domingo, 22 de dezembro de 2013

A história do maior conflito na cúpula do capitalismo português do pós-25 de Abril




"O Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (BESCL) foi desde o primeiro momento presidido por figuras do Grupo Espírito Santo, pois o meu pai, ao contrário dos irmãos Espírito Santo, apresentava-se como industrial. Mas houve sempre um grande entrosamento entre eles"
Pedro Queiroz Pereira

"Saiba Vossa Exa. que empreendimentos desta grandeza [Sacor] não se fazem com meninos de coro"
António Oliveira Salazar

"O meu pai acreditava na minha capacidade de empreender e de desenvolver e financiou-me um negócio de café que comecei com 20 mil pés e que chegou aos anos 90 com mais de três milhões"
PQP

"O meu pai deixou aos filhos uma empresa, que eu multipliquei infinitamente…"
PQP

2000 milhões de euros foi o volume de negócios da Semapa em 2012 (1,5 mil milhões de pasta e papel). O Grupo Queiroz Pereira tornou-se líder industrial e o maior exportador nacional em valor acrescentado

377 milhões de euros foi a quantia que o Grupo Queiroz Pereira encaixou no final de 2005 com a venda da Enersis ao fundo australiano Babcock&Brown, que acabou por colapsar com a crise de 2008

"O problema não é os ricos terem muito dinheiro, o problema está na utilização que dão aos recursos ao seu alcance. Uns usam o dinheiro para produzir mais desenvolvimento, mais postos de trabalho e arriscam; outros dizem: já tenho o meu, quero lá saber."
Manuel Queiroz Pereira

"Não tem que ver com os automóveis, é da minha natureza, da capacidade de formar equipas, de ter sócios, da vontade de empreender. Nunca pus em risco os activos do grupo, o que seria extremamente arriscado era não ter feito nada"
PQP




A história do maior conflito na cúpula do capitalismo português do pós-25 de Abril
CRISTINA FERREIRA in Público

As batalhas entre accionistas são o terror de qualquer grupo empresarial e as mais mortíferas são as que ocorrem entre irmãos de sangue. E esta foi uma guerra típica familiar. Uma guerra entre “tios”, irmãos e primos Queiroz Pereira. Uma guerra sem diabos nem santos. Uma guerra de interesses e onde o combustível, como quase sempre, foi o dinheiro. Mas os conflitos à volta do Grupo Queiroz Pereira têm vários anos e reflectem um outro dado: a ascensão e a perda de influência do Grupo Espírito Santo. Um núcleo importante do poder económico privado com posições em grandes empresas e que a dada altura acreditou (diz-se) que poderia controlar a Semapa, hoje o maior grupo industrial português.

Quando os problemas financeiros, as polémicas — algumas associadas a investigações policiais — e as lutas pelo poder dentro do Grupo Espírito Santo se tornaram evidentes, Ricardo Salgado deixou de ter condições para se manter no Grupo Queiroz Pereira (dono da Semapa, que agrupa a Secil, Portucel, Soporcel e Inapa). E assinou um pacto de separação de águas com Pedro Queiroz Pereira (PQP), pondo fim a uma parceria empresarial de oito décadas. Ricardo Salgado, em processo de sucessão, já não se podia dar ao luxo de ter um corpo estranho (o próprio PQP) na cúpula do Grupo Espírito Santo, com 7% do capital (e ainda muita informação, poder arbitral e capacidade de influenciar). A Revista 2 revela agora os detalhes dos bastidores desta disputa que se travou entre os dois grupos — uma história cheia de incidentes e omissões.

Há 12 anos, Pedro Queiroz Pereira, presidente do Grupo Queiroz Pereira (GQP), interrogou Ricardo Salgado sobre quem eram os verdadeiros donos da Mediterranean (uma sociedade luxemburguesa que agregou três offshores, com presença forte na Semapa) e que o BES representava. O industrial conta que sempre ouviu a explicação: “Pertencem a investidores que não querem ser conhecidos, são discretos.” Não ficou elucidado.

Dez anos mais tarde, a resposta de Salgado continuava a mesma. E dois dias depois de PQP ter recusado nomear um delegado da Mediterranean para os órgãos de gestão das holdings familiares, por desconhecer a sua verdadeira titularidade, o BES assumiu, finalmente, o controlo. Foi a gota de água que fez transparecer a discórdia. Se a acção de Salgado foi táctica ou outra coisa, não se sabe.

Mas na Semapa (com actividade nas áreas do cimento, do papel e pasta de papel e do ambiente, e a jóia da coroa do Grupo Queiroz Pereira) estas movimentações accionistas são conhecidas como “o assalto à diligência”. PQP foi, nos últimos dois anos, o general das tropas anti-“investida” de Salgado, com um lugar-tenente, Fernando Ulrich (à frente do BPI, que detém 10% da Semapa e que assessorou PQP) e um oficial, José Maria Ricciardi (presidente do BES Investimento, BESI, e opositor assumido de Salgado na família Espírito Santo).

Queiroz Pereira acusa Salgado de o ter “iludido” para prosseguir um plano paciente e sistemático para dominar a Semapa, que reconstruiu após a morte do seu pai, Manuel, fundador do Grupo Queiroz Pereira em 1940.

Já os círculos próximos de Salgado garantem que o banqueiro nunca quis mandar na Semapa e procurou ainda, por razões de afinidade histórica, proteger as irmãs Margarida Queiroz Pereira Simões e Maude Queiroz Pereira Lagos. Estas, por sua vez, não vendo os seus interesses particulares salvaguardados, recorreram a Salgado, em períodos distintos do tempo, para se defenderem do irmão.

Há acções judiciais a correr entre todos, mas sem acusações de ilícitos ou de roubos. Os detractores de PQP não lhe contestam o mérito, mas o caminho que escolheu para dominar: não ouviu ninguém, atropelou quem quis. O industrial discorda: nunca adquiriu para si uma única acção do grupo que herdou. E insiste no argumento central: “O meu pai deixou aos filhos uma empresa, que eu multipliquei infinitamente…” O Grupo Queiroz Pereira tornou-se líder industrial e o maior exportador nacional em valor acrescentado. Em 2012, o volume de negócios da Semapa foi de cerca de dois mil milhões de euros (1,5 mil milhões de pasta e papel).

A Revista 2 ouviu os círculos próximos dos intervenientes e personalidades independentes. Apenas PQP, antes de os acordos com o BES e a família terem sido firmados nas últimas semanas, aceitou comentar aspectos históricos do grupo. Já os restantes actores (BES, Maude Lagos e os primos Carrelhas, accionistas minoritários), por intermédio dos seus advogados e assessores, declinaram abordar o conflito que minou uma relação que remonta às primeiras décadas do século passado.

Da fundação à revolução

1937. Datam daí os primeiros contactos entre os grupos Queiroz Pereira e Espírito Santo. Manuel Queiroz Pereira, filho de Carlos Pereira, accionista do Banco Comercial de Lisboa, cruzou-se com Ricardo Espírito Santo Silva (avô de Salgado e de José Maria Ricciardi), herdeiro do proprietário da Casa Bancária Espírito Santo. As duas instituições funcionavam paredes meias na Rua do Comércio e decidiram avançar para a fusão. “O Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (BESCL) foi desde o primeiro momento presidido por figuras do Grupo Espírito Santo, pois o meu pai, ao contrário dos irmãos Espírito Santo, apresentava-se como industrial. Mas houve sempre um grande entrosamento entre eles”, sublinha, 73 anos depois, PQP. Era, portanto, o começo de uma bela amizade… mas com percalços.

Ora, o primeiro desentendimento entre as duas famílias deu-se, na década de 1930, quando Oliveira Salazar decidiu, por decreto, criar uma indústria nacional de refinação e se concertou com Ricardo Espírito Santo numa “parceria-público ou privada”: a Sacor, de capitais públicos e onde o BESCL tinha uma posição, destinava-se a assegurar 100% da refinação e 50% da distribuição de crude. Assim que a Sacor estivesse a funcionar, a capacidade de distribuição da Sonap ia reduzir-se de 40% para 25%. Como a Sonap era detida por Manuel Queiroz Pereira (em conjunto com Manuel Boullosa), o industrial foi surpreendido e não gostou de ver o banqueiro desalinhar dos seus interesses particulares, pois era accionista do BESCL, para além de administrador.
Formado em Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa, com 17 valores, Ricardo Espírito Santo era mais do que banqueiro. Era polifacetado, mecenas, amante de Amália, era ainda um homem de poder e de grande influência política — visitava Salazar todos os domingos à tarde. “Era brilhante, uma figura proeminente que marcou uma época”, enquanto “o meu pai, embora muitíssimo respeitado, era discreto”, considera PQP.

1937. 17 de Maio. Sain o quê? A Manuel Queiroz Pereira, o nome Martin Sain nada dizia, mas a dupla Salazar e Ricardo Espírito Santo vão envolver na construção da Sacor este romeno, refugiado em Paris. Nesse ano, o Estado concedeu alvará à Redeventza, de Martin Sain, para construir em Cabo Ruivo uma unidade de refinação e de distribuição de petróleo.

1939. 1 de Setembro, início da Segunda Guerra Mundial. Visitar São Bento era um direito reservado a um núcleo restrito. O pai de PQP foi ter com Salazar: “O custo da refinaria [Sacor] está a ser pesado e a deixar ‘comissões’ em todo o lado, Martin Sain não é pessoa fiável.” De onde vinha o poder de Sain? Com olhar malicioso, o ditador respondeu: “Saiba Vossa Exa. que empreendimentos desta grandeza [Sacor] não se fazem com meninos de coro.”

1949. A 5 de Março, nas vésperas do renascimento da Europa pós-guerra, nasceu, em Lisboa, Pedro Queiroz Pereira, cinco anos depois de Ricardo Salgado (Cascais). Um período que coincidiu com a primeira grande vaga de industrialização do país (obras públicas, barragens, electrificação), a que se seguiram os planos de fomento. A receita é sempre a mesma. Para promover a modernização da economia, Salazar criou o Banco de Fomento Exterior que entrou no capital da Sodim (hoje da família Queiroz Pereira) para construir, em Lisboa, o primeiro hotel de cinco estrelas. E pediu a Ricardo Espírito Santo que juntasse empresários para levar por diante o plano. Após a morte do banqueiro, em 1955, Manuel Queiroz Pereira ficou encarregue de executar a obra.

1960. Os dois sócios da Sonap, Manuel Queiroz Pereira e Boullosa, estão numa encruzilhada porque defendem estratégias diferentes para a empresa e decidem separar-se. O que, na prática, se traduziu numa grande zanga. Amigo de Manuel Queiroz Pereira, o novo presidente do BESCL, Manuel Espírito Santo Silva, aceitou financiar-lhe a compra da posição de Boullosa, pois estava convencido de que este aceitaria vender a sua parte. Mas com o industrial dos petróleos não se brincava, era mais esperto do que imaginavam. Boullosa meteu-se num avião e foi ao estrangeiro levantar os fundos que lhe faltavam. Acabou por ser Manuel Queiroz Pereira a deixar a Sonap. O volte-face deu sururu na época.

José Roquette, ex-banqueiro do BES e hoje empresário da Herdade do Esporão, tinha na altura 23 anos e acabara de chegar ao BESCL para assessorar tecnicamente o presidente. E ainda se lembra “que era suposto que fosse o sr. Queiroz Pereira a ficar com as acções, pois tinha mais património [do que Boullosa] e o BESCL era o grande banco. Era alguém de peso na administração, muito activo”.

Com a acumulação de capital resultante do negócio da Sonap, o relacionamento entre os grupos Queiroz Pereira e Espírito Santo vai aprofundar-se. A partir daí, o industrial começou a diversificar os negócios sectorial e geograficamente e investiu não só em África, como no Brasil, o que era invulgar na época, mas ajudará o grupo a resistir fora de Portugal após a revolução.

1970. No poder, Marcelo Caetano procurava vias para liberalizar a economia. “Como havia uma clara intenção de forçar o aparecimento de um concorrente no sector dos cimentos dominado por Champalimaud [dono da Siderurgia Nacional], o Rogério Martins [secretário de Estado da Indústria de Caetano] ficou satisfeitíssimo quando o Queiroz Pereira, com capacidade financeira, requereu a instalação de duas novas unidades”, evoca agora Torres Campos, à época director-geral da Indústria. “Ele [Rogério Martins] queria usar a concorrência para contornar o condicionamento industrial, aprovou com o argumento de que ia quebrar o monopólio do Champalimaud.” E foi assim que a família Queiroz Pereira se envolveu na área dos cimentos, que perdeu com a revolução. Vinte anos depois, PQP voltaria aos sectores da celulose e do cimento, onde a família já tinha estado, ganhando um pouco dos dois.

1971. “Pêquêpê” era amante de ralis e o curso no Instituto Superior de Contabilidade e Gestão estava a ficar para trás. Tinha 23 anos quando foi mobilizado para cumprir o serviço militar em Angola, onde se encontrava no 25 de Abril. Pertencia à elite burguesa da época, que circulava entre Lisboa e Cascais. “A casa dos Queiroz Pereira era a melhor do Restelo [vendida à Embaixada do Brasil depois da revolução], sem comparação com nenhuma das outras e eram todas boas”, recorda um ex-vizinho, hoje no mundo dos negócios, que ainda se lembra de que “os filhos Queiroz Pereira tinham ‘bombas’ em casa que nunca estacionavam na rua como acontecia com as restantes famílias ricas”. E acrescentou: “‘Pêquêpê’ era o segundo filho, um enfant terrible, mas encantador com os amigos, a quem, ainda hoje, gosta de proporcionar boas coisas.” Onde uns viam um enfant terrible, outros olhavam para um miúdo determinado. Conta Pedro Roriz, ex-jornalista da área automobilística, que o conheceu no Colégio Militar, com 12 anos, “quando já era um desportista, um excelente jogador de futebol”: “Apesar de ter um estatuto que lhe permitiu começar num plano elevado, agarrou no grupo do pai e tornou-o no maior grupo industrial que para mim é o importante. Não vendeu, não fechou, expandiu. Que importância tem ter sido aventureiro se ao chegar a hora da verdade se superou?”

1973. No final deste ano, se em África o conflito se agudizava, em Portugal verificava-se uma grande aceleração monopolista. Na revista Análise Social, o académico Américo Ramos dos Santos refere no artigo “Desenvolvimento Monopolista em Portugal” que, entre 1968 e 1973, o núcleo do poder económico era formado por 14 famílias, onde pontuavam os nomes Espírito Santo, Mendes de Almeida, Queiroz Pereira. Um espaço de cruzamentos. Em 1972, PQP casou-se “para a vida” com Maria Rita Mendes de Almeida, de quem tem três filhas [Filipa, Mafalda, Lua].

Nesse ano, em retaliação ao apoio norte-americano a Israel, os Países Exportadores de Petróleo aumentaram em 300% o preço do petróleo. As bombas de gasolina, em Portugal, encerravam ao fim-de-semana. Um dos capitães de Abril, Sousa e Castro [13/3/2000], contou ao PÚBLICO: “Nas vésperas do 25 de Abril, assisti, no supermercado militar, a uma bulha entre clientes para ver quem chegava primeiro às prateleiras.” “Um factor que ajudou a acelerar a Revolução”, explicou.

Relançamento do grupo

1974. 24 de Abril. O que em Janeiro valia uma nota de 100 escudos custava agora 133. Na madrugada de 25, na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, os relatos contam que o capitão de Abril Salgueiro Maia discursou: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! […] Quem não quiser sair fica aqui.” O batalhão marchou para a capital. Manuel Queiroz Pereira assistiu em casa, em Lisboa, à rendição de Caetano no Largo do Carmo. Manuel Alfredo de Mello, filho de Jorge de Mello do Grupo CUF, estava, então, na dupla condição de militar e filho de industrial [PÚBLICO 13/3/2000]: “Pensou-se que a mudança se reflectiria sobretudo nas saídas de Américo Thomaz e de Caetano. E as declarações de Spínola indicavam que a descolonização ocorreria progressivamente, não se prevendo para a economia grandes rupturas.” Puro engano.

22 de Agosto. Eis um papel que o povo não imaginaria um ano antes: os ricos sofriam. Excluídos do coração do novo poder, os homens do Estado Novo procuraram refúgio na Confederação da Indústria Portuguesa para se reorganizarem como força viva. Só que a revolução andava a passo de galope e, por esses dias, o Copcon foi ao Ritz buscar Manuel Queiroz Pereira, detendo-o na Polícia Judiciária, até ao dia seguinte. Foi libertado por indicação de Spínola, de quem era amigo. Pouco depois, partiu para Paris, onde se manteve até 1982, entregando ao sucessor natural, o filho mais velho, Manuel, a condução dos negócios em Portugal.

Em Outubro, PQP continuava destacado em Angola, quando chegou a Luanda Rosa Coutinho, conhecido por “almirante vermelho”, dada a proximidade ideológica ao PCP. “A ordem era desarmar e nós fazíamos buscas nos musseques com o objectivo de desarmar os pequenos comerciantes portugueses brancos”, evoca agora PQP.

1975. 14 Março. Depois de as chefias e de os gestores dos grupos Mello e Espírito Santo terem sido detidos, a revolução obrigava: foram decretadas as nacionalizações, abrangendo o Grupo Queiroz Pereira. Na imprensa, na televisão e na rádio, circulavam notícias de sabotagem económica, de fuga de capitais para o estrangeiro. PQP que, entretanto, voltara para Lisboa, estava na sede da Cimianto (hoje Semapa), na Avenida Fontes Pereira de Melo, quando chegou a 5.ª Divisão das Forças Armadas. “Levaram-me a minha casa com ordem do Otelo [Saraiva de Carvalho] para abrir o portão, à frente do qual tinham estacionado três viaturas para impedir a saída dos tanques que diziam estar lá escondidos”, revive PQP, quase 40 anos depois.

O jovem movimentava-se em terreno inimigo e percebeu o sentido da metáfora: “As pernas tremem como varas verdes.” Foi o que sentiu ao subir a rampa do jardim, seguido por um cabo que lhe tocava na espinha com o cano de uma metralhadora Uzi: “Nem me digas que o teu pai não roubou tudo isto ao povo, senão é que descarrego mesmo.” Durante três horas, insistiram que “eu estava a esconder as armas para fazer a contra-revolução”. Quando entraram na garagem, “viram uns pneus próprios de ralis, parecidos com os usados pela Jeep, e perguntaram-me: ‘Onde estão os ‘Jeeps’ da contra-revolução?’” Explicou-lhes: “Eu e o meu irmão participamos em ralis. E identifiquei-me como o ‘Pêquêpê’. O clima aliviou. Os cabos viraram ‘uns tipos porreiros, epá Pêquêpê...’ e já não revistaram mais nada.”

O Brasil adivinhava-se o passo seguinte. “O meu pai acreditava na minha capacidade de empreender e de desenvolver e financiou-me um negócio de café que comecei com 20 mil pés e que chegou aos anos 90 com mais de três milhões.”
Final de 1975. No estrangeiro, a cúpula do GES tentava reagrupar-se. Manuel Ricardo vai procurar o sogro, Fernando Moniz Galvão, e o velho aliado Manuel Queiroz Pereira. “Depois do 11 de Março, o sr. MQP já estava fora e tinha as bases financeiras de suporte para se manter no estrangeiro, mas também para garantir ao GES, entre 1975 e 1984, resistir fora de Portugal e manter-se numa posição que lhe permitiu regressar mais tarde”, sublinha José Roquette.

1976. Manuel Ricardo Espírito Santo perguntou ao industrial com que percentagem pretendia ficar no capital da ES Control, a “mãe” de todas as holdings do Grupo Espírito Santo. O industrial respondeu: “Por mim, não quero nada. Se vos der jeito, posso ficar com o que entenderem.” E ficou nessa altura com 10,7% da holding, uma posição que vai estar, 37 anos depois, no epicentro das batalhas entre os dois grupos familiares.

Entretanto, fruto das nacionalizações, o Estado assumira cerca de 40% da Sodim (dona do Ritz) e, quando os privados recompraram as acções, Manuel Ricardo Espírito Santo procurou o industrial: “Nós ficámos com a maioria dos activos financeiros que nos ajudou a recuperar, mas o controlo da Sodim deve ficar consigo.”

Já se sabe que Manuel Queiroz Pereira era um homem do Estado Novo. Um dia, um amigo do filho mais velho encontrou-o em Paris e ouviu o desabafo: “Não vale a pena investir em Portugal, aquilo não tem futuro.” Só que o exílio não era forçosamente o paraíso e o industrial nunca cortou o cordão umbilical com Portugal. Já falava no regresso, continuava a ser um capitalista produtivo.

Cada visita de Manuel Queiroz Pereira a Portugal era sentida como um calvário. Um dia disse a Frederico da Cunha, casado como uma Espírito Santo, hoje a trabalhar na Semapa: “‘Venho cá por obrigação, mas não gosto de cá estar, isto atormenta-me. Não gosto de pensar que existem pessoas inteligentes a colaborar com tudo isto.’ Era de uma enorme lealdade aos seus princípios e severo com o incumprimento da ética.” Pertencia a uma geração de valores muito fixos e, por exemplo, morreu sem perdoar a António Spínola o ter assumido o marechalato após o 25 de Abril.

1980. A época, por enquanto, é ainda de escassez de liquidez para a família Espírito Santo, que não tinha reconstruído o grupo. Uma irmã Espírito Santo procurou Manuel Queiroz Pereira para lhe perguntar se estava interessado em adquirir-lhe as suas acções da Sodim. Ele concordou, mas avisou-a: “O máximo que posso pagar é 3500$00 por acção.” Mais tarde, pediu novo encontro com a parceira de transacção. Em causa estava o seguinte: “O Beirão da Veiga [ligado ao Grupo Espírito Santo] telefonou-me porque também quer vender as acções do Ritz. Mas, em vez de 3500$00, pede mais 500$00. Como há três meses te paguei 3500$00, toma lá o cheque com o diferencial.”

1983. Manuel Queiroz Pereira morreu com 77 anos e deixa os quatro filhos surpreendidos com os activos que herdam, nomeadamente em cash. Entre os irmãos Manuel e Pedro Queiroz Pereira, havia uma rivalidade expressa nas corridas de automóveis: “Mêquêpê” era mais veloz do que “Pêquepê”, e mais charmoso do que o mais novo. E era no mais velho que o pai via o garante da perenidade do grupo. Quando morreu, a mãe, Maud (sem e), na altura com 61 anos, entregou-lhe os destinos das empresas. Mas os dois irmãos combinaram repartir entre si responsabilidades. Manuel (com 36 anos) sugeriu a Pedro (com 34 anos) que gerisse os activos industriais (Cimianto, que tinha sido em parte nacionalizada depois do 25 de Abril), enquanto ele se manteria à frente da Sodim (Ritz e negócios imobiliários). O mais novo aceitou.

Naquela discussão, as mulheres estiveram fora da equação. Tal como noutros grupos familiares (Mello ou Espírito Santo), o industrial também não programara as duas filhas Maude e Margarida para serem líderes — o que pode lançar alguma luz sobre as tensões que mais tarde se vieram a verificar entre irmãos. Um colaborador do pai recorda uma frase que terá ouvido: “Dizia que não gostava de ver a Maudezinha e a Margarida, que eram novas e vistosas, aparecerem na empresa de mini-saia, porque desorientavam o pessoal.”

As irmãs não ficaram quietas. Depois de um braço-de-ferro, travado na década seguinte, Margarida vendeu as suas acções na Semapa e foi lançar empresas. A mais velha, hoje com 63 anos, continuou ao lado de Pedro. Ao Expresso [12
2013], Joana Lemos, a sua assessora de imprensa, também ela ligada aos desportos motorizados, esclareceu recentemente, já depois de os dois irmãos terem firmado o acordo: “Maude trabalhou ao lado do irmão, patrocinou a sua gestão e contribuiu para a construção do grupo tal como existe hoje.” Em Londres, onde vive actualmente a herdeira, entretanto separada do empresário João Lagos, mais do que “mágoa”, os amigos asseguram que o sentimento é de “injustiça”.
1992. Tal como no Grupo Queiroz Pereira, com a morte do patriarca, também no Grupo Espírito Santo, com a morte de Manuel Ricardo Espírito Santo, se abriu um novo ciclo. A família elegeu Ricardo Espírito Santo Salgado, que será o artífice de uma estratégia sustentada numa rede empresarial complexa. A partir de holdings sediadas na Suíça e no Luxemburgo, as operações do grupo invadem zonas nevrálgicas da economia.

Fontes próximas do presidente da Semapa — o activo mais relevante do Grupo Queiroz Pereira — recordam que nos anos 1990, e apesar da presença do GQP no GES, “quando o Ricardo Salgado formou a primeira administração do BES não convidou Pedro Queiroz Pereira, optando por ir buscar outros empresários”. O que foi lido nos círculos próximos do presidente da Semapa como uma desconsideração não esquecida.

Construir um grupo industrial estava a tornar-se uma fixação para PQP, na altura com 43 anos. E quando, em 1993, foi constituída a Semapa, já tinha em vista participar na privatização da Secil. “Ele [PQP] chegou do Brasil com ganas de reconstruir o grupo, muito na imagem do pai, a quem citava como seu inspirador”, observa José Manuel Galvão Teles, o advogado que o apoiou nesse período. Quando o Governo anunciou a venda da Secil, não hesitou. Numa primeira fase, o irmão Manuel, mais reservado, levantou questões, mas acabou por aceitar. E se os irmãos Pedro e Maude queriam dar um passo em frente, a mais nova, Margarida, não se convencia [Expresso 1995].

1993. O Grupo Queiroz Pereira está prestes a sofrer o seu segundo rombo que levou a nova mudança de liderança. Um dia, durante uma reunião de trabalho para preparar as obras de reformulação do Ritz, Manuel, a quem tinha sido diagnosticada uma leucemia e que estava a ser acompanhado num hospital em Paris, recebeu um telefonema a informá-lo de que PQP era compatível para o transplante e que devia partir imediatamente. Mas não vai resistir à intervenção, e a 4 de Março morreu na capital francesa.

A mãe Maud voltava a estar perante o dilema: a quem entregar a chefia do grupo cujo controlo o marido quis deixar aos filhos, seus continuadores? A uma equipa profissional (family office)? Mas como PQP mostrava empenho, Maude aconselhou a mãe a confiar a gestão ao irmão, o que a deixa hoje com amargos de boca. A irmã Margarida debatia-se com o problema: tem 20% das holdings do grupo — Cimipar, Cimigest e Sodim — mas não tinha comprador. Só os irmãos podiam estar interessados. A família pediu-lhe paciência. Ela deu-lhes 15 dias. Margarida tinha então 40 anos e pressa. O advogado Carlos Adrião Rodrigues surgiu, pouco depois, com acções das holdings em seu nome, a convocar assembleias gerais e a gerar burburinho. Quando lhe perguntavam por que não vendia, resistia: “Estou muito interessado nos cimentos.” Anos depois, Margarida informou os irmãos de que tinha recomprado a posição a Adrião Rodrigues.

1994. Com a privatização da Secil a rolar no mercado, o industrial procurou Eduardo Catroga, ministro das Finanças. E apresentou-se com o carimbo de garantia de idoneidade, acompanhado de dois colaboradores da Semapa, Frederico da Cunha e Alberto Falcão, ex-colegas de Catroga no grupo Mello. O ex-ministro relata à Revista 2 o que ouviu: “[PQP] Veio assegurar-me que estava a fazer todos os esforços para conseguir uma engenharia financeira que lhe permitisse disputar a Secil.” Catroga respondeu: “Vejo com bons olhos, pois a lei das privatizações define que o processo deve contribuir para fortalecer os grupos portugueses.”

A meio do negócio, a irmã Margarida apareceu a levantar obstáculos, conforme divulgou então o semanário Expresso. Catroga lembra-se: “Pedro pediu para voltar a falar comigo para garantir que, apesar do conflito com a irmã, tinha a engenharia financeira praticamente montada e que não seria isso que o impediria de adquirir a Secil.”

19 de Abril. Com a privatização concluída, PQP está em condições de arrancar com a primeira vaga de desenvolvimento do grupo pós-25 de Abril. Venderá, pouco depois, 49% da Secil à CRH (grupo irlandês de materiais para construção) para se capitalizar. Mais tarde, vai querer recomprar as acções, e entrou numa bulha com os irlandeses. Em 2011, para recuperar o domínio da Secil, por sentença de um tribunal arbitral, PQP teve de pagar 574 milhões de euros à CRH.

O primeiro stress entre Pedro Queiroz Pereira e Ricardo Salgado remonta a meados da década de 1990. Uma das cláusulas do sindicato bancário (grupo de 11 bancos que financiaram PQP na compra da Secil, liderado pela Caixa Geral de Depósitos e pelo BES) impedia os accionistas da Semapa, com acções hipotecadas aos bancos credores, de as venderem até o empréstimo ser liquidado.

O BES tinha uma posição no grupo. “Três meses depois do acordo, Ricardo Salgado mandou transferir as acções para os fundos de investimento geridos pelo banco e que pertencem aos clientes”, conta PQP. “O sindicato bancário podia ter-nos exigido o pagamento integral do empréstimo, uma vez que tinha sido violada uma cláusula do contrato”, acrescenta. O que disse Salgado? “Que se tratava de um movimento sem importância, pois preferia ter a posição da Semapa em fundos de investimento geridos pelo BES.” Ou seja: o banco não aplicava fundos directamente e mantinha poder de decisão.

2000. Este foi um ano em que todos gostavam de ter Ricardo Salgado como amigo. Com os canais de liquidez oleados, o BES estava a beneficiar de uma época de prosperidade e tornava-se um núcleo importante do poder económico privado, com influência na sociedade e no Estado. As forças políticas PS, PSD, PP sempre conviveram bem com o BES, aí recrutando governantes (três exemplos: os ex-ministros da Economia Manuel Pinho e António Mexia, e o social-democrata Miguel Frasquilho). Em 2012, ao PÚBLICO, depois de ter apoiado em simultâneo Sócrates e Passos Coelho, o banqueiro justificou-se: “O BES relaciona-se com todos os partidos e limita-se a ter um relacionamento institucional com os governos.”

Assistiu-se nesta fase à construção de posições do banco em grandes empresas como a PT e a EDP (acções que agora tem estado a alienar). Tudo isto a par e passo com os negócios em Angola, em áreas estatais, via Escom (uma holding instrumental do GES, que há dois anos está em processo de venda ao Estado angolano). Data também desse período a conexão do BES aos donos da Ongoing — Nuno Vasconcellos e Rafael Mora —, instrumentos de uma estratégia de poder.
Os jornais falavam, então, em mexidas nos bastidores para entregar à Teixeira Duarte (TD), que já possuía 18%, o controlo da Cimpor. Mas PQP não andava distraído e surpreendeu ao aliar-se à suíça Holcim para lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a cimenteira portuguesa. No dia da OPA, informou o BES de que seria o espanhol Banco Santander o líder do sindicato bancário, mas que salvaguardara para o BES a posição de co-líder. E justificou-se dizendo que os bancos portugueses não tinham balanço para o financiar. No BES, o acto de “independência” de PQP foi lido como traição.

Quase seis décadas depois da aliança entre Salazar e Ricardo Espírito Santo, na Sacor, PQP viu a cena repetir-se. O poder isolava-o. Havia sinais de movimentações partindo do ministro das Finanças Joaquim Pina Moura para que Ricardo Salgado encabeçasse a resistência à OPA de PQP sobre a Cimpor. Verdade ou imaginação? O BES surgiu, pouco depois, a apoiar a francesa Lafarge na compra de 17% da cimenteira nacional, o que contribuiu para a OPA ser travada.

2001, 31 de Dezembro. Foi num quadro de consolidação da influência do Grupo Espírito Santo na economia portuguesa que se vão dar, daqui em diante, várias transacções à volta do Grupo Queiroz Pereira. Nesse ano, o BES elevou o capital em 500 milhões de euros, com as acções a negociarem-se a 14 euros cada. A herdeira mais nova de Manuel Queiroz Pereira não tinha, evidentemente, digerido o conflito com os irmãos. No restrito mercado da banca de investimento, falava-se à boca pequena que, por troca das acções das holdings do Grupo Queiroz Pereira, a irmã mais nova, Margarida, assumira cerca de 2% do BES. No meio, havia crédito da instituição. Uma operação de 30 milhões. Por enquanto, ainda nada se saberá.

2002. Suspeitas fundadas. Por carta, Margarida comunicou aos irmãos que vendera as suas acções, sem revelar a identidade do comprador. Daí a alguns dias, o BES surgiu, em nome de terceiros, a representar a Gaunlet, a Allord e a Relcove, que tinham adquirido as posições da herdeira mais nova.


Uma das rotinas dos parceiros empresariais são as reuniões periódicas. Numa delas, logo a seguir, PQP questionou Salgado sobre o verdadeiro interesse das três offshores na Semapa, ao que foi esclarecido: “Disse que não estavam nem vendedoras, nem compradoras, nem tão-pouco queriam tomar posição estratégica no nosso grupo.”

2004. Agora, era a Portucel/Soporcel que aparecia na mira da Semapa. Pela frente, na privatização de 30% da empresa, PQP tinha Belmiro de Azevedo, com 29%. Sabendo do passado do engenheiro em matéria de confrontos, o industrial quer evitar desentendimentos. “O eng. Belmiro de Azevedo disse-me que não ia à operação e eu pedi-lhe se ele me vendia as acções, o que acabou por fazer”, conta agora PQP. A compra de 60% da Portucel dará origem ao segundo salto de crescimento da Semapa após o 25 de Abril.

2005. Bancos, seguradoras, fundos de investimento giravam, agora, em roda livre. Para o ex-governador do Banco de Portugal Jacinto Nunes, “o sistema financeiro, em especial o anglo-saxónico, entrou numa coboiada que permitiu o endividamento que deu a bolha que estourou em 2008”. Foi precisamente a um fundo australiano artificialmente capitalizado, o Babcock & Brown, que, antes de o ano terminar, PQP vendeu a Enersis, uma start-up criada em 1998 dentro da Secil. Um negócio que lhe rendeu uma mais-valia de 377 milhões de euros. Quatro anos depois, o Babcock & Brown faliu e arrastou para o fundo os pensionistas australianos.

21 de Dezembro. Oito meses depois da eleição como primeiro-ministro, na agenda de José Sócrates entrou o tema PQP. Circulavam rumores sobre a possível construção da fábrica da Portucel no estrangeiro, o que o levou a convidar o industrial para um pequeno-almoço em São Bento. Eram 8h da manhã quando entrou na residência oficial do primeiro-ministro, acompanhado de um dos seus braços-direitos, José Honório. Tinha à espera um batalhão de assessores, incluindo o ministro Manuel Pinho, e o presidente do ICEP, Basílio Horta. O que pode haver de mais convincente?

PQP lembra como Sócrates foi direito ao assunto: “Dizem-me que quando comprou a Portucel se obrigou a fazer a fábrica em Setúbal.” Ele contestou: “Se lhe dizem isso, então dizem-lhe mal, sr. primeiro-ministro. Mas diga-me onde consta, pois quero cumprir com as minhas obrigações.” Em simultâneo, o industrial confirmou que “a fábrica podia ir ou para a Alemanha ou para o Brasil”. Sócrates não gostou do que ouviu e esgrimiu o argumento extremo: “Se não fizer cá a fábrica, eu coloco em causa a privatização.” PQP não resistiu, lançou a ameaça do tribunal: “Se preferir essa via, daqui a 15 anos encontramo-nos a ver quem tem razão.”

O industrial questionou a audiência: “Porque hei-de ficar em Portugal, se posso estar na Alemanha, no coração do consumo?” Quem esteve presente assistiu à cena. José Honório avançou com uma lista de exigências com 49 pontos. “Para a Auto Europa, o Estado fez um porto e a Portucel, enquanto exportadora líquida, até é mais importante. A nova fábrica dará origem à saída diária de 500 camiões de contentores. Mas as estradas de Mitrena são estreitas, sem condições para escoar a mercadoria.”

Sócrates insistia na unidade em Setúbal. “Se o sr. primeiro-ministro sentir coragem para dobrar as forças vivas, eu farei aqui a fábrica.”

Já fora de São Bento, PQP deu indicação ao colaborador para mudar a agulha do investimento para Portugal. Oito anos depois, diz PQP, “é verdade que Sócrates não cumpriu os pontos todos, mas o que me motivou foi ver a grande vontade dele em que a fábrica ficasse cá e em resolver os obstáculos. Subsídios? Recebia em qualquer dos lados”.

PQP afirma-se como “o industrial” português

2006. Este foi um ano em que os lucros da Semapa recuaram de 164,3 milhões (em 2005, a venda da start-up Enersis gerou uma mais-valia substancial) para 91,3 milhões. Mas os sete executivos da Semapa receberam 18,199 milhões de euros, ou seja, uma média de 2,6 milhões por cabeça. Uma medida que acabou por gerar controvérsia.

2007. Muito antes de PQP e Maude entrarem em litígio, já os primos Carrelhas (filhos de uma tia de PQP), minoritários nas holdings familiares, tinham desencadeado as hostilidades. Carlos Pardal (casado com uma herdeira Carrelhas) questionou, entre outras coisas, as orientações do presidente do grupo, nomeadamente devido às elevadas remunerações aos gestores. Ora, os investidores minoritários vivem o eterno drama: não têm veleidades de chegar ao poder para impor caminhos favoráveis (dividendos, bónus, nomeações). E ou vendem ou são bem remunerados. A estratégia de PQP passava por não distribuir o grosso dos dividendos pelos accionistas, retendo-os nas empresas (Portucel e Secil). Uma fonte do sector argumentou que “um dos problemas dos accionistas é quererem garantir dinheiro imediato, o que é legítimo, mas não olham para as estratégias a longo prazo”. Ainda assim, um operador de bolsa diz que “quem entrou no início na Semapa tem tido um retorno médio anual de 20%”.

Para quem acompanhou as lutas dentro da Semapa, foi em meados de 2007 que começou a ser equacionado um novo capítulo de confronto. PQP voltou a tentar apurar quem se escondia por trás das três sociedades representadas pelo BES. Porém, chegar à verdadeira titularidade de qualquer offshore é como procurar uma agulha num palheiro. A sede do BES, na Avenida da Liberdade, no 15.º piso, onde Salgado tem gabinete, era o ponto de encontro semestral. Foi aí que PQP lhe transmitiu a vontade do seu grupo em adquirir as acções detidas pela Gaunlet, a Allord e a Relcove.

Segundo o industrial, o banqueiro disse nada poder fazer, pois as acções não pertenciam ao BES, que era o mero gestor, e os proprietários não estavam vendedores, nem queriam ser conhecidos. A partir daqui, há novos registos de contactos, mas até haver uma clarificação os dois vão continuar a brincar ao jogo do gato e do rato.

Antes do fecho de 2007, as três offshores juntaram-se na sociedade luxemburguesa Mediterranean. Salgado não baixava a guarda. PQP invoca que ele lhe repetiu que “a Mediterranean pertencia a investidores ingleses e noruegueses”. As evasivas de Salgado deixavam o industrial da Semapa “nervoso” e vão contribuir para o conflito que vai estourar daí a quatro anos.

2008. Entretanto, os sobrinhos Manuel e Matilde, filhos do irmão mais velho Manuel, vão afastar-se das três holdings familiares, vendendo as suas acções e entregando a gestão da fortuna a um family office. Mas tornam-se accionistas directos da Semapa e da Portucel, onde se fazem representar por um executivo, Vítor Gonçalves. “O Pedro tem sido bom para os garotos [os sobrinhos], de quem gosta e a quem procurou proteger os interesses, mesmo quando, na família, tentaram voltá-los contra ele”, refere um amigo dos irmãos Queiroz Pereira, que declinou identificar-se, por não querer tomar partido no diferendo familiar. E lembrou: a 5 de Março de 1993, “dia em que o irmão Manuel foi enterrado, em Lisboa, é o dia em que o Pedro e o sobrinho Manuel fazem anos”.

2009. 6 de Novembro é uma data que PQP dificilmente esquecerá, pois representou a sua consagração pública como “o industrial” português. Nessa manhã, o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva estava em Setúbal a participar na inauguração da nova fábrica da Portucel/Soporcel e preparava-se, também, para condecorar o patrão da Semapa com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Industrial. Num discurso comovido, perante o Presidente e os colaboradores, PQP assumiu-se como o vértice da pirâmide: “Sou eu que a recebo [condecoração], mas ela é oferecida a todos os meus colaboradores, entre eles, o Carlos Alves e o José Honório.”

Do pai, PQP reteve: “O problema não é os ricos terem muito dinheiro, o problema está na utilização que dão aos recursos ao seu alcance. Uns usam o dinheiro para produzir mais desenvolvimento, mais postos de trabalho e arriscam; outros dizem: já tenho o meu, quero lá saber.” Conclui: “Eu não sou assim.” “Hoje, se o pai ressuscitasse, tirava o chapéu ao filho mais novo, em quem nunca acreditara”, refere agora um ex-ministro do pós-25 de Abril que se cruzou com o industrial. E remata: “Ele reconstruiu o grupo com bom senso, aproveitando as oportunidades e rodeando-se dos melhores.”

O BES/GES era uma peça importante da engrenagem e, entre 2009 e 2012, no meio de grande confidencialidade, tornou-se um accionista do Grupo Queiroz Pereira (sustentado num esquema complexo de três holdings, Cimipar, Cimigest, Sodim, que se cruzam entre si com o mesmo objectivo: a Semapa geradora lucros) com maior peso do que os irmãos Maude (8%) e Pedro (8%), mas não da mãe Maud, aliada de PQP. Naquele período, o GES reforçou a sua presença na Cimigest (de 20% para 40%) e na Sodim (20%), as únicas onde estava presente, o que lhe permitiu dominar indirectamente cerca de 20% da Semapa. Um dos “vendedores” foi Joe Berardo, mas o movimento derivou da execução de dívida ao BES.

2011. Antes de o ano terminar, PQP comunicou aos accionistas da Cimipar (onde o BES não estava e que era detida em 40% por PQP, 40% por Maude Lagos e 20% pelos Carrelhas) que ia alienar 10% da Cimigest à Sodim (posição contabilizada em 36 milhões). A razão? A Cimipar (capital social de um milhão) estava falida, com dívidas ao BES e a PQP e a Maude de 30 milhões de euros. Uma transacção que vai mudar a relação cordial entre investidores. Mas passou um ano até que o BES, Maude e os Carrelhas argumentassem que os equilíbrios internos tinham mudado.

Estala a discórdia

2012. Em Janeiro, o presidente da Semapa executou a venda por 17 milhões de euros e pagou dívida ao BES. A transacção foi aprovada por todos os administradores das holdings e teve luz verde em AG. “O Pedro pensou: tenho de controlar o meu grupo, que herdei do meu pai e que expandi em mais de 90% e tenho de ‘afastar’ toda a gente”, diz um dos intervenientes do conflito. “E foi tomando decisões sem ouvir ninguém. Mas sem pagar o prémio de controlo.” Uma tese que as hostes de PQP contestam: “O industrial tem desde sempre a mesma posição accionista da irmã, a Cimipar estava falida e a operação foi aprovada pela Maudezinha.”

Nos primeiros meses do ano, o industrial continuava determinado em descobrir quem estava por trás da Mediterranean. A irmã Maude colocava questões e ele temia, agora, ser surpreendido com uma acção hostil dos seus accionistas (BES, Maude e Carrelhas). Semanas antes de a Cimigest eleger os novos órgãos sociais (onde a sociedade luxemburguesa estava representada pelo BES), PQP procurou Salgado: “Pergunto-te uma última vez: quem são esses senhores da Mediterranean que representas e que nós não conhecemos?” O banqueiro repetiu o que sempre lhe dissera e PQP pediu-lhe que fizesse chegar aos “clientes” uma oferta. Ora, o banqueiro é redondo a falar, binário a actuar: se interessa ao BES, faz, se não interessa, deixa cair. Para mostrar que a Mediterranean não estava vendedora, explicava: “Eles não querem receber propostas, nem ser conhecidos, são discretos.” Aos ouvidos do parceiro industrial, o disco estava riscado.

As palavras de pouco servem sem gestos persuasivos. O episódio faz parte dos processos judiciais a correr no quadro da guerra accionista. A meio de 2012, semanas antes da data da reunião magna da Cimigest, PQP começou a deixar cair sinais de que não reconduziria Rui Silveira, o gestor do BES, indicado por Salgado para representar a Mediterranean. Antes do encontro, o BES comunicou o desejo: a Mediterranean queria nomear um delegado para a gestão. PQP reagiu à patada. “Não conheço os senhores da Mediterranean e sem os conhecer, não meto ninguém no board.” O recado estava dado.

Junho de 2012. O mistério ia ser esclarecido. Nas vésperas da AG da Cimigest, o GES comunicou, então, que ia adquirir a Mediterranean. O industrial propôs-se formalizar uma oferta, em nome do grupo, e dirigiu uma carta ao líder do GES, António Ricciardi. Pouco depois, Ricciardi notificou o mercado de que a Espírito Santo Resources (holding para os negócios financeiros) tinha assumido a Mediterranean.

Hoje, PQP não perdoa a Ricardo Salgado o pecado capital de lhe ter “escondido”, ao longo de dez anos, que o BES era o verdadeiro proprietário das sociedades accionistas, o que “se traduziu”, do seu ponto de vista, “num plano” secreto para dominar a Semapa. Por seu turno, os círculos do banqueiro alegam que a suposta “ocultação” partiu de um “pedido da Margarida”, isto, apesar de, em 2003, a herdeira ter informado os irmãos de que deixara as holdings familiares. Do lado do BES, “a tese conspirativa de PQP” sobre a eventual tentativa de domínio da Semapa é contestada: “Se fosse assim, porque é que Manuel Fernando Espírito Santo lhe vendeu acções da Sodim?” A isto uma fonte da Semapa encolhe os ombros.

Final de 2012. Depois de ter sido o único grande banco a dispensar a recapitalização com verbas públicas, o BES começava a dar sinais de vacilar. O impacto da crise financeira e económica prolongada, as exigências regulatórias e as orientações seguidas na instituição, com excesso de exposição ao imobiliário, tiveram consequências: aumento do crédito malparado, maiores imparidades (perdas potenciais). O cenário impediu Ricardo Salgado de ser “generoso” com a família e obrigou-o a desacelerar os financiamentos às empresas do grupo. Tal como o PÚBLICO noticiou a 18 de Setembro, entre 2008 e 2013, em alternativa ao apoio do BES, a gestora de fundos do grupo recorreu aos clientes da instituição para financiar em larga escala (2,2 mil milhões de euros) a área não financeira através de dois fundos, o ES Liquidez e o ES Rendimento. Uma via polémica. Já este mês, a 12 de Dezembro, o The Wall Street Journal veio dar grande ênfase ao tema na primeira página do seu site.

Há uma certa unanimidade na interpretação: Ricardo Salgado esteve sempre ao lado das duas irmãs de PQP, alegando uma parceria histórica entre as duas famílias e uma relação pessoal. A cumplicidade manteve-se quando Maude Lagos entrou em rota de colisão com o irmão. E no último mês de 2012, Salgado e Maude assinaram um acordo de tag along (um mecanismo de protecção dos investidores minoritários), que garantiu a cada uma das partes que, em caso de venda das suas acções da Cimigest e da Sodim, a outra teria o direito de acompanhamento ao mesmo preço e em idênticas condições.

A fronteira entre a obsessão e a necessidade de conhecimento pode parecer, às vezes, um pouco turva. O industrial acreditava numa coisa: que no seu “gabinete” Ricardo Salgado tinha uma aliada, a sua irmã Maude Lagos. Dentro da Semapa, à volta de PQP, fala-se no “assalto à diligência”. Sendo accionista do GES (7%), o industrial sabia das divisões internas e que a família Espírito Santo sofria o impacto da mudança do ciclo económico. E preparou-se para um braço-de-ferro. Por essa altura, realizou-se uma reunião no conselho superior do GES onde PQP participou (apesar de não integrar a estrutura) e que estabeleceu a normalização do relacionamento entre os dois grupos.

2013. Nos primeiros meses do ano, são desencadeadas negociações. Salgado sugeriu, então, um pacto parassocial, onde reconhecia a liderança de PQP na Semapa, mas queria ter decisão em matérias estratégicas. O plano foi chumbado. Em contrapartida, PQP avançou com uma oferta de aquisição das acções do GES nas holdings familiares, que este recusou. O BES exigiu-lhe um prémio de controlo.

Mas a capacidade de manobra de Salgado estava diminuída e a partir daqui PQP vai jogar os trunfos todos. É corredor de automóveis, talvez não se importe, por vezes, de passar fora da curva, de ir até ao limite do risco. Uma tese que recusa com irritação: “Não tem que ver com os automóveis, é da minha natureza, da capacidade de formar equipas, de ter sócios, da vontade de empreender. Nunca pus em risco os activos do grupo, o que seria extremamente arriscado era não ter feito nada.” Insiste sempre: “O meu pai deixou aos filhos uma empresa, que eu multipliquei infinitamente, sem pedir um único euro aos accionistas, nunca houve um aumento de capital. Fiz tudo com o pêlo do cão [e dívida], com o que sobrou do 25 de Abril.”

Entretanto, a Cicleleader, sociedade dos primos Carrelhas, enviou uma carta ao industrial com um conjunto de questões sobre a operação do ano anterior, de venda, pela Cimipar, de 10% da Cimigest à Sodim. A resposta foi enviada em 15 dias. Só nessa altura é que os Carrelhas perceberam que a operação mudara a configuração accionista. Depois disso, formou-se uma “aliança” de interesses entre o BES, Maude e Carrelhas. A guerra com PQP tornou-se inevitável. Os momentos que se vão seguir são de grande litigância: a troika accionista disparou com 14 providências cautelares a pedir a anulação da venda das acções da Cimigest à Sodim.

Foi num quadro de aceleração que a 24, 28 e 29 de Maio , se sucederam as AG inflamadas no Grupo Queiroz Pereira e que resultaram na destituição de Maude Lagos dos órgãos sociais e no seu afastamento da Sodim, onde geria o Ritz e o Hotel Villa Magna, em Madrid. Em paralelo, continuavam as negociações que serão acompanhadas até ao final, do lado do BES e de Maude, por Francisco Cary, do BESI, e pelo advogado Luís Cortes Martins. Maude Lagos foi também assessorada por Gabriela Martins. Por seu turno, PQP atravessou-se com Fernando Ulrich (o BPI tem 10% da Semapa), que há quase duas décadas mantém com Salgado (de quem é, aliás, primo) uma relação distante que resultou de uma concentração falhada entre os dois bancos. Ricardo Pires e Miguel Ventura, colaboradores de PQP, acompanharam Ulrich. Já os Carrelhas indicaram o advogado Tito Arantes Fontes.

Julho. No dia de aceitação do grau de Doutor Honoris Causa, entregue pelo reitor do ISEG, Ricardo Salgado surgiu a mostrar grande respeito pela família Queiroz Pereira e pelas tradições “como parte do código genético do GES”.
Setembro. A comunicação social é por vezes usada como arma. Os adversários da Semapa, no GES, alegam que à mesa das negociações o industrial deixou um aviso: “Ou me dão o que eu quero, ou ponho uma equipa a colocar tudo nos jornais.” Inquirida sobre o tema, a Semapa negou-o. Mas todos terão sido “cúmplices” em esgrimir o mesmo argumento da comunicação social.
A 31 de Agosto, os conflitos internos no GQP começaram a ser descarregados no espaço público, depois de as primeiras acções e providências cautelares terem caído nos tribunais. O Expresso noticiou: “PQP é acusado pela irmã Maude de controlar ilegalmente o grupo. Este diz que o GES quer ficar com a Semapa.”

7 de Setembro. Ricardo Salgado estava de visita aos balcões do BES nos Açores quando mandou testemunhos de boa vontade: “O grupo quer ser parte da solução e não do problema.” Só que o BES preparava-se para descer à terra e juntar-se aos outros bancos para divulgar prejuízos (381 milhões de euros).

Outono. As maratonas negociais são um traço das guerras familiares. No Verão, o governador Carlos Costa dirigiu avisos a Salgado para que chegasse a acordo com PQP, de quem recebera mensagens com “muita informação”. E em Outubro, no pico da tensão accionista, o Mercedes topo de gama cinzento metalizado do industrial foi visto a estacionar à porta do BdP. PQP estava acompanhado de um colaborador “carregado” de documentação. Mau sinal. Os dois reuniram-se com o vice-governador Pedro Neves e o director José Queiró, com a supervisão prudencial. Uma fonte da instituição garantiu que do encontro nada transpareceu. Só que, a partir dali, Carlos Costa já não podia ignorar que tinha os dossiers em cima da mesa. O vice-governador chamou Salgado ao BdP a quem pediu esclarecimentos, que este terá dado. O BdP queria impedir que do confronto nascesse uma vulnerabilidade para o sector financeiro. Em paralelo, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, pediu a Eduardo Catroga que colaborasse no consenso.

Nesse período, existiu ao mais alto nível uma preocupação real de que do conflito pudesse resultar uma perturbação muito grave em dois dos maiores grupos portugueses, GQP e GES, com impacto na economia e, por arrastamento, na população. Um risco que não foi perceptível para a opinião pública porque, meses depois, Salgado e PQP assinaram o acordo.

Accionistas celebram a paz

Final de Outubro. Nesta fase, já as hostilidades tinham ultrapassado a mera dimensão da Semapa. Com a ida do industrial ao BdP, o núcleo duro dos problemas de Salgado passou a estar no coração do GES, onde se travava (e trava), em surdina, um combate entre primos direitos. A atitude desafiante de PQP, accionista do GES, com poder arbitral, contribuía para a estratégia anti-Salgado do presidente do BESI. Ricciardi e PQP têm, ainda hoje, uma relação menos infectada e, por vezes, assumem, nos negócios, estilos de actuação de pit bulls. Num contexto de luta de poder pela liderança do GES/BES, a acção de Ricciardi culminou (já depois do acordo entre Salgado e PQP) em declarações públicas de falta de confiança no presidente do banco, isto, horas depois de o Jornal de Negócios ter publicado um trabalho sobre a sucessão de Salgado — “O golpe de Estado ao estado de golpe no GES”. A família percebeu rapidamente que o diferendo, ao ser dirimido à vista de todos, arriscava tornar-se o folhetim do ano. E 24 horas depois retirou-o do espaço público com um comunicado assinado pelos dois primos direitos. Mas é evidente que as movimentações internas continuam e que o BdP está a vigiar o que se lá passa.

Finalmente, o acordo entre Salgado e Queiroz Pereira. O caminho que estava a ser trilhado já não interessava a nenhuma das partes. E beneficiou do “dedo” de Ricardo Abecassis Espírito Santo Silva, amigo de PQP, a viver no Brasil. Dizem que foi o luso-brasileiro que ajudou a desatar o consenso. Mas que foi José Maria Ricciardi quem apareceu a carimbar a paz. Parceiros há 80 anos, os grupos Espírito Santo e Queiroz Pereira selaram um pacto de separação de águas (o BES saiu do GQP e o GQP saiu do GES). Os Carrelhas aproveitaram e saltaram fora. Mas Maude Lagos só apertou a mão ao irmão um mês depois.

Há uma pergunta legítima: sem as divisões accionistas, sem as polémicas (Escom, Submarinos, Sobreiros, Monte Branco, Operação Furacão, Álvaro Sobrinho, escutas telefónicas, venda de acções da EDP, revisão da declarações fiscal por parte de Salgado, escutas a Ricciardi) e sem as contingências financeiras no GES, PQP teria tido margem de manobra para impor a saída do parceiro? Dificilmente. Se o cenário fosse mais favorável, presumivelmente, não haveria guerra interna no GES, os escândalos envolvendo Angola já teriam sido compensados de qualquer maneira. O mais provável é que Salgado ou não fechasse o acordo tão rapidamente ou forçasse PQP a vender as acções ou, ainda, que optasse por ficar na Semapa. O fim dos tumultos entre PQP e o GES, tal como o Expresso já divulgou, implicaram que PQP escrevesse uma carta ao BdP a garantir que as suas dúvidas sobre a má gestão do Grupo Espírito Santo estavam sanadas. E o BdP já pediu esclarecimentos ao BES para saber quais os efeitos patrimoniais do acordo com PQP.

Os mercados financeiros admitem que num futuro não muito distante se possa abrir outro capítulo, quando os três irmãos e os dois sobrinhos forem chamados a lidar com a herança da matriarca, Maud Queiroz Pereira, com 99% da Vertice e 30% da Sodim. De fora do acordo entre os dois irmãos e tal como defendeu Maude Lagos, ficou a Quinta de Vialongo, no Ribatejo, avaliada em muitos milhões de euros e onde cada herdeiro de Manuel Queiroz Pereira detém 25%. A mãe é a usufrutuária. Mas não é provável que o poder de PQP (que tem tido desde o primeiro momento o apoio da mãe, de quem é, aliás, muito próximo) seja de novo posto em causa. O industrial é, assim, aparentemente, o vencedor da guerra.


Problema? Qual problema? O mundo dos negócios é mesmo assim. O acordo entre PQP e a troika accionista (BES, Maude Lagos, Carrelhas) trouxe entre 150 e 180 milhões de euros e um compromisso: o silêncio. Hoje, quem ouvir qualquer uma das partes, em público, não pode deixar de ficar com a sensação de que a guerra nunca existiu. Oficialmente, a paz chegou, portanto. Nada de mais enganador.

O dilema do Bloco."Se não houver convergência de esquerda agora, daqui a uns anos não haverá país".Rui Tavares. Livre está a "quebrar tabus" à esquerda. A esquerda matrioska.


O dilema do Bloco
Por Ana Sá Lopes
publicado em 23 Dez 2013 in (jornal) i online

Vai ser difícil mas necessário o Bloco assumir que os tempos mudaram, para pior
Não é fácil estar em quase nenhum sítio nos tempos que correm, com a excepção da militância na direita muito liberal que se identifica com o pensamento dominante na Europa – os partidários do “custe o que custar” e do “ir além da troika”. Mas mesmo alguns destes já iniciaram o processo de descrença.
Estar no PS não é fácil, porque o PS sempre foi uma amálgama ideológica que de vez em quando encontra um sentido comum. Muitos militantes do PS não aceitam o destino defendido por Augusto Santos Silva, na entrevista de ontem ao “Público”, de que o PS se deve coligar com Miguel Macedo, Paulo Macedo, António Pires de Lima e até Assunção Cristas. Ou a proposta de que o PS deve fazer um novo bloco central PS-PSD enunciada por Carlos César na entrevista à TVI na semana passada. Nem Santos Silva nem César são elementos “seguristas” – o que torna divertida  aquela amálgama toda que se juntou para levar António Costa ao poder no PS, e a esperança de muitos que consideravam não ser António José Seguro suficientemente à esquerda.

Não é fácil ser do PS, mas é muito difícil ser do Bloco. Enquanto a máquina do PCP conseguiu cavalgar a crise, a inexistente máquina do Bloco paralisou-se. O Bloco foi um milagre por ter conseguido juntar o velho Partido Socialista Revolucionário com a União Democrática Popular, misturar com a Política XXI de Miguel Portas e apresentar um novo partido que se esforçou por “nascer duas vezes”, como diria o Presidente da República. O Bloco foi um milagre durante 14 anos, mas começou lentamente a decair. Francisco Louçã percebeu isso nas presidenciais de 2006 quando o candidato do BE ficou sem votos que engrossaram o “movimento alegrista”. Numa Europa minada pela configuração alucinada do euro, é muito difícil dizer qualquer coisa de esquerda que não se fique por um mero slogan destituído de adesão à realidade. A vantagem do surgimento de novos movimentos como o Livre ou o movimento 3D – basta ler a entrevista de Daniel Oliveira publicada nesta edição – é arranjar um programa que tenha a capacidade de seduzir novos eleitores exaustos de antigas propostas. Foi essa a lição do movimento alegrista.
O Bloco de Esquerda não pode deixar de se juntar a estas novas movimentações, sob pena de perder o discurso de convergência à esquerda e o resto. Vai ser difícil, mas necessário, o Bloco assumir que os tempos mudaram – para pior – e é preciso agir em conformidade.


"Se não houver convergência de esquerda agora, daqui a uns anos não haverá país"
Por Nuno Ramos de Almeida e Rita Tavares
publicado em 23 Dez 2013 in (jornal) i online

Com o Manifesto 3D, Daniel Oliveira, ex-dirigente do BE, quer um pólo à esquerda que impeça o PS de fazer um governo de bloco central
Em política, só é ouvido quem tem força, os que têm razão são muitas vezes ignorados - é esta a convicção do entrevistado. Considera que estamos perante um momento extraordinário que exige soluções nunca ensaiadas. O Manifesto 3D pretende a convergência do Bloco de Esquerda, Livre e independentes para obrigar o PS a governar com a esquerda, incluindo o PCP. Tudo se decide nos próximos meses.

PCP, Plataforma de Esquerda, Política XXI, Bloco de Esquerda e Manifesto 3D, o que é que falhou nesse percurso e porque pensa que vai resultar no Manifesto?

Estão-se a esquecer da Associação de Pais da Escola Secundária António Arroio [risos] e do Sindicato dos Jornalistas. É que nem tudo tem as mesmas características, há coisas que são partidos e outras que nunca o ambicionaram ser. Não vejo as organizações e os partidos como um fim em si mesmo. São instrumentos de intervenção política. Quando se olha para este percurso e se vê os anos em que as coisas aconteceram, percebe--se que corresponde a períodos políticos em que houve grandes alterações políticas. A minha passagem pela Plataforma de Esquerda, Política XXI, Bloco de Esquerda significa um processo numa mesma direcção de alguém que, saindo do PCP, se encaminhou para um espaço político para onde muita gente nesse período se foi aproximando, quando abandonou o comunismo. No caso mais recente, o 3D, não é, por enquanto, mais que um manifesto.

O Bloco de Esquerda falhou?

Eu não ponho as coisas assim.

Não lhe convém pôr as coisas assim...

Acho que não convém a ninguém neste momento pôr as coisas assim, mas o que diria é que o BE não conseguiu atingir os objectivos a que se propunha há 14 anos. Pelo menos do ponto de vista da representação de um espaço político bastante mais abrangente do que ocupa. Podemos dizer que também não conseguiu o seu propósito de desbloquear a esquerda, parece-me evidente que está mais bloqueada que há 20 anos. Mas há outras coisas que têm de ser valorizadas: teve a capacidade de dar expressão, na agenda política, a um conjunto de matérias e sectores que não tinham representação nem expressão.

E o declínio do Bloco é irreversível?

No meu entender os partidos são instrumentais. A mim o que me interessa saber não é se o declínio do Bloco é irreversível, mas se o espaço político em que ele está integrado está em perda de força irreversível, e isso acho convictamente que não, e que há mesmo todas as condições para que se reforce.

Quais as razões que impedem o Bloco de corporizar esse crescimento?

A política tem um lado racional e tem também um lado emotivo, acho que o Bloco perdeu a capacidade de seduzir e encantar as pessoas. Às vezes isso pesa mais do que as ideias que se defendem. E depois aconteceu ao Bloco aquilo que aconteceu ao conjunto da esquerda, há uma crise que mudou tudo. Mudou a exigência do discurso sobre a Europa, as ideias sobre a economia, e aí não vou ser injusto com o Bloco, acho que ninguém foi ainda capaz de estar à altura desta situação. Apenas o PCP respondeu melhor, porque o seu discurso sempre foi anti-europeista, com matizes e nuances, e adapta-se melhor a esta situação. O Bloco e o resto da esquerda, nomeadamente os sectores do PS que têm posições à esquerda, tem dificuldades muito maiores, já que o discurso que tinham sobre a Europa não bate certo com a realidade de hoje.

Como é possível pretender juntar sectores que têm um entendimento tão divergente sobre a Europa? Uns são a favor do euro, outros contra. Uns querem aprofundar a integração, outros a soberania dos Estados.

Se falarmos do euro e do escudo, acho que não há consenso em nenhum partido da esquerda sobre esta questão, e as pessoas estão nos mesmos partidos. Estamos numa fase da política em que é muito difícil construir a unidade e fazer consensos em torno de respostas acabadas a esta crise. Eu tenho discussões com pessoas com quem tenho posições políticas muitos próximas em quase tudo, mas sobre o euro temos posições diametralmente opostas. Acabaremos por nos encontrar.

Mas para fazer o quê?

As unidades, tanto à esquerda como à direita, e ao contrário do que as pessoas pensam, começam sempre pela negativa. Começa-se sempre por definir o que não se quer. É assim que se constrói uma concordância. Nós unimo-nos na democracia, não é porque todos temos a mesma concepção de democracia, mas porque há uma coisa em que todos os que defendem a democracia estão de acordo: não querem uma ditadura.

Independentemente disso há coisas que separam politicamente as pessoas desta área, poderia estar no Livre com o programa europeísta que eles têm?

Como aderente não poderia estar, mas eu não estou a batalhar pela criação de um partido político, estou a bater-me por uma convergência. Não estou no Livre ou no BE, mas isso não me impede de querer a convergência com esses partidos. Uma coisa é concordar com a totalidade de um programa, outra é conseguir pontos de entendimento comuns. O Manifesto 3D define bem essas fronteiras e não são muito abrangentes: somos contra o Tratado Orçamental, contra a política austeritária e pela renegociação da dívida.

Como é possível convergir para construir um novo pólo político nas europeias quando a grande questão da manutenção da moeda única, associada a este modelo de integração, fica de fora?

A grande questão é a austeridade. É possível um grupo de pessoas ser contra a austeridade e ser pela renegociação da dívida e, para isso, não é preciso concordarem que a consequência disso será uma eventual saída do euro. Aliás, eu estou infelizmente convencido que Portugal sairá do euro sem ser por vontade própria. Não acho que seja programa político de ninguém a saída do euro, mesmo o PCP, que é o partido que está mais próximo disso, não defende a saída do euro. Não a enjeita, o que é diferente. Acho que é perfeitamente possível construir um programa comum de esquerda para a Europa sair da crise agora.

O aparecimento do 3D não vai desunir ainda mais a esquerda com mais uma formação?

Não. O 3D não pretende ser um novo partido, mas um manifesto que apela à convergência de forças numa determinada área política.

O PCP não se enquadra nessas fronteiras? Porque não o convidaram ?

Do meu ponto de vista, o PCP caberia nesse espaço. Não digo o mesmo do PS, devido à necessidade de, nesta fase, criar um pólo à sua esquerda. Mas o PCP tem deixado sempre claro que a sua estratégia eleitoral é apresentar-se às eleições com os seus aliados tradicionais.

O mesmo declarou o Bloco em Convenção...

Há uma diferença: o PCP expressa essa vontade, não como decisão para umas eleições, mas como estratégia continuada, como um elemento de cultura política que acho respeitável e legítimo. As pessoas do Manifesto 3D poderiam ter falado com o PCP e recebido a resposta que normalmente os comunistas dão nestas circunstâncias e toda a gente sairia contente por ter feito a sua parte. Estas coisas devem ser feitas com sinceridade. As pessoas do manifesto tiveram contactos com aqueles que sinceramente acreditavam que podiam estar disponíveis para isso, respeitando posições diferentes como as do PCP, e sabendo que isto não é o fim do caminho. No Manifesto 3D consideramos que não há respostas políticas a esta situação que não passem por um governo democrático e patriótico que, obviamente, precisa do PS e do PCP.

É uma mistura nunca feita, como é que faz uma convergência de governação, começando por aí?

Já foram feitas convergências de governação à direita, nunca foram feitas foi à esquerda. Estou absolutamente convencido que não havendo essa convergência agora, não haverá daqui a alguns anos país para governar.

De que forma institucional e política poderia ser feita essa convergência?

Eu acho sempre mau nestas coisas começar a contar pelo fim.

Mas é uma questão de clareza.

Acho muito bem que o PS vá às urnas sozinho. Uma convergência não tem de ser pré-eleitoral.

É unirem-se para fazer algumas reformas?

O PS, naturalmente, depois das próximas eleições, que todas as sondagens dizem que ganhará, fará um bloco central. É para isso que o empurra uma elite que quer que o preço da austeridade não seja paga por si, porque o bloco central permite ao PS não fazer rupturas que são necessárias como negociar com a troika, que são mais desconfortáveis para o PS do que limitar-se a gerir a crise... Portanto, o PS só governará com a esquerda - não é com a ajuda da esquerda, mas com a esquerda -, se à sua esquerda existir um pólo tão forte que tema. É tão simples como isso, uma das razões por que o PS governa à direita é que não tem medo do que está à sua esquerda.

Um cenário em que esse pólo mais o PCP tenham 30% impede um governo de bloco central?

Não sei se será obrigado, sei que terá muito mais dificuldade de governar em bloco central. A esquerda do PS está sub--representada. Há um sector muito razoável da população que não concorda com a política de austeridade e que não vê no PS uma alternativa clara nesse capítulo. Esse sector tem de ser representado para contar para a governação. O PS só não sucumbirá como o PASOK na Grécia se perceber que à sua esquerda existe um pólo político que seja um interlocutor. E isso exige três coisas: que queira ser interlocutor, queira participar na governação, não é ser a flor na lapela de ninguém. Governar...

Ter ministros?

Com certeza, governar, governar, governar. Não concebo de outra forma, governar é estar no governo. Dois, que tenha força para negociar o programa do governo. Partidos com 2, 5 ou 7% não negoceiam, como aliás se vê pelo CDS, isso partindo do princípio que eles queriam negociar alguma coisa para além do número de ministros... Este grupo de independentes, do manifesto 3D, percebe que existe um sector da sociedade que está sub-representado e que é necessário para formar uma alternativa patriótica e democrática. Parece uma coisa muito abrangente mas não é, significa cidadãos que não aceitam que, em nome de um momento de excepcionalidade, o país perca a soberania popular - não se trata de nacionalismo. O governo depende do povo e governa para o povo. Não depende da troika e não governa para a troika ou qualquer outra instituição.

Para isso, está a contar com o mesmo PS que assinou o Memorando e que se estivesse no governo o executaria?

Tenho a profunda convicção que este PS nunca poderá ser o mesmo, caso contrário desaparecerá. O PS que assinou o Memorando já o enjeita. Eles terão a sua justificação para ter assinado o Memorando da troika, mas o discurso político do PS não diz que ele é bom, afirma que é mau. Na realidade, tirando Pedro Passos Coelho e meia dúzia de lunáticos que gravitam à volta dele, não há ninguém neste país que diga, como diziam no início, que o Memorando responde às necessidades do país. Hoje não é só a apreciação do PS que mudou, mas a do próprio país. A opinião do país sobre a troika já não é a mesma.

Como é possível juntar-se a um PS que continua a ser o partido que assinou o Memorando?

Vou responder a título pessoal. Eu não farei depender as convergências governativas necessárias do ajuste de contas com o passado, o combate pela soberania nacional e pela democracia deste país até terá de contar com algumas pessoas à direita. Reconheço nessas pessoas, que têm posições muito diferentes das minhas, sinceros sentimentos patrióticos e que estão enojadas com a posição que este governo tem tomado.

Como é que um país periférico como Portugal pode forçar os seus credores a fazer uma outra política?

A questão tem de ser posta ao contrário: o que é que vai acontecer se continuarmos a fazer o que eles querem? Vai haver um momento em que teremos de parar porque esta dívida é impagável. Era preciso crescermos a 4% ao ano para podermos satisfazer os encargos da nossa dívida. Há uma escolha que nos é apresentada que não existe: pagamos ou não pagamos? A escolha está feita, há um momento em que não poderemos pagar e a questão é como gerimos esta inevitabilidade. Há quem ache que a melhor maneira é esperar por esse momento, quando o país já não existir. E há quem ache que a primeira coisa que se deve fazer é ir ter com os credores e renegociar a dívida. Aí as condições políticas não são irrelevantes: quem quer renegociar a dívida tem de estar disponível para usar todos os instrumentos que estão à sua mão. Isto significa que terá de entrar em confronto com a troika. Se tivéssemos sido suficientemente firmes já teríamos conseguido renegociar parte.

Essa resposta está no quadro nacional e não no quadro europeu?

Grande parte da resposta está no quadro europeu, mas há uma coisa que não se pode fazer em política, é concentrar--nos nas respostas que não dependem de nós. Devíamos ter encontrado na Europa aliados que têm os mesmos problemas que nós, mas há uma coisa que não podemos fazer que é dizer que a solução não depende de nós, porque isso é o que dizem os defensores da troika: fiquem quietos num canto que a solução será o que Deus quiser, aliás, o que a Merkel ordenar. Nós temos de ter outra atitude, sermos firmes com a troika e estarmos disponíveis para as consequências. Um governo só poderá fazer isso se tiver um enorme apoio popular. Não é possível renegociar a dívida com um governo que não tem a confiança dos cidadãos.

Neste campo de convergência governativa caberia José Sócrates?

Quando eu evito fazer estes números, não tem a ver com cautelas de não ser associado a fulano ou beltrano, acho que não devemos estar a fechar à partida um campo que está em mutação. Eu nunca pensei na minha vida estar a escutar Bagão Félix na televisão e estar a acenar a cabeça em concordância. Ou estar de acordo com as intervenções da Manuela Ferreira Leite, que eu trato por brincadeira como a minha camarada Manuela Ferreira Leite. Não estou a dizer que se tenha diluído a distinção entre esquerda e direita, acho até que está mais forte, mas a política sempre se fez de alianças circunstanciais e, neste combate, temos de unir o máximo de pessoas.

Qual a lógica de excluir à partida o PS desse pólo para as europeias, quando afirmam que é necessário que quando o PS, tal como indicam as sondagens, ganhar as eleições os tenha de ouvir para o governo?

Só nos vai escutar se tivermos força eleitoral. Na política ninguém ouve ninguém por achar que o outro tem razão. As pessoas são ouvidas porque têm força política. Nós não excluímos o PS, o que o Manifesto do 3D diz é que queremos unir aquilo que pode ser unido agora, para próximas eleições, que são daqui a poucos meses.

Mas são conhecidas as posições do PS e de António José Seguro sobre a renegociação da dívida...

Eu desconheço as posições de António José Seguro sobre esta matéria - eu e o país -, de qualquer forma acredito que a reestruturação da dívida vai ser inevitável. No dia em que o PS chegar ao governo vai ter de tomar posição sobre isso: ou reestrutura a dívida ou não o faz. E se não fizer não fará nada de diferente deste governo. Esta é provavelmente a minha maior divergência com gente do PS, é que não há austeridade devagarinho. A alternativa à reestruturação da dívida é o programa de Vítor Gaspar. O governo tem muitos incompetentes, mas não está a fazer esta política da troika por incompetência. Está a fazê-lo, porque ou é isto ou é a reestruturação da dívida. E isto é sacar o máximo dinheiro ao país enquanto ele tiver condições para pagar.

De que maneira esse pólo se pode constituir sem ser um bluff? Se o BE não quiser, se o Livre não lhe apetecer, para os forçar tem de ir a jogo?

Querem que responda com toda a sinceridade? Não respondo. Isso seria fazer um jogo, responder a isso agora seria um jogo. Depreenderia que eu já tinha, coisa que não tenho, um plano B para se cada um disser que não. Do meu lado, enquanto cidadão Daniel Oliveira, mais nada digo. Do comportamento de cada um tirarei as minhas conclusões. Agora, não me teria envolvido nisto se não estivesse profundamente convicto de que quer o BE, quer o Livre, quer todas as pessoas com quem falámos farão um sincero e honesto esforço para que isso seja possível. Sei que não basta vontade, mas sei que farão esse esforço com todas as dificuldades que eu conheço nestas escolhas. A dificuldade de os cidadãos independentes quererem continuar a ser independentes, a dificuldade de um partido como o Livre, que se está a afirmar, as dificuldades do BE, que tem uma história e quer preservá-la. Do meu ponto de vista, não é bluff, mas não tenho plano B, porque nem pensarei nele enquanto não se esgotar o plano A.

Se não tiver sucesso baixam os braços?

Posso falar por mim: não. Aí, no caso das europeias, tomarei posição como cidadão. Não desisto que haja um espaço político que tenha a representação que acho que merece do ponto de vista social. Nem o Livre nem o BE preenchem esse espaço?

Sozinhos não. Acho que fazem parte desse espaço e estou absolutamente confiante de que vão fazer parte desse espaço. Estar a antecipar a falta de vontade seria contribuir para ela e passar um atestado de menoridade a essas organizações.

Têm a consciência de que só com a ameaça de que vão concorrer com elas as podem pôr a pensar? Há bocado disse que só falarão convosco se tiverem força.

Estava a falar do PS.

Mas para o Bloco falar com vocês, têm de ter força?

Já falámos e estão a falar.

Porque têm razão ou força?

Acho que pelas duas coisas. Acho que essa força já se exerce de uma forma evidente. Tendo sido os promotores iniciais os que foram, e estando esta posição a ter a reacção que teve, as várias organizações com que falámos percebem que está aqui o seu povo e não se fazem partidos sem povo. Que uma coisa destas vá a bom porto é uma vontade a que estas organizações não são insensíveis, porque os partidos têm características próprias mas não são insensíveis ao exterior. E até ao seu próprio interior.

Se o BE não aceitar este desafio...

[Interrompe]... vocês telefonam e marcam uma entrevista outra vez [risos].

... Isso pode significar uma cisão grave no Bloco?

Isso é que seria um abuso da minha parte. Eu não sou... deixei de ser militante.

Há falta de clareza em alguns dos vossos protagonistas. Num dia temos uma notícia a dizer que é um pólo para se apresentar às europeias, com Carvalho da Silva. No mesmo dia, temos Carvalho da Silva a dizer que não.

O que ele disse, e com toda a legitimidade, foi que não estava na origem de nenhum movimento. Eu também não. O que por enquanto existe é um manifesto.

Não foi pela palavra movimento ou manifesto que ele desmentiu. Desmentiu que fosse protagonista e cabeça de lista às europeias.

Isso até eu desminto. E por duas razões: não é e porque seria de uma enorme arrogância de quem está a falar com os outros para construir um pólo político para as europeias que ainda dissesse quem é o cabeça de lista.

Jorge Costa, do BE, disse que faltava ainda haver coisas mais definidas neste manifesto, sobretudo em matéria de europeias. O que não está claro?

Se a ideia é fazer com outros, faria pouco sentido ter coisas definitivas.

Agora ficam à espera de resposta?

Não, agora, até princípio de Janeiro, vamos fazer uma grande recolha de assinaturas e estabilizar o manifesto e quem o pode representar.

Em Fevereiro há candidatos de outros partidos. Qual a vossa urgência?

Um processo de convergência tem Fevereiro como o momento em que as coisas têm de estar suficientemente claras na cabeça de todos.

Como seria o modelo possível de congregação desse pólo?

O modelo jurídico tanto faz.

Nas europeias é determinante, já que só se podem candidatar partidos.

É o último assunto que deve ser discutido. E não vou dizer que é simples, é complicado. É talvez o mais difícil de resolver, mas o menos importante. Quando se quer convergência deve haver método e espaço, só no momento em que for claro que há vontade para fazer isto e os moldes políticos em que deve ser feito, faz sentido começarmos a ter o debate mais difícil. Começar por aí é perder tempo num debate que, se isto não começar, nem vai ser necessário. Os canais de diálogo já estão abertos.

A necessidade de convergência à esquerda é necessário que se mantenha até às presidenciais de 2016?

Estou-me nas tintas para as presidenciais de 2016. Nessa altura já este governo fez tudo o que tinha para fazer. Para intervir politicamente não espero pelo momento em que a privatização das águas já foi feita, onde a privatização da TAP já foi feita, onde Nuno Crato já acabou de destruir a escola pública.



Rui Tavares. Livre está a "quebrar tabus" à esquerda
Por Catarina Falcão
publicado em 23 Dez 2013 in (jornal) i online
Projecto recolheu até agora 5000 assinaturas das 7500que tem de entregar no Tribunal Constitucional

Ainda não não é um partido, mas para Rui Tavares o Livre já está a "quebrar tabus" à esquerda e a abrir caminho para novos entendimentos. O surgimento de movimentos como o 3D - subscrito por nomes como Daniel Oliveira e Carvalho da Silva - é prova disso. "Portugal é dos países com maior distância entre as duas pontas da esquerda e se há essa distância toda é porque há um espaço da população que não se sente representada. Quando avançámos com o projecto do Livre quebrámos um tabu. A partir daí as pessoas começam a dizer muito mais o que pensam. E é mais difícil justificar agora porque é que as direcções partidárias não se entendem", diz ao i Rui Tavares.

O Livre recolheu desde 16 de Novembro, dia em que foi anunciado, e até ao último sábado, mais de quatro mil assinaturas - para se constituir como partido precisa de 7500. A contagem oficial foi o momento solene da Assembleia Constitutiva realizada no sábado: 4382 assinaturas. Números que o eurodeputado actualizou ontem, referindo que, após a entrega de assinaturas realizada durante a reunião, há agora cinco mil subscritores. O projecto encabeçado por Rui Tavares já tem estatutos e quer, até 31 de Janeiro, ter todos os requisitos preenchidos para se tornar um partido político.

Na reunião, mais de uma centena de pré-filiados e apoiantes do Livre encheram uma sala na Baixa de Lisboa para aprovarem as regras de funcionamento e discutir os próximos passos deste projecto político. A reunião serviu também para aprovar os estatutos. O Livre terá primárias abertas para escolher as listas de candidatos às eleições e porta-vozes temáticos que falarão em nome do partido sobre matérias específicas. Estes porta-vozes são determinados pelo Grupo de Contacto - órgão executivo do Livre - consoante os temas de interesse na política nacional e europeia, não havendo assim a figura de um único líder partidário.

REVIVER O 31 DE JANEIRO Rui Tavares espera conseguir reunir todos os elementos necessários para o Livre ser reconhecido como partido a 31 de Janeiro, dia para o qual foi marcado o congresso fundador, que decorrerá no Porto. Uma data que pode permitir ao Livre ser aprovado a tempo pelo Tribunal Constitucional e conseguir entrar na lista de partidos candidatos às eleições europeias, a 25 de Maio próximo.

O eurodeputado recusa que esse seja o objectivo, mas diz que o Livre não tem medo de eleições, tem " discurso europeu" e "programa para cinco anos em Bruxelas". "Este não é um partido para as europeias, mas estas podem ser as europeias para um partido e podem ajudar-nos a existir", diz Rui Tavares.


Caso não consiga a aprovação do Constitucional, isso não será um drama, aponta o eurodeputado: "Se não pudermos ir às europeias não há problema nenhum. Para nós o que é importante é que uma corrente de opinião de esquerda social, ecológica e libertária pela democracia europeia não existia em Portugal e isto é uma coisa que vai ressoar junto de muita gente. Se não formos, pelo menos acaba a história de sermos um partido para as europeias".



OPINIÃO
A esquerda matrioska
JOÃO MIGUEL TAVARES 19/12/2013 – in Público
Tal como os óculos 3D do cinema, o manifesto 3D filtra a realidade, esbate os contrastes e simula uma profundidade que não existe.
A esquerda portuguesa decidiu que era hora de agir e convergir. E o primeiro passo para a convergência foi a divergência de iniciativas e de projectos.

A nossa esquerda tem um carácter tão buliçoso que é possível que os vários movimentos/partidos que agora estão a alourar venham em breve a desentender-se sobre quem deseja mais o entendimento. Por exemplo, eu pensava que o novo partido de esquerda que desejava a convergência era o LIVRE, do Rui Tavares. Mas, de repente, eis que surge um novo “pólo político” de esquerda, de Daniel Oliveira et al., que ainda deseja mais a convergência do que o LIVRE, na medida em que quer convergir com o próprio partido LIVRE, embora o LIVRE ainda não seja um partido.

Confusos? Juntem-se ao clube. Uma pessoa põe-se a ler o ainda fresquíssimo “roteiro para a convergência” do LIVRE e descobre que para o partido que ainda não é partido essa é uma questão “primordial”. Uma pessoa põe-se a ler o “manifesto 3D” dos 65 senhores-que-não-estão-filiados-em-partidos-mas-são-super-de-esquerda e descobre que para o movimento que não é movimento essa é uma questão central. Pergunta ingénua: mas então porque é que aqueles 65 senhores não aderem antes ao LIVRE, que chegou primeiro, tendo em conta que todos defendem o chuto no rabo da troika, a perfeição da Constituição, o socialismo e – ponto muito importante – a acção política e a possibilidade da governação?

A única resposta possível é esta: porque o LIVRE não é suficientemente convergente na sua convergência. O LIVRE é apenas um partido enquanto os 65 em 3D são um “pólo”. Ora, pelos vistos, no jogo “pedra, papel ou tesoura” da esquerda portuguesa, o “pólo” ganha ao partido. Daniel Oliveira embrulha Rui Tavares. Significa, então, que os 65 em 3D não vão de certeza fundar um partido, em nenhum momento da História de Portugal? Eehrrr… não é bem assim, até porque existe o problema de listas de cidadãos independentes não poderem concorrer a eleições europeias nem legislativas. A solução encontrada por Daniel Oliveira, que em tempos já defendera no Expresso a necessidade de um “novo sujeito político”, tivesse ele “a forma de movimento, frente, coligação ou qualquer outra coisa” (o “qualquer outra coisa” era o “pólo”), é esta: “Começamos pela vontade e pelo conteúdo, depois iremos à forma.”

Começar pela vontade e pelo conteúdo e depois ir à forma poderia perfeitamente ser o lema inscrito no brasão da esquerda portuguesa. Porque eles querem todos o mesmo, mas não querem todos o mesmo da mesma maneira. Daí que aquilo que se está a passar neste momento seja a esquerda matrioska elevada à sua máxima potência – uma boneca russa tamanho XL, cheia de outras bonequinhas no seu interior. Embora vistas de fora pareçam todas iguais, cada uma delas preza muito a sua identidade: os 65 em 3D gostariam de englobar o LIVRE, a Renovação Comunista e o Bloco de Esquerda, que por sua vez engloba, como se sabe, o PSR, a UDP, e a Política XXI, que por sua vez engloba dissidentes da Plataforma de Esquerda e do MDP/CDE. É uma canseira de gente para convergir.

Não há boas notícias no meio disto? Há, claro. “Manifesto 3D” é um nome perfeito: tal como os óculos 3D do cinema, o manifesto 3D filtra a realidade, esbate os contrastes e simula uma profundidade que não existe. Com os óculos postos, pode ser divertido. Mas quem insistir em ver as coisas como elas são lá terá de ver a nossa esquerda como ela é: bastante colorida mas completamente desfocada.

Energias renováveis e ambiente.

OPINIÃO
Energias renováveis e ambiente
EUGÉNIO VIASSA MONTEIRO 23/12/2013 – in Público

As formas renováveis do sol e vento, embora ainda na sua infância, merecem atenção para se tornarem mais atractivas.
Surpreendo-me positivamente quando países pobres, lutando pelo crescimento económico, mostram um apurado sentido de responsabilidade para não deixar piorar a poluição ambiental. Ela está marcada pelos elevados níveis de consumo de energia dos países ricos, que deveriam responsabilizar-se mais seriamente.

A par de outros meios de produção de energia para suportar as necessidades, a Índia tem levado à prática um plano muito ousado e mesmo dispendioso, recorrendo às energias renováveis – algumas das quais ainda nem sequer alcançaram o seu estádio de maturidade técnica e económica –, e a outras formas menos poluentes, fugindo, na medida do possível, do carvão, do qual possui reservas inesgotáveis. Recorre assim:

– À energia solar, da qual tem já instalados mais de 1800 MW (em 2012), querendo chegar a 10.000 em 2017 e a 20.000 em 2022. Para além das centrais em construção, o Governo propôs quatro grandes centrais de energia solar: uma em Rajhastan (4,000 MW), outra em Gujarat (4,000 MW), a terceira em Kargil (2,000 MW) e a 4.ª em Laddakh (5,000 MW), com um investimento total de $15.000 milhões de dólares. O que vai aprendendo das centrais em funcionamento, precisa de um forte impulso da Investigação, pelo que se criou um Centro de Investigação deste tipo de energia, para acelerar os aperfeiçoamentos e economia que levem à integração de mais potência solar.

– À energia eólica, com os seus 19.800 MW instalados (em 2012), esperando instalar mais 6.000 até 2014. Actualmente corresponde a 8,5% da potência instalada e apenas produz 1,6% da energia consumida. Tem um comportamento irregular, com baixo factor de utilização. Ter mais horas de funcionamento ao ano e com melhor nível de transformação exige mais investigação. É uma alternativa que resolve pequena parte do problema, mas não se pode desprezar.

– À energia hidráulica, da qual estavam instalados e em exploração 37.400 MW em Junho de 2013. E vai-se instalar mais 10,900 até 2017, com fortes investimentos em barragens e centrais de geração. É um meio de produção que encontrou opositores, sobretudo porque a deslocação de pessoas das suas casas e de terras agrícolas de subsistência não eram devidamente compensadas, originando protestos por causa do abandono a que eles eram votados.

– À energia nuclear, da qual entrou em funcionamento a 20ª central, com a potência de 160 MW que será gradualmente elevada até aos 1.000 MW no seu estádio definitivo. As outras centrais antigas são, ao que parece, todas da fileira de água pesada, de 250 MW cada, que permitem produzir material físsil, geralmente o plutónio, a partir do urânio. Totalizarão os 5780 MW nas 20 centrais.

Além disso, a India utiliza energia das centrais térmicas a carvão e a gás. Infelizmente, tem sido lenta a desenvolver esta última fonte de energia, por não ter havido uma legislação adequada que atraísse investidores. Alguma intervenção inteligente, com conhecimento da tecnologia e do mercado, seria útil para se fomentar a descoberta e exploração de mais gás, tanto na costa ocidental, mas sobretudo na oriental da península indostânica.

As centrais alimentadas a carvão contam com 57% da capacidade instalada (só para comparação: a Africa do Sul tem 92%, a China, 77% e a Austrália, 76%). A potência hidroeléctrica conta com 20% do total; outras formas renováveis, com 13%. O gás natural tem cerca de 10%.

O total da potência de todas as variantes é de 227 356 MW. As instalações cativas de geração de energia totalizam mais 34.444 MW. A India está em vésperas de legislar sobre a extracção do gás de xisto, muito explorado nos EUA. As formas renováveis do sol e vento, embora ainda na sua infância, merecem atenção para se tornarem mais atractivas. E fica no imediato o recurso à hidráulica, ao carvão, ao gás e ao nuclear.


Professor da AESE e Presidente da AAPI