OPINIÃO
Pode acabar mal
Há protestos, os partidos estão presentes nos meios mais
agitados, mas nas escolas, nos hospitais, no SNS, nos transportes e nos
supermercados é crescente a convergência entre esquerda e direita.
António Barreto
18 de Março de
2023, 6:15
https://www.publico.pt/2023/03/18/opiniao/opiniao/acabar-mal-2042882
Não é provável.
Mas é possível. Isto pode acabar mal. O que é “isto”? O regime democrático, as
liberdades públicas, a paz social e um razoável desenvolvimento. Mas sobretudo
a democracia e a liberdade.
Poderá mesmo
acabar mal? Não será demasiado pessimismo? Mais uma vez Cassandra? Ou os
habituais Profetas da Desgraça?
É mesmo o caso.
Pode acabar mal. Ainda há pouco, havia trunfos inesquecíveis. Há ou havia
dinheiro e capital disponível. Não era português, nem privado. Era europeu. Mas
havia. E era capital. Havia paz social. Nas ruas e nas empresas vivia-se um
relativo conforto. Sem fortuna, nem exaltação. Mas alguma serenidade. O
desemprego era baixo. Ou antes, não era alto. Tempos houve em que 6% era muito.
Agora, já parece ser aceitável. O Parlamento gozava de maioria absoluta, um dos
mais formidáveis instrumentos de governo, um trunfo raro na história da
democracia portuguesa. Era claro e indiscutível. O trunfo continua lá. Mas as
dissensões dentro do partido do Governo revelam tempestades para amanhã. E a
desordem nos espíritos é má conselheira. Entretanto, da rua e da vida, vêm
constantes rumores. Descontentes.
O
primeiro-ministro parece cansado. Não se sabe se é só isso ou se é incerteza
quanto ao que há para fazer. Ou vontade de ir embora. A sucessão de demissões
deixou má impressão no país. Fica-se com a sensação de que os governantes não
sabem o que fazer, não têm competência ou não se interessam. A história da TAP,
do aeroporto, dos comboios, do TGV e dos transportes públicos é reveladora
desta incapacidade. As únicas coisas em que o Governo parece especialista são a
distribuição de subsídios e a encomenda de estudos inúteis.
Que aconteceu
para que as escolas e os professores estejam em crise como raramente se viu?
Que aconteceu para que os hospitais, as maternidades, as urgências, os médicos
e os enfermeiros, para já não falar dos doentes, se encontrem neste estado? Que
aconteceu para que surjam, nas áreas metropolitanas, novas barracas, mais
sem-abrigo e mais droga nas ruas? Que se está a passar com as políticas de
população, quando a emigração continua e a imigração aumenta, com os incentivos
que o Governo dá ao mercado negro de trabalhadores, ao tráfico de imigrantes e
ao trabalho ilegal? Que continua a passar-se com a justiça, incapaz de resolver
os casos difíceis de poderosos, de afortunados e de políticos? Que se passou
com o mercado da habitação que vive na desordem e revela a sua maior violência
social, sem que as autoridades tenham a noção do que deve ser feito, a não ser
acudir aos miseráveis?
O que se passou
ou está a passar na Armada, na Madeira e relativamente ao NRP Mondego, parece
ser de gravidade extrema. Poderia ser apenas um caso isolado ou um incidente
episódico sem dia seguinte, mas tudo leva a crer que seja sintoma de mal-estar,
de perda de confiança e de disciplina, de falha na coesão na Armada e nas
Forças Armadas. Ou até de abismo entre o poder político e as Forças Armadas.
Até agora, ainda não houve esclarecimento. Os órgãos de poder político
esforçam-se por disfarçar. Após tantos sinais de inquietação, já seria tempo de
ver o poder político preocupar-se com as Forças Armadas: não só com as questões
habituais, o equipamento, a organização, os efectivos, as capacidades e os
orçamentos, mas também com as questões mais importantes, o clima geral no seu
interior, a relação das Forças Armadas com a sociedade e com o Estado. Era tão
bom que os políticos percebessem de uma vez por todas que, sem Forças Armadas,
não há democracia, nem liberdade, nem paz social!
Esta crise vai
ter consequências na sociedade. Crise de confiança, tanto por parte da
população em geral como do lado dos seus crentes. A dúvida e a incerteza
perante a Igreja são sinais de desconfiança. Nas instituições da sociedade
civil, nas instâncias do poder político, nas regras de direito e no
funcionamento da justiça. Apesar disso tudo, é difícil detectar um esforço de
correcção dentro da Igreja portuguesa. Quase só é visível a tentativa de
encobrimento, de subvalorização, de menoridade e de complacência.
De fora, do
mundo, não chegam boas notícias. Guerra sem fim à vista. Tensão política e
militar internacional. Nova crise financeira e bancária. Incerteza sanitária.
Novas crises de imigração. Sérias perturbações sociais em vários países
europeus. Crescimento das políticas radicais. Para tudo isto, em Portugal, era
necessária uma política segura, uma democracia sólida e instituições estáveis.
Além de confiança da população nos seus dirigentes. O que não parece ser o
caso.
O Governo está a
passar um mau bocado. Portugal e os portugueses também. Era bom estarmos
atentos. O pior pode acontecer. Há instituições, mas são frágeis. Há recursos
financeiros, mas estão a ser distribuídos e um dia acabam. Há defensores das
liberdades, mas também há desconfiança e afastamento. Há partidos políticos
democráticos, mas também há os que o não são e ameaçam a democracia. Há
protesto político, mas o descontentamento social, sem conotação partidária,
exprime-se nas ruas. Os partidos estão presentes nos meios mais agitados, mas
nas escolas, nos hospitais, no Serviço Nacional de Saúde, nos transportes
públicos e nos supermercados é crescente a convergência entre esquerda e
direita, a ponto de se poder dizer que o protesto social é pouco partidário. O
regime e o sistema de governo parecem estar a perder talento, competência e
capacidade para tratar das questões de fundo e das crises presentes.
Há um mau
ambiente social evidente. Muito mais perigoso do que a estridência política e a
berraria de candidatos a salvar a pátria. O que é realmente ameaçador é o mau
ambiente, essa espécie de burburinho permanente, o descontentamento da
população, as dificuldades em que vivem os cidadãos. O pior pode acontecer. Não
é provável. Mas pode.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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