estrangeiros “talentosos” – que até podem não ser qualificados, mas terem ideias de negócio – criam emprego. E isso pode reter portugueses que estão de saída ou fazer regressar alguns dos que já saíram.

Há quem, como João Peixoto, ache o discurso de Lomba “simpático”. Mas também há quem, como o geógrafo Jorge Malheiros, o considere susceptível de desagradar portugueses qualificados sem trabalho ou com trabalho precário, que sentem que têm de fazer vida longe de casa.

“Não vi estudos que demonstrem que há excesso de profissionais de alguns sectores e défice e outros e que não é possível requalificá-los”, diz Malheiros. Parece-lhe que tem mais sentido estimular a economia, criar emprego, gerir os fluxos migratórios de forma integrada, de modo a captar gente que possa ajudar o país a sair da crise, seja ela portuguesa ou estrangeira.

Os trabalhadores qualificados constituem apenas uma parte do fluxo migratório. A reflectir o facto de Portugal ter uma das mais baixas taxas de ensino superior da União, o grosso do movimento de saídas do território nacional faz-se de pessoas com formação média ou baixa. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), no ano passado houve 89 mil pessoas a nascer, 107 mil a morrer, 121 mil a emigrar. Desde o final dos anos 60 que não se via tal debandada.

Vítor e Valdemar
Até pode ser que o Reino Unido de hoje seja a França da década de 1960, mas Vítor Jesus não se sente emigrante. Está perto do Porto – graças à Internet e às companhias de baixo custo. A ideia de regresso, para ele, nem faz sentido. Agora, está no Reino Unido, daqui a um ano pode estar em França ou na Alemanha ou em Portugal ou noutro país qualquer. E esta forma de ver o mercado laboral cava um fosso entre Vítor, solteiro, 37 anos, e Valdemar Amante, casado, 71 anos, que há 40 anos partiu para o Luxemburgo.

O talhante Valdemar Amante só fez a 4.ª classe. Não sabia uma palavra de francês ou de alemão ou de luxemburguês quando chegou ao Grão-Ducado, em 1973. Comprou um dicionário de português-francês para aprender as designações certas das peças de carne e começou a atender “as senhoras ao balcão”.

A 31 de Dezembro de 1963, Portugal e França tinham assinado o primeiro acordo de recrutamento, migração e colocação de trabalhadores portugueses. A emigração transatlântica deu então lugar à emigração europeia. Depois do apregoado “sonho brasileiro”, o país entregava-se à “ilusão francesa”.

Não era movimento que o antigo regime incitasse, embora apreciasse as remessas de divisas dos que partiam. Poucos conseguiram ter os documentos em ordem. Muitos partiram clandestinos – alguns com passaporte de turista, a maior parte com passaporte falso, o chamado “passaporte de coelho” usado por quem passava a fronteira “a salto”.

Entre 1964 e 1974, à volta de um milhão de habitantes deixou Portugal. Pelos cálculos de estudiosos como José Carlos Laranjo Marques, 80,9% desembarcaram em França. Ficava perto, praticava bons salários, não exigia qualificações e esforçava-se pouco para controlar a imigração irregular.

Esvaziava-se um país rural, analfabeto, oprimido, de certo modo feudal, assolado por uma guerra. Na frente iam homens, jovens, solteiros ou recém-casados. As mulheres esperavam, em média, três anos e seguiam-nos. Ninguém tinha tantos bebés em França como os portugueses. Portugal iniciava o declínio demográfico que o haveria de converter num dos mais envelhecidos países do mundo.

A vida de Valdemar Amante era apertada em Lisboa. Tinha ofício, mas não prosperava. Ganhava 300 escudos por semana, a mulher ganhava 25 tostões por hora a matar frangos e já tinham três filhos. Bem via que quem emigrava vivia melhor. E era isso que queria para si e para a família.

Cumprido o serviço militar obrigatório, muito Valdemar Amante pediu o “passaporte do emigrante”. À quinta vez, avisaram-no: se voltasse a tentar, sofreria as consequências. Foi “a salto”. Viajou no carro de um português, então residente no Luxemburgo, que lhe arranjara trabalho como pintor. Tardou dois dias e uma noite a fazer a viagem que agora faz em menos de um dia.

O travão do choque petrolífero
Parece que foi na hora certa. Naquele ano, deu-se o choque petrolífero – quando a Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) inflaciona os preços por causa do apoio ocidental a Israel, na guerra do Yom Kippur. Depois da expansão económica, que levara ao nascimento do Estado providência na Europa Ocidental, anunciava-se o fim da era de ouro do capitalismo nos países industrializados. Muitos perderam o emprego. Países como a França decidiram fechar as fronteiras.

Os estudos de Maria Ioannis Baganha fazem uma espécie de fotografia daquele ano: 890 partiram para o Brasil, 8160 para os EUA, 7403 para o Canadá, 63.942 para a França, 38.444 para a Alemanha Ocidental. Não se deixou de sair, mas era ainda mais difícil, explica o sociólogo Albertino Gonçalves.

Nalguns países, ganhava fulgor a ideia de que já havia estrangeiros a mais. No final da década, a França oferecia dez mil francos aos que quisessem regressar ao seu país de origem. Muitos aproveitaram, até porque “tinham começado a acreditar em Portugal”, recorda Albertino Gonçalves, professor do Instituto de Ciências Socias da Universidade do Minho. A ditadura terminara e, com ela, a guerra colonial. “Achavam que Portugal se podia tornar um país como os outros.”

Com a adesão de Portugal à União Europeia, em 1986, os destinos diversificaram-se. Naquela época, a Suíça foi-se tornando o destino preferido dos portugueses. Entre 1985 e 1991, a federação helvética recebeu 59% dos que saíram. No final dessa década, a comunidade era já a terceira maior.

Nem só a pujança da economia explica aquela súbita atracção pela Suíça. Há 50 anos, os suíços meteram os portugueses na lista de trabalhadores de “áreas distantes”, demasiado diferentes para se adaptarem à sua cultura, mas esse estatuto foi revisto com a entrada de Portugal na UE. Iam quase todos com uma autorização de residência sazonal, que lhes permitia trabalhar até nove meses em sectores como a construção, a restauração, a agricultura. Só depois de 36 meses de trabalho podiam solicitar a autorização de residência anual, que consentia a reunificação familiar.

Da emigração permanente à emigração temporária
Em 1991, Maria do Céu Esteves anunciou em livro que Portugal se tornara num país de imigração. Além de cidadãos oriundos dos países de língua oficial portuguesa, que se estavam a fixar desde o 25 de Abril, tinham começado a desembarcar brasileiros e europeus de Leste. Um tanto deslumbrado, o país concentrava as suas atenções na entrada de estrangeiros e ignorava a saída de nacionais.

Bastaria olhar para a estatística oficial. Extinto que fora, em 1988, o registo baseado no "passaporte de emigrante", o INE criara o método da inquirição indirecta. E esse instrumento indicava que as saídas persistiam, embora se tivessem tornado mais temporárias. Em 1993, França, Suíça e Alemanha encabeçavam a lista de destinos. Nela figuravam também o Reino Unido, a Espanha, os EUA e o Canadá.

Nesse ano, Carlos da Silva emigrou. O pai, serralheiro de profissão, fora para a Alemanha. Como não podia levar mulher e filho, decidira tentar a sorte na Bélgica. Encontrara trabalho num restaurante e chamara-os. Carlos tinha sete anos. Foi a primeira vez que andou de avião. Bruxelas era tão diferente da aldeia de Granho, em Salvaterra de Magos. “Na aldeia só havia um carro!”

A adesão de Portugal ao Acordo de Schengen, que entrou em vigor em 1995 e que levou à abertura das fronteiras entre 26 países europeus, teve forte impacte. A emigração permanente diminuía desde os anos 70, mas a temporária subia, explicou João Peixoto. Ainda se pensou que fosse por uma questão estratégica, que começassem por ter estatuto de trabalhadores temporários e, com o tempo, se tornassem trabalhadores permanentes. Depois percebeu-se ser aquela uma nova tendência. A abolição de fronteiras dava maior carácter experimental às migrações.

De repente, até as empresas podiam subcontratar a sua força de trabalho noutro Estado-membro da UE. Milhares de portugueses foram destacados para obras. Os jornais davam notícias de abusos na Alemanha, que registava um forte aumento de portugueses, impulsionado pela reunificação.

Formavam-se novas comunidades. Nenhuma tão explosiva como o Reino Unido. Durante décadas, o fluxo para o Reino Unido foi discreto. Em meados dos anos 1980, seriam 30 mil os portugueses residentes. Com o fim da exigência da autorização de trabalho, houve um estouro. Em 2003, o Reino Unido já batia a Alemanha como pólo de atracção (só a Suíça e a França o venciam).

O fluxo estava muito ligado a sectores da economia impossíveis de deslocalizar, como o comércio, as limpezas, a segurança, a construção, à agricultura ou a indústria agro-alimentar. A maior parte ia através de engajadores, agências privadas de colocação e de trabalho temporário, que se anunciavam na imprensa. Muitos acompanham a internacionalização das empresas portuguesas.

Não eram só facilidades. Aos jornais chegavam notícias de portugueses explorados no Reino Unido, em Espanha, na Holanda e na Islândia. O problema, explicava então Jorge Malheiros, era haver o pressuposto de que a circulação de trabalhadores se faria entre iguais. O caso português era “especial”. Os que saíam eram, na maior parte dos casos, trabalhadores pouco qualificados.

Um país de imigração
Outros vinham ocupar o lugar dos que saíam. Entre 1998 e 2008, o número de estrangeiros residentes passou de 178 mil para 439 mil.

O aumento no movimento de entradas começara a notar-se com o processo de regularização de 1992-93 e acentuara-se com a lei de 2001. E se, primeiro se podia falar em preponderância de cidadãos dos países de língua portuguesa, desde o final da década de 90 aumentavam, a olhos vistos, os da Europa de Leste.

“Os países de destino dos portugueses, habitualmente mais desenvolvidos, sentem algumas necessidades conjunturais de mão-de-obra intensiva e oferecem, mesmo se a par de condições algo precárias, rendimentos aliciantes”, escreveu João Peixoto. As estratégias dos europeus de Leste não seriam muito diferentes. Só que a situação de partida dos portugueses era melhor, o que explicaria terem percursos mais temporários. E a panóplia de destinos maior, por serem cidadãos da União Europeia. Os europeus de Leste iam para onde era menor o risco de expulsão.

Quando a crise estourou, em 2008, os especialistas dividiram-se. Uns sugeriam que, numa situação de crise internacional, regressariam emigrantes e isso teria efeitos na vida dos imigrantes, já que trabalham nos mesmos sectores. Outros sustentavam que não, que quem regressasse dedicar-se-ia a outras actividades.

“Nunca houve evidência, porque nunca houve uma crise tão grande, num contexto de livre circulação”, salientava Jorge Malheiros. Agora, é evidente que os estrangeiros estão a partir e que os portugueses não estão a regressar. Absorveram tanto a “a cultura migratória” que vão para qualquer sítio.

Portugal, como a Espanha, diz João Peixoto, tem um trunfo que a Grécia e Itália não têm: a geografia da língua. Nos últimos anos, inúmeros portugueses procuraram oportunidades no mercado lusófono, sobretudo em Angola. A par da mão-de-obra qualificada, avançam investidores.

Os portugueses emigram para todo o lado, mas apostam mais no espaço comunitário. Procuram velhos destinos migratórios, como a França, a Alemanha, o Luxemburgo. E novos, como a Noruega ou a Dinamarca. A experiência de Jorge Malheiros diz-lhe que os menos qualificados se servem mais das velhas redes de amizade e vizinhança, como nos anos 60 e 70, e que os mais qualificados encontram outras formas de chegar aos desejados postos de trabalho.

“Quando vou aí abaixo, não imagina a quantidade de pessoas que me pedem para as trazer”, conta o talhante, agora reformado, Valdemar Amante. “Já tenho ajudado muita gente que chega sem trabalho.” Em 1973, não lhe custou arranjar emprego no Luxemburgo. Agora, não basta vontade. Há três línguas oficiais – francês, alemão e luxemburguês. Há que falar, pelo menos, uma. E os portugueses já não estão sozinhos a concorrer por postos de trabalho que não interessam aos luxemburgueses.

Carlos da Silva, mestre-de-cerimónias, no Traiteur du Parc Bruxelles, também recebe muitos pedidos de trabalho quando vai visitar os pais à aldeia, à qual regressaram há dois anos, para envelhecer sem stress, a cuidar da casa e da horta, como tinham planeado. Há um ano, conseguiu um lugar para uma prima. “Em Portugal, as pessoas acabam de comer e vão beber uma bica. Aqui, eu vou a um café uma vez por semana, se houver futebol. Falta-lhe isso. Vai voltar para casa.”


“Num aspecto esta emigração é igual à dos anos 60 e 70”, diz Albertino Gonçalves: “Não é uma emigração voluntária, na maior parte dos casos. As pessoas vão porque se sentem empurradas.” Não é só a falta de trabalho ou o trabalho mal pago. “Portugal, hoje, é um país onde não se sonha. E, num país onde não se sonha, emigrar é natural.” Há quem venda tudo e parta, mas, como diz Jorge Malheiros, hoje, nada é tão definitivo como era nos anos 60 ou 70: nem as relações laborais, nem as relações afectivas. E é também por isso que alguns dos que estão a partir podem voltar.
OPINIÃO
Nostalgia do que nunca existiu
JOÃO MIGUEL TAVARES 31/12/2013 – in Público

Eu já tinha decidido encerrar o ano com um texto sobre os enviesamentos da nostalgia e os nossos problemas com a memória, e o Público, para me facilitar a vida, fez o favor de pôr de pé um dossiê especial comparando o ano de 2013 com o de 1993 e o de 1973.

Para uma das imagens de primeira página, a direcção escolheu até uma fotografia de 1988 de Alfredo Cunha, incluída no seu livro A Cortina dos Dias – precisamente uma das obras que mais tive presentes durante 2013, e que ilustra na perfeição aquilo que quero dizer.

O livro de Alfredo Cunha impressionou-me muito pela sua colecção de extraordinárias fotos de uma pobreza avassaladora, começando no Portugal dos anos 70 e indo até finais dos anos 80, e nalguns casos até já bem dentro da década de 90. São imagens de bairros de lata pútridos, hospitais sem condições, pessoas a respigar em lixeiras a céu aberto, crianças nuas a tomarem banho em fontanários. Sempre que alguém vem com a conversa do “no meu tempo é que era bom” ou de como a crise está a fazer Portugal retroceder meio século, dava jeito ter um exemplar à mão para esfregar na cara de quem diz tais barbaridades. Não, não estamos a retroceder meio século. Não, não estávamos melhor há 20, 30, 40 ou 50 anos.

A maldita nostalgia que em Portugal encontrou um microclima para se desenvolver esplendorosamente não é uma nostalgia daquilo que o país já foi mas, quase sempre, uma nostalgia daquilo que nós já fomos. E isso provoca desvios inadmissíveis no discurso público: nós não temos realmente saudades do que Portugal era antigamente – temos é muitas saudades dos tempos da nossa juventude. Nesta quadra natalícia, Vasco Pulido Valente assinou dois textos neste jornal, um intitulado “A morte do peru”, onde declarava que “excepto nas lojas, e mesmo nessas melancolicamente, o Natal já não existe”, já que as grandes famílias acabaram e “as criadas desapareceram”; e outro intitulado “Vender Portugal”, onde afirmava que “a velha Lisboa já não existe e a nova Lisboa não passa de uma mediocridade sem ordem ou alegria”, lamentando de caminho “a falência das pequenas tascas da Baixa e do Bairro Alto”.

Eis um exemplo perfeito daquilo a que me refiro. Talvez para uma antiga burguesia endinheirada e com uma existência pastoreada por vasta criadagem hoje em dia o Natal seja mais aborrecido do que há meio século. Mas posso garantir que para a vasta maioria dos portugueses ele é muito mais divertido do que em 1955. Talvez para quem se mantém eternamente fiel à mesma mesa do mesmo restaurante, Lisboa hoje não passe de “uma mediocridade sem ordem ou alegria”. Mas basta sair à rua para ver que se há coisa em que evoluímos drasticamente – e, neste caso, apesar da crise – é na qualidade da vida urbana e da restauração e na forma como uma classe média aprendeu a viver a cidade: as pessoas correm à beira-rio, andam de bicicleta, reúnem-se para beber um copo no final do trabalho.


Com a nossa típica memória de curto prazo, tendemos a esquecer o quanto evoluímos, o quanto melhorou a nossa qualidade de vida, o quão mais ricos hoje somos. A crise é terrível, está a fazer crescer as desigualdades e a mandar-nos uma década para trás. Eu não quero fechar os olhos a isso. Mas nós precisamos de ter a justa memória do nosso passado e uma avaliação sincera do nosso presente se queremos realmente construir um melhor futuro.

O fim das ilusões


OPINIÃO
O fim das ilusões
TERESA DE SOUSA 31/12/2013 – in Público

Angela Merkel, a mulher mais poderosa da Europa, continuará a sua estratégia da tartaruga.
1. Escreve o editor europeu da BBC, na sua tarefa obrigatória de escolher os “momentos” da Europa em 2013, que este foi o ano da “dança de Merkel”. A chanceler, diz Gavin Hewitt, não só consolidou o seu estatuto de líder mais poderosa da Europa, como dançou (por brevíssimos momentos) nos festejos da sua esmagadora vitória eleitoral, em Setembro. Ao contrário da maioria dos líderes europeus que são quase todos “despachados” ao fim do primeiro mandato, ela já vai no terceiro. Foi uma vitória sua, mais do que uma vitória do seu partido. Durante um ano inteiro, a Europa esteve à espera das eleições alemãs e, depois, das negociações da nova “grande coligação”.

Enquanto esperava, ia alimentando algumas ilusões. Primeiro, que a sua terceira vitória a libertaria para uma política mais flexível para resolver a crise do euro: um pouco menos de “austeridade” e um pouco mais de partilha dos riscos. Sonhou-se com a possibilidade de um “fundo de redenção”, ainda que transitório, para aliviar o enorme peso da dívida em alguns países, ou que seria possível pôr em prática políticas mais amigas do crescimento, que é outra maneira de chegar ao mesmo sítio. Depois, que a presença do SPD na coligação far-se-ia necessariamente sentir na política europeia da Alemanha.

A dupla desilusão chegou com o Pai Natal. Para quem ainda pudesse ter dúvidas, o que se passou no último Conselho Europeu de 2013 chegará para apagá-las. Estava em causa o segundo pilar da união bancária, sobre os mecanismos de resolução dos bancos em risco de falência. Merkel aplicou a sua velha receita: serão, em última análise, os Estados que têm de garantir os custos da falência ou da recuperação de um banco. Depois dos credores, accionistas ou grandes depositantes. Contra a opinião do BCE, da Comissão, do Parlamento Europeu, da França, da Itália. Com o apoio do SPD. Resta verificar se esta “união” serve o seu principal propósito: restituir a confiança na zona euro de tal modo que os países em dificuldades não tenham de pagar um preço três vezes superior àquele que a Alemanha paga para financiar a sua economia.

A chanceler voltou a falar da revisão do Tratado. Vai, entretanto, consolidando as suas conquistas através de “tratados intergovernamentais”: primeiro o “Tratado Orçamental”, agora aquele que deve estabelecer as regras da união bancária. Passo a passo, a chanceler cria as condições para um euro verdadeiramente alemão.

2. O problema está em que essa Europa de feição alemã só muito dificilmente resistirá sem um novo equilíbrio político entre Paris e Berlim. Merkel tem noção da importância desse equilíbrio. Hollande também. As cimeiras a dois na chancelaria ou no Eliseu voltaram a fazer parte do ritual europeu. Não chegaram, no entanto, para reduzir a distância entre ambos. A fraqueza do Presidente francês não ajuda muito. Poderá o SPD fazer de intermediário? Talvez. Mas não vale a pela alimentar grandes ilusões. Os sociais-democratas alemães estão sobretudo interessados em recuperar apoio interno, depois de quase uma década de sangria eleitoral.

As consequências políticas da forma como tem sido gerida a crise do euro vão ser testadas em Maio, nas eleições para o Parlamento Europeu. A Europa, dizem os mais optimistas, levaria um grande susto se Marine Le Pen ganhasse as europeias em França. A tentação do quanto pior melhor pode ser grande mas será, certamente, muito perigosa.


Em suma, 2013 não resolveu nenhuma das grandes incertezas europeias. Apenas consolidou o poder da Alemanha. Não são de esperar, portanto, também grandes mudanças em 2014. A mulher mais poderosa da Europa continuará a sua estratégia da tartaruga. Mas, ao contrário do conto, ainda não se sabe quem ganhará a corrida.

Governo francês tenta travar humorista acusado de anti-semitismo. "Face à Dieudonné, appliquer la loi, rien que la loi".Derrière l'affaire Dieudonné, l'essor d'un public « antisystème »


Governo francês tenta travar humorista acusado de anti-semitismo
SOFIA LORENA 30/12/2013 – in Público
Inquérito aberto contra Dieudonné, o pai do quenelle, um gesto que não pára de dar polémica, por “incitação ao ódio racional”.

Quenelle, ou glissant des quenelles, como diz o seu inventor, Dieudonné M’bala M’bala, é um gesto, anti-sistema, segundo o humorista, anti-semita, segundo o Governo francês e parte dos seus seguidores, onde se incluem, por exemplo, membros do partido de extrema-direita Frente Nacional. A procuradoria de Paris abriu esta segunda-feira um inquérito preliminar por “incitação ao ódio racial” contra Dieudonné – o motivo não é o quenelle, mas podia ser.

Dieudonné é conhecido há muitos anos – nos anos 1990, e durante sete anos, teve um duo com um artista judeu, Eli Semour –, o polémico quenelle é mais recente, assim como os seus problemas com a justiça. Enfim, ele já é um pária desde que, em 2003, surgiu com alguns adereços de judeu ultra-ortodoxo e um blusão militar num monólogo que acabava com a saudação nazi.

O quenelle popularizou-se depressa. O próprio Dieudonné estima que mais de 9000 pessoas se tenham fotografado a fazer o quenelle nos últimos meses (todas as fotos são naturalmente publicadas na Internet); algumas são personalidades públicas e algumas pediram desculpa depois de saberem da conotação anti-semita do gesto. O último foi o futebolista Nicolas Anelka, que no sábado festejou assim o segundo golo do West Bromwich contra o West Ham, “uma dedicatória especial ao meu amigo comediante Dieudonné”, explicou no Twitter.

O comediante diz que se trata de “um gesto de insubmissão ao sistema”. O presidente da Liga Internacional Contra o Racismo e o Anti-semitismo, Alain Jakubowicz, descreve-o como uma “saudação nazi invertida, o que significa a sodomização das vítimas” do Holocausto. Quenelles são uns bolinhos fritos, de peixe ou de carne. O gesto, na verdade, assemelha-se bastante ao tradicional manguito. Ouvido pelo Libération, o politólogo Jean-Yves Camus defende que Dieudonné une “um movimento transversal e anti-sistema, que tem no anti-semitismo a sua coluna vertebral” e que “recusa uma ordem mundial dominada pelo eixo Washington-Telavive”.

Em Setembro, já a polémica tinha estalado por causa de dois militares que decidiram fotografar-se a fazer o quenelle diante de uma sinagoga no centro de Paris. “Ofenderam o uniforme e os valores do Exército”, disse na altura o ministro da Defesa, Jean-Yves Le Drian. Dois meses depois, Dieudonné foi condenado a pagar 28 mil euros por difamação, injúria e provocação ao ódio e à descriminação racional por causa de uma canção.

Dieudonné tornou-se demasiado popular. E o Governo francês decidiu que não o pode tolerar e quer tentar proibir os seus espectáculos, o que não se avizinha tarefa fácil. Já em 2010, o Conselho de Estado confirmou o direito do humorista a actuar numa localidade – a autarquia tentou impedir a actuação.

O processo agora iniciado apoia-se num vídeo gravado por um espectador e transmitido depois na France 2 onde Dieudonné ataca um jornalista da rádio pública France Inter, Patrick Cohen. “Estás a ver, se o vento muda, não tenho a certeza se ele tem tempo para fazer a mala. Quando o oiço falar, Patrick Cohen, penso, estás a ver, as câmaras de gás… Que pena.”

Os ataques do humorista contra Cohen são frequentes desde que o jornalista perguntou ao apresentador de um programa de televisão se ele tencionava continuar a convidar “personalidades como Tariq Ramadan, Dieudonné, Alain Soral”. Ramadan é um académico muçulmano, suíço de origem egípcia, habituado a enfrentar suspeitas (é tratado como ocidental pelos árabes e muitos ocidentais acusam-no de ter uma agenda escondida de islamização da Europa). Soral, um ensaísta que diz estar na avant-garde política da sociedade francesa, é criticado pelo seu anti-semitismo e considerado ideólogo da extrema-direita. Também ele fez o quenelle, escolheu o Memorial do Holocausto em Berlim.

Dieudonné, filho de um camaronês e de uma francesa da Bretanha, defende-se sempre com a liberdade de expressão. Nos últimos anos aproximou-se do antigo líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, padrinho do seu quarto filho, nascido em 2008. Em 2009, o humorista quis candidatar-se ao Parlamento Europeu à frente de uma lista assumidamente anti-sionista.

O processo agora iniciado tem grandes probabilidades de chocar com a Constituição Francesa ou com a Convenção Europeia dos Direitos Humanos. O ministro do Interior, Manuel Valls, diz-se decidido a “romper a mecânica do ódio” e quer “proibir reuniões públicas que já não pertencem à dimensão criativa”, querendo com isto dizer que vai defender o risco de provocação de distúrbios públicos dos espectáculos de Dieudonné.

Face à Dieudonné, appliquer la loi, rien que la loi

En cette fin d'année 2013, un air nauséabond flotte sur la société française fracturée par la crise. Après les attaques racistes contre la garde des sceaux, Christiane Taubira, voici qu'un « amuseur », Dieudonné M'bala M'bala, condamné neuf fois depuis 2006 pour diffamation, injures et provocation à la haine raciale, fait rire son public en proférant des propos violemment antisémites contre Patrick Cohen, journaliste à France Inter. La liberté d'expression peut-elle tolérer de tels discours de haine ? La liberté de réunion, garantie par la loi du 30 juin 1881, peut-elle autoriser un spectacle « humoristique » qui balaie toutes les transgressions et met en doute la Shoah ?

A ces questions, le ministre de l'intérieur répond par la négative. Avec le soutien de François Hollande, Manuel Valls s'apprête à adresser des instructions aux préfets en vue d'« interdire des réunions publiques qui n'appartiennent plus à la dimension créative, mais contribuent, à chaque nouvelle représentation, à accroître les risques de troubles à l'ordre public ». Pour M. Valls, Dieudonné est « antisémite et raciste » et « il faut casser cette mécanique de haine ».
Si on veut transformer le paria en héros, le victimiser, en faire une sorte de martyr, il faut interdire les spectacles de M. M'bala M'bala. Mais ce serait une grave erreur. Car, sur la forme, la procédure est vouée à l'échec. La jurisprudence du Conseil d'Etat montre qu'il est quasiment impossible d'interdire des réunions dispensées par la loi d'autorisation préalable. Le contrôle sur d'éventuelles infractions pénales ne peut s'exercer qu'a posteriori et non a priori. De même, la notion de « troubles à l'ordre public » est difficile à manier. Et, là encore, le Conseil d'Etat estime que c'est aux pouvoirs publics de prendre préventivement les « mesures appropriées

Derrière l'affaire Dieudonné, l'essor d'un public « antisystème »

Les attaques récentes visant la garde des sceaux signaient le retour du racisme colonial archaïque, mais dont les ressorts n'ont pas entièrement disparu. Voici que l'antisémitisme, avec Dieudonné, s'installe dans l'actualité, en même temps que le geste de la « quenelle », vague synthèse du salut nazi et du bras d'honneur, de la haine des juifs et du rejet du système.
Laissons ici l'histoire personnelle de Dieudonné, dont on dira qu'elle relève d'un processus qu'il a enclenché, dans lequel ses premières outrances ont suscité des réactions le marginalisant tout en le radicalisant encore plus. L'important est dans ses publics.

UN PUBLIC SENSIBLE À LA DÉMAGOGIE

Ceux qui vont à ses spectacles ne se limitent pas à Jean-Marie Le Pen, président d'honneur d'un parti dont sa fille voudrait nous faire croire qu'il est devenu respectable, au négationniste Robert Faurisson, que Dieudonné a fait acclamer au Zénith, en 2008, ou au seul intellectuel potable dont puisse se réclamer l'extrême droite, Alain de Benoist. Ce public est aussi sensible à la démagogie antisystémique de Dieudonné qu'il est perméable à sa haine des juifs et d'Israël.

Celle-ci tranche, en partie au moins, avec l'antisémitisme classique qui s'était révélé et développé avec l'affaire Dreyfus et s'est maintenu actif jusqu'au milieu du XXe siècle. Durant cette période a prospéré une thématique au cœur de laquelle les juifs étaient accusés de miner la culture et la nation françaises. A partir des années 1980, des thèmes inédits sont apparus, ou ont trouvé une nouvelle jeunesse : la Shoah a été niée ou accusée d'être à l'origine d'un juteux business, et l'antisionisme s'est plus ou moins confondu avec la haine des juifs.

Des esprits faux ont cru alors possible d'associer dans un même opprobre la gauche progressiste, pro-palestinienne parfois à outrance il est vrai, et l'islamisme, parlant d'islamo-progressisme pour qualifier le nouveau malheur.

En fait, c'est surtout parmi ceux qui s'identifient à la cause palestinienne parce qu'ils sont eux-mêmes d'origine maghrébine, ou à l'islam radical, en butte à Israël et aux Etats-Unis, que s'est développé le nouvel antisémitisme, tandis que l'ancien régressait. Et c'est là où on trouve Dieudonné.

UN PUBLIC VIRTUEL

Cet avatar de la haine des juifs n'a rien à voir avec la défense de la culture et de la nation – qui irait dire de Dieudonné qu'il incarne l'une ou l'autre ? Il est lourd avec lui d'une rage qui n'a rien de nationaliste, il porte plutôt la haine d'une France puissance coloniale – le lien avec les juifs est ici qu'ils voudraient, selon Dieudonné, disposer du monopole de la souffrance historique, au détriment des Noirs. Enfin, Dieudonné parle en termes vaguement sociaux, au nom de ceux qui pâtissent de l'exclusion ou de la précarité.

Comment fait-il pour plaire à l'extrême droite nationaliste autant qu'aux populations issues de l'immigration récente (maghrébine, subsaharienne), sans parler des Antillais – qui ne constituent pas spécialement le fonds de commerce du FN ? Le paradoxe se résout grâce à l'antisémitisme, qui subsume les différences et rapproche des personnes que tout sépare par ailleurs.

Lire aussi (édition abonnés) le point de vue l'anthropologue Jean-Loup Amselle : Dieudonné fait ressurgir un antisémitisme postcolonial

Dieudonné a aussi un public virtuel, qui le suit sur Internet et les réseaux sociaux. Les technologies de l'information et de la communication ont créé un espace qui n'est ni celui du privé, où les conversations se limitent à quelques personnes tout au plus, où tout peut être dit, pourvu, précisément, de rester au sein de cette sphère, ni celui de la vie publique classique et de ses médias.

Internet, le téléphone mobile dessinent un espace singulier, intermédiaire entre le public et le privé. Et dans cette zone sans frontières qui exerce une pression constante dans l'espace public et la sphère privée, la communication est instantanée, massive, participative, tout le monde peut exister, s'exprimer.

Une culture se développe dans ce contexte, insistant sur la liberté d'expression – interdire, c'est aller à l'encontre de la révolution culturelle qu'apporte le numérique. Ce qui est favorable aux discours émancipateurs, mais aussi à ceux de la haine.

LES RÉSEAUX SOCIAUX PEUVENT AUSSI SERVIR LE MAL

On a souvent insisté sur le caractère bénéfique de cette évolution, sur le rôle des réseaux sociaux dans les révolutions arabes ou les luttes d'« indignés » : force est de constater que la technologie peut aussi servir le mal. Dieudonné en bénéficie pleinement et y trouve une ressource considérable.

Public réel et public virtuel peuvent-ils se fondre ? La comparaison, là aussi, avec les mouvements contestataires récents est édifiante : c'est en se retrouvant, grâce à Internet, sur des places, dans des lieux concrets, que ces acteurs ont pris leur essor.

Ce qui justifie les efforts politiques et institutionnels pour rendre impossibles les spectacles de Dieudonné, et donc la fusion de ses deux publics, mais ne règle pas tout. Si l'on souhaite empêcher la diffusion de l'antisémitisme, telle que la promeut Dieudonné, il faut agir au niveau d'Internet et des technologies de communication moderne.


Dans les deux cas, on s'expose à en faire un martyr, mais aussi à aller à contre-courant de la culture de la liberté d'expression propre aux évolutions contemporaines. Et dans les deux cas, on corrige les effets sans aller au fond, lancinant, au fait qu'une société comme la nôtre puisse laisser place à un racisme archaïque ou à un antisémitisme renouvelé.

Alarm sounded on anti-Roma rhetoric as door opens to more EU workers. Roumains et Bulgares sont libres de travailler partout dans l'UE.


Alarm sounded on anti-Roma rhetoric as door opens to more EU workers
Cross-party group calls for calm dialogue after Tory council leader blames Roma in London for disruption and crime

Politicians are inflaming community tensions with anti-Roma rhetoric, an alliance of Tory, Labour and Liberal Democrat MPs has warned as Britain opens its borders to Bulgarian and Romanian workers.

MPs on the all-parliamentary party group on Gypsies, Travellers and Roma sounded the alarm about provocative language as a prominent Tory council leader suggested some Roma are planning to come to the UK to "pickpocket and aggressively beg" following the end of labour market controls on the two eastern European countries.

On Tuesday, ahead of the restrictions expiring at midnight, Philippa Roe, of Westminster city council, blamed Roma in central London for already causing "a massive amount of disruption and low-level crime", including defecating on doorsteps. Speaking on the BBC, she called for more limits on benefits for new arrivals from EU countries and claimed there would be rising costs in council tax unless the government offers financial help.

"I know the vast majority of Romanians and Bulgarians planning to come to the UK are planning to work and contribute to society here," she said. "But I think the fear that everybody faces is those that come to Britain and either fail to find jobs and therefore fall back on our welfare system, or those who deliberately come here to pickpocket and aggressively beg.

"We have seen in the past 18 months particularly the Roma in central London causing a massive amount of disruption and low-level crime which has made a very negative impact on our communities. It's this minority one is really concerned about but it is this minority that has this really big impact."

Roma make up a tiny proportion of the population of Romania and Bulgaria but some politicians have concentrated their warnings about the end of transitional controls on the potential for more to enter Britain. This week an adviser to the Romanian prime minister hit back at scare stories, arguing millionaire bankers have caused more harm to society than Roma beggars.

Amid escalating rhetoric, the MPs on the all-party parliamentary group called for politicians to engage in "calm dialogue with local communities and an end to deliberately inflammatory language intended to stoke up community tension".

Andrew George, a Lib Dem MP who is chairman of the group, said these communities were suffering "collateral damage" and extra discrimination amid all the furore.

"What these groups are saying is that they are suffering even more," he told the Guardian. "They already exist in an environment of deep prejudice and community tension anyway. This is just setting them back after making some progress in some of the areas in which they have improved their relations. There is collateral damage going on for the wider traveller community."

The group includes David Blunkett, the former Labour home secretary, Sir Peter Bottomley, a former employment minister, and Kate Green, the shadow equalities minister. Separately, Yvette Cooper, the shadow home secretary, also warned that the government's "last-minute confusion and heightened rhetoric is alarming rather than reassuring, and risks fuelling hostility too".

Ukip and the right of the Tory party have been warning for months about the potential for a public backlash if new arrivals put pressure on squeezed public services and housing. Ukip leader Nigel Farage argues London is already suffering a "Romanian crime wave" and accused the coalition of preparing to welcome "foreign criminal gangs" from new EU member states.

Under pressure from dozens of MPs and local activists within his party, David Cameron has brought in new rules that stop EU immigrants getting benefits for at least three months after arriving and limit their claims to six months.

Despite the political frenzy, experts are not predicting a surge in immigrants from the two eastern European countries on the scale of migration from Poland in the 2000s. Professor John Salt, an academic at the University College London migration research unit, said advance air bookings from Bulgaria to the UK for the first three months of 2014 were down on last year and no carrier from the country had increased the number of flights.

Despite reports of tickets for packed flights leaving the region costing upwards of £3,000, many airlines were offering seats on Tuesday to fly to the UK at between £135 and £250 for departure on New Year's Day. Eurolines, the main international bus operator at Victoria coach station in London, said it did not have any arrivals scheduled from Romania or Bulgaria until the morning of 2 January.

Sergiu Calauz, chief executive of the Romanian recruitment company Work Experience, said he had not seen an increase in the last few months of Romanians wanting to travel to the UK for work purposes. "Honestly, it's still the same," he said. With unemployment just under UK levels, skilled Romanians with good English were not generally out of a job, Calauz said.

Comparative figures from the International Labour Organisation from mid 2013 show Romania had a lower rate of unemployment (7.5%) than the UK (7.6%). Bulgaria's unemployment stood at 12.9%.


Asked whether the appetite amongst Romanians to migrate had increased because of the change in labour laws, he said: "It's too early [to tell] … but Romanians are kind of conservatives. What I can tell you is the great people, the best people, those who are confident enough in their skills, they are abroad already. It's not like 1 January will wake them up."


Roumains et Bulgares sont libres de travailler partout dans l'UE

Roumains et Bulgares peuvent travailler librement dans l'ensemble de l'Union européenne dès mercredi 1er janvier. Sept ans après l'accession de leurs pays à l'UE, la levée des dernières restrictions sur le marché du travail dans neuf pays de l'Union – Allemagne, Autriche, Belgique, Espagne, France, Grande-Bretagne, Luxembourg, Malte, Pays-Bas – n'a toutefois rien d'un « big bang », puisque 17 autres Etats ont déjà franchi le pas depuis des années.
« Cela cause de l'agitation, surtout en Grande-Bretagne et en Allemagne », où une partie de la presse et des hommes politiques brandit la menace d'une « invasion », relevait mardi le quotidien roumain Romania Libera, le seul à consacrer un article à ce sujet à la veille du 1er janvier.

RÉTICENCES EN ALLEMAGNE ET EN GRANDE-BRETAGNE

En Grande-Bretagne, des membres du Parti conservateur ont, jusqu'au dernier moment, pressé le premier ministre, David Cameron, de repousser l'ouverture du marché du travail en estimant que « la vague d'immigrants roumains et bulgares pèsera sur les services publics ». Mais le chef du parti, Grant Shapps, a souligné qu'il n'était pas possible d'y surseoir. Des responsables roumains et bulgares et même un commissaire européen ont dénoncé le ton du débat à Londres.

En Allemagne, le parti conservateur bavarois, allié de la chancelière Angela Merkel, a également tempêté contre la levée des restrictions, l'associant à un risque accru « de fraudes aux prestations sociales ». Mais le porte-parole du gouvernement, Steffen Seibert, a rétorqué que la « libre circulation des personnes est une chance pour les Allemands et l'Allemagne ».

« Faire comme si tous les gens en provenance de Bulgarie et de Roumanie étaient pauvres et ne venaient chez nous que pour percevoir des allocations passe sous silence les nombreuses personnes très qualifiées qui travaillent ici, par exemple comme médecins ou personnel de soins », a insisté de son côté la secrétaire d'Etat chargée des migrations, Aydan Ozoguz.

En Espagne, pays frappé par la crise qui accueille déjà un million de Roumains et de nombreux Bulgares, la fin des restrictions sur le marché du travail n'a pas suscité de controverse importante. « La grande majorité des Roumains est très bien intégrée », a déclaré l'ambassadeur d'Espagne en Roumanie.

« JE PRÉFÈRE ÊTRE DANS MON PAYS »

Sur un des marchés du centre de Bucarest, nombre de passants et de commerçants avouaient « ne pas bien savoir » ce qui changeait au 1er janvier et n'avoir aucun plan de départ. Le premier ministre roumain, Victor Ponta, et les responsables bulgares assurent régulièrement qu'il n'y aura pas de vague d'émigration à partir de mercredi. « Les citoyens (…) veulent un bon travail, un bon revenu et la justice dans leur patrie, pas s'acheter un aller simple pour quitter la Bulgarie ! », a encore insisté mardi soir le président bulgare, Rossen Plevneliev, dans son discours de vœux.

Nombre d'analystes indépendants en Roumanie et en Bulgarie soulignent l'impossibilité d'évaluer précisément le nombre des candidats au départ, mais estiment que les grandes vagues d'émigration ont déjà eu lieu. Depuis la chute du communisme, environ trois millions de Roumains et un million de Bulgares ont émigré, pour leur très grande majorité en Espagne et en Italie. France et Grande-Bretagne ont aussi recruté des milliers de médecins et d'aides-soignantes.

La faiblesse des salaires dans leur pays explique ces départs : un médecin gagne en général 400 euros par mois en Roumanie ou en Bulgarie, même si d'aucuns s'en sortent beaucoup mieux. « Si je pouvais gagner plus en Roumanie, je resterais, car je préfère être dans mon pays et proche de ma famille », confie ainsi Titu Ionut, 32 ans, ouvrier en construction installé en Espagne.

De nombreux Roumains et Bulgares veulent toutefois rester malgré les salaires bas, le manque de confiance dans la classe politique et le délabrement des services de santé. C'est le cas de Simona Mazilu, lectrice universitaire de 34 ans à Bucarest : « Il est important de croire qu'on peut arriver à quelque chose ici, et je crois que c'est possible. Les autres pays ont aussi leurs défauts. »

Planet likely to warm by 4C by 2100, scientists warn. We ignore the disastrous storms in the Caribbean at our peril.


Planet likely to warm by 4C by 2100, scientists warn
New climate model taking greater account of cloud changes indicates heating will be at higher end of expectations
Damian Carrington

Temperature rises resulting from unchecked climate change will be at the severe end of those projected, according to a new scientific study.

The scientist leading the research said that unless emissions of greenhouse gases were cut, the planet would heat up by a minimum of 4C by 2100, twice the level the world's governments deem dangerous.

The research indicates that fewer clouds form as the planet warms, meaning less sunlight is reflected back into space, driving temperatures up further still. The way clouds affect global warming has been the biggest mystery surrounding future climate change.

Professor Steven Sherwood, at the University of New South Wales, in Australia, who led the new work, said: "This study breaks new ground twice: first by identifying what is controlling the cloud changes and second by strongly discounting the lowest estimates of future global warming in favour of the higher and more damaging estimates."

"4C would likely be catastrophic rather than simply dangerous," Sherwood told the Guardian. "For example, it would make life difficult, if not impossible, in much of the tropics, and would guarantee the eventual melting of the Greenland ice sheet and some of the Antarctic ice sheet", with sea levels rising by many metres as a result.

The research is a "big advance" that halves the uncertainty about how much warming is caused by rises in carbon emissions, according to scientists commenting on the study, published in the journal Nature. Hideo Shiogama and Tomoo Ogura, at Japan's National Institute for Environmental Studies, said the explanation of how fewer clouds form as the world warms was "convincing", and agreed this indicated future climate would be greater than expected. But they said more challenges lay ahead to narrow down further the projections of future temperatures.

Scientists measure the sensitivity of the Earth's climate to greenhouse gases by estimating the temperature rise that would be caused by a doubling of CO2 in the atmosphere compared with pre-industrial levels – as is likely to happen within 50 years, on current trends. For two decades, those estimates have run from 1.5C to 5C, a wide range; the new research narrowed that range to between 3C and 5C, by closely examining the biggest cause of uncertainty: clouds.

The key was to ensure that the way clouds form in the real world was accurately represented in computer climate models, which are the only tool researchers have to predict future temperatures. When water evaporates from the oceans, the vapour can rise over nine miles to form rain clouds that reflect sunlight; or it may rise just a few miles and drift back down without forming clouds. In reality, both processes occur, and climate models encompassing this complexity predicted significantly higher future temperatures than those only including the nine-mile-high clouds.

"Climate sceptics like to criticise climate models for getting things wrong, and we are the first to admit they are not perfect," said Sherwood. "But what we are finding is that the mistakes are being made by the models which predict less warming, not those that predict more."

He added: "Sceptics may also point to the 'hiatus' of temperatures since the end of the 20th century, but there is increasing evidence that this inaptly named hiatus is not seen in other measures of the climate system, and is almost certainly temporary."

Global average air temperatures have increased relatively slowly since a high point in 1998 caused by the ocean phenomenon El Niño, but observations show that heat is continuing to be trapped in increasing amounts by greenhouse gases, with over 90% disappearing into the oceans. Furthermore, a study in November suggested the "pause" may be largely an illusion resulting from the lack of temperature readings from polar regions, where warming is greatest.

Sherwood accepts his team's work on the role of clouds cannot definitively rule out that future temperature rises will lie at the lower end of projections. "But," he said, for that to be the case, "one would need to invoke some new dimension to the problem involving a major missing ingredient for which we currently have no evidence. Such a thing is not out of the question but requires a lot of faith."

He added: "Rises in global average temperatures of [at least 4C by 2100] will have profound impacts on the world and the economies of many countries if we don't urgently start to curb our emissions."

Flood-hit Colombia in 2011, when the rain almost never stopped

We ignore the disastrous storms in the Caribbean at our peril
Storms have taken lives in the Caribbean, and caused chaos in the UK – climate change is eroding certainties across the globe
Carrie Gibson

As tens of thousands people suffered through a flooded and powerless Christmas in Britain, 5,000 miles away unexpected weather was also unleashing havoc on the Caribbean.

Torrential rains on Christmas Eve, with 15in falling in 24 hours, led to dramatic floods and landslides that washed through St Vincent and the Grenadines, St Lucia and Dominica. So far eight people in St Vincent and five in St Lucia have died, water and electricity are down and thousands of properties have been damaged. The clean-up bill is expected to be in the millions.

The crisis cut short the holiday of the prime minister of St Vincent, Ralph Gonsalves, who happened to be in storm-hit London, after a trip to see the pope in Rome. Gonsalves – whose cousin was killed in a landslide during the rains – said it was "a disaster of a proportion the likes of which we have not seen in living memory". The secretary general of the Organisation of American States, José Miguel Insulza, also noted the "unreasonable nature" of the rains, and said "the flooding raises once again the impact of climate change in the Caribbean region".

Many years ago, during a rainy spell in Britain, a South African colleague at my office grumbled that Britain didn't have a climate – it only had weather. I chuckled at the time, but it seems that this now goes well beyond the UK. Unmoored from what usually happens during a given season, we are increasingly vulnerable to the brutal force of extreme weather events at short notice.

The Caribbean's climate does involve a rainy period – it is part of the hurricane season, which starts around June and usually lasts until around mid to late November. The 2013 hurricane season was the quietest in 30 years, with only two storms, and they did not even reach an intensity of category three or above. With regards to these recent rains, public opinion appears to agree with Gonsalves: these downpours were unprecedented.

There is no doubt that something is amiss in the tropics, and has been for some time. For instance, in 2011 in the north-east region of Colombia, the rain almost never stopped, and floods devastated the country, with hundreds of thousands of homes damaged and millions of people left suffering. And Trinidad and Tobago, too, has been experiencing severe and often unexpected flooding in the past few years, due to heavy rains.

The Caribbean is on the receiving end of the effects of climate change – it has to adapt and respond to the consequences, even though it has contributed little to the problem. Like other island nations, rising sea levels are a particular threat. A recent report by the Inter-American Development Bank claims that the tourism industry could lose some $900m a year (£550m) by 2050, and that flat, non-volcanic islands like the Bahamas are considered especially vulnerable.

There is also the risk that more people on the islands will choose to live abroad – if they are not evacuated first. But erosion is not something from a computer model – it's happening now. For instance, Varadero, Cuba – where more than a million tourists descend every year – has lost between 40,000 and 50,000 cubic metres of shoreline (430,000 to 537,500 sq ft), and a recent report says around 84% of the island's beaches are threatened.

For the Caribbean, unpredictable weather and eroding beaches could harm the vital tourism trade. In addition, the islands have a range of environmental issues to tackle, from mining in Jamaica to deforestation in Haiti. There is a rich ecosystem across the region – forests and biodiversity above water, and precious coral reefs and aquatic life below – that is increasingly under threat. The islands are trying to cope, earmarking scarce funds to deal with these challenges, set against a backdrop of economic struggle and often poor infrastructure. But moves have long been under way in places such as Belize, Dominica, and Costa Rica to encourage eco-tourism. The Caribbean Community Climate Change Centre was set up in 2005, which involves most of the Caricom members (18 of the English-speaking states of the Caribbean, as well as Haiti and Suriname), and most islands have scientists monitoring changes in climate patterns, and taskforces to attempt to deal with the consequences.

Whatever you think about climate change, the onset of erratic and extreme weather erodes any pretence of certainty. Modern life, as recent events in Britain have shown, has no time for floods, storms, downed power lines, delayed trains or flights – but this is our future. So in this sense, small islands, whose tribulations are often are ignored, are really the canaries in the coal mine.

This Christmas the impact of climate change reached across the Atlantic: developed and developing worlds were brought together in a misery of rising flood waters. We ignore what is happening to the places on the frontline of this changing climate at our peril.