Gostou de ouvir as palavras do líder do PSD sobre a imigração em Portugal?
Não é uma questão de ter gostado, é perceber a evidência. Nós andamos a dizer há não sei quantos anos, todos diziam que não tínhamos razão, e agora o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o líder do PSD percebem que tínhamos razão quando dizíamos que a imigração é precisa - não é uma questão de xenofobia nem de racismo. Ninguém deve ser expulso por ser imigrante, mas temos que ter uma política de imigração controlada e segura. O PSD e o CDS rejeitavam esta visão. Agora, aparentemente, está-se a criar um consenso à direita.
Grande Entrevista a André Ventura: "Não gosto de
coisas ilegais. Acha que devemos aceitar pessoas ilegais cá?"
Salomé Leal
23 fev 2023 09:00
Política
Entrevista André
Ventura Chega
Na segunda parte
da entrevista exclusiva ao Polígrafo, André Ventura elogia a franja
"montenegrista" do PSD e as suas políticas de imigração. Quanto a
esse tema, dá as boas-vindas aos brasileiros (que até entram para o partido),
mas torce o nariz aos afegãos. Aos professores recomenda que estejam
fisicamente bem preparados... para aplicar sanções de natureza disciplinar. E aos
xenófobos deixa um alerta: em vez de se juntarem ao Chega, que se aproximem do
PCP.
Grande Entrevista
a André Ventura:
Tem insistido
muito na ideia da inevitabilidade da aliança entre o PSD e o Chega. Já falou
com Luís Montenegro desde que ele foi eleito líder?
Já falei com Luís
Montenegro várias vezes, mas não tivemos ainda uma reunião... Falámos dos
assuntos parlamentares.
Em que
circunstâncias? Abordaram a questão de formar Governo?
Não, não. Não
abordámos nada...
Mas o André
Ventura já definiu como limite as eleições europeias para apresentar uma opção
ao Governo.
Certo. Eu sempre
entendi que não era necessário haver uma reunião política porque acho que cada
partido tem que fazer o seu trabalho, conquistar o seu eleitorado e fazer as
suas propostas. O que disse agora, depois de ter ido ao Palácio de Belém, foi
que neste novo contexto, com um Governo muito instável, a mensagem do
Presidente da República deve ser ponderada e refletida, no sentido em que
parece que o Presidente da República está a pedir uma alternativa.
E ficou contente
com a sua proposta de ligação à direita? O senhor já descartou uma coligação e
um acordo parlamentar...
Só descarto o
acordo parlamentar porque não correu bem nos Açores. Nós tivemos esse exemplo,
em que não fomos parte do Governo, fizemos apoio parlamentar, e temos ouvido
insistentemente os deputados do Chega quase a implorar para que as medidas
avancem.
Sente que no PSD
existem franjas que estão ansiosas para que o partido se abra a uma coligação
com o Chega?
Tenho muitas
dúvidas em responder-lhe a isso... ou seja, é evidente que no PSD há uma
divisão. Não quero perder muito tempo a falar noutro partido e certamente terá
a oportunidade de estar com Luís Montenegro e ele falará sobre isso melhor do
que eu. Agora, o que se sente para fora é que há quem no PSD perceba que é uma
inevitabilidade e quem ainda ache que é possível não contar com o Chega. E há ainda
uma minoria que acha que, mesmo havendo um Governo minoritário, deviam forçá-lo
no Parlamento. Eu acho que isso é a maior irresponsabilidade dos nossos tempos.
Quem é que dentro
do PSD acha que é uma inevitabilidade?
Acho que esta
linha mais "montenegrista", a linha mais dura do núcleo de
Montenegro, percebeu que é muita a probabilidade de vir a ser necessário um
acordo PSD e Chega e prefere manter as portas abertas até ao fim.
Mas tem nomes?
Não, ouvimos
Miguel Pinto Luz no fim do Congresso do Chega a dizer que não era o momento,
que teríamos que ver depois. O próprio Luís Montenegro foi muito mais
inteligente que o dr. Rui Rio nesta matéria. A questão é: os portugueses podem
sentir que vai haver uma alternativa ou não. PSD e Chega têm a obrigação de
lhes dizer que sim.
Mas tem noção de
que o PSD teria muitas dificuldades em explicar aos seus militantes a
circunstância de formar governo com um partido que defende a pena de morte, por
exemplo. De que é que está disposto a abdicar para ir para o poder?
O Chega não
defende a pena de morte.
Candidato do
Chega à Câmara de Lisboa defende pena de morte para pedófilos?
Nuno Graciano,
apresentador de programas televisivos, terá também afirmado que "o pior
inimigo da democracia é a democracia, é o excesso de democracia à vontadinha, a
liberdade, a libertinagem, estás a perceber?"
Não defende a
pena de morte? O partido nunca defendeu a pena de morte?
Nunca defendeu,
pode procurar com os 200GB do computador que não vai encontrar nunca uma
declaração a defender a pena de morte. O Chega até referendou a pena de morte,
em 2020, porque havia quem entendesse que a pena de morte podia ser uma
solução. Eu era líder do partido e disse: sou contra. Acho que a pena de morte
não deve entrar no programa do partido. Fizemos um referendo e o
"não" ganhou.
O Chega não é o
André Ventura.
Certo, mas por
isso é que lhe estou a dizer que houve um referendo. Se me disser assim: pode
haver pessoas no Chega que defendem, sim, mas no PSD também haverá. E no CDS e
no PCP.
O Chega é um
partido com vários militantes. É a sua opinião que prevalece?
Não, mas o
"não" foi claríssimo desde o início do Chega. Nós defendemos a prisão
perpétua, que é um regime que existe, como vocês aliás já escreveram, em
praticamente toda a Europa. Qual é a dificuldade de o PSD se entender com isso?
A maioria dos países onde governam partidos da família do PSD tem prisão
perpétua.
Portanto não está
disposto a abdicar da prisão perpétua?
Não.
Castração
química?
Também não. Mas
esta não é uma questão do Governo, é do Parlamento, de legislação. O Chega não
vai abdicar dessas suas bandeiras. Veja o que aconteceu ao CDS. Abdicou,
abdicou, abdicou para facilitar o PSD e veja-se o que aconteceu.
Imaginemos que um
dia ia para o Governo na qualidade de número dois de uma coligação. Qual é que
seria a sua pasta de sonho?
Acredite quando
lhe digo: não é para mim uma questão sequer. Não é mesmo uma questão...
Não pensa nisso?
Não penso... não
estou a ser... não há mesmo uma pasta que eu queira. Não é esse o meu objetivo.
Estou a lutar para que o Chega consiga liderar um Governo em Portugal. Isso é
muito difícil como sabe, face às sondagens. O inevitável é uma espécie de
entendimento à direita. Para mim não é importante a pasta que eu tenha, é
importante que o Chega consiga ter presença e consiga mudar a vida das pessoas.
No caso de formar
Governo não vai exigir nenhuma pasta?
Não é importante
que seja para mim, o Chega terá certamente pessoas qualificadas.
Mas quer escolher
pastas para o partido.
Isso sim, acho
que é evidente. A questão não é o André Ventura ser ministro, são as áreas. A
Justiça, por exemplo, pela qual nós temos lutado tanto...
A Administração
interna.
Eventualmente.
Não estou a dizer que aqui depois não possa haver balanços...
A Educação.
...a Agricultura.
O pendor do mundo rural no Chega é muito forte. A Segurança Social, por causa
dos subsídios. Agora, eu podia-lhe dizer que nós exigimos sete ou oito
pastas... mas isto é pouco razoável se não tivermos em conta os números que
vamos ter. Uma coisa é termos 7%, mas se o Chega tiver 15% ou 16%, como dizem
as sondagens, o peso já terá que ser outro.
Não sente que
está a prestar um mau serviço à população, principalmente se a pasta da
Administração Interna lhe calhar nas mãos, quando veicula dados falsos sobre a
segurança do país?
Eu acho que todos
os políticos têm o dever de fazer o melhor que podem com o seu trabalho, às
vezes melhor, às vezes pior. O que nos deve nortear é o dever da verdade. Nem
sempre corre bem, às vezes falhamos.
Portugal é um dos
países mais seguros do mundo. É ou não irresponsável criar uma sensação de
insegurança nos portugueses?
Eu não sei, se
perguntássemos às pessoas, se eles sentem isso. Do que eu sei não sentem.
Porque é que não
sentem? A quem é que perguntou?
Bom, a todos
aqueles que falam connosco... que são milhares. Uma coisa são dados feitos...
nós, aliás, pedimos uma comissão de inquérito ao Relatório Anual de Segurança
Interna (RASI). Não foi por acaso. Muitos destes dados são organizados de forma
a contribuir para uma ideia que o Governo socialista quer dar do país. E
dou-lhe vários exemplos: há crimes que entram no catálogo de crimes graves e
que depois saem. Porquê? Porque vão prejudicar a estatística de um lado e de
outro. Isto não é um relatório sério.
Portanto acha que
estão a ser cometidos crimes graves em Portugal que neste momento estão a ser
categorizados como crimes leves?
Que estão a ser
cometidos crimes graves não tenho dúvida nenhuma. Todos os dias há crimes
graves em Portugal.
Que estão a ser
categorizados como crimes leves.
Que o RASI os
manipulou muitas vezes e os adulterou do ponto de vista categorial...
Que tipo de
crimes?
Olhe, a violência
doméstica, os crimes sexuais... às vezes estavam numa categoria e outras
noutra. Isso é manipulação de dados. Nós dissemos isto no debate parlamentar
que fizemos e que foi chumbado pelo Parlamento todo. Apresentámos vários casos
destes. Dá ideia de que o Governo, quando vê que há muitos crimes de violação,
tira do RASI e coloca nos crimes menos graves. Esta manipulação é grave. Tenho
a certeza de que quem vive nos subúrbios de Lisboa, do Porto e em muitas
localidades no país percebe o que eu estou a dizer. A irresponsabilidade aí não
é de quem diz que temos que tratar da segurança. É de quem diz que está tudo
bem mesmo quando os números nos mostram o contrário.
Não, os números
mostram-nos precisamente que, à partida, está tudo bem.
Sim, mas vou-lhe
dar um exemplo: os crimes de roubo, que são crimes com violência, esses crimes
têm aumentado em Portugal extraordinariamente. Isso não é divulgado e não é
anotado. Mas qualquer pesquisa pode anotar isso. Isto sim...
Se com qualquer
pesquisa eu posso encontrar esses dados então eles estão a ser divulgados.
Certo, é o que eu
estou a dizer. Mas não são postos na lógica de que está a aumentar a
insegurança. Porque depois junta-se tudo e diz-se: aumentaram muito os roubos,
mas diminuíram os homicídios, então Portugal já é um país seguro outra vez. Não
é assim, as pessoas não sentem isso assim. Eu compreendo a análise do debate,
tem que ver com os dados e com a análise dos mesmos. Mas nós não podemos
refugiar-nos nisso e dizer que não são precisas penas mais elevadas ou que não
é preciso reforçar a polícia e a segurança.
Gostou de ouvir as palavras do líder do PSD sobre a
imigração em Portugal?
Não é uma questão de ter gostado, é perceber a evidência.
Nós andamos a dizer há não sei quantos anos, todos diziam que não tínhamos
razão, e agora o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o líder do PSD
percebem que tínhamos razão quando dizíamos que a imigração é precisa - não é
uma questão de xenofobia nem de racismo. Ninguém deve ser expulso por ser imigrante,
mas temos que ter uma política de imigração controlada e segura. O PSD e o CDS
rejeitavam esta visão. Agora, aparentemente, está-se a criar um consenso à
direita.
Acha que existe
esse consenso e que Montenegro não quer um acordo porque na verdade o que quer
é roubar-lhe o eleitorado?
Seja o que for,
não sei o que está na cabeça de Luís Montenegro. A verdade é que ele o disse e
eu não quero acreditar que o líder do PSD ande a dizer coisas só por dizer. E
acho mesmo que ele acredita nisso, conheço-o há muitos anos, e não acho que
tenha dito nada de extraordinário.
Marcelo Rebelo de
Sousa acha que sim e fez duras críticas...
É a opção do
Presidente. Acho que o Presidente quis dizer que o PSD, se quer começar a
copiar aquilo que diz o Chega, vai perder terreno. Porque as pessoas escolhem
sempre o original, não a cópia.
Então esclareça
os portugueses: quem for verdadeiramente defensor de políticas xenófobas e
anti-imigrações, deve juntar-se ao Chega ou ao PSD?
Não, de cariz
xenófobo não se deve juntar ao Chega. Também penso que não se deverão juntar ao
PSD. Têm que se juntar a outro partido qualquer. Olhe, ao PCP, que defende a
Rússia contra a Ucrânia. Nós o que defendemos é uma política de imigração
controlada. Xenofobia e portas fechadas não têm nada que ver connosco. Quero
acreditar que o PSD também não.
Nós saímos agora de um ano recorde em termos de
contribuições para a Segurança Social, 1.500 milhões de euros em 2022. E mesmo
com prestações sociais de 300 milhões de euros o saldo é positivo há anos: em
2021 foi de mil milhões de euros. É a isto que o Chega chama de imigração
descontrolada?
Não, é a outro dado que você não disse, mas devia dizer.
Se tivesse feito essa parte, de ver também, que é: foi também batido o recorde
pela primeira vez na Europa de imigrantes ilegais. Mas isso não vos
interessava.
São esses
imigrantes "ilegais" que o André Ventura não quer em Portugal?
Por isso é que
são ilegais. Eu não gosto de coisas ilegais, você gosta de coisas ilegais? Acha
que devemos aceitar pessoas ilegais cá?
O que é que são
"pessoas ilegais"?
São pessoas que entraram sem estar dentro da lei. Para
que é que temos a lei? Então mais vale rasgá-la e atirá-la ao mar. Tem que se
parar um bocadinho para pensar no que estamos a dizer. Hoje é muito porreiro
dizer: venha toda a gente, de qualquer maneira. Nós somos é porreiros de
esquerda, gostamos de montar tendas na Alameda, fumar uns charutos... Somos um
continente fantástico.
Nós batemos o ano passado o recorde de imigração ilegal
na Europa, foram 330 mil pessoas que entraram ilegais. Portugal bateu também o
recorde de imigração. Mas cada coisa a seu tempo, uma coisa é a imigração,
outra é a imigração ilegal. O Chega quer uma política de imigração controlada
para evitar a entrada de imigrantes ilegais.
O Chega quer
imigrantes que venham para trabalhar, é isso?
O Chega quer
imigrantes que venham legalmente.
Independentemente
de virem ou não para trabalhar?
Quando foi a
Guerra na Ucrânia, nós fomos os primeiros a dizer: temos que os acolher. É uma
situação de guerra, prevista no direito internacional. Não podem escolher,
quisemos acolhê-los, ao contrário de outros que não os queriam.
Em situação de
Guerra chamam-se refugiados.
E nós aceitámos
isso. Dissemos: venham, temos que lhes dar apoio. Acho que nenhum partido...
bem, também não me quero pôr em bicos de pés. O Chega, a par dos maiores partidos,
fez força para isso. Não há aqui nada de xenofobia nem de racismo. As pessoas
precisam de ajuda.
Outra coisa é dizer assim: o Mediterrâneo, a zona
norte-africana e o médio-oriente estão em guerra absoluta e em destruição
absoluta, e nós devemos ter a política que é a de entrar qualquer pessoa sem
qualquer controlo, como a esquerda quer. O que nós dizemos é: quer para
Portugal quer para a Europa, as pessoas podem vir se vierem para trabalhar, se
vierem para se integrar, mesmo que não consigam trabalhar. E que venham
legalmente, cumprindo as regras.
Muitos desses
imigrantes "ilegais" vêm para Portugal trabalhar em zonas ilegais,
com contratos também eles ilegais... não deveria ser sua prioridade atuar
nestas situações?
Se é ilegal, a
prioridade é acabar com a situação de ilegalidade. De todos: de quem explora e
de quem vem.
Mas o seu
objetivo é regularizar essa situação e manter o trabalhador em Portugal ou
enviá-lo de volta ao país de origem?
Se alguém chegou de forma ilegal a Portugal e não se
regularizou, está cá ilegalmente. O que a lei prevê é um rol de sanções que
podem ir até à expulsão do território nacional. Temos que ter atenção e
perguntar porque é que está a chegar tanta gente de forma ilegal à Europa. Não
é de forma legal: quem vem com promessa de contrato de trabalho, com contrato
de trabalho ou com outra situação qualquer...
Então tem que vir
com certezas de trabalho...
Ou de
investigação. Ou os chamados nómadas-digitais.
Ou seja, tem que vir para cá contribuir para a Economia.
Tem que ter um meio de subsistência. Ou gosta de vê-los
na Praça da Figueira a viver em tendas, espalhados como os timorenses? É isso
que é a nossa imigração? É isso que a esquerda quer? Eu acho que há aqui um
consenso à direita: a restauração precisa de imigração, a hotelaria precisa de
imigração, a agricultura precisa de imigração. Várias atividades económicas
precisam de imigração. Um dia vamos pagar caro por deixar entrar toda a gente.
Daqui a quatro ou cinco anos vão-nos dar razão por causa do excesso de
imigração oriunda de países onde nós devíamos ter um controlo de segurança
muito maior e não temos.
Se países como a
França, Canadá, Reino-Unido decidissem deportar emigrantes portugueses para dar
prioridade aos nacionais no acesso ao emprego ou para aliviar os serviços
públicos e as prestações sociais, o Chega apoiaria essas políticas?
Mas é que não é
isso que o Chega defende. É evidente que há emigrantes portugueses em França
que se matam a trabalhar...
Então o Chega não
acha que deve ser dada prioridade aos trabalhadores nacionais face aos
imigrantes?
Aqui não há essa
questão de prioridade porque uma economia precisa de imigração. Se dissesse
assim: os imigrantes estão a tirar o trabalho aos portugueses, os portugueses querem
muito trabalhar numa determinada área e os imigrantes de outras áreas
estão-lhes a tirar... mas isso é falso. Não acontece.
Não acontece
porque os imigrantes vêm para cá desempenhar funções e usufruir de remunerações
que os portugueses já se recusam a aceitar.
Mas não é só em Portugal. França também, Itália também e
a Alemanha também. Isso é uma coisa. Querer controlo de imigração é outra: não
tem nada que ver com expulsar. Tem que ver com ter critérios na entrada. Você
deixa qualquer pessoa entrar em sua casa? Pergunta-lhe quem é, o que é que vai
lá fazer. E mesmo que alguém lhe diga "eu vou trabalhar no seu
jardim", você deixa entrar de qualquer maneira? Você quer saber quem é,
quer saber se vai destruir a sua casa ou não, se lhe vai roubar os bens ou não.
Ou se vem para ajudar. Ou se é alguém seu conhecido, que gosta de si...
É essa a questão:
vir para ajudar?
Para ajudar, para se integrar e para fazer parte. Ainda
por cima nós temos vários exemplos na Europa, na França, na Bélgica, na
Alemanha, do que é que correu mal. Porque é que estamos a cometer os mesmos
erros? Eu estive no Martim Moniz, na Mouraria, e nalgumas zonas não se vê um
português. É isto que queremos? Criar guetos? Imigrantes fazem falta mas devem
ser integrados.
A maioria da
comunidade brasileira integra-se, tem preocupações de trabalho, de integração
social, cultural e até política. Muitos contra o Chega, outros a favor do
Chega. Há essa preocupação. Prefiro a imigração que vem do Brasil à imigração
que vem do Afeganistão, vou-lhe ser franco.
"Entendemos que a nacionalidade portuguesa deve ser
atribuída apenas a quem conhecer a língua e a cultura portuguesa." Isto
não lhe parece um pouco elitista? Quer fazer uma espécie de exame nacional para
atribuição de nacionalidade?
Sim, eu compreendo isso. Isso está na nossa proposta de
revisão constitucional. Deixe-me só dizer-lhe isto e certamente poderá
confirmar: em muitos países da Europa existe o conhecimento da língua para se
atribuir a nacionalidade. Não seria a primeira vez que isso acontece. Não era
Portugal o primeiro. Segundo, no regulamento da nacionalidade, que é onde se
legisla esta matéria, já está previsto o conhecimento da língua. Fez-se um
drama sobre isto, até na própria comissão de revisão constitucional, quando na
verdade isto já está no regulamento. Não foi inventado por mim.
E a necessidade
de conhecer a cultura?
A língua é parte
da cultura. Eu até li na comissão, foi aí que eles ficaram todos em silêncio,
uma frase do Vasco Graça Moura, conhecido por tudo menos por ser do Chega, que
dizia que a língua e a cidadania estão intimamente ligadas.
Tem acompanhado
bastante os protestos dos docentes, tem utilizado isso para acusar o Governo, o
ministro da Educação. O que é que faria se fosse Governo? Tem medidas concretas
para responder às exigências que têm sido feitas?
Eu acho que no
Orçamento do Estado, penso que posso dizer isto com segurança, o Chega foi o
partido que mais propostas apresentou para a educação.
Propostas que
resolveriam estes problemas e impediriam mais protestos?
Da indisciplina à
contagem do tempo dos docentes, ao subsídio de mobilidade. Tudo isso foi
apresentado no Orçamento do Estado, tudo isso foi chumbado. Estamos mais do que
à vontade.
António Costa já
disse que o país não consegue comportar essa despesa permanente de mais de 500
milhões de euros anuais para devolver o tempo completo. Consigo o dinheiro
esticava?
500 milhões de
euros anuais é metade do que vai ser dado agora para o programa "Mais
Habitação", que é de 900 milhões de euros. É metade do que tem em
desperdício e fraude o Ministério da Saúde todos os anos. As pessoas que virem
esta gravação podem confirmar estes dados: metade do que é gasto em fraude e
desperdício no ministério da Saúde todos os anos.
Esses dados do
Ministério da Saúde são relativamente antigos. O Polígrafo falou com o
Ministério da Saúde recentemente e não existem números recentes sobre
desperdício.
Claro que não há.
Eu percebo que não haja, porque os que conhecemos são terríveis. Agora devem
estar ainda maiores... Mas sabemos que anda à roda dos mil milhões, porque já
andava há quatro ou cinco anos. Isto significa que o tempo de serviço dos
professores custava metade disso. Esta é a diferença para o Bloco de Esquerda e
para o PCP: nós temos os números.
Comparou este
tópico com a habitação: preferia investir nos professores do que na habitação?
Preferia investir
nos dois.
Nos dois? Teria
orçamento?
Nem que fosse
metade/metade. Olhe, em vez de ir tirar as casas aos proprietários, preferia
investir uma parte desse valor e ver o que podia alocar do Plano de Recuperação
e Resiliência para a contagem do tempo de serviço dos professores. É justo que
nós não façamos o esforço da contagem do tempo de serviço por uma carreira que
recebe salários baixos, que muitos vezes tem que andar deslocada? Se me disser
assim: tem a certeza de que conseguia todo o tempo de serviço imediatamente?
Não tenho, tenho que ser prudente. Mas faria tudo o que estivesse ao meu
alcance. Se o Chega for Governo vai lutar para a recuperação quase total do
tempo de serviço dos professores.
Há três ou quatro
meses disse que Portugal teria 20 mil milhões de euros de receita fiscal
extraordinária em 2o22, contas do seu partido. Agora sabemos que terminámos
dezembro com défice. Se tivesse feito tudo o que disse que faria com esse
valor, consegue imaginar a irresponsabilidade económica?
Sim, eu acho que
ao mesmo tempo há que pôr uma coisa em cima da mesa: o que nós dissemos que o
combate à fraude, ao desequilíbrio e ao desperdício estava a gerar, foi porque
nós temos os dados do Ministério da Saúde. Agora imagine o que é isto em todos
os ministérios do Governo. Logo com esse corte, conseguíamos fazer muito. Até
mais do que aquilo que dissemos. Nós gastamos cerca de 18 mil milhões de euros
por ano em corrupção. Perdemos, aliás.
Conseguiria fazer
algo relativamente à corrupção sem gastar esse dinheiro?
Se nós
conseguirmos mudar a lei como queremos para ir buscar os ativos de quem foi
condenado por corrupção e isso reverter a favor do Estado, teremos uma dose
muito extra de orçamento para poder fazer mudanças na Administração Interna, na
Saúde e na Educação. Acho que as nossas contas até foram por baixo. E se
implementarmos as medidas do Chega daqui a dois ou três anos, como espero,
vamos ter um superávit para poder compensar os professores, os profissionais de
saúde em geral e os polícias, que tem sido a classe mais penalizada do nosso
país.
De volta à
educação. Ainda acha que a solução passa por acabar com a escola pública? A
medida estava no seu programa em 2019.
Mas nós...
Deixe-me esclarecer isto. O que nós defendíamos era: o Ministério da Educação
enquanto entidade não deve ser a estrutura que é. Portanto, é verdade que nós
prevíamos a extinção desta superestrutura, aí não lhe vou mentir. Não tem que
ver com escola pública. O que nós defendemos era que público, privado e
cooperativo existissem em conjunto.
Mas se ao Estado
não competir essa função...
Eu esclareci essa
questão. A formulação não era de todo a mais correta.
Foi por isso que
a eclipsou. Quem é que escreveu essa frase?
Isso já vinha do
programa anterior... do primeiro programa, da formação. O Chega desde o início
que apresentou no Parlamento propostas em defesa da escola pública. Portanto, o
Chega defende a escola pública. O que pretende é que possa existir em harmonia
com o privado e não com o público a sobrepor-se ao privado.
Não concordo com
a manutenção do Ministério da Educação nos termos em que está. Acho que o
ministério, como super-estrutura de competências que tem, tornou-se um monstro
burocrático de absorção de recursos e de competências e tem que ser
completamente reestruturado. Em vez de estarmos a gastar dinheiro com os
professores e com os profissionais, estamos a gastar numa estrutura que tem
servido para muito pouco. Tem que ser tornado mínimo.
Mas o que é que
defende exatamente para as escolas? Um regime tipo PPP?
Repare, onde a
escola pública tem funcionado bem e onde é a única opção, ela é para manter e
para reforçar. Agora, em zonas do país onde as pessoas preferem pôr os filhos
na escola privada, porque é que o Estado não pode comparticipar com o mesmo que
comparticipa a escola pública? Essa é a nossa proposta, liberdade de poder
escolher. Daí o modelo concorrencial.
Não acha que com
esse modelo os alunos vão todos migrar para o privado?
Então, mas se a
escola pública é assim tão boa... Se afinal está tudo tão bem... É como os
hospitais públicos. De que é que o Governo tem medo? Se as escolas são
fantásticas, as aulas são fantásticas, os conteúdos são fantásticos, porque é
que vamos ter medo que eles migrem para as escolas privadas?
O Governo não
admite os problemas na escola pública?
Não, claro que
não. Pelo contrário, tem dito que a solução é a escola pública e o SNS.
Gabriel Mithá
Ribeiro deixou de ser vice-presidente do Chega, deixou a direção do partido,
mas o senhor já reafirmou a sua confiança nele e até o empurrou para as
manifestações dos professores. Também acha, como ele achava há uns anos, que
deve haver "castigos corporais" para os alunos na sala de aula?
[risos] Não vou
falar pelo Gabriel Mithá Ribeiro, porque ele não está aqui. Penso que ele já
desmentiu e desmistificou isso, portanto não vou responder.
Não defende
castigos corporais...
Castigos
corporais não.
Então porque é
que lhe deu a pasta da educação dentro do partido?
Porque o Gabriel
é um professor competentíssimo, como se tem visto aliás no Parlamento.
Acha que não há
nenhum problema nestas declarações: "Cheguei a ter de jogar alunos e
respectivo material pela porta fora, porque se recusavam a obedecer à ordem de
expulsão da aula; Se um aluno desobedecer à minha ordem estou preparado para
atuar. Não dou aulas sem estar fisicamente bem preparado - faço jogging,
exercício, etc."
Mas isso não fala
nada em castigos corporais... Isso diz que ele quer exercer disciplina na sala
de aula e eu acho muito bem. Acho que a maioria dos portugueses concorda que
haja disciplina na sala de aula.
E acha que os
professores se devem preparar fisicamente antes de entrar numa aula?
Acho que isso é
uma opção de cada um e que a preparação física é sempre boa: seja um professor,
um médico, um jornalista, um político, deve estar muito bem preparado fisicamente.
O Gabriel Mithá Ribeiro tem defendido, e eu também defendo, que tem que haver
mais disciplina e mais autoridade da parte do professor. Nós vamos reforçar a
autoridade e o poder do professor.
De que forma?
Havendo
disciplina na sala de aula e havendo sanções para quem não cumprir essas
regras.
Que tipo de
sanções? Já disse que não defendia castigos corporais.
Mas tem que ir
tudo parar aos castigos corporais? Sanções de natureza disciplinar, pedagógica
e letiva, como havia antes. Essa dimensão de autoridade está-se a perder na
escola.
Para isso não é
preciso estar-se fisicamente bem preparado.
Bom, mas ele se
calhar quer estar, porque é uma profissão esgotante, fisicamente esgotante.
É assim que o
Chega funciona na Assembleia da República, preparando-se fisicamente?
Olhe, eu devia
estar melhor preparado do que estou, fisicamente. Às vezes gostava de estar
mais.
Mas também se preparam
para os confrontos?
Bem, como lhe
digo, fisicamente gostaria de estar melhor do que estou. Mas é o que é, a vida
é o que é. Também já estou nos 40, já não é tão fácil ter essa forma física.
Dos seis
principais fundadores do seu partido já só restam três: André Ventura, Fernanda
Marques Lopes e Carlos Monteiro. Jorge Castela, Pedro Perestrello e Nuno Afonso
estão fora… e a falar não muito bem de si. Queriam o seu lugar?
Não sei se
queriam o meu lugar ou não.
Nuno Afonso
queria.
Sim, Nuno Afonso
disse que se candidataria. Depois acabou por não se candidatar e nem sei se um
dia se vai candidatar, penso que não porque saiu do partido. Eu sinceramente...
não penso muito em quem quer o meu lugar ou não. Preocupo-me em fazer o melhor
que posso. Quero deixar um partido de Governo estruturado e depois gostava de
sair pelo meu próprio pé.
Cá fora o que
parece é que está a tentar eliminar a todo o custo a oposição interna. Não
sente isso?
Mas eles é que
saíram. Estou a tentar eliminar porquê? As pessoas têm direito a sair se
querem.
Mas depois de
saírem disseram que houve confrontos internos, que houve posições que não eram
comuns...
Eles é que tinham
que tentar lutar para mudar isso lá dentro. Não é sair e dizer que o partido
não está a funcionar bem.
O André Ventura
não forçou ninguém a sair?
Eu nunca pedi a
ninguém para sair do partido. Pelo contrário, quero que mais gente seja parte
do partido.
Mesmo que não
concordem consigo?
É evidente. Vou-lhe
dar um exemplo: acho que o Chega foi o primeiro partido dos grandes a fazer um
plenário na Batalha em que podia participar qualquer militante. Bastava ter 48
horas de inscrição e podia falar durante três minutos, dizer aquilo que
quisesse. Que outro partido é que se sujeitou a isto? Eu sujeitei. Há dúvidas
sobre a minha posição aqui? Sabe quem é que apareceu a dizer mal? Ninguém.
Esta coisa de
estar sempre a dizer que se vai demitir (disse por exemplo no ano passado se a
moção de confiança fosse chumbada) serve os interesses de quem exatamente? É
para assustar os seus órgãos?
É a ideia de que
na política nós estamos sempre a prazo. Hoje está aqui a entrevistar-me, daqui
a um ano pode estar a entrevistar outro líder do Chega. Ninguém é político por
natureza. Eu não estou na política por natureza. Um dia voltarei para a
televisão, para a universidade, para outro sítio qualquer. Mas quando há
dúvidas sustentadas...
Prefere ir a
votos porque sente que vai ter mais apoio.
Prefiro ir e
clarificar.
Quando vai a
votos já sabe que vai ser reeleito.
Posso ter a minha
sensação... mas nunca sei. Em democracia a gente nunca sabe. O que posso dizer
é que faço tudo para ser eleito e para explicar às pessoas o caminho que temos
feito.
Quanto é que
custam ao partido umas eleições?
Não tenho aqui os
números corretos, mas são... não é barato, porque é no país inteiro, são urnas
pelo país inteiro. Os números não os tenho, mas é um gasto significativo.
Não é um gasto
irresponsável?
Só se a
democracia for irresponsável ela própria. Quando dizemos que vamos pedir às
pessoas que se pronunciem, isto é irresponsável? Isto é dizer o que muitos não
têm tido coragem de dizer. Rui Rio para sair foi quase preciso pegar nele,
pô-lo à porta da São Caetano à Lapa e empurrá-lo pela linha do comboio. Isso
não vai ter que acontecer com André Ventura, espero sair pelo meu próprio pé.
Se nas próximas
legislativas tiver um resultado inferior ao de 2021, é o seu caminho?
É uma hipótese.
Provavelmente. Os líderes são como os treinadores de futebol, vivem de
resultados. Posso ser o melhor líder do mundo, mas se não tiver resultados os
órgãos do partido vão-me dizer que já não estou ali a fazer nada. E eu quando
sentir que estou a prejudicar quero sair pelo meu pé, não quero que me
empurrem. Pode ser quando eu tiver 50 anos? Pode, mas também pode ser daqui a
quatro. Nós temos agora 12 deputados, imagine que passamos para três ou
quatro...
Demite-se.
Provavelmente não
me recandidatarei. É isso que deve ser uma avaliação séria. Digo-lhe mais:
sairei e não ficarei como deputado na Assembleia da República. Não serei um
fardo para o partido.
Não volta à
política sem o Chega?
Noutro partido
não voltarei certamente. Mas é irresponsável dizer que não voltarei nunca mais
à política. Tenho 40 anos, não tenho 80.
Em 2022 não foi a
nenhuma sessão da Assembleia Municipal de Moura, apesar de ter sido eleito
deputado municipal. Não lhe interessava o cargo?
Isso tem uma
razão de ser. Em 2022 houve eleições e um processo eleitoral de reconstrução.
Fui em 2021, após a eleição...
A uma sessão.
O ano de 2022 não
correu como eu esperava. Houve eleições, nós não estávamos à espera, houve
negociação do Orçamento do Estado, houve a reconfiguração toda do parlamento
com um grupo parlamentar... Foi um ano muito exigente para mim, pessoalmente. O
partido sabe isso. Era muito difícil para mim. Provavelmente este ano já haverá
uma presença maior minha em Moura, porque quero mesmo ter presença a nível
autárquico.

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