POLÍTICA
MONETÁRIA
Lagarde diz que a inflação vai persistir, mas nem todos
em Sintra concordam
Fórum que o Banco Central Europeu organiza em Sintra
mostra debate aceso sobre as razões (ou falta delas) para que a inflação
continue teimosamente elevada na zona euro.
Sérgio Aníbal
28 de Junho de
2023, 6:33
Se não há dúvidas
de que a subida dos preços da energia registada por causa da guerra na Ucrânia
foi a faísca que fez disparar a inflação na zona euro, não há ainda certezas –
pelo menos entre os economistas presentes no Fórum do Banco Central Europeu que
se realiza esta semana em Sintra – sobre a velocidade a que irá agora recuar,
numa altura em que os preços da energia já regressaram ao nível anterior à
guerra. Uma questão decisiva para perceber até onde é que o BCE deve ir com as
suas subidas de taxas de juro.
O tema dominou os
debates desta terça-feira na Penha Longa. Depois de, no dia anterior ao jantar,
a vice-directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath,
ter assinalado que, na zona euro e noutras zonas do globo, “a inflação está a
demorar demasiado tempo a regressar ao objectivo”, Christine Lagarde e alguns
dos economistas convidados a intervir no fórum disseram quais são as suas
expectativas para aquilo que deverá vir a acontecer nos próximos tempos. E não
houve consenso nas suas previsões.
Para a presidente
do BCE, que fez a primeira intervenção do dia, aquilo a que se está a assistir
é “a um processo inflacionista mais persistente”, que está a entrar numa
segunda fase “que começa a tornar-se mais forte”.
Essa segunda
fase, explicou Lagarde, é impulsionada por aquilo que irá acontecer aos
salários. Os trabalhadores perderam poder de compra em 2022 e agora, ajudados
pela taxa de desemprego relativamente baixa, vão conseguir obter das empresas
aumentos nominais mais generosos, que lhes permitam uma recuperação do valor
real dos salários que tinham perdido. É um processo que “se vai desenrolar ao
longo dos próximos anos”, diz a presidente do BCE, que aponta para um aumento
de 14% nos salários nominais na zona euro até 2025.
Que tipo de
inflação isto irá provocar é uma questão que depende da evolução da
produtividade, que tem sido negativa, e da forma como as empresas vão compensar
este agravamento dos custos com a mão-de-obra nos preços dos seus bens e
serviços.
A seguir ao
discurso de Christine Lagarde, contudo, algumas das apresentações feitas por
economistas apontaram para cenários mais favoráveis no que diz respeito à forma
como a inflação poderá recuar nos próximos meses.
“A tempestade
está a desaparecer”
Na sessão sobre a
forma como a política monetária deve reagir a choques de oferta como o da crise
energética trazida pela guerra na Ucrânia, Daniel Gros, economista alemão que é
professor na Universidade Bocconi, defendeu que não vê neste momento motivos para
a inflação permanecer elevada. “Os choques dos preços da energia foram
temporários e não houve aumentos de salários”, disse, afirmando que não vê
dados concretos que justifiquem uma persistência da inflação.
No painel
seguinte, o economista italiano Francesco Lippi apresentou um estudo em que dá
conta de como as empresas definem os seus preços quando são sujeitas a choques
de aumentos de custos. Quando os choques são de grande dimensão, como foi o
caso da recente crise energética, assiste-se a um aumento muito significativo
da frequência com que mexem nos seus preços, que habitualmente é baixa, mesmo
num cenário em que as empresas são expostas a choques de pequena dimensão.
Mas agora, como o
choque dos preços da energia se revelou temporário, o economista assinala que
“a frequência de subidas de preços por parte das empresas está a descer”. “A
tempestade está a desaparecer”, afirmou, antecipando que, de acordo com o seu
modelo, possam começar a surgir recuos nos preços, algo que recentemente Mário
Centeno, governador do Banco de Portugal, apelou a que fosse feito, para que se
assistisse a uma descida mais significativa da inflação em Portugal.
Do lado dos
responsáveis do BCE, a visão está longe de ser tão optimista em relação a um
recuo da inflação. A razão está nos sinais que dizem existir de um aumento mais
forte dos salários na zona euro, o que poderá conduzir as empresas a fazerem
reflectir total ou parcialmente esse aumento de custos nos seus preços.
Uma política mais
persistente
No seu discurso,
Christine Lagarde falou concretamente do risco que existe se as empresas, num
cenário em que sobem os salários dos seus trabalhadores, “tentarem defender as
suas margens”. “Por exemplo, se as empresas recuperassem mais 25% das margens
que as nossas projecções prevêem que percam, a inflação em 2025 seria
substancialmente mais alta do que o nosso cenário-base [de 2,3%], de quase 3%.”
O que é que o BCE
pode fazer para que as empresas não “tentem defender as suas margens”? A
resposta é “limitar a procura durante algum tempo para que as empresas não
possam continuar a mostrar o comportamento com os preços que temos visto
recentemente".
É por isso que,
perante uma inflação persistente, Lagarde prometeu uma política monetária
restritiva também persistente. “Perante um processo inflacionista mais
persistente, precisamos de uma política mais persistente. Uma política que não
só produza um aperto suficiente agora, mas que também mantenha condições
restritivas até que possamos ficar confiantes de que esta segunda fase do
processo inflacionista foi resolvida”, afirmou a presidente do BCE.
O que isto
significa é que depois de atingirem o seu máximo, provavelmente ao longo deste
ano, as taxas de juro do BCE vão manter-se a esse nível elevado durante um
período relativamente longo. O aviso de Lagarde é feito principalmente àqueles
que, nos mercados financeiros, revelam expectativas de que 2024 possa ser um
ano em que os juros podem voltar a descer.
Já em relação ao
valor máximo que as taxas de juro podem vir a atingir, a presidente do BCE
optou por não dar grandes pistas. Repetiu que, em Julho, apenas uma mudança
palpável da conjuntura pode evitar uma nova subida de taxas de juro. E em
relação às reuniões seguintes disse que excluir a possibilidade de mais subidas
é algo que o banco central não vai tão cedo poder fazer.
“Vai ter de ser
continuamente reavaliado ao longo do tempo. Nas actuais condições, é improvável
que no futuro próximo o banco central seja capaz de declarar com confiança
absoluta de que o nível máximo de taxas de juro foi atingido”, afirmou a
presidente.

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