Reconquista:
os bastidores do movimento ultranacionalista que é alvo do Ministério Público
Afonso
Gonçalves, o fundador do grupo, começou o projeto nas redes sociais, recrutou
seguidores e já organiza congressos à porta fechada. O seu discurso é feito de
elogios sistemáticos à ditadura e referências diretas a Salazar. Durante
semanas, a Investigação SIC acompanhou o movimento que quer “reconquistar
Portugal”.
Querem
deportar imigrantes, elogiam a ditadura e já defenderam que as mulheres não
devem votar. Chamam-se Reconquista e querem transformar o movimento num
partido. A Investigação SIC entrou nos bastidores deste grupo extremista e
descobriu que o Ministério Público investiga não apenas as suspeitas de
incitamento ao ódio, como também os donativos. Há transferências feitas por
polícias, militares e por dezenas de dirigentes do Chega.
Afonso
Gonçalves tem 26 anos, nasceu em Leiria, cresceu em Fátima, estudou num colégio
católico e é agora aluno de ciência política na Universidade Católica
Portuguesa.
Apresenta-se
como católico e ativista e é o fundador de um grupo ultranacionalista à direita
do Chega.
Diz que olha
para a frente, que é liberal na economia e conservador nos costumes.
Em
entrevistas, já admitiu que as mulheres não devem votar e que a
homossexualidade "é uma depravação e uma doença".
Afonso
Gonçalves entende também que a imigração é o grande problema do país. Ideias aplaudidas
por homens e mulheres que trazem para o presente as ideias do passado.
O discurso
de Afonso Gonçalves é feito de elogios sistemáticos à ditadura e referências
diretas a Salazar.
O grupo do
qual é presidente, o Reconquista, foi criado em 2023. Começou como projeto de
redes sociais, recrutou seguidores e já organiza congressos à porta fechada.
Agora, aceita mostrar-se a uma televisão.
Durante
semanas, a Investigação SIC entrou nos bastidores do movimento de Afonso
Gonçalves. Estivemos em manifestações, jantares e lançamentos de livros.
Os apoiantes
são, sobretudo, homens jovens, mas também há mulheres. Entregam donativos e
pagam para estar presentes, bem como para seguir a palavra do líder.
Ministério
Público investiga líder do Reconquista
O movimento
extremista quer, agora, transformar-se num partido.
Se lá
chegar, Afonso Gonçalves será um líder partidário investigado pelo Ministério
Público.
O
Departamento de Investigação e Ação Penal do Porto abriu um processo em 2024,
tendo pedido à Polícia Judiciária para avançar.
A
investigação começou com a invasão do grupo a uma pequena sala de culto
muçulmana em Vila Nova de Cerveira, mas agregou outras suspeitas e não parou de
crescer.
A 6 de julho
de 2025, Afonso Gonçalves é detido pela PSP em Almada. São apreendidos dois
megafones e um telemóvel.
Nos
documentos a que tivemos acesso, as autoridades falam de "provocação"
de uma tentativa de criar um ambiente de perturbação e confusão.
Afonso de
Jesus Ferreira Gonçalves é constituído arguido e fica com termo de identidade e
residência.
Afonso
Gonçalves aceitou falar com a SIC
Na altura
decidiu não prestar declarações, no entanto agora aceita falar com a SIC.
Apesar de
manter a maioria do discurso, tenta demarcar-se de algumas declarações. Não
esconde que é arguido, mas diz que está a ser alvo de perseguição.
A
investigação está centrada nos crimes de discriminação e incitamento ao ódio e
à violência.
A
Investigação SIC teve acesso a documentos que mostram que a PJ esteve
especialmente atenta a este evento.
O terceiro
congresso do grupo Reconquista foi a 8 de novembro de 2025 no pavilhão
desportivo do Maia Sport. Além de Afonso Gonçalves, a plateia pôde ouvir
oradores estrangeiros. Estão todos associados a movimentos de extrema-direita.
O Ministério
Público entende a presença dos convidados estrangeiros como uma aproximação do
grupo português a movimentos extremistas semelhantes implantados noutros
países.
O Relatório
Anual de Segurança Interna não fala de grupos concretos, mas as autoridades
dizem que têm assistido a uma forte presença online de movimentos nacionalistas
com líderes carismáticos que estão a atuar como verdadeiros influenciadores.
O Relatório
relaciona o fenómeno com o aumento e normalização do discurso de ódio e da
violência online e offline.
Vários
nomes ligados ao Chega já fizeram doações
O
Reconquista cresce de ano para ano e está sustentado em donativos. O dinheiro
permite organizar jantares, encontros e congressos.
Uma das
transferências é feita por Frederico José Abranches Valy Resende. O nome
corresponde ao de Frederico Tropa, nomeado em 2022, 2024 e novamente em 2025
para o cargo de assessor político do grupo parlamentar do Chega.
Na lista de
transferências surge também Francisco Pereira Araújo, assessor do grupo parlamentar
do Chega e vice-presidente da Juventude Chega no Porto. Foi um dos oradores do
congresso organizado pelo Reconquista.
E há mais
nomes ligados ao partido. Mónica Manuela Jerónimo Lopes, eleita deputada
municipal do Chega em Braga, Rui Paulo Azevedo dos Santos, eleito pelo partido
para a Assembleia de Freguesia da Charneca de Caparica e Sobreda, que surge em
duas transferências, e Eunice Cristina Rodrigues Ramos, que integrou, em 2022,
a lista apresentada pelo Chega para o Conselho de Estado.
Há ainda uma
transferência de Frederico Jorge de Barros Pereira Antunes, vereador eleito
pelo Chega em Benavente e vice-presidente da distrital de Santarém.
E outra de
José Pedro Ribeiro Proença Ribeiro, que foi delegado às convenções nacionais do
Chega em 2023 e 2024.
O Chega não
tem qualquer ligação oficial ao Reconquista, mas o movimento já foi
publicamente considerado um aliado por Pedro Frazão, vice-presidente do
partido.
Afonso
Gonçalves até pode ter sido detido e até pode ter tido as contas bloqueadas,
mas não quer desistir do movimento que está a recrutar jovens para
"reconquistar Portugal".
Ficha
técnica
- Jornalista: Diogo Torres
- Imagem: Rogério Esteves, João
Lúcio e Luís Nobre Botas
Com
- Jornalista: João Tiago
- Imagem: António Cunha, Rafael
Homem, Caetano Jorge, Luís Silva, José Vaio e José Ribeiro
- Edição de imagem: Margarida
Borges Martins
- Grafismo: Pedro Morais e Isabel
Cruz
- Produção: Mariana Oca Ferreira
- Coordenação: Luís Garriapa
- Direção: Marta Brito dos Reis e
Bernardo Ferrão
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