terça-feira, 4 de julho de 2023

Lagarde diz que a inflação vai persistir, mas nem todos em Sintra concordam

 


POLÍTICA MONETÁRIA

Lagarde diz que a inflação vai persistir, mas nem todos em Sintra concordam

 

Fórum que o Banco Central Europeu organiza em Sintra mostra debate aceso sobre as razões (ou falta delas) para que a inflação continue teimosamente elevada na zona euro.

 

Sérgio Aníbal

28 de Junho de 2023, 6:33

https://www.publico.pt/2023/06/28/economia/noticia/lagarde-inflacao-vai-persistir-sintra-concordam-2054842

 

Se não há dúvidas de que a subida dos preços da energia registada por causa da guerra na Ucrânia foi a faísca que fez disparar a inflação na zona euro, não há ainda certezas – pelo menos entre os economistas presentes no Fórum do Banco Central Europeu que se realiza esta semana em Sintra – sobre a velocidade a que irá agora recuar, numa altura em que os preços da energia já regressaram ao nível anterior à guerra. Uma questão decisiva para perceber até onde é que o BCE deve ir com as suas subidas de taxas de juro.

 

O tema dominou os debates desta terça-feira na Penha Longa. Depois de, no dia anterior ao jantar, a vice-directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath, ter assinalado que, na zona euro e noutras zonas do globo, “a inflação está a demorar demasiado tempo a regressar ao objectivo”, Christine Lagarde e alguns dos economistas convidados a intervir no fórum disseram quais são as suas expectativas para aquilo que deverá vir a acontecer nos próximos tempos. E não houve consenso nas suas previsões.

 

 

Para a presidente do BCE, que fez a primeira intervenção do dia, aquilo a que se está a assistir é “a um processo inflacionista mais persistente”, que está a entrar numa segunda fase “que começa a tornar-se mais forte”.

 

Essa segunda fase, explicou Lagarde, é impulsionada por aquilo que irá acontecer aos salários. Os trabalhadores perderam poder de compra em 2022 e agora, ajudados pela taxa de desemprego relativamente baixa, vão conseguir obter das empresas aumentos nominais mais generosos, que lhes permitam uma recuperação do valor real dos salários que tinham perdido. É um processo que “se vai desenrolar ao longo dos próximos anos”, diz a presidente do BCE, que aponta para um aumento de 14% nos salários nominais na zona euro até 2025.

 

Que tipo de inflação isto irá provocar é uma questão que depende da evolução da produtividade, que tem sido negativa, e da forma como as empresas vão compensar este agravamento dos custos com a mão-de-obra nos preços dos seus bens e serviços.

 

A seguir ao discurso de Christine Lagarde, contudo, algumas das apresentações feitas por economistas apontaram para cenários mais favoráveis no que diz respeito à forma como a inflação poderá recuar nos próximos meses.

 

“A tempestade está a desaparecer”

Na sessão sobre a forma como a política monetária deve reagir a choques de oferta como o da crise energética trazida pela guerra na Ucrânia, Daniel Gros, economista alemão que é professor na Universidade Bocconi, defendeu que não vê neste momento motivos para a inflação permanecer elevada. “Os choques dos preços da energia foram temporários e não houve aumentos de salários”, disse, afirmando que não vê dados concretos que justifiquem uma persistência da inflação.

 

No painel seguinte, o economista italiano Francesco Lippi apresentou um estudo em que dá conta de como as empresas definem os seus preços quando são sujeitas a choques de aumentos de custos. Quando os choques são de grande dimensão, como foi o caso da recente crise energética, assiste-se a um aumento muito significativo da frequência com que mexem nos seus preços, que habitualmente é baixa, mesmo num cenário em que as empresas são expostas a choques de pequena dimensão.

 

Mas agora, como o choque dos preços da energia se revelou temporário, o economista assinala que “a frequência de subidas de preços por parte das empresas está a descer”. “A tempestade está a desaparecer”, afirmou, antecipando que, de acordo com o seu modelo, possam começar a surgir recuos nos preços, algo que recentemente Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, apelou a que fosse feito, para que se assistisse a uma descida mais significativa da inflação em Portugal.

 

Do lado dos responsáveis do BCE, a visão está longe de ser tão optimista em relação a um recuo da inflação. A razão está nos sinais que dizem existir de um aumento mais forte dos salários na zona euro, o que poderá conduzir as empresas a fazerem reflectir total ou parcialmente esse aumento de custos nos seus preços.

 

Uma política mais persistente

No seu discurso, Christine Lagarde falou concretamente do risco que existe se as empresas, num cenário em que sobem os salários dos seus trabalhadores, “tentarem defender as suas margens”. “Por exemplo, se as empresas recuperassem mais 25% das margens que as nossas projecções prevêem que percam, a inflação em 2025 seria substancialmente mais alta do que o nosso cenário-base [de 2,3%], de quase 3%.”

 

O que é que o BCE pode fazer para que as empresas não “tentem defender as suas margens”? A resposta é “limitar a procura durante algum tempo para que as empresas não possam continuar a mostrar o comportamento com os preços que temos visto recentemente".

 

É por isso que, perante uma inflação persistente, Lagarde prometeu uma política monetária restritiva também persistente. “Perante um processo inflacionista mais persistente, precisamos de uma política mais persistente. Uma política que não só produza um aperto suficiente agora, mas que também mantenha condições restritivas até que possamos ficar confiantes de que esta segunda fase do processo inflacionista foi resolvida”, afirmou a presidente do BCE.

 

O que isto significa é que depois de atingirem o seu máximo, provavelmente ao longo deste ano, as taxas de juro do BCE vão manter-se a esse nível elevado durante um período relativamente longo. O aviso de Lagarde é feito principalmente àqueles que, nos mercados financeiros, revelam expectativas de que 2024 possa ser um ano em que os juros podem voltar a descer.

 

Já em relação ao valor máximo que as taxas de juro podem vir a atingir, a presidente do BCE optou por não dar grandes pistas. Repetiu que, em Julho, apenas uma mudança palpável da conjuntura pode evitar uma nova subida de taxas de juro. E em relação às reuniões seguintes disse que excluir a possibilidade de mais subidas é algo que o banco central não vai tão cedo poder fazer.

 

“Vai ter de ser continuamente reavaliado ao longo do tempo. Nas actuais condições, é improvável que no futuro próximo o banco central seja capaz de declarar com confiança absoluta de que o nível máximo de taxas de juro foi atingido”, afirmou a presidente.

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