sexta-feira, 30 de outubro de 2026

AFONSO GONÇALVES REAGE A REPORTAGEM DA SIC! / SIC NOTICIAS: Reconquista: os bastidores do movimento ultranacionalista que é alvo do Ministério Público

 


Reconquista: os bastidores do movimento ultranacionalista que é alvo do Ministério Público

Afonso Gonçalves, o fundador do grupo, começou o projeto nas redes sociais, recrutou seguidores e já organiza congressos à porta fechada. O seu discurso é feito de elogios sistemáticos à ditadura e referências diretas a Salazar. Durante semanas, a Investigação SIC acompanhou o movimento que quer “reconquistar Portugal”.



Diogo Torres

https://sicnoticias.pt/programas/investigacao-sic/2026-10-28-video-reconquista-os-bastidores-do-movimento-ultranacionalista-que-e-alvo-do-ministerio-publico-acc55718

 

Querem deportar imigrantes, elogiam a ditadura e já defenderam que as mulheres não devem votar. Chamam-se Reconquista e querem transformar o movimento num partido. A Investigação SIC entrou nos bastidores deste grupo extremista e descobriu que o Ministério Público investiga não apenas as suspeitas de incitamento ao ódio, como também os donativos. Há transferências feitas por polícias, militares e por dezenas de dirigentes do Chega.

Afonso Gonçalves tem 26 anos, nasceu em Leiria, cresceu em Fátima, estudou num colégio católico e é agora aluno de ciência política na Universidade Católica Portuguesa.

Apresenta-se como católico e ativista e é o fundador de um grupo ultranacionalista à direita do Chega.

Diz que olha para a frente, que é liberal na economia e conservador nos costumes.

Em entrevistas, já admitiu que as mulheres não devem votar e que a homossexualidade "é uma depravação e uma doença".

Afonso Gonçalves entende também que a imigração é o grande problema do país. Ideias aplaudidas por homens e mulheres que trazem para o presente as ideias do passado.

O discurso de Afonso Gonçalves é feito de elogios sistemáticos à ditadura e referências diretas a Salazar.

O grupo do qual é presidente, o Reconquista, foi criado em 2023. Começou como projeto de redes sociais, recrutou seguidores e já organiza congressos à porta fechada. Agora, aceita mostrar-se a uma televisão.

Durante semanas, a Investigação SIC entrou nos bastidores do movimento de Afonso Gonçalves. Estivemos em manifestações, jantares e lançamentos de livros.

Os apoiantes são, sobretudo, homens jovens, mas também há mulheres. Entregam donativos e pagam para estar presentes, bem como para seguir a palavra do líder.

Ministério Público investiga líder do Reconquista

O movimento extremista quer, agora, transformar-se num partido.

Se lá chegar, Afonso Gonçalves será um líder partidário investigado pelo Ministério Público.

O Departamento de Investigação e Ação Penal do Porto abriu um processo em 2024, tendo pedido à Polícia Judiciária para avançar.

A investigação começou com a invasão do grupo a uma pequena sala de culto muçulmana em Vila Nova de Cerveira, mas agregou outras suspeitas e não parou de crescer.

A 6 de julho de 2025, Afonso Gonçalves é detido pela PSP em Almada. São apreendidos dois megafones e um telemóvel.

Nos documentos a que tivemos acesso, as autoridades falam de "provocação" de uma tentativa de criar um ambiente de perturbação e confusão.

Afonso de Jesus Ferreira Gonçalves é constituído arguido e fica com termo de identidade e residência.

Afonso Gonçalves aceitou falar com a SIC

Na altura decidiu não prestar declarações, no entanto agora aceita falar com a SIC.

Apesar de manter a maioria do discurso, tenta demarcar-se de algumas declarações. Não esconde que é arguido, mas diz que está a ser alvo de perseguição.

A investigação está centrada nos crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência.

A Investigação SIC teve acesso a documentos que mostram que a PJ esteve especialmente atenta a este evento.

O terceiro congresso do grupo Reconquista foi a 8 de novembro de 2025 no pavilhão desportivo do Maia Sport. Além de Afonso Gonçalves, a plateia pôde ouvir oradores estrangeiros. Estão todos associados a movimentos de extrema-direita.

O Ministério Público entende a presença dos convidados estrangeiros como uma aproximação do grupo português a movimentos extremistas semelhantes implantados noutros países.

O Relatório Anual de Segurança Interna não fala de grupos concretos, mas as autoridades dizem que têm assistido a uma forte presença online de movimentos nacionalistas com líderes carismáticos que estão a atuar como verdadeiros influenciadores.

O Relatório relaciona o fenómeno com o aumento e normalização do discurso de ódio e da violência online e offline.

Vários nomes ligados ao Chega já fizeram doações

O Reconquista cresce de ano para ano e está sustentado em donativos. O dinheiro permite organizar jantares, encontros e congressos.

Uma das transferências é feita por Frederico José Abranches Valy Resende. O nome corresponde ao de Frederico Tropa, nomeado em 2022, 2024 e novamente em 2025 para o cargo de assessor político do grupo parlamentar do Chega.

Na lista de transferências surge também Francisco Pereira Araújo, assessor do grupo parlamentar do Chega e vice-presidente da Juventude Chega no Porto. Foi um dos oradores do congresso organizado pelo Reconquista.

E há mais nomes ligados ao partido. Mónica Manuela Jerónimo Lopes, eleita deputada municipal do Chega em Braga, Rui Paulo Azevedo dos Santos, eleito pelo partido para a Assembleia de Freguesia da Charneca de Caparica e Sobreda, que surge em duas transferências, e Eunice Cristina Rodrigues Ramos, que integrou, em 2022, a lista apresentada pelo Chega para o Conselho de Estado.

Há ainda uma transferência de Frederico Jorge de Barros Pereira Antunes, vereador eleito pelo Chega em Benavente e vice-presidente da distrital de Santarém.

E outra de José Pedro Ribeiro Proença Ribeiro, que foi delegado às convenções nacionais do Chega em 2023 e 2024.

O Chega não tem qualquer ligação oficial ao Reconquista, mas o movimento já foi publicamente considerado um aliado por Pedro Frazão, vice-presidente do partido.

Afonso Gonçalves até pode ter sido detido e até pode ter tido as contas bloqueadas, mas não quer desistir do movimento que está a recrutar jovens para "reconquistar Portugal".

Ficha técnica

  • Jornalista: Diogo Torres
  • Imagem: Rogério Esteves, João Lúcio e Luís Nobre Botas

Com

  • Jornalista: João Tiago
  • Imagem: António Cunha, Rafael Homem, Caetano Jorge, Luís Silva, José Vaio e José Ribeiro
  • Edição de imagem: Margarida Borges Martins
  • Grafismo: Pedro Morais e Isabel Cruz
  • Produção: Mariana Oca Ferreira
  • Coordenação: Luís Garriapa
  • Direção: Marta Brito dos Reis e Bernardo Ferrão

 


Sem comentários: